terça-feira, 16 de outubro de 2012

A ARTE DO MANDO


Há mais de quarenta anos, a bordo de uma LFG navegando no Cacheu, seguia uma força de fuzileiros que, daí a poucas horas, desembarcaria para entrar em acção.

Na câmara do navio, naqueles momentos que precediam um curto sono, encontrava-se reunida a oficialidade que ia participar na operação. Discorria-se sobre os mais diversos assuntos, em ameno tom coloquial. Eis senão quando o Comandante daquela força, casualmente, declara diante de todos qual seria a sua reacção punitiva a determinado facto abstracto, se este se viesse a concretizar em área da sua competência. Alguém deixou escapar que isso contrariava o disposto na OSN. Sem se impressionar, o Comandante respondeu prontamente: «Aqui, não conheço a OSN. A OSN sou eu!»

Certa filosofia sempre se sentiu arripiada perante quem revela tanta confiança na própria força. Por mim, nunca soube se os seus cultores agem por convicção, se por inveja. Muito provavelmente será por inveja, porque não é qualquer um que pode mostrar a segurança do autor da frase que citei. É preciso possuir autoridade natural e ser dotado de prudência, a mais caprichosa das virtudes morais porque sem ela nenhuma das outras existe.

Nunca vi este Comandante abusar do poder. E quando se é feito desta têmpera, que falta fazem os regulamentos escritos? A lei, com excepção da lei eterna, existe para o homem e não o homem para a lei. É por estar vertida no papel que a ordem estabelecida é mais justa do que aquela que se vai criando na prática constante do dia-a-dia? Haja decoro!

O CJM, o RDM, a OSN ou quaisquer outros diplomas jurídico-militares daqueles tempos tinham uma valia indisputável, mas nem tudo isto somado chegava para conduzir homens ao combate. Vai-se à luta à voz de quem é Chefe. E o Chefe não impõe nada nem é eleito; o Chefe impõe-se e é aceito como tal! Quando muito, se as circunstâncias requerem acto mais sonoro, o Chefe é aclamado! Mas a aclamação do Chefe, como sucedia em Cortes aos Reis da antiga monarquia portuguesa, não tem efeito constitutivo da sua dignidade, mas sim de reconhecimento dela!

Da memória de um episódio vivido na Guiné, falei da noção que tenho do que é o Chefe. Pouco escrevi, porque há conceitos que ou se colhem por intuição, ou de nada servirão os mais extensos e minuciosos tratados, para além do duvidoso mérito de conseguirem pôr à prova a capacidade da paciência de quem os lê.
 
E também lembrei o passo dos nossos Reis em Cortes, para ilustrar a feição juridica que assume a cerimónia da aclamação. De resto, aqui principia e aqui deve terminar toda a aproximação porque, nos dias que correm, a única assimilação possível entre Rei e Chefe é que Portugal está órfão de Rei que seja um Chefe: por direito dinástico, não se vislumbra uma só figura com dimensão para tão alta e exigente missão!


Joaquim Maria Cymbron

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

RIP




Ontem, por correio electrónico, recebi esta tristíssima notícia, chegada de Espanha:

Lunes 24 de septiembre, a las 20:00, en la Iglesia de la Milagrosa en la calle García de Paredes de Madrid, Misa funeral por Carmen la esposa de José Arturo Márquez de Prado, fallecida este mes de agosto.
Se ruega una oración por su alma y la asistencia para quién, como fiel esposa, acompañó durante toda su vida a su marido en toda una vida consagrada a la Causa carlista.
 
Márquez de Prado foi um notável Chefe-Nacional dos gloriosos requetés. Sua Mulher, que Deus chamou a Si, era uma Senhora distintíssima, que aliava uma alegria cativante ao mais fino trato. Sempre fui honrado com a amizade de ambos, e nunca encontrei fechadas as portas da casa onde viviam.
 
