domingo, 21 de outubro de 2007

O CALVÁRIO DA LEGITIMIDADE


Tenho o hábito de estudar história com minúcia, mas não me agrada reproduzi-la a não ser na medida exacta em que possa funcionar como mestra da vida. Como o observador da paisagem natural se serve de um óculo de longo alcance para encurtar os horizontes espaciais, assim eu corro os olhos pela história, buscando nela aquilo que se vai desenhando nos arcanos dos tempos vindouros. É esse o propósito que me anima, na incursão a que vou proceder.


Em 1823, o partido apostólico levantava-se, pela primeira vez, com as armas na mão, e fazia cair a constituição saída da revolução jacobina. Era o princípio de um período agitado por sublevações e pronunciamentos, golpes e contragolpes, começo este que foi apenas o prelúdio de um conflito que havia de se tornar numa guerra de morte, a qual estalou entre o Portugal histórico, de seiva católica e monárquico até à medula, e as forças liberais, alimentadas pela agiotagem de fora.

A revolução de Julho de 1830, em França, e a mudança, operada em Inglaterra, durante o mesmo ano, quando um ministério tory é substituído por um wigh, determinam uma inversão de rumo na grande nau da política europeia. Os liberais portugueses aproveitam habilmente esta conjuntura e acabam derrotando D. Miguel.

Ao deixar definitivamente terra portuguesa, o monarca legítimo podia, com inteira propriedade, dizer a seu vitorioso irmão que, nos lugares do desterro, com a sua honra intacta, ele seria mais livre que todos os usurpadores nos palácios onde representariam o desastrado papel de reis liberais.

A guerra, em termos clássicos, tinha acabado. Não obstante isso, nos recônditos perdidos de uma província de Portugal, o antigo reino dos Algarves, nesse solo de onde partiu o primeiro brado de revolta contra as altaneiras águias napoleónicas, refugiou-se um punhado de valentes que, sob o comando do lendário José Joaquim de Sousa Reis, por alcunha o Remexido, saíram a campo em 1836 e, durante mais dois anos, mantiveram encarniçada luta de guerrilhas, até que o governo liberal, que havia destacado importantes efectivos militares para lhes dar combate, logrou deitar a mão ao intrépido caudilho, passando-o seguidamente pelas armas.

Assim, se pôs ponto final no primeiro acto do drama político que Portugal vivia. O segundo desenrolar-se-ia oito anos depois, quando, em 1846, de novo se acendeu a fogueira da guerra civil. Foi um conflito de fisionomia muito particular: primeiro, cartistas e progressistas vieram às mãos; depois, os miguelistas entram na contenda. Uma vez mais, sem êxito: em menos de dois anos foi sufocada esta revolta que acordou, no povo, sentimentos de amor a D. Miguel, que se julgavam mortos, mas estavam simplesmente adormecidos.

No dia 5 de Outubro de 1910, a inglória monarquia liberal era substituída por uma república formal. A 28 de Maio de 1926, o exército e a marinha intervieram para salvar a nação, à beira de outra guerra intestina. Seguiu-se um período de ditadura militar, a que sucedeu um regime de forte autoridade, que conseguiu realizar alguma justiça social, a par de inegáveis progressos materiais e de uma indiscutível recuperação do prestígio perdido. Mas o talento do homem que se pôs ao leme, estadista genial e português da mais pura gema, não foi o bastante para devolver a uma sociedade dessorada por um século de liberalismo e de jacobinismo, a força necessária para evitar que, numa triste madrugada de Abril de 1974, através de um golpe militar, alastrasse uma revolução que fez em estilhas uma obra de civilização multissecular.

Que causas deram origem ao desabar de Portugal até cair no estado em que presentemente se encontra? Estou convicto de que não errarei se disser que a causa próxima é o espírito liberal saído da Revolução Francesa, por sua vez, produto de outro acto de orgulho desenfreado: a rebelião de Wittenberg.

