domingo, 24 de maio de 2009

PORTUGAL À DERIVA



Texto substancialmente próximo ao publicado no jornal O Dia, de 4 de Setembro de 1981. 


Desonra, miséria e dor, eis o quadro de Portugal. E lembrando um dos mais conhecidos sonetos de Camões, eu direi que a miséria e a dor sobejam já que bastava somente a desonra para a perdição de um povo.

Portugal foi e terá de voltar a ser uma nação sacrossanta, merecedora de toda a reverência pela missão que ainda não completou, missão excelsa, missão que constitui a sua razão de ser, missão que não pode falhar. Hoje, anda perdido porque, há uma trintena de anos, o desviaram brutalmente do seu rumo.

Quem são os agentes de tão vil atentado? --- Não perderei tempo a mencioná-los porque os autores materiais são do conhecimento público: homens despudorados, gente sem pundonor e sem brio, vendilhões da Pátria, concussionários de uma nação inteira, energúmenos a quem o seu democratismo (ou talvez por causa dele) não impede que se entretenham «(...) no ofício novo / a despir e roubar o pobre povo!» (1).

Passo, pois, por alto o nome de quem não carece de apresentação. Como responsável destes factos, poderia ainda apontar o povo, enquanto não sofre, como vassalo, as prepotências e desmandos de um estranho soberano que é ele próprio. Esta é a construção da democracia. Mas eu, como continuo a sentir uma repugnância invencível pelo absurdo, e não deixo de considerar que o sufrágio universal é um manto de completa inimputabilidade a cobrir os que saem eleitos da boca das urnas, não lhe concedo foros devidos a pessoa humana capaz.

Onde se encontram, então, os outros culpados? --- Em cada um que com o seu silêncio timorato, um vago receio das consequências, os respeitos humanos, o pavor de quebrar a confortável cadeira de um quotidiano sem sobressaltos, em suma, com a sua cobardia, assiste, inerte, à consumação da tragédia e se torna, ipso facto, cúmplice de um repugnante crime de lesa-pátria.

Perante este quadro, é difícil dizer que mais nos há-de espantar: se a malícia de uns ou a complacência dos outros; se os instintos destruidores daqueles ou a passividade dos últimos!

Quisera eu que este fosse um apontamento breve e vou esforçar-me por o conseguir. Não se pode, todavia, falar sobre Portugal e a sua situação, sem passar os olhos, ainda que rapidamente, pelo que lá fora acontece. Até porque é lá que nos querem diluir.

O falar pedante dos nossos tecnocratas, acolitados pelo coro pretensioso dos democratas que nos desgovernam, pretende sufocar-nos no seio de uma Europa, a nós que fomos chamados para uma missão ecuménica, a um povo que encheu as partidas, a uma nação que se dessangrou no zelo de cristianizar o mundo. Seria ridículo, se ao mesmo tempo não fora trágico.

Reduzidos hoje às dimensões do séc. XIV, julgam por isso acertado orientar a política a partir daí. Apesar de muitas coisas serem tristemente verdadeiras nos dias que correm, esquece-se ou, o que é pior, deseja-se calar que há mais: há a civilização e há a cultura que deixam as suas marcas.

Que Europa nos destinam? --- A Europa de uma Itália, onde durante anos a fio ditou leis a praga da democracia-cristã, ainda por cima impotente para esconder as suas ligações com a Maçonaria, e cujas sequelas continuam vivas? Pretenderão dar-nos a Europa de uma França sempre dúbia, ora burguesa, ora proletária, tão depressa liberal como socialista, de um chauvinismo feroz ou à beira de abrir mão da própria identidade nacional? Será ideia deles seduzir-nos com uma Alemanha que ainda parece dividida e não descobre meio de afugentar fantasmas de guerra? Ou finalmente haverá o projecto de impor-nos a imagem de uma Inglaterra, colosso que subjugou o mundo com ardis de flibusteiros, enriqueceu no saque e na pilhagem, sempre grandiosa no roubo e, hoje, Babilónia da moderna Europa, caída a capa do seu puritanismo, que tantas chagas cobria, já não consegue esconder a podridão que a rói? É a esta Europa que querem amoldar-nos?

A resposta encontrar-se-á no Clube de Bilderberg, selecto quanto baste para garantir uma pluralidade muito conveniente. Tudo ao jeito do mais puro estilo revolucionário, ríspido e inflexível se enfrenta oposição, não perdendo oportunidade em revelar-se generoso e compreensivo, quando os outros se acomodam, em nome de uma tolerância sonoramente proclamada, mas de que nunca dão exemplo.