A Márquez de Prado, enquanto o não puder fazer pessoalmente, aqui lhe deixo um apertado abraço com os mais sentidos pêsames pela dor que o atingiu. E peço a Deus que ele encontre o possível conforto para este penosíssimo transe, na Fé intemerata de que deu largas provas ao longo de uma vida tão fecunda no amor a Cristo-Rei, como era de esperar de um autêntico boina roja 
 
 
Joaquim Maria Cymbron

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A UM GENERAL CONTRARREVOLUCIONÁRIO


A carta, que segue, foi publicada pela primeira vez no bimensário Novo Século, de 1/15 de Setembro de 1983, pp. 1 e 12 (nesta última, as nove linhas iniciais, talvez por erro de impressão, não fazem parte do texto por mim assinado). A sua desconformidade com o presente é comentada nas notas de pé de página, excepto a primeira que se refere a uma citação de Os Lusíadas.
Reeditá-la aqui pareceu-me útil dado que o escrito nessa altura mantém a actualidade de tudo aquilo que se torna mais premente. O tempo até demonstrou que as previsões estavam certas.
Permita Deus que a carta desta vez alcance algum êxito!

 Senhor General:

A Nação tem os olhos postos em V. Ex.ª. E olha-o, Senhor General, porque, agora ou depois, V. Ex.ª terá de intervir!  
 
A Pátria sem mácula, a Pátria inocente, esta Pátria, que é a nossa, geme agrilhoada a um sudário de infâmias cometidas por bastardos e por loucos. A Pátria pede desagravo para os crimes de que é vítima e de que a sua consciência não tem de se acusar.
 
Eu sei, Senhor General, que sobre V. Ex.ª e os seus valorosos companheiros de armas têm caído as mais acerbas críticas. Mas, na hora em que a Nação já espera ansiosa o resgate da tria, ime-se ver claro:

Se é certo que o 25 de Abril foi obra de Serrios e de Coriolanos sem outra chama e talento que não fosse a luz infernal da traão, também a verdade obriga a que se diga, que pulularam entre nós, os aprendizes de Catilina, o tendo havido, isso sim, objurgatória de Cícero que nos valesse. A estes inimigos, que por si sós levariam a cabo qualquer obra de destruição, juntava-se a sátira execrável na substância e de gosto formal mais que duvidoso, que era moda e de bom tom praticar-se, chocarreira, nalguns círculos elegantes ou, então, com fumos de literatice, nas tertúlias de um intelectualismo pedante e esotérico. Proceda-se, assim, à reconstituição do quadro da vida portuguesa nos anos que precederam mais de perto o 25 de Abril e logo se verá como toda a nossa sociedade, nas suas instituições poticas, sociais e económicas, enfermava já dos males que são sintoma de uma decomposição próxima.
 
A demissão dos governantes, a fuga das classes dirigentes, que quase só o eram em razão de uma infeliz ínércia histórica, e a felonia sistemática dos grupos economicamente dominantes, tudo isto somado se encarregou de arrasar o que, de muito positivo, um estadista de polpa --- Oliveira Salazar --- levantara com a cautela, que lhe impunham as apertadas condições em que se movia, e tamm com o tacto, que só homens de génio possuem. A decadência de caracteres era, pois, imensa e quase geral: a corrupção minava os alicerces do edifício laboriosamente erguido.

Deste modo, era impossível que vingassem os clamores dos que ainda tinham, em justa conta, a noção do «amor da Pátria, não movido de prémio vil, mas alto e quase eterno.» (1) O mau exemplo vinha de cima e o seu contágio ameaçava tudo e todos: poucos eram os que lhe escapavam. Aqueles que protestavam (e já rareavam os que, para tanto, conservavam a necessária coragem e o discernimento suficiente), o maior número deles e, porventura os de melhor qualidade, estavam, havia muito, afastados por vontade própria do regime vigente ou, então, como com outros sucedia, nunca tiveram nada a ver com ele: tanto maior, portanto, o cdito que deveriam merecer. Não aconteceu, porém, assim. Homens de boa fé, gente válida, todos eles passaram a ser olhados como importunas Cassandras, que não interessava ouvir, quando não se podia calá-los. Neste quadro, o desastre previa-se. Caminhava-se a passos largos para a capitulação ante Danaos et dona ferentes, que o mesmo é dizer perante o inimigo de fora e o de dentro.
 