Quando o frade apóstata proclamou, a respeito da Bíblia, a tese do livre-exame, abriu a vala onde, muito depois, o racionalismo kantiano, escavando mais, ia assentar o cimento da autonomia do homem contra a tradicional heteronomia da moral católica. Do subjectivismo que atingiu o espiritual, imediatamente se passou ao individualismo no campo político, tudo dentro de uma sequência má, à qual a dialéctica não permitia que se fugisse.

A revolução liberal de 1789 é a revolução da burguesia e a burguesia, segundo Marx, tinha a sua religião no protestantismo (1). As excepções que diminuem a precisão desta sentença não impedem que a correspondência resulte quase perfeita: se for coerente, um liberal, em matéria religiosa, trará consigo o selo do protestantismo; por sua vez, um protestante, em política, há-de mostrar as marcas do liberalismo, se não for o mais destemperado absolutista.

O triunfo dos princípios liberais provocou, por toda a parte, um cataclismo medonho, ao qual também Portugal não escapou.

Derrubada, entre nós, a monarquia tradicional, levantou-se em seu lugar um cenário dúbio, enfeitado com as cores da realeza. E a este conjunto de pompa balofa, mas sem identidade definida, convencionou-se chamar-lhe monarquia liberal. A estrutura desta monarquia não é mais do que o conúbio entre um poderosíssimo factor de estabilidade --- a dinastia, elemento que brota da essência da autêntica monarquia; e, por outro lado, a confusão parlamentar --- o sancta sanctorum do partidarismo e do alvoroço das urnas eleitorais. Este conúbio sem harmonia, sem verdade e sem bondade, é uma das manobras mais logradas da revolução mundial, que assim conseguiu disfarçar a desordem ingénita da democracia debaixo do esplendor do manto e da coroa, ao mesmo tempo que conserva, no seu seio, todo o veneno do liberalismo, esquecido no meio dos clarões de uma realeza de reis que reinam, mas que não governam.

A crise, que assola o mundo, não é apenas uma crise de verdade nem uma crise de moral. Ela é ambas estas coisas, mas é também uma crise de beleza. O mundo sofre os danos causados por um lento mas porfiado processo de profundos desvios estéticos ao lado de graves falhas éticas e de defeitos ontológicos inilidíveis.

A democracia é uma coisa torpe e a monarquia liberal é o seu quadro mais aprazível. Como o comum das pessoas costuma misturar a transcendente objectividade da beleza com aquilo que é predicamentalmente belo, resulta que a monarquia liberal é um sistema que tem de se repudiar porque é aquele que, vestido das roupagens que mais seduzem, transporta dentro de si quanto de abominável há na democracia.

Esta é a monarquia que se intitula constitucional e chama absolutistas àqueles que, como nós, combatemos nas fileiras da tradição. Salvaguardada a devida proporção, peçamos-lhes, à maneira de S. Tiago, que nos mostrem a sua fé sem obras, que nós lhes mostraremos a nossa pelas obras (2). Gama e Castro, um dos mais salientes autores miguelistas, dizia que assim como não é a gramática que cria a língua de uma nação, apenas a explica, também a constituição não faz a vida política de um país, limitando-se a revelá-la aos que a querem conhecer (3). Num patamar superior, eu acrescentaria que entre constituição e política se observa a mesma relação que há entre dogma e fé, fé que não existe porque um dogma a define, mas sim que este define porque a pressupõe.

A estrutura da monarquia liberal é um conúbio sem harmonia, sem verdade e sem bondade. Não passarei adiante sem expor o porquê da minha afirmação, dentro da brevidade compatível com a natureza deste assunto:

Apresenta-se como um conúbio sem harmonia, porque sendo o hibridismo de dois princípios --- o hereditário e o electivo --- acontece que o segundo deles não exibe a necessária consonância. Com efeito, a política está na comunidade como num sujeito de sustentação. A comunidade, politicamente organizada, provém da forma produzida pela acção de um eficiente sobre a causa material extrínseca, que seria o povo enquanto massa bruta. A partir daí, essa massa, de materia secunda passa a materia prima, a qual não pode fisicamente existir sem uma forma que a determine. A democracia não é capaz de conduzir-nos até esta unidade do poder político, porque não indica, com exactidão, o agente que imprime essa forma.

