sexta-feira, 10 de abril de 2009

INFIDELIDADE





Pai! Pai! Porque foi que me abandonaste?
Perguntava Jesus, na agonia,
Daquela acerba hora, que vivia,
Sem que por isso o Pai a dor lhe afaste.

O sangue divino que derramaste,
Foi sumo tributo que redimia
A pobre humanidade, que sofria,
Escrava do pecado que pagaste!

Assim o eterno Pai ao Filho amado,
Revelava o porquê alto e profundo,
Pelo qual O havia abandonado.

Exulte-se, pois! Triste, o maior dó
É o de quem pergunta, lá no fundo:
Pai! Porque te terei deixado só?


Semana Santa, 2009


JOAQUIM MARIA CYMBRON

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A PÉROLA DA CONSTITUIÇÃO

A Constituição da República Portuguesa tem um preâmbulo que é conhecido do público, mas não é verdadeiro. O autêntico é uma pérola bem guardada de olhos profanos. Nada mais justo, hoje que se cumprem 33 anos sobre a data da sua consagração democrática, que se revele a jóia mais preciosa da coroa republicana.

Entendo que esta homenagem é devida a tão augusta soberana!

A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Antiportuguesas, aproveitando a proverbial paciência do povo português e falseando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime farsista.

Procurar lançar Portugal na pior das ditaduras, na opressão e em colónia do estrangeiro representou uma transformação revolucionária e o início de uma traição histórica de que foi vítima a sociedade portuguesa.

A Revolução não restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No esbulho destes direitos e liberdades, os ilegítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma aberração que corresponde às aflições do País.

A Assembleia Aberrante contraria a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos e estabelece os princípios deletérios da democracia, assegura a catástrofe do Estado de Direito democrático e abre caminho para uma sociedade socialista no desrespeito do interesse do povo português, tendo em vista a construção de um país mais escravizado, mais injusto e mais carregado de ódios.

A Assembleia Aberrante, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, aprova e decreta a seguinte Aberração da República Portuguesa.

O descodificador,

Joaquim Maria Cymbron

terça-feira, 3 de março de 2009

CANCRO SOCIAL


 O texto, que segue, foi parcialmente extraído de um artigo meu publicado num jornal diário de 11AGO82 e s.


O poder é! E o poder que é chama para a governação pública quem quer e como quer:
 
Aqui convida um número restrito; além, um mais alargado. Agora, dá-lhe força deliberativa; mais adiante, só lhe concede valor consultivo. Congeminações à volta deste assunto, que se ocupem em procurar como deveria ser aquilo que é e deixem de analisar o que é, constituem o passatempo de especial predilecção dos democratas, os quais não chegam a elaborar nenhuma construção porque se explicam com o explicando e dão o explicando por explicado.
 
Na prática e na doutrina, a Democracia é qualquer coisa de farisaico e disforme:
 
No dia a dia, ela é para os povos a política em latim, política que muitos governantes só incipientemente articulam e alguns até fazem dela uso em calão. Isto é ainda mais aflitivo quanto é certo que hoje se mergulhou numa pavorosa indigência intelectual. Este quotidiano da Democracia aproveita apenas aos excepcionalmente dotados, que se servem sem servir. E é tanta a impudência que o sistema se diz do povo, pelo povo e para o povo.

Nas suas linhas teóricas, a Democracia é a apoteose do despautério. Com efeito, só a Verdade, diligente e rectamente procurada pela inteligência, Verdade a que a vontade adere pelo Bem nela contido, só a Verdade, repiso, assume o direito de orientar os homens e, com eles, os povos. A obediência cega da vontade ao sabor dos apetites desordenados significa, pelo menos, o reinado inconsciente do capricho.
 
O que vai contra a Verdade é o erro, maior ou menor, mas sempre erro. E assim uma proposição pode estar conforme à Verdade ou afastar-se dela. Suponhamos, então, que uma comunidade é chamada a pronunciar-se sobre dada coisa, que se submete à sua apreciação, e a fazê-lo em moldes democráticos, onde o justo se confunde com o que é querido:

Como quot homines, tot sententiae, há de assistir-se a um destes possíveis resultados: o Bem será ténue quando for escassa a vitória nas urnas; se ela é folgada, então aumenta a certeza de que é bom o sufrágio obtido; sempre que o escrutínio apontar para maiorias esmagadoras, aí veremos uma imensa Bondade; por fim, se não houver um só voto destoante, estaremos perante o Bem absoluto! Como monumento ao furor de cérebros transtornados pela maldade ou ao estupor pasmoso que a imbecilidade cria, não se pode exigir mais!
 