Houve, portanto, um inimigo interno. Todavia, o lado pelo qual, de um modo mais directo, saiu a punhalada contra a Pátria, foi justamente esse donde, por definão, se esperava a sua maior defesa. Mas, nesse grémio, nem todos são traidores! Melhor: aí, não há traidores, porque os sicários da Pátria, ao renegarem Portugal, negaram-se como militares visto que «este Reino é obra de soldados».

Se pela mente do lendário Mouzinho, aquele que, nalguns aspectos, foi bem um Nun’ Álvares póstumo, se pela sua mente, repito, ao deixar que estas palavras tombassem de uma forma lapidar, perpassou a ideia, que eu acho justa, da tríplice dimensão em que se pode exercer o nobre mester de soldado, Portugal é, com efeito, obra de soldados: é-o pela milícia do espírito; é-o pela milícia do pensamento; e é-o, ainda, pela milícia da acção. Pela milícia do espírito, é obra de soldados no apostolado dos seus mártires, dos seus confessores, dos seus santos e dos seus homens de Igreja; é-o também pela milícia do pensamento, no esforço transformador daqueles que, arrancando das suas raízes uma cultura, que aí jazia latente, a desenvolveram, e foram depois semear junto de outros povos; finalmente, é-o pela milícia da acção, na tenacidade dos seus navegantes e no arrojo dos seus combatentes, no mérito de tantos que passaram cumprindo em silêncio e, obviamente, no esplendor dos seus heróis.

Contudo, este Reino, que já formou em quadrado cerrado, apresenta hoje as suas linhas rotas: Portugal sofre, prostrado, de uma doença minaz; a Nação ouve o ranger de uma corda de esparto; a Pátria treme, apavorada, ao bater das asas de umas aves de rapina. Se queremos curar Portugal do cancro que o rói --- a partidocracia --- e que lhe será fatal, se não acudirmos a tempo; se desejamos salvar a Nação do algoz --- o comunismo ---, que a executará sem dó nem piedade; se, por fim, suspiramos por livrar a Pátrta das garras de uns abutres --- a plutocracia internacional ---, que hão-de procurar saciar os seus apetites vorazes naquilo que dela restar (2), se ansiamos verdadeiramente conseguir estas coisas, então uma vez mais, cumpre-nos ser soldados a fim de continuar este Reino.
 
Mas ainda tenho que lhe dizer, Senhor General!

O povo soberano escolheu uma maioria que, por não ser absoluta, não teve coragem de ser governo e, coligada, não chegará a governar coisa que se veja (3). Quem mo assevera? --- Não é somente a hostilidade que logo se começou a desenhar da banda comunista ou vinda de sectores próximos dela; é sobretudo a prática constante dos valorosos barões de Abril, em circunstâncias como esta: imediatamente após a vitória do MFA se falou na pesada herança fascista; em 1976, Mário Soares, quando tomou posse o I Governo Constitucional, juntava-lhe em ar de queixa. a depredação gonçalvista; sobe a Aliança Democrática ao poder, após um interregno de governos de iniciativa presidencial, e ouve-se a mesma lamúria a respeito da gestão socialista; agora, Soares regressado de novo ao galarim dos negócios públicos, voltou a apontar um estado caótico (4).
   
Estes agoiros, que periodicamente se vão repetindo, levo-os eu na conta, não de profecias da desgraça, mas sim como um lavar de mãos de criminosos, que agem com premeditação ou, noutros casos, o grito de pânico dos incompetentes, assustados com a vastidão da tarefa em que livremente se meteram. Há, neste juizo, demasiada severidade? --- Não o creio, porque se pararmos a fazer um balanço desapaixonado de Portugal do pós - 25 de Abril, logo veremos esta verdade nua e crua: se estávarnos mal (e muitos erros havia, inegavelmente), muito pior vamos. A queda tem sido contínua e vertiginosa. E tudo isto é demasiado para ser mera coincidência.
 