Em segundo lugar, este conúbio não apresenta a dose de verdade aceitável. E isto por duas razões, sendo uma que, com o seu desgraçado mito da soberania popular, mete no mesmo saco a causa eficiente e a causa material extrínseca do poder, o que deve rejeitar-se pelos motivos antes invocados, os quais fazem que falte unidade à democracia. A sua ineptidão para impedir que a referida causa eficiente se feche num ciclo vicioso, se perca num processo ao infinito, ou se desfaça numa flagrante contradição, é a outra razão:

Com efeito, salta aos olhos de todos que, resultando a capacidade eleitoral da lei elaborada pelos que colhem o mandato legiferante dos mesmos a quem conferem o poder de eleger, se impõe concluir que o sistema democrático corre numa linha circular, em moto contínuo. E quando se alega que o poder constituinte do povo rompe esse círculo, não nos dizem qual a fonte desse poder, nem o poderiam fazer, porque as suas mentes não conhecem, no plano contingente, nenhuma origem do poder fora do povo, o que, manifestamente, não consegue evitar a petição de princípio. Por fim e porque a capacidade eleitoral não é universal, sempre se sublinhará que está pejada de autocratismo a decisão que fere de incapacidade originária alguns cidadãos, os quais não tomaram parte nessa deliberação porque, se eram capazes de votar onde se discutia essa incapacidade, então não seriam incapazes de raiz; e, não se tendo pronunciado, a solução já não será democrática. Este último aspecto é suficiente para se ver como a democracia, na sua praxis, desmente o proclamado princípio da soberania popular.

Falta tratar da privação de bondade que afecta a monarquia liberal devido à sua componente democrática. Constitui elemento essencial da democracia um obstinado relativismo, o qual fatalmente conduz à adulteração dos valores porque considera bom o que é apetecido, em vez de exortar a que se deseje o bem. O bem é inseparável da verdade (4), verdade que não pode estar sujeita ao voto, verdade que não é mais nem menos verdadeira conforme reúna mais ou menos sufrágios. A verdade não espera licença de ninguém para ser aquilo que é. Nós é que temos de nos esforçar por a encontrar. Estando com a verdade, estaremos com a bondade. O valor da bondade, casualmente, não é impossível de ser alcançado pelo método democrático, porque ex absurdo sequitur quodlibet; por norma, não é uma via adequada.

Foi a monarquia liberal o corolário lógico do regalismo absolutista, fruto apodrecido dos desmandos do enciclopedismo. Depois, veio o que veio. Hoje, ao que parece, o mundo regressa à democracia e, por isso, soltam-se vivas. Não o entendo! A democracia representa a maior ameaça à restauração da ordem tradicional: a democracia é subversão, a democracia é poluição, a democracia mata aquilo em que toca.

Não estou descansado. Pressinto que outras convulsões, decerto não menos letais para a sociedade, se vêm preparando. Da democracia aos clássicos totalitarismos, a transição é apenas teórica: os totalitarismos são o desaguar de correntes democráticas, que deslizam nessa direcção configurando aquilo que poderia condensar-se na fórmula seguinte --- democrático, logo totalitário!

Tudo pela maioria! Tudo pelo partido! Tudo pelo estado! Que diferença faz? O critério de governo já não é o critério objectivo da bondade, mas sim o apetite, sem freio, da monarquia estadual, do partido único ou da arbitrariedade das massas. A esta heterodoxia, opõe-se a doutrina tradicional do poder político, que tira a sua legitimidade da realização do bem comum. Que as leis provenham de uma maioria ou de uma minoria, isso é secundário: o que importa é a bondade do seu conteúdo. E porque é isto que conta, também não está correcto dizer-se que as leis têm de ser consentidas pelos seus destinatários para que sejam legítimas.