Este é o regime que vigora em Portugal.Vejamos ao que nos levou:
 
Tirando a crise de 1383-1385, que foi um marco excepcional porque se assistiu a uma reacção estuante de força, vai-se ouvindo, hoje como sempre que Portugal ameaçou extinguir-se, a jeremiada que é costumeira. Agora que de novo se mandam celebrar exéquias como se a Pátria morresse às ordens daqueles que se pranteiam, em vez de levar o luto aos traidores; quando tantos desesperam parecendo esquecer que, numa nação tão antiga, alguns anos bem se podem considerar um simples momento, agora mais do que nunca é que todos devemos guardar lucidez.
 
Não compreendo, melhor, revoltam-me os responsos fúnebres que se escrevem e se gritam por Portugal. Esses hinos chorosos partem de gente que se julgou salvadora da Pátria, uma salvação que se daria num abrir e fechar de olhos. Mas uma nação não se resgata de um dia para o outro; redime-se quando Deus o decreta e se assim estiver nos Seus insondáveis desígnios. Quanto a ser-se salvador da Pátria faz-se mister um estofo que esses, que se arvoraram em paladinos de Portugal e lhe passaram depois certidão de óbito, tinham de demonstrar que possuíam.
 
Uma coisa provaram sobejamente: mostraram não ter fé. E sem fé não se vai longe. Nem sequer falo da fé, virtude teologal que só a caridade supera, como nos ensina S. Paulo (1). Esse seria o dom excelente, mas aqui eu reporto-me apenas àquele sentimento que enche o peito dos que crêem nos princípios e nos objectivos, que lhes inculcam, sem indagar razões, tipo de mística defeituosa, mas, de qualquer forma, mística, força que os empreendimentos de vulto reclamam.
 
Esta mística é a mística da Revolução e, em parte, daí a explicação dos seus êxitos. Veja-se o exemplo dos comunistas e porventura se compreenderá algo do que eu pretendo dizer.
 
Só a perseverança, nuns casos, ou a obstinação comedida, noutros, importam. Apenas os animados de fortaleza e recta inteligência ou os obcecados em quem luza algum talento, e haja neles, por paradoxal que pareça, um fundo de equilíbrio, só esta gente deixa rasto. É a massa que solta os grandes facínoras, mas de onde também rompem os heróis, essa espécie de semideuses do paganismo como já os entendia a mitologia grega, e, na linguagem mais suave e quantas vezes mais sublime do catolicismo, ela dá os apóstolos, dá os mártires, dá os santos! Do resto, saem os homúnculos que, a par dos outros, são como anões ao lado de gigantes, pigmeus aos pés de uns colossos, formam enfim o cortejo da mediocridade que não conta. A mediocridade é timbre das maiorias e pesa unicamente na heráldica das democracias.
 
Eis algumas razões por que disse não compreender, revoltar-me e, acrescento-o agora, repudiar a litania plangente, pouco honrosa e, ao mesmo tempo sem base inilidível que se anda entoando. Não nego que o horizonte é um horizonte carregado, em que as sombras se adensam e se não vê brilhar uma ponta de luz. Mas são sempre os homens de fé, pelo menos daquela fé de que há pouco falei, são esses que vão agarrar, no meio das trevas mais profundas, um fio que alumia a esperança. Essa esperança é preciosa num panorama tão turvo como é aquele em que vivemos.

Há quem se deixe entorpecer, fiando-se dos reveses, mais aparentes que reais, sofridos pelos comunistas em diversas paragens do mundo. Esta é a ideia criada na grande massa do povo, povo que constitui o trampolim do poder político porque é povo e não qualquer povo, mas povo soberano.
 
