domingo, 24 de maio de 2009

PORTUGAL SEM RUMO



Texto substancialmente próximo ao publicado num jornal diário, de 4 de Setembro de 1981. 


Desonra, miséria e dor, eis o quadro de Portugal. E lembrando um dos mais conhecidos sonetos de Camões, eu direi que a miséria e a dor sobejam já que bastava somente a desonra para a perdição de um povo.

Portugal foi e terá de voltar a ser uma nação sacrossanta, merecedora de toda a reverência pela missão que ainda não completou, missão excelsa, missão que constitui a sua razão de ser, missão que não pode falhar. Hoje, anda perdido porque, há uma trintena de anos, o desviaram brutalmente do destino que o transcendia.

Quem são os agentes de tão vil atentado? --- Não perderei tempo a mencioná-los porque os autores materiais são do conhecimento público: homens despudorados, gente sem pundonor e sem brio, vendilhões da Pátria, concussionários de uma nação inteira, energúmenos a quem o seu democratismo (ou talvez por causa dele) não impede que se entretenham «(...) no ofício novo / a despir e roubar o pobre povo!» (1).

Passo, pois, por alto o nome de quem não carece de apresentação. Como responsável destes factos, poderia ainda apontar o povo, enquanto não sofre, como vassalo, as prepotências e desmandos de um estranho soberano que é ele próprio. Esta é a construção da democracia. Mas eu, como continuo a sentir uma repugnância invencível pelo absurdo, e não deixo de considerar que o sufrágio universal é um manto de completa inimputabilidade a cobrir os que saem eleitos da boca das urnas, não lhe concedo foros devidos a pessoa humana capaz.

Onde se encontram, então, os outros culpados? --- Em cada um que com o seu silêncio timorato, um vago receio das consequências, os respeitos humanos, o pavor de quebrar a confortável cadeira de um quotidiano sem sobressaltos, em suma, com a sua cobardia, assiste, inerte, à consumação da tragédia e se torna, ipso facto, cúmplice de um repugnante crime de lesa-pátria.

Perante este quadro, é difícil dizer que mais nos há-de espantar: se a malícia de uns ou a complacência dos outros; se os instintos destruidores daqueles ou a passividade dos últimos!

Quisera eu que este fosse um apontamento breve e vou esforçar-me por o conseguir. Não se pode, todavia, falar sobre Portugal e a sua situação, sem passar os olhos, ainda que rapidamente, pelo que lá fora acontece. Até porque é lá que nos querem diluir.

O falar pedante dos nossos tecnocratas, acolitados pelo coro pretensioso dos democratas que nos desgovernam, pretende sufocar-nos no seio de uma Europa, a nós que fomos chamados para uma missão ecuménica, a um povo que encheu as partidas, a uma nação que se dessangrou no zelo de cristianizar o mundo. Seria ridículo, se ao mesmo tempo não fora trágico.

Reduzidos hoje às dimensões do séc. XIV, julgam por isso acertado orientar a política a partir daí. Apesar de muitas coisas serem tristemente verdadeiras nos dias que correm, esquece-se ou, o que é pior, deseja-se calar que há mais: há a civilização e há a cultura que deixam as suas marcas.

Que Europa nos destinam? --- A Europa de uma Itália, onde durante anos a fio ditou leis a praga da democracia-cristã, ainda por cima impotente para esconder as suas ligações com a Maçonaria, e cujas sequelas continuam vivas? Pretenderão dar-nos a Europa de uma França sempre dúbia, ora burguesa, ora proletária, tão depressa liberal como socialista, de um chauvinismo feroz ou à beira de abrir mão da própria identidade nacional? Será ideia deles seduzir-nos com uma Alemanha que ainda parece dividida e não descobre meio de afugentar fantasmas de guerra? Ou finalmente haverá o projecto de impor-nos a imagem de uma Inglaterra, colosso que subjugou o mundo com ardis de flibusteiros, enriqueceu no saque e na pilhagem, sempre grandiosa no roubo e, hoje, Babilónia da moderna Europa, caída a capa do seu puritanismo, que tantas chagas cobria, já não consegue esconder a podridão que a rói? É a esta Europa que querem amoldar-nos?