As antigas cortes portuguesas eram simplesmente consultivas e reuniam-se quando o rei as convocava. Se lhes atribuímos força deliberativa e as tornamos independentes do monarca, introduzimos, no nosso ideário, um clássico vício liberal. O poder político, se é um poder soberano, será um poder supremo e exclusivo. Daqui resulta que não pode coexistir com outro poder do mesmo grau. O sistema de pesos e contrapesos é uma quimera porque o poder não se trava institucionalmente: se é poder, impõe-se e, se não se impõe, não é poder (5).

Depois desta passagem sobre os enganadores postulados da soberania popular, regresso à história.

Enquanto avançava o século XIX e Portugal descia pela vertente da revolução, que faziam os legitimistas? --- Passados os insucessos bélicos, que, a seu tempo, mencionei, limitavam-se à disputa de uns quantos lugares no parlamento liberal e guarneciam algumas trincheiras na imprensa. Era muito pouco, mas ainda davam sinais de vida. A situação havia de piorar, e se a eficácia já era então pequena, mostrar-se-ia quase nula até desaparecer por completo.

Como se deixou debilitar gradualmente uma falange que provara bem a sua combatividade?

Com a morte do último rei do ramo liberal, a 6 de Junho de 1932, extinguiu-se a sucessão nesta linha. A 19 de Outubro desse mesmo ano, os liberais aclamam como herdeiro do trono o representante legitimista. Deste modo, acabou-se com as dificuldades levantadas pelo problema dinástico sem, todavia, compor a divergência doutrinária, pelo que não se alcançou a projectada união, porque a cisão entre legitimistas e liberais não foi uma questão sucessória, mas sim de ideias. O resultado foi um afrouxar das hostes tradicionalistas já tão debilitadas pela letargia em que haviam tombado.

O rei imediatamente se viu a braços com a tensão provocada pelas relações entre duas filosofias de vida opostas: de um lado, a consciência do que eram os valores tradicionais; e, do outro, a impertinência dos que, apesar de terem reconhecido a dinastia legítima, não desistiam dos seus nefastos princípios. É dever de um rei, que o seja de facto, ser rei de todos os seus súbditos; é muito duro para um rei, que só o seja de iure, cumprir esta obrigação; e é quase sempre fatal para os que se lhe conservam leais, que se dê o segundo dos casos enunciados.

Evidentemente, isto não é resposta total para o problema, como conto esclarecer mais detalhadamente.

O miguelismo, insisto, não está agonizante: há muito tempo que entrou num estado próximo do comatoso. Na linha de um mau hábito, que se criou, de imputar a terceiros culpas que nos pertencem, surgiu nas nossas fileiras a teoria grosseira de acusar Oliveira Salazar como causador do nosso marasmo. Os comunistas, durante o consulado salazarista, sofreram as perseguições que bem sabemos e, quando os cravos se espalharam pela ruas, todos vimos o que se passou. Nem sequer os seis anos do complexo governo de Marcello Caetano servem para explicar a pujança que o partido de Cunhal exibiu, porque o regime era de abertura a todos.

Esta dialéctica de uma pretensa justificação seria risível, se não fosse a calamitosa realidade presente, agora que já decorreram quase quarenta anos desde que uma grave doença privou Oliveira Salazar do poder.

Antes de avançar, sempre direi que esta é uma situação muitíssimo triste. É, de facto, lamentável que haja quem se desculpe de forma tão pouco digna, quando não sabe ou não quer lutar pela causa em que diz acreditar. No que se segue, porei o dedo na chaga, mas espero dar uma resposta:

Para lá de todas as circunstâncias que houve e que há, a culpa do insucesso é nossa e de mais ninguém. O inimigo, se faz o que pode e o que lhe permitimos, está fazendo o que deve. Dos males que nos afligem só temos de pedir contas a nós próprios. E não conseguiremos solver essas contas, antes de assumir a nossa condição política, sem vacilar e pondo de lado o temor de que isso divida a sociedade portuguesa.