A convicção, de que o comunismo é um perigo ultrapassado, reflecte um pensamento, que não só é insubsistente como também assume foros de perfeita loucura. Com efeito, pouco haverá tão contrário à verdade da vida política. A Democracia, nos nossos dias, alastrou bastante e tornou-se quase geral no concerto das nações mais influentes na marcha das sociedades humanas. Não é de hoje, nem foi ontem que os comunistas se habituaram a conviver com a Democracia. E se é inegável que aspiram ao seu derrube, não é menos certo que só lançarão o ataque decisivo quando estiverem seguros da conquista do poder, preservando até lá o sistema democrático com um zelo inexcedível por motivos mais que evidentes: «A história conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia proletária, que vem substituir a burguesa», escreveu Lénine (2).
 
Ex absurdo sequitur quodlibet. Este princípio, válido para a lógica, aplica-se também à prática da política. Sei que a teoria dos quanta, sustentando as relações de incerteza nas próprias leis físicas, já sepultou Laplace. Não há determinismo total no mundo cósmico, muito menos nas acções humanas. Mas não há dúvida que cada um de nós constrói o seu destino. E aqui importa não perder de vista que o assalto ao poder político depende da decisão e da combatividade de quem o cobiça.
 
Neste campo, os comunistas são exímios. Estão integrados numa organização de estrutura férrea. De uma rigidez notória na teoria que professam, na táctica são de uma flexibilidade admirável. E com o seu relativismo moral, recorrem a todos os meios para lograr os fins pretendidos, lançam mão de quanto podem, não hesitam um minuto na escolha de processos desde que adequados à realização dos seus intentos. Portanto, o seu valor é de temer e será insensato quem o despreze.
 
À carneirada, os comunistas preferem uma vanguarda de qualidade: o resto vai atrás! «O exército, consequentemente, era já por volta de Outubro-Novembro de 1917 meio bolchevique», palavras de Lénine, o qual, logo a seguir, confessa que «sem isso não poderíamos vencer.» (3).
 
Meditemos sobre isto; proceda-se aos ajustamentos impostos pelo caso português; e que a lição nos sirva. Os comunistas terão muitos defeitos, mas, entre essas falhas, por certo que não se conta a leviandade. Minimizar as manobras comunistas é de uma ingenuidade ou de uma maldade que ultrapassa o admissível; considerar aventureirismo, como muitos fazem, o comportamento daqueles que, demarcando-se do blanquismo, entendem que «não se pode permanecer fiel ao marxismo, permanecer fiel à revolução sem tratar a insurreição como uma arte», como é lembrado por Lénine (4), olhar pois os comunistas como Quixotes desvairados em busca de encantadas Dulcineias, se não é uma requintada infâmia, é pelo menos risível!


Joaquim Maria Cymbron

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  1. 1 Cor. 13, 13.
  2. A revolução proletária e o renegado Kautsky, Obras Escolhidas, III, Edições 'Avante!', Lisboa e Edições Progresso, Moscovo, 1979, p. 15.
  3. As eleições para a Assembleia Constituinte, ib., p. 233.
  4. O Marxismo e a Insurreição, ib., II, 1978, p. 312.
JMC

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ESPANHA, 23-F


Sempre defendi o dualismo peninsular. As razões, ainda recentemente as apontei. Mas também nunca deixei de reconhecer o impressionante paralelismo existente entre a história de Portugal e de Espanha.

Hoje, limito-me a remeter para o
depoimento notável de um carlista, espelho da tenacidade de uma juventude integrada numa dinastia de combatentes com 175 anos de luta em defesa da Tradição.

Deus permita que, entre nós, mais soldados se juntem às honrosas excepções que vão surgindo na gente moça que levanta a bandeira da legitimidade.


Joaquim Maria Cymbron

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A RESPONSABILIDADE DE SER CATÓLICO


A carta aberta aos deputados do meu país é um documento apreciável. Mas nela há um trecho que não posso deixar passar sem reparo:

Encontra-se ele quando a autora, ao mesmo tempo que elogia o Grão-Duque do Luxemburgo pela sua recusa em sancionar, naquele país, a lei que autorizava a eutanásia e o suicídio assistido, escreve, a respeito daquele soberano, que «não é por ser católico que assim age, porque o direito à vida é de ordem natural e a eutanásia é tão reprovável para o cristão, como para o pagão.» (O negrito é meu).