Eis a razão, Senhor General, por que escrevo a V. Ex.ª. Se houvesse condições para uma genuina representação nacional, nunca eu me adiantaria a pedir a V. Ex.ª aquilo que vou pedir. Porém, essas condições não existem e tempo para as criar, também não: em seu lugar, depara-se-nos a democracia, conceito estranho a toda a tradição política portuguesa, e que filosoficamente nada exprime, porque é um perfeito absurdo. A distância a que a encontro quando a comparo com a demofilia, ou seja, o amor ao bem comum mostrado pelos nossos Reis, até ao advento das doutrinas iluministas, é tal que, embora contrariadíssimo, não posso, por indeclináveis exigências do estilo epistolar, apresentá-la aqui. Mas se, por um imperativo de ordem formal, tenho de sujeitar-me a não me alongar mais, direi, ainda e tão-somente, que isso até se torna escusável por uma razão já de categoria substancial: é que, Senhor General, os momentos que se avizinham são os da hora da milícia da acção. Assim, a parada terá de ser sua (5).

Arranque, pois, V. Ex.ª. Prepare-se para dotar o País de um governo de autoridade efectiva (ainda há, em Portugal, homens capazes de desempenhar a correspondente função dentro desse quadro).
Aponto então, a V. Ex.ª, o caminho da ditadura? --- Pois que dúvida há? A não ir por aqui, vejo bem próxima a tirania da rua, que é sempre canalha, a que logo se seguiria o jugo comunista, formal ou sob a capa de um presidencialismo eanista (6).

Deus guarde V. Ex.ª!


Joaquim Maria Cymbron



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  1. Lus. I, 10, vv. 1-2.
  2. Estas linhas foram escritas antes da queda do muro de Berlim. Nessa altura, o modelo político e económico do Leste ainda era visto como um perigo real. Agora, há quem creia que foi arredado para o armazém das velharias e, portanto, que se extinguiu a ameaça que ele representava. Ilusão nefasta, que vai acarretar terríveis consequências se não abrimos os olhos e reagimos a tempo. O comunismo continuará vivo, enquanto o dinheiro pesar cada vez mais na balança de todos os valores. Fiel à táctica de sempre, o comunismo não desempenhará contra o capitalismo o papel do antagonista que combate o seu inimigo, mas será alguém que o acompanha na rota de destruição da pessoa humana, porque tanto se é escravo debaixo do chicote, como de salários, reformas e outras condições económicas asfixiantes, que atiram connosco para o limite da sobrevivência.
  3. Há pouco tempo, subira ao poder a coligação que ficou conhecida como Bloco Central.
  4. O discurso não mudou de então para cá: o que deixa o lugar, é sempre o malfeitor!
  5. Tropa sem comando é o mesmo que um corpo sem cabeça; mas chefe sem soldados nada faz. Por isso, mais angustiante do que saber se há chefe militar disposto a levantar-se pela Pátria, é a incógnita da resposta a esta pergunta --- onde está hoje a tropa? Já naquele tempo não reagiu, suportou quantos enxovalhos lhe deitaram em cima. Terá tomado consciência de que a situação nos coloca uma questão de vida ou de morte colectiva? Se os militares não aparecem, o estado de necessidade levará à criação de forças populares! Ora isto é extremamente grave: a guerra conduzida por exércitos regulares já é um duro flagelo; do outro modo, será uma catástrofe de muito maiores proporções. Mas que em breve se terá de optar, lá isso é certo.
  6. Mais uma vez se remete o leitor para a data em que foi escrita a carta, e se lembra que era Presidente da República Ramalho Eanes, um homem que pisa bem todos os tabuleiros do xadrez político. Não é simples peça decorativa, contrariamente ao que muitos julgam, e não há que admirar se ele voltar à ribalta política, agora que é apoiado pelo bastião de um liberalismo que se diz católico --- Opus Dei. Liberalismo católico é como democracia-cristã: uma contradictio in terminis. Assim como o cristianismo não pode ser democrático, também o liberal não é católico. Serão democratas, uns; liberais, os outros; e até os há que são ambas as coisas. Mas de cristãos e católicos, só a capa. O liberalismo, em economia, dá o capitalismo: daí que Ramalho Eanes possa vir a ser a figura viva da sujeição da nossa Pátria à plutocracia mundial!


