quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A RAZÃO DE ANTERO


Corria o ano de 1865, quando Antero de Quental, então em Coimbra, publicava a sua veemente Defesa da Carta Encíclica. De que encíclica se tratava? Nada mais, nada menos do que a Quanta Cura de S. S. Pio IX. Esta defesa é um documento impressionante e que surpreende se tivermos em conta que saiu do punho de um homem como Antero, espírito permanentemente revolto e alma inquieta, tão inquieta que desfechou na tragédia de um banco perdido no Campo de S. Francisco, em Ponta Delgada.


Talvez por tudo isto mereça a pena recordar alguns trechos dessa tão notável peça. Diz, pois, o inolvidável poeta açoriano:


«Servir a Deus e servir o mundo --- ter um corpo para as venturas da terra e uma alma para as recompensas do céu --- a liberdade na vida para nos afagar o orgulho de homem e, além da morte, a fé que dissipe os terrores do crente --- ser cristão quanto baste para iludir a rectidão do Juiz na hora do julgamento e, em tudo o mais, pagão no viver, pagão na prática de cada dia, de cada hora --- aceitar de Deus a segurança da salvação da alma e de Satanás o gozo da carne --- será isto um belo sonho para quem não compreende o valor desta palavra sacrifício, será este o ideal da nossa sociedade sensual e burguesmente comodista (...).
 
(...).
 
(...) E, todavia, alguns milhares de burgueses, sem paixão e sem alma, ignorantes e gordos, conceberam tudo isto, confundiram tudo isto, casaram estes impossíveis, ligaram em abraço incestuoso Cristo e Satanás, uniram enfim os pólos e o equador, achatando o mundo, deslocando o globo --- e a esta coisa sem nome se chamou racionalismo cristão, catolicismo liberal, relação do Estado e da Igreja --- ignorância e absurdo!
 
(...).
 
A Igreja recusa esses auxiliares enganadores --- porque aceitá-los é transigir, e ela não transige porque não pode e porque não deve.
 
A Igreja é universal --- é católica --- o seu espírito é o absoluto. O que sai dela, o que não é dela, não é o indiferente ... é o inimigo, é o escravo revoltoso, é a heresia. (...) será, enfim, a sociedade moderna filha legítima e obediente da Igreja cristã?
 
Não é. A Cúria Romana o confessa. E que não o confessasse, sabíamo-lo nós de há muito. Se não é o filho, é o inimigo --- se não é o Discípulo amado, não pode ser senão Judas o traidor!
 
(...).
 
Hoje, nesta idade de luz, quem é lógico, quem faz justiça inteira ao mundo e a si.
 
És tu filósofo? não: o teu sofisma confunde tudo! Tu, homem de Estado? não: tu és o interesse que se compraz no imbróglio e na contradição! Tu, jornalista? não: tu és a intriga; ou quando não és a intriga, és a ignorância (...).
 
(...).
 
Sejamos ultramontanos muito embora, mas sejamos lógicos.
 
(...).
 
Ou, então, (...) sede ímpios muito embora, mas sede lógicos!
 
(...).
 
Submetei-vos ... ou rebelai-vos!
 
(...)! Conciliar o inconciliável não é para vós --- não é para alguém no mundo.
 
(...).
 
Mas há no mundo uma coisa sem nome, um monstro formado de todas as contradições, de todas as antíteses de todos os interesses rivais, de todas as oposições que podem referver numa sociedade multiforme e confusa (...).
 
(...).
 
A esse monstro moderno chama-lhe a filosofia absurdo --- embora o mundo persista em lhe chamar opinião pública.
 
(...).
 
Lança mil vozes discordantes numa mesma hora a sua boca, que se chama imprensa. E, como é um Deus monstruoso, os seus sacerdotes são disformes e grotescos, são bonzos e não apóstolos: e o mundo, que lhes obedece, não pode todavia reprimir um sorriso de escárnio ao ver passar a falange sagrada dos Jornalistas!»
 
(...).

(...). A Opinião Liberal transviou-se mais uma vez. Não aceita das mãos da Igreja infalível a irrecusável conclusão de sua fé --- não a segue submissa, como crente e católica. Mas não tem também, como herética, o valor de a renegar corajosamente, absolutamente.
 
(...).
 
Não, ó liberais-católicos! a vossa revolta tem por nome impiedade. E, em face da grande, da luminosa, da omnipotente opinião pública, quem tem razão e direito e justiça, quem só a tem é esse velho sublime, cabeça coroada pelos últimos esplendores do astro cristão da fé, que acatais hipocritamente à luz do dia, e que à noite renegais e escarneceis!
 
Judas beijou a Cristo uma só vez. Mas aos vossos beijos fementidos e venenosos quem há aí já que lhes possa saber a conta?...»
 
Abeirando-se do final, Antero explica com luminosas palavras o motivo pelo qual a Igreja não pode transigir:

«Hoje a doutrina, e amanhã já o dogma. Agora é a tradição que se obscurece. Logo é o mistério que se explica. Depois, a moral que condescende. Breve será a fé que se perde (...). E, relaxada, confusa, esquecida, chegaria afinal um dia em que a Igreja, perdida a consciência de si, do seu ideal, do seu espírito, estenderia em vão as mãos no horror do vazio, buscando-se, e não achando mais que sombras! Sentindo lá dentro o flutuar incessante de todas as contradições humanas, a quem dera entrada a sua infeliz tolerância, sem defesa e desarraigada enfim da rocha da sua imobilidade, a Igreja começaria, como nau prestes a soçobrar, oscilando incerta dum lado e doutro, à mercê da menor onda, do mais pequeno interesse do mundo, do capricho dos grandes e da ignorância dos pequenos ...

A profetisa de Deus ver-se-ia serva dos reis! Escrava dos povos, a doutrinadora das nações! A mão que ata e desata as coisas do céu, algemada com grilhões da terra! E quem dá e interpreta a lei divina, recebendo inspirações e ordens da razão, quando não do interesse humano!»

E conclui:

«(...). No meio das convulsões tumultuosas deste mar desconhecido da revolução social, que há um século nos agita em todos os sentidos, o maior revolucionário foi o Papa e, nesta hora presente, o único talvez, porque foi ele quem achou a palavra da situação, a chave do grande enigma, a solução efectiva do problema moderno --- o Cristianismo e o mundo actual são incompatíveis e inimigos.
 
(...) Pio IX arranca dolorosamente do seio da sociedade moderna o sofisma, a ilusão, a contradição que a roía como um cancro encoberto e lhe quebrava com as forças do corpo a energia e rectidão do espírito. Será impolítico no tribunal dos ineptos tiranetes a que chamam governos constitucionais, mas é político no grande, no alto tribunal da história, porque falou verdade.
 
Isto lhe basta.»


Estas palavras de Antero guardam uma actualidade pasmosa, bem visível com João Paulo II, o qual sem se deixar tolher pelo que diriam os bonzos da opinião pública (e muito foi, como era de esperar), não recuou quando entendeu que devia beatificar o Papa que Antero aplaudiu há quase cento e cinquenta anos. Por isso, a estes excertos, que gostosamente compilei, pus como título --- a razão de Antero!
 


Joaquim Maria Cymbron


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NA --- Todas as transcrições foram tiradas da obra: Antero de Quental --- Prosas da Época de Coimbra, 1.ª ed., Sá da Costa, 1973, pp. 211-222.
JMC

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