É verdade que a eutanásia devia ser condenável aos olhos de qualquer homem e que o pagão pode ter disso uma noção clara, mostrando-se até muito mais fiel a este princípio do que aquele que se diz cristão. E isto porque o direito à vida é, de facto, um imperativo que decorre da lei natural!

Simplesmente, a lei natural, como a definia S.Tomás de Aquino, é «participatio legis aeternae in rationali creatura (...)» (1). Ora a lei eterna é aquela que existe na mente divina, desde toda a eternidade. E foi em Jesus Cristo e pelos seus Apóstolos que nos foi revelada.

Quando votei contra a despenalização do aborto, fi-lo como ser racional, mas fi-lo também como crente da religião que professo (2).

O Grão-Duque do Luxemburgo, sendo católico, quando se negou a assinar a lei iníqua, votada no seu país, deu testemunho, por obras, da sua fé católica.

Há uma coisa curiosa que tenho de registar, antes de terminar:

Se o Grão-Duque tivesse ratificado a lei, certamente não faltaria quem erguesse a voz perguntando: E é isto um católico?

O escândalo seria então legítimo. Porquê, pois, deixar no olvido a sua condição de católico, quando se mostra à altura dela?


Joaquim Maria Cymbron
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  1. Summa Theologica q. 91, a. 2, ad 3.
  2. Col. 3, 17; 1 Cor. 10, 31.
JMC

sábado, 27 de dezembro de 2008

O GRÃO-DUQUE DO LUXEMBURGO

 
O Grão-Duque do Luxemburgo avisou que não assinaria qualquer lei que autorizasse a eutanásia e o suicídio assistido. A reacção logo se fez conhecer: o chefe do governo procurou modificar a Constituição, negando esse poder ao soberano.
 
Na Grécia antiga, Platão defendeu como necessário à cidade ideal que os filósofos reinassem ou que os reis fossem filósofos (1). Sábia máxima, que descobria uma nobre intenção: a aliança entre saber e poder.
 
Hoje, a mentalidade é de destruição: para que se acelere o caos, urge que os eunucos sejam reis ou que os reis acabem eunucos.
 
Os poucos, que resistem, são execrados pela plebe. Plebe é o clero, a nobreza e o povo em estado apodrecido!
 
Entretanto, os sinos das nossas igrejas estão prontos para tocar as festivas notas que anunciam o nascimento do Salvador. Em qualquer altura do ano, mas especialmente nestes dias, impõe-se que tributemos apreço e rendamos o nosso aplauso, a quem prova com tanta coerência a solidez da sua fé.
 
Não o detiveram respeitos humanos; não curou de saber o que iria agradar às paixões da turbamulta; nem recuou perante o risco de isso vir a custar-lhe os títulos deste mundo. Tomou a decisão que se exige a um católico.
 
Se nos lembrarmos que, nas suas veias, corre sangue do último Rei de Portugal, então a admiração, muito legitimamente, transforma-se em orgulho. E pode ele estar certo que foi digno do Rei-Confessor, seu Avô.

Joaquim Maria Cymbron
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  1. A República, Liv. V.
JMC

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

1.º DE DEZEMBRO


Tenho necessariamente de me regozijar por que haja datas que ainda congregam alguns Portugueses e despertam nas suas almas brios há tanto adormecidos no conjunto da grei à qual pertencemos. Mas lamento profundamente que não se dê o mesmo relevo a Aljubarrota e tenhamos deixado que a festa dos Combatentes do Ultramar caísse nas mãos do poder.
 
Portugal, como corpo nacional, surge em Guimarães; recebe os santos estigmas em Ourique; afirma as primícias da sua virilidade em Aljubarrota; revela-se ao mundo; cai em Alcácer-Quibir; levanta-se numa manhã de Dezembro; afugenta as águias napoleónicas; divorciam-no da fé em Évora-Monte, mas sangra ainda em África numa guerra de cruzada, até que o apunhalam pelas costas.
 