Esse círculo, que escapou ao genial poeta florentino, é antro das mais engenhosas perfídias que se tramam e que têm repercussão internacional. Ocupam-no os privilegiados que idolatram a Europa, esta Europa ultimamente pronta a franquear portas a uma Turquia, mas que já não tem lugar para a Suíça, pela vantagem meridianamente clara de preservar uma distinta identidade política no país que é banco oficial e casa-forte das fortunas que se fazem por esse mundo fora, algumas delas sabe Deus como.

Não obstante os erros, que por cá se praticaram, tal Europa é-nos estranha. Alheou-se de nós quando se afastou da ortodoxia da Fé, e isso ocorreu com o cisma luterano. A partir de então, os Pirenéus separaram Portugal e Espanha da Europa antropocêntrica, a Europa que mergulhava na vertigem do abismo. Nós conservávamo-nos como derradeiros paladinos do universalismo, do objectivismo e da religiosidade, que caracterizavam a visão teocêntrica do mundo que se ergueu sobre os escombros, a que as hordas do Leste reduziram o corrompido Império Romano do Ocidente.

Fomos, na realidade, paladinos do universalismo espiritual, que vicejou sob a égide da Igreja Católica, a única internacional possível. E este universalismo, que não abafava a individualidade de cada povo, era barreira eficaz contra o poder ilimitado do Leviatão, cujas cabeças já começavam a chocar doutrinas enciclopedistas, mero prelúdio do império esmagador do capital em concorrência satânica com o socialismo.

Campeões do objectivismo, defendemos que cumpre ir buscar a verdade, em vez de sermos o centro do conhecimento. Entre os nossos, há um nome que é legenda de glória, nome que ficará a contar ao mundo como Portugal não era apenas discípulo dilecto de Marte e de Neptuno: o batalhador, o navegante também sabia dar a vez ao pensador. E surge o humilde, o apagado, o sumido mas tão subido Frei João de São Tomás, luminar da metafísica, expoente da filosofia portuguesa, orgulho do saber cristão.

Por último, evangelizadores até à medula, morríamos mártires proclamando a verdadeira religião contra cultos pagãos e mitos nascentes.

Como se vê é algo de incomparavelmente mais profundo e absolutamente distinto de uma corriqueira questão de latitude ou de longitude. Portugal deixou de ser europeu, quando a Europa apostatou.

Infelizmente, Portugal também pecou, Portugal está hoje desviado da linha que a si próprio traçara, Portugal encontra-se de olhos fechados à luz. No entanto, devemos esperar a nossa restauração através da acção de um escol que sempre desponta nas épocas de crise.
 
Mas antes é curial definir o que se entende por escol:

Se o escol, de modo algum se confunde com a actual camarilha do poder, não importa menos evitar a tendência muito acentuada de o esgotar nas classes historicamente dominantes, cujos membros se tornaram incapazes de dar prossecução aos valores positivíssimos de que se dizem depositários. Isto é fundamental, para não se correr o risco de que os menos esclarecidos se riam de tais valores, personificados em múmias caricaturais. Portanto, cumpre ao escol autêntico afirmar-se sem ambiguidades, e essa obrigação é maior agora que vemos a sorte da res publica confiada a quem fez do exercício da governação uma orgia de devassos e de medíocres.

Quando a fibra impoluta da nação vibrar, no dia em que o verdadeiro escol se congregar, veremos dissipar-se o horizonte negro que se postou diante dos nossos olhos e parece querer ficar. Ser-nos-à então lícito voltar a admitir a possibilidade de que se arrede para longe o castigo pavoroso que nos ameaça.

No meio das trevas, como esperança radiosa, brilha a luz fulgurante da Rainha e Padroeira de Portugal. Só um coração amantíssimo de Mãe pode olhar com tamanha indulgência um filho ingrato e, por isso mesmo, tão necessitado da Sua clemência. Lembrem-se os Portugueses que a única lei a que devem sujeição é a da grei que devem amar, é a da sua terra de Santa Maria.

Sabiamente dirigido, irá o povo português, com alento e com robustez, resgatar o chão sagrado, chão regado de sangue, sangue que foi de mártires que semeiam esse solo e de heróis que o juncam. À honra do combate, seguir-se-á a glória do triunfo. Retome Portugal as veredas da Tradição e logo verá como chega o arrebol da redenção!


Mês de Maria Santíssima


Joaquim Maria Cymbron
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  1. Lus., VII, 85, vv.7-8.
JMC