JMC

quarta-feira, 11 de julho de 2012

MERCENÁRIOS DA GUERRA E MERCENÁRIOS DA LEI


A 27 de Julho de 1974, António de Spínola, então Presidente da República, assinava uma lei onde se dispunha que «o princípio de que a solução das guerras no ultramar é política e não militar, consagrado no n.º 8, alínea a), do capítulo B do Programa do Movimento das Forças Armadas, implica, de acordo com a Carta das Nações Unidas, o reconhecimento por Portugal do direito dos povos à autodeterminação.» A lei continuava, estabelecendo que «o reconhecimento do direito à autodeterminação, com todas as suas consequências, inclui a aceitação da independência dos territórios ultramarinos e a derrogação da parte correspondente do artigo 1.º da Constituição Política de 1933.» E terminava, selando a traição nos seguintes termos: «Compete ao Presidente da República, ouvidos a Junta de Salvação Nacional, o Conselho de Estado e o Governo Provisório, concluir os acordos relativos ao exercício do direito reconhecido nos artigos antecedentes.»
Agora que se aproxima o dia em que mais um ano passa sobre tão criminosa decisão, pareceu-me oportuno colocar neste blogue uma peça de minha autoria, escrita quando ainda corria o ano de 1972 (o texto, fora alguns retoques de ordem formal, reproduz a versão originária) (1).
Nas linhas que seguem, vê-se como o inimigo, de portas adentro, já açacalava os grifos!


Quem não foi, pela tarde do dia 5, ao 1.º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, perdeu um espectáculo magnífico. Teria ouvido falar o célebre Dr. Manuel João da Palma Carlos, figura notabilíssima nos meios jurídicos e cuja fama, até há muito, se estendeu pelos mais diversos cantos.

Que bem falou ele! Sobretudo que argúcia na sua argumentação, que coerência no seguimento das suas afirmações, que pureza de juízos e de princípios, que limpidez de voz e de sentimentos, enfim, que prodígio!

Por seu intermédio, tomaria conhecimento de que aos territórios portugueses de além-mar não cabe outra designação que não seja a de. colónias, qualificação banida há coisa de poucos anos por obra de uma simples penada. Causa, no entanto, estranheza que o Dr. Palma Carlos não tivesse completado o seu esforço louvável de fazer história político-constitucional. Esquecimento ou economia de tempo, com certeza.

E que dizer do entusiasmo que o mesmo senhor mostrou quanto à messiânica lei que passará a vigorar a partir de 1 de Outubro próximo? É também fruto de uma penada, mas a aparente contradição resolve-se se tivermos em conta o carácter íntegro e probo do ilustre causídico, muito acima da mais leve suspeita.

Teria notado, ainda, a fina diplomacia com que expressou ao Digno Promotor de Justiça o seu pasmo por o ver a ele, oficial do Exército, citar tantas vezes a lei, técnica que fatalmente empana o brilho e torna desnecessariamente morosa qualquer explanação perante a barra do Tribunal. Isto pode ser uma defesa, Senhor Dr. Manuel João da Palma Carlos! É que nem todos possuem como V. Ex.ª o privilégio de uma palavra que não conhece o caminho do sofisma, de um raciocínio que poderia pecar por tudo menos por ser falacioso.

Igualmente tocante a compaixão que mostrou pelos Juízes, obrigados a debruçarem-se sobre um caso já apreciado. E então numa pessoa que, como ele, nunca interpôs recursos nem apelou de sentenças, não só é tocante como justo.

Mais à frente ficaria a saber que o Dr. Palma Carlos nutre pelo Réu uma admiração muito especial, por ter este provado não ser da estirpe de um Murupa nefando e de alguns outros «que contra suas pátrias, com profano coração se fizeram inimigos.» Creio, todavia, ser lamentável a escassez de referências e penso, seriamente, que o Réu ganharia francamente mais, se houvessem sido recordados nomes como os de Henrique Galvão, Humberto Delgado, Mário Soares, etc.