Este temor é um temor infundado. Eu diria mesmo que se trata de uma ingenuidade quase pueril. De facto, nós somos o que somos. E não será por declará-lo e agir em consequência que a sociedade portuguesa se vai dividir de forma mais trágica do que já está. Creio precisamente o contrário.

Para demonstrá-lo, seria fácil e cómodo, aduzir que a ordem política tradicional era a que vigorava à data em que foi derrotada pelo inimigo e, por esse motivo, não fomos nós quem provocou a divisão. Isto não passa de um acidente no devir cronológico e, portanto, com todo o seu grau de relativismo e contingência. Daí que não recorra eu a este tipo de argumentação e prefira caminhar num sentido que se me afigura como solução válida para qualquer época e em qualquer sítio.

Com este propósito, direi que a divisão aparece seguindo um processo que apresenta quatro momentos culminantes: o primeiro sucedeu com a prevaricação angélica; deu-se o segundo com o pecado original originante; após este, vimos o terceiro na Redenção; o último será com o juízo final. A divisão verifica-se, pois, onde não há adesão à verdade: afastou-se dela Lúcifer; contrariou-a a soberba do primeiro homem; negamo-la todos cada vez que, pelo pecado actual, voltamos a romper o que Cristo veio reatar; e sofrerão o castigo da geena os que morrem impenitentes.

A tragédia não está na divisão: a questão é saber qual a divisão que convém e qual a que temos de repelir. A divisão de que possamos ser ocasião em nome da verdade, é um acto agradável a Deus (6). A divisão condenável, a divisão temível, a divisão atroz é a divisão do amontoado da eterna desesperação porque é a divisão sem remissão da criatura apartada do seu Criador.

Ora bem: ou a doutrina que seguimos não está dentro da verdade e, nesse caso, temos de esquecê-la porque não é verdadeira e não porque vai desunir; ou, pelo contrário, pisamos o trilho bom e aí não vejo motivo para não levantar, de novo, a bandeira miguelista. Levantando o estandarte do miguelismo, seremos conhecidos como legitimistas e como portugueses, com o que em nada se contraria a tradição, porque se a tradição ultrapassa fronteiras, é certo que as não apaga.

Eu sei, sei de sobra, que nos é pedida moderação e nada de agitar os ânimos. Não tem de estranhar-se! Já, em 1831, José Agostinho de Macedo, talvez a mais poderosa inteligência do miguelismo, preveniu «que devem os Reis e os povos, se querem a sua conservação, detestar ou fazer calar duas bosinas: a bosina da moderação e a bosina do adormecimento». (7)

Aos ataques dos que nos hão-de acoimar de facciosos, responderemos que estamos prontos a abandonar a intransigência de que nos acusam, no dia que deixem o seu indiferentismo e o seu latitudinarismo: um indiferentismo, no qual é heresia a afronta aos seus cultos; um latitudinarismo que nos excomunga se não adoramos no templo da sua tolerância.

Dir-nos-ão ainda que arvoramos uma bandeira de partido. Na medida em que sustentei que a verdade divide, a nossa bandeira é, com efeito, uma bandeira de partido porque é a bandeira daqueles que tomam partido por Deus e pela tradição: Deus, que é verdade no plano necessário; tradição, que o é a nível do contingente. Estes dois princípios, o primeiro, eterno e o outro, transcendente, são os que sagraram a nossa bandeira, que milhares de combatentes da legitimidade já tingiram com o seu sangue.

S. S. João Paulo II, numa das visitas que nos fez, convocou-nos para uma missão. Sabia o Papa que falava aos herdeiros de um povo evangelizador até ao heroísmo, povo que, à semelhança do Apóstolo, se fez tudo para todos a fim de ganhar todos para Cristo (8). A resposta a este desafio, está na tradição. Voltai à tradição! Eis como nos poderia ter falado Sua Santidade. Se regressarmos à tradição, o momento desse retorno será a hora do reencontro com a nossa perdida vocação histórica: a de fazer Cristandade.

