quinta-feira, 20 de abril de 2017

PÁSCOA LIBERTADORA

 
Se houve períodos na nossa história, em que a grei portuguesa parecia sumir-se, perdido o rumo e interiormente possuída de uma hostilidade muda, mas nem por isso menos destrutiva, o tempo que vivemos, desde o 25 de Abril até hoje, é certamente aquele no qual a esperança num porvir de justiça e de paz está cada vez mais afastada.
 
Como ficou dito, além de uma aflitiva desorientação, volta a sentir-se uma hostilidade muda: porque é muda, não se ouve; mas, por ser intensa, também não passa despercebida. Por enquanto, o sangue ainda não jorrou em correntes de largos caudais, lembrando episódios funestos do nosso passado. Mas nem por isso nos podemos julgar a salvo desse flagelo, porque se o que temos não traz já as mágoas que formam o cortejo de um enfrentamento armado, é indubitável que provoca danos pelo menos tão dolorosos como se houvesse estalado um conflito bélico. É uma fatalidade, mas é, ao mesmo tempo, um desfecho natural e até lógico, porque essas reacções são a chave dos problemas criados pelas indefinições e pelos erros da política. Na realidade, quando tais indefinições e tais erros se mantêm teimosamente, por enquanto não existe outro remédio contra o mal a não ser o recurso a esses meios.    
 
São, pois, cinzentos os dias do presente. Brada-se (às vezes, mais que vozes humanas, há a impressão que se ulula), grita a multidão, frise-se de novo, que muitas coisas vão mal, mas que se goza a felicidade suprema da liberdade. Surpreendentemente, isto parece bastar-lhes. O que as turbas alucinadas por esta miragem não conseguem, é explicar de que lhes serve uma tal liberdade, quando apesar dela se mostram ineptas para  usufruir aquilo que ambicionam, e continuam privadas do que lhes cabe com lídimo direito. E que liberdade é essa assim uivada? --- É um título oco que permite a cada um rebaixar a sociedade a plano igual ao de uma imensa latrina, na qual se despeja como se quer e quando se quer toda a espécie de imundícies.
 
A verdadeira liberdade de modo algum se há-de confundir com a via que leva à profunda cloaca em que se vai transformando uma Pátria, abnegada e de recta intenção, como foi a nossa. Não é fenómeno exclusivo de Portugal, porque o mal não nos afecta só a nós. Bem pode dizer-se que é geral. Mas a nós, Portugueses, o que deve interessar, em primeiro lugar, é o caso nacional. Com todos os desvios e infidelidades em que infalivelmente cai o que é humano (e as Pátrias outra coisa não são do que um aglomerado de homens ao longo de sucessivas gerações), apesar dessas falhas, repita-se, no velho Portugal tinha-se uma correcta noção de liberdade, conquanto, como se acabou de referir, nem sempre se lhe seguisse uma aplicação condizente. Liberdade, a autêntica, não pode estar imóvel enquanto estivermos em estado de peregrinação, porque o seu conceito nunca pode andar desligado da nossa vocação sobrenatural; liberdade, esse precioso valor, há-de entender-se como o cume atingido por quem busca a santidade. Este percurso ascético, enquanto dura, é a liberdade que cresce. Quando essa liberdade em movimento dá entrada na Glória, aí temos a liberdade definitiva, porque é a liberdade da bem-aventurança, uma liberdade-resumo da caridade que, na sua catequese, já o Apóstolo pregava1. E porque do magistério de S. Paulo também se tira que a caridade não terá fim2, eis aí a razão para chamar definitiva à liberdade que aqui se aponta como a única digna de se observar.
 
A fonte dessa liberdade não a conseguiremos achar fora de Jesus. A Cristo ficámos devendo o nosso resgate. Daqui resulta que, resgatados, nos tornámos livres. E, nesta condição, fujamos do pecado para não nos atolarmos outra vez na servidão em que jazíamos3. Aquele que peca, se persistir na impenitência, rouba eficácia a um sacrifício que foi universal na sua suficiência. Ao imolar-Se, o nosso bendito Salvador cumpriu, em toda a sua plenitude, a vontade salvífica de Deus Pai que abrangia o género humano, por inteiro. Esquecê-lo é a mais pavorosa das ingratidões, e o desgraçado, que o fizer, atrai sobre ele a maldição eterna4!
 