O tempo vai provando que Portugueses, vibrando com os feitos heróicos que recheiam a nossa história, não desapareceram. Mas aqui, usando o peso da experiência que os anos me deram e visto que os assuntos se ligam ratione materiae, aproveito para uma curta observação:
 
Todos temos o direito de manter viva a recordação de tantas efemérides que são caras ao sentimento nacional. São devoções patrióticas muito legítimas e, portanto, dignas dos maiores encómios. Porém, no momento que passa, o nosso amor, a nossa acção, os nossos esforços devem dirigir-se eminentemente para o que é essencial.
 
Nós, que há quase trinta e cinco anos, deixámos que a traição nos arrebatasse um império magnífico, sem que até agora se definisse uma estratégia de reparação do estrago causado, não podemos, antes de resolver esta magna questão, dispersar-nos com objectivos que, nada tendo de despiciendos, são, no tempo actual, perfeitamente secundários e alguns deles até conjunturais. Mais: mesmo que alcançássemos nesse campo os fins que todos apetecemos, nem por isso ficava a nossa independência assegurada, se as feridas abertas com a tragédia do Ultramar continuassem por sarar.
 
Perseguir a vitória, descurando a batalha principal que devemos travar, não nos dará o triunfo na guerra: provocará em todos a nostalgia de um passado que se queria restaurar, mas que a nossa imprevidência terá perdido. Até agora, a actuação que sai das nossas fileiras tem sido ineficaz, assistindo-se mesmo a comportamentos notoriamente infelizes.
 
O Ultramar foi a teleologia da nossa razão como país independente. Não devemos esquecê-lo! Se queremos sobreviver, não podemos pensar que o conseguiremos, ignorando a nossa vocação atlântica. E, em vez de nos virarmos para aí, na tentativa de repetir a epopeia que nasceu com Aljubarrota e foi enterrada às portas do Carmo, repeti-la obviamente com contornos distintos, porque, no mundo contingente, nada é inalterável, em vez disso, insisto, navegamos à beira da voragem de um mar, agora sim, verdadeiramente tenebroso, já que nos deixamos levar na onda de correntes anti-imigratórias, em proporções tais e com uns critérios de exclusão que comprometem uma história de mais de quinhentos anos, e consequentemente nos negam como povo.
 
Porque, para mim, a verdade nua e crua é esta: biologicamente, não temos raça; a nossa raça é uma identidade cultural e afirmou-se numa capacidade única de lidar com povos de todo o mundo, convivendo e cruzando-nos com eles.
 
Se reconquistarmos essa dimensão, então podemos cuidar de tantos casos que agora nos apoquentam e nos irão parecer aquilo que verdadeiramente são para uma nação forte e equilibrada --- episódios de importância relativa. Não defendo que então cedamos à tentação de os abandonar, por luxo ou comodismo, uma vez que a nossa existência colectiva os dispensa bem. Nem tudo é riqueza material; a dignidade também conta. Por isso é bom que, entretanto, se mantenha acesa a chama para que esses objectivos não sejam esquecidos. Mas a prioridade é sobreviver. E o caminho não está na Europa, permaneça esta unida ou rompa-se por completo.
 
Aljubarrota e Carmo são, conforme acima disse, os marcos da nossa gesta. Aljubarrota é a arrancada gloriosa; o Carmo guarda o registo do termo ignominioso. Aljubarrota e Carmo, dois nomes indissociavelmente ligados a Nuno Álvares Pereira, o Condestável que o povo português há muito canonizou. Corre a notícia de que, dentro de pouco tempo, este guerreiro formidável subirá aos altares.
 
Conheço quatro ocasiões em que se pode falar de nascimento: a primeira sucede quando a criatura humana vê a luz deste mundo; a segunda, no momento em que, pelo baptismo, se abre à vida da graça; a terceira ocorre à entrada da bem-aventurança eterna; a quarta dá-se assim que alguém é proposto como modelo a imitar e oferecido ao culto dos fiéis, através de uma declaração de santidade proferida pela Santa Madre Igreja.
 
Será a canonização formal do Condestável o sinal para o renascer de Portugal, a pátria terrestre que ele tanto amou? --- Queira Deus que este seja mais um milagre do novo Santo!

Joaquim Maria Cymbron