Há mais de quinhentos anos, Portugal levou a semente do Evangelho aos gentios das mais remotas paragens. Se, no passado, a um mundo que o desconhecia, anunciámos o Deus verdadeiro, o presente impõe que o preguemos a um mundo que lhe virou costas.

Quando alerto para a necessidade de uma cruzada que não tem de confinar-se a Portugal e que terá a tradição como adail, conheço os riscos que podem derivar de uma interpretação defeituosa do que proponho. Eu não quero nenhuma internacional. As internacionais, como a própria palavra o indica, formam-se a partir das nações. Ora a ideia de nação começou com a Idade Moderna e ninguém nos afiança que não termine um dia --- é um conceito positivo de sociologia; em contrapartida, a tradição, já o disse noutras ocasiões e volto ao mesmo, temos de relacioná-la com o Ser rodeado dos seus atributos transcendentais --- a tradição é, portanto, um conceito universal de ontologia.

À mistura do sincretismo internacionalista, contraponhamos o ecumenismo de povos, politicamente distintos, mas moralmente unidos sob a bênção da Igreja Católica, única instituição composta por homens, que, em razão da sua origem, dos seus meios e dos seus fins, goza da garantia de ver a consumação dos séculos e cujo senhorio não conhece limites por imposição de espaço porque é, antes de tudo e acima de tudo, um senhorio espiritual. Esta é uma construção que já governou o mundo: o seu derrubamento foi obra da revolução antropocêntrica.

Que é esta revolução? Mais que um marco histórico, ela é a revolução do homem que, cheio de vanglória, se crê absoluto e declara a sua insubmissão diante de qualquer poder que lhe seja exterior. Esta revolução é ainda a maior de todas as ingratidões: a um Deus, que se tornou homem e desceu do céu à terra para elevar o homem da terra ao céu, o homem paga este prodígio de amor, procurando subir da terra ao céu para lançar a Deus por terra. Tão monstruosa infidelidade é a revolução gerada pela satânica mentira da igualdade que é negação da ordem e, por isso, filha estremecida da soberba.

Os homens, na medida em que foram criados por Deus à sua imagem e semelhança e por Ele chamados à felicidade eterna, são, neste sentido, iguais. Mas, com a mesma fé, havemos de acreditar que a graça santificante, que recebe cada um de nós, e a coroa de glória, que lhe está reservada se merecer aquela graça, não são iguais às de ninguém mais. Nem isto nos deve afligir, porque o que Deus nos dispensa, em vida, basta à nossa salvação e o prémio que nos espera, se correspondermos ao dom divino, é recompensa adequada aos nossos méritos. Se entramos em comparações, sem a coragem da humildade, virtude necessária para reconhecer a existência de maiores perfeições, vem o sentimento de inveja e, com ele, a tentação de ter mais, sempre mais: a comparação sobe de grau até que chega ao zénite, quando se ouve o eco do anjo rebelde (9). O cume da ambição pecaminosa foi tocado --- é a revolução por excelência!

A economia da salvação no campo político, não obtém remédio fora da tradição. É imprescindível que se recorra à tradição, porque a tradição não é a inércia conservadorista, nem tão-pouco o automatismo na observância de ritos obsoletos: a tradição é aquele conhecido tesouro que, identificado com o Ser no plano metafísico, como acima o disse, nos dá a pura expressão do movimento, entendido este dinamismo nos termos da solução aristotélica do sentido análogo.

Na tradição está o fundamento da essência de Portugal. Fincada nessas raízes, a sua constituição política fez-se com a história. Enquanto guardou a pureza de princípios, foi uma monarquia admirável que cumpria o ideal mais exigente para todo o poder político.

Comecemos pela sua unidade:

O rei, figura viva da dinastia, cabeça da grei, responsável porque governava, aval dos direitos concretos dos seus súbditos, encarnava a causa formal desse poder; a seu lado, todo um povo organizado hierarquicamente, fazendo ouvir a sua voz por meio de genuínos representantes, diverso nos seus foros, o mesmo na consciência de que não era mais do que um efémero momento da pátria, trazia-nos a imagem da causa material limitando a causa formal.