A liberdade, que gozamos, a verdadeira liberdade, embora nalguns momentos nós próprios nem dela tenhamos consciência, essa liberdade rejeita a divindade falsa que informa a liberdade democrática, esse ídolo triunfante dos tempos actuais e cujo culto, que não é de hoje, há muito que vem fazendo estragos. Viveu oculto, e permanece sem desvelar por completo o seu rosto humano. Isto não o impede de se expandir e ganhar volume, de tal forma que vem de molde afirmar não haver povo que escape aos seus efeitos desastrosos, e que o mundo, na quase totalidade senão mesmo em toda a sua extensão, se inclina reverente e submisso diante do moderno ídolo que a democracia constitui. Essa pérfida divindade, que talvez  com direito muito próprio se apressa já a recolher as libações reservadas à Besta nos tempos apocalípticos, esta deusa também ela embriagada nos vapores das bebidas com que os seus partidários a vitoriam, fez subir a autonomia da vontade humana a um grau apoteótico. Pese embora as palavras seguintes venham a soar com aspereza aos ouvidos dos que queimam incenso nas aras deste culto perverso, a que alguns teimam em atribuir proporções religiosas, o facto é que não está o Bem onde cada um quer colocá-lo, antes o devemos procurar fortalecidos por uma  inteligência rectamente ordenada, que nos descobrirá a Verdade e, com ela, o Bem que sempre a acompanha5. Então, sim, já a vontade não só pode como também deve querer o que a mente lhe indicou como certo. Por outras palavras: não é o apetite o caminho último para o Bem, mas sim o laço que une o sujeito cognoscente àquilo que o deleita. Só isto já marca uma grande diferença; falta lembrar a exigência de licitude no que foi apetecido, na ausência da qual, o que houver será apenas uma aparência de Bem!
 
Pasma ver como há quem, depois de entoar um hino à liberdade que  conhecemos por revelação divina e pelo raciocínio, queira associá-la à democracia, estreitando-as num abraço impossível de dar-se. As notas distintivas da democracia são a negação do que aqui se defende, e não se encaixam, de modo nenhum, no essencial da manifestação daquilo que é a liberdade. Que seja democrata qualquer um quanto lhe der na vontade, é uma escolha ditada pelo seu livre arbítrio que nada tem a ver com a liberdade como ela aqui é exposta. Mas, por amor de tudo o que se chama coerência, não se pretenda ligar duas coisas separadas por um divórcio tão fundo como o que corre entre as duas: era o mesmo que juntar água e azeite. Desista-se, pois, do propósito de casar democracia com a legítima liberdade: seria antinatural esse conúbio. Divide-as um repúdio mútuo que é intrínseco e, portanto, insanável. Diz-nos a própria razão que ao Bem só corresponde o que é verdadeiro, assim como a Verdade apenas compreende o que é bom6. Ora a democracia não é verdadeira, sendo inclusive uma das mais grosseiras mentiras do pensamento: logo, está desprovida de Bondade!
 
A economia da Salvação é toda ela uma torrente de prodígios que formam o maior tesouro da humanidade. Porém, um momento há, com base no qual não será ousado proclamar que esse é o instante onde está gravado, com maior nitidez, o mérito da liberdade alcançada por Cristo a nosso favor. Acontece no Calvário, quando Jesus, a ponto de morrer, exclama: «Eli, Eli, lamma sabacthani7 O génio de Bossuet legou-nos um retrato de extraordinária beleza, a propósito desta sublime passagem das Sagradas Escrituras: «(…) pendant qu’il délaisse son Fils innocent pour l’amour des hommes coupables, il embrasse tendrement les hommes coupables pour l’amour de son Fils innocent.»8 Entra a democracia em cena e faz o que costuma: vira tudo do avesso. Por isso, repele este generosíssimo dom e dá corpo ao paradoxo que nos desumaniza: embora desempenhe esta missão sem confessar os seus intentos, ela veio para açoite indiscriminado de culpados e de inocentes por amor ao mistério da iniquidade! No turvo panorama que se estende ante os olhos, não repugna crer que é a democracia o justo castigo pelo pecado social. O fogo, que reduziu a cinzas Sodoma, nem dez justos encontrou e, por isso, a cidade não foi poupada9. Quantos justos são hoje precisos para que se afaste o flagelo democrático?
 
Porquê este discorrer simultâneo sobre liberdade e democracia, se tão antagónicos são os conceitos que ambas encerram? É exactamente este antagonismo recíproco que aviva a cor de uma e de outra: deste contraste, saem muito mais claras as características de cada uma, na sua relação de oposição. Temos, por conseguinte, que a liberdade nos resgata da morte do pecado para uma vida de graça, ao passo que a democracia, mergulhada num feroz apriorismo de matriz kantiana, desenvolve o absurdo do relativismo até extremos catastróficos e, deste modo, sufoca no homem o que nele há de mais valioso --- o espírito.
 