E, por fim, talvez não conseguisse dominar uma lágrima rebelde que teimasse em lhe saltar aos olhos, disfarçar um frémito de emoção que lhe percorresse o corpo, ou manter a serenidade repelindo uma onda de pavor, conforme a formação e sensibilidade que possuir, ao ouvir as derradeiras palavras do Dr. Palma Carlos. Simplesmente arrebatador, quando voltado para os Juízes, lhes lembrava a grave responsabilidade que é o julgar, porque muitas vezes, na ocasião em que menos se espera, podemos ser todos réus da História.

Desfecho condigno de uma dissertação forense!


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Senhor Dr. Manuel João da Palma Carlos, palavra que gostei de o ouvir! Falou fluentemente, V. Ex.ª, o que não quer dizer profundamente. Mas, nesta era de filmes de tese, livros de tese, colóquios de tese, é bom desanuviar.

Espero, contudo, que levará por bem que me alongue um pouco mais. Deixei propositadamente para esta altura, pela natureza delicada de que se reveste, um ponto que V. Ex.ª tratou:

V. Ex.ª considera o Réu idealista. E como isto é predicado que merece aplauso está também V. Ex.ª de parabéns. Com efeito, só espíritos broncos dirão que V. Ex.ª age nesta conjuntura, como de resto em todas as outras, por dinheiro, honra ou glória; só gente mesquinha se comprazerá em não acreditar que foi V. Ex.ª impelido para esta árdua e espinhosa missão, como o tem sido para todas as da sua carreira, levado apenas por um entranhado amor à Justiça. Neste passo, sossegue pois V. Ex.ª, e declare-se totalmente identificado com o Réu.

Senhor Dr. Manuel João da Palma Carlos, ninguém ignora que o Réu aprendeu nas escolas de Fidel e do próprio Che, uma gente em cuja boca andava e anda o grito de «Vitória ou Morte!» Repare V. Ex.ª que é ele, são eles que nos dão as regras. Sob esse aspecto não os podemos acusar de serem traiçoeiros.

Li há meses o seu opúsculo Perigo e Honra de ser Advogado. Sinto-me irresistivelmente tentado à seguinte conclusão: há, na realidade, um ou outro advogado a quem não cai bem a veste talar; melhor fora que lhe chamassem arlequim togado.

É chegado o momento de terminar. À semelhança do imortal poeta açoriano, quando escrevia Bom Senso e Bom Gosto, lamento não poder assinar, como desejava, nem admirador, nem respeitador. Aqui começa e aqui finda, porém, toda a semelhança, porque nem eu devo ser comparado a Antero, nem V. Ex.ª se confunde com Castilho.


Joaquim Maria Cymbron
 
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  1. Política, II Série, n.º 2 --- 16 a 30 de Junho de 1972
  2. JMC

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

UM DEPOIMENTO LÚCIDO


O texto que segue mostra como o Miguelismo não deve entrar em contubérnios de espécie alguma. Só alça voz por quem unir a legitimidade de exercício à legitimidade de origem; para os cortesãos, guarda uns títulos como guloseima que se dá às crianças mimadas e rabugentas. Há-os de todas as cores, desde o baronato ao marquesado e ao ducado, não deixando no esquecimento condes nem viscondes.
JMC  

 
"Há já muito que penso fazer aqui uma pequena publicação relativa à saída de um administrador e consequente saída (voluntária ou não) de um número elevado de membros.

A razão da saída do J M Cymbron, de quem sou amigo e admirador, deveu-se à presença neste grupo de ortodoxos. Poder-se-à julgar excessiva a atitude do JMC, mas analisemos.

Este grupo reveste-se de um certo secretismo, não é de acesso público. Cremos assim poder ter alguma privacidade nas nossas observações e, quem sabe, acções - existe portanto uma vontade política. Caso contrário seremos considerados uns tertulianos que gostam de exibir a sua sabedoria e apresentar magníficas citações de autores que todos admiramos.