Duas linhas, agora, sobre a génese desse poder:

O acto de soberania é um composto do conhecimento do que se quer, da decisão bem definida de alcançar esse objectivo e, por fim, da capacidade de concretizar essa vontade. Se o primeiro destes elementos não toma forma, estaremos diante de um estéril capricho; sem o segundo, será o vazio; e, se falta o último, o acto, que se pretende soberano, não passará de um sonho mais ou menos bonito, mas sempre um devaneio. A história portuguesa é pródiga em exemplos de como houve sempre quem exerceu a soberania, pelo modo que acabei de apontar. Esses foram os varões suscitados por Deus que se destacaram do povo para ser causa eficiente do poder político na comunidade que lhes deu vida.

Falta o exame da bondade da nossa monarquia tradicional:

Há quem separe religião e política, dizendo: «Para adorar Deus, a religião; para servir a Pátria, a política.» É um tremendo erro! O serviço à Pátria não se entende se não se leva a cabo com os olhos postos em Deus, o que provoca que a política tenha de ser também profissão de fé. Este é o sentido que confere legitimidade à política e que pode conduzir os povos a uma paz duradoura e universal, porque é o único que coloca a política como meio de o homem atravessar a cidade terrestre com destino à cidade celeste.

Recordo, aqui, a minha ideia de sempre: o que é estritamente religioso não é político, mas o que é político, sem perder a sua específica autonomia, tem de ser religioso como acto que liga o homem a Deus, sob pena de ser obra morta. Por esta dimensão religiosa da política, não hesito afirmar que, quando ela é justa, soa como hino de louvor a Deus e, quando não é, converte-se num atentado à majestade divina.

Se o trono de S.to Estêvão foi o trono apostólico, o de S. Luís, o trono cristianíssimo, e o de S. Fernando, o trono católico, o nosso foi o trono fidelíssimo. Com este título, os Reis de Portugal reconheciam, no domínio espiritual, a autoridade da cátedra romana, ainda que actuassem, no campo temporal, livres de todo o império eclesiástico. Este governo, reflexo maravilhoso do agostinismo político, era o governo dos nossos soberanos, que se moviam com um acrisolado amor à coisa pública, observando deste modo a causa final do seu poder.

Eis, em traços muito largos, a monarquia de Ourique, uma monarquia, repito, que se confunde com o ser histórico de Portugal, um longo viver de glórias imperecíveis, ao lado de momentos maus. Desgraçada e ferida é quando a Pátria mais requer o nosso carinho filial, porque a Pátria, tal como os Pais, não é objecto de escolha: somos o abraço que estreita a venerável memória dos mortos à esperança risonha dos que virão, não formamos mais do que um anel nessa monumental cadeia de gerações. À Pátria, devemos admirá-la pelas suas grandezas e temos de querer-lhe apesar das suas misérias. Não são estas senão a terrível punição que Deus envia para escarmento dos povos desatinados com as paixões que envilecem.

Se nos orgulhamos por ser soldados da tradição, temos de aspirar à coroa do martírio, resgatando Portugal do pecado social em que caiu!

Joaquim Maria Cymbron
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  1. O Capital I, Delfos, p.448.
  2. Tgo. 2,18.
  3. O Novo Príncipe, Lisboa, Empresa Editora Pro Domo, Limitada, 1945, pp.144 e s.
  4. S. Tomás de Aquino, O. P. --- Summa Theologica I, q.5, a.1.
  5. V. citações 10 e 11 em Monarquia Pura.
  6. Mt. 10, 34 e ss.; Lc. 12, 51 e ss.
  7. O Desengano, n.º16, p.7.
  8. 1 Cor. 9, 18-22.
  9. S. Tomás de Aquino, O. P. --- Summa Theologica I, q. 63, a. 2 e a.3.
 
JMC

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