A Páscoa cristã tornou-nos livres da escravidão a que ficámos sujeitos pelo pecado original; a democracia precipita-nos num reino confuso, em cujos domínios não há farol de luz pronto a iluminar o caminho, e que houvesse, de pouco adiantava porque, dado o que precede, é cego quem nos guiaria nesse terreno.
 
Nas convulsões, que ameaçam tragar-nos, será que a paz ainda é possível? E que  categoria de paz nos pode calhar? A pergunta é pertinente porque envolve questão aqui tratada. Realmente, é a paz um bem apetecido por todos. Onde não há unanimidade, é no tipo de paz desejada. A este respeito, ensina S.to Agostinho: «Pax omnium rerum, tranquillitas ordinis10 É, porém, concebível uma tranquillitas ordinis fora do que é justo? Parece bem que não, porque de contrário teríamos que desejar, como paz, o silêncio dos cemitérios, espaço ocupado pelas sepulturas dos mortos e onde reina a quietude para os que lá descansam. Não é esta propriamente a paz por que suspira a sociedade política. Se a tranquillitas ordinis não pode conseguir-se separada do que é justo, eis-nos regressados ao ponto de arranque: bom só o verdadeiro; e o que é verdadeiro, é justo. Dá isto que a paz para ser boa tem de ser verdadeira, coisa que a democracia é incapaz de  oferecer porque não sabe o que é a Verdade.
 
O relativismo democrático, como vem sendo dito, misturou querer com saber e, logo a seguir, subordinou o saber ao querer, deste modo invertendo a ordem natural que sobrepõe a Verdade à vontade11. Operada esta subversão pela doutrina democrática, viu-se cada membro do corpo político arvorado em dono de uma verdade que se choca com a dos outros, conflito que vem a ser solucionado por umas banais contas de somar: a vontade da comunidade é apurada pelo resultado desta adição, e o lado que reunir o maior número de sufrágios é aquele que se identifica com a verdade democrática. Daqui se extrai uma lição: não vale a pena que nos esfalfemos a moldar o nosso pensamento à Verdade. Para quê esse esforço? --- Limitemo-nos a querer e, se houver oposição, a aritmética resolve o caso. Magnífica ideia, não tem dúvida: os frutos estão à vista!
 
«Ego sum uia, et ueritas, et uita12 Estas palavras de Cristo, na despedida aos discípulos, dizem tudo. Ninguém vai ao Pai a não ser por Ele. De todos os sistemas de pensamento, que os homens levantaram, o mais próximo da verdade evangélica é o que foi erguido pela filosofia escolástica. A Igreja Católica chama-lhe filosofia perennis. Ela é, por certo, a base mais bem estruturada de um sistema de pensamento perfeitamente conforme à natureza da razão humana. E é nos primeiros princípios metafísicos, tal como os enuncia esta filosofia perennis, que vamos ler a condenação da democracia.
 
 Páscoa, 2017
Joaquim Maria Cymbron
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1.      Gal. 5, 13.
2.      I Cor. 13, 8. Quadro esplêndido desta perícope paulina é dado na Divina Commedia, quando o seu autor nos transmite que o reino dos Céus «(…) violenza pate / da caldo amore e da viva speranza, / che vince la divina volontate, / non a guisa che l’omo a l’om sobranza, / ma vince lei perchè vuole esser vinta, / e, vinta, vince com sua beninanza.» (PA 20, 94-100).
3.      I Cor. 6, 12.
4.      A ideia de condenação assinada pelo florentino Dante, no mesmo imortal poema, assume uma magnitude poética conjugada com uma raríssima precisão teológica que, por felicidade, se ajustam maravilhosamente ao defendido no texto. São estes os versos de encantamento: «Giustizia mosse il mio alto fattore / fecemi la divina potestate, / la somma sapienza e’l primo amore.» (I 3, 4-7).
5.      São Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica I, q. 16, a. 4 ad 1; q. 59, a. 2 ad 3; q. 79, a. 11 ad 2; q. 82, a. 4 ad 1; q. 87, a.4 ad 2.
6.      Ib.
7.      Mt. 27, 46.
8.      Sermon sur la Passion de Notre-Seigneur, 2.nd point.
9.      Gen. 18, 32; ib.: 19, 12.
10.  De Ciuitate Dei, XIX, 13, 1. A mesma lição já saíra da boca do profeta Isaías: «Et erit opus iustitiae pax, et cultum iustitiae silentium, et securitas usque in sempiternum.» ( Is. 32, 17).
11.  O nosso Épico, em pura consonância a uma correctíssima filosofia dos valores, escrevia: «Vê, enfim, que ninguém ama o que deve, / Senão o que somente mal deseja.» (Lus. IX, 29, 1-2.
12.  Io. 14, 6.
JMC