Estando já na esfera política e, esperava e espero, da actividade política pública, é obrigatória a coerência entre o ideário e as acções.

Uma vez que temos tantos amigos carlistas connosco, decidi ir ao ideário da CTC - Dios, Patria, Fueros, Rey - foquei-me só na primeira parte:

" Dios

I. El Carlismo proclama como base sustancial de su Ideario político su fe en Dios Creador, Señor y Legislador tanto de los individuos como de las sociedades; en la Realeza de Jesucristo, fundamento de toda legítima autoridad, y en la Iglesia Católica, por El fundada, única verdadera.
 
II. En su consecuencia, asume el Derecho Público Cristiano integrado por el Derecho Natural, la Revelación y el Magisterio de la Iglesia, al que, bajo su exclusiva responsabilidad, ajustará sus normas de gobierno.
 
III. Por ello el Carlismo, consecuente con el ideal de NADA SIN DIOS proclama que no sólo al hombre sino también a toda organización social o política alcanza la obligación de cumplir los deberes para con Dios y con la Religión verdadera, por lo que el Estado debe:
 
a) Reverenciar públicamente a Dios como Supremo Señor y Legislador y profesar la Religión Católica, única verdadera y que además ha sido elemento determinante de nuestra nacionalidad, vínculo supremo de unidad de los pueblos hispánicos e ideal de su proyección en la historia universal.
 
b) Conformar las leyes y actos de gobierno a los principios naturales y cristianos enseñados e interpretados por el magisterio auténtico de la Iglesia Católica, procurando la instauración de estructuras políticas y sociales que, sirviendo al bien común temporal, faciliten al hombre la consecución de su fin último sobrenatural.
 
c) Preservar la general creencia religiosa del pueblo español frente a los ataques que puedan menoscabarla, sin perjuicio del debido respeto a los legítimos derechos de la persona y de los criterios que se deriven de las realidades sociológicas de la nación y en última instancia del bien común de los españoles y de la Iglesia Universal.

IV. El Estado y la Iglesia, como sociedades perfectas y soberanas en sus respectivos órdenes natural y sobrenatural concordarán, mediante los protocolos e instrumentos jurídicos idóneos sus mutuas relaciones y su respectiva intervención y competencia en aquellas materias en las que confluyan aspectos e intereses temporales y sobrenaturales."
 
Para eles, como para nós, a Igreja Católica é a única e verdadeira. Assim sendo, como pode um grupo tradicionalista português ter nas suas hostes um Bispo Ortodoxo? É este um grupo um movimento ecuménico? Revestimo-nos da armadura da Fé, da Honra, da Seriedade e atraiçoamos os nossos princípios por motivos de simpatia ou cordialidade.

Mais há a dizer: a quantidade nunca foi sinónimo de qualidade. Exibe-se aqui perante uma plateia que já é considerável uma série de frases ou textos lapidares que muito aplaudimos. Achamos que é bem, tradicional, português, legítimo! Quantos membros andam por aí a ostentar a bandeira que traíu o Trono verdadeiro. Mais uma vez virá a explicação que há que cativar esses para as nossas hostes, e eu pergunto, o que se fez nesse sentido?

Existe entre nós uma enorme confusão entre ser tradicionalista e conservador. O Tradicionalismo, que penso ser o que nos une, não é usar um bigode enrolado, ir aos toiros, ouvir fado e dar vivas ao Rei. E isso tem que ficar cabalmente explicado. Aquele a quem é atribuída a pretensão ao Trono está neste momento envolvido num esquema maçónico gravíssimo, nega o Legitimismo, nega o seu passado e o seu Sangue! Alguma vez foi levantada a questão neste grupo?

Escrevi porque creio que poderá estar a chegar a oportunidade de oiro para nos afirmarmos e lembrar às pessoas que existe outra via além do capitalismo e do comunismo! Creio que chegou a hora de nos decidirmos e definirmos!

Recebei um abraço em Cristo-Rei."

João Dias Coutinho