A resposta encontrar-se-á no Clube de Bilderberg, selecto quanto baste para garantir uma pluralidade muito conveniente. Tudo ao jeito do mais puro estilo revolucionário, ríspido e inflexível se enfrenta oposição, não perdendo oportunidade em revelar-se generoso e compreensivo, quando os outros se acomodam, em nome de uma tolerância sonoramente proclamada, mas de que nunca dão exemplo.

Esse círculo, que escapou ao genial poeta florentino, é antro das mais engenhosas perfídias que se tramam e que têm repercussão internacional. Ocupam-no os privilegiados que idolatram a Europa, esta Europa ultimamente pronta a franquear portas a uma Turquia, mas que já não tem lugar para a Suíça, pela vantagem meridianamente clara de preservar uma distinta identidade política no país que é banco oficial e casa-forte das fortunas que se fazem por esse mundo fora, algumas delas sabe Deus como.

Não obstante os erros, que por cá se praticaram, tal Europa é-nos estranha. Alheou-se de nós quando se afastou da ortodoxia da Fé, e isso ocorreu com o cisma luterano. A partir de então, os Pirenéus separaram Portugal e Espanha da Europa antropocêntrica, a Europa que mergulhava na vertigem do abismo. Nós conservávamo-nos como derradeiros paladinos do universalismo, do objectivismo e da religiosidade, que caracterizavam a visão teocêntrica do mundo que se ergueu sobre os escombros, a que as hordas do Leste reduziram o corrompido Império Romano do Ocidente.

Fomos, na realidade, paladinos do universalismo espiritual, que vicejou sob a égide da Igreja Católica, a única internacional possível. E este universalismo, que não abafava a individualidade de cada povo, era barreira eficaz contra o poder ilimitado do Leviatão, cujas cabeças já começavam a chocar doutrinas enciclopedistas, mero prelúdio do império esmagador do capital em concorrência satânica com o socialismo.

Campeões do objectivismo, defendemos que cumpre ir buscar a verdade, em vez de sermos o centro do conhecimento. Entre os nossos, há um nome que é legenda de glória, nome que ficará a contar ao mundo como Portugal não era apenas discípulo dilecto de Marte e de Neptuno: o batalhador, o navegante também sabia dar a vez ao pensador. E surge o humilde, o apagado, o sumido mas tão subido Frei João de São Tomás, luminar da metafísica, expoente da filosofia portuguesa, orgulho do saber cristão.

Por último, evangelizadores até à medula, morríamos mártires proclamando a verdadeira religião contra cultos pagãos e mitos nascentes.

Como se vê é algo de incomparavelmente mais profundo e absolutamente distinto de uma corriqueira questão de latitude ou de longitude. Portugal deixou de ser europeu, quando a Europa apostatou.

Infelizmente, Portugal também pecou, Portugal está hoje desviado da linha que a si próprio traçara, Portugal encontra-se de olhos fechados à luz. No entanto, devemos esperar a nossa restauração através da acção de um escol que sempre desponta nas épocas de crise.
 
Mas antes é curial definir o que se entende por escol:

Se o escol, de modo algum se confunde com a actual camarilha do poder, não importa menos evitar a tendência muito acentuada de o esgotar nas classes historicamente dominantes, cujos membros se tornaram incapazes de dar prossecução aos valores positivíssimos de que se dizem depositários. Isto é fundamental, para não se correr o risco de que os menos esclarecidos se riam de tais valores, personificados em múmias caricaturais. Portanto, cumpre ao escol autêntico afirmar-se sem ambiguidades, e essa obrigação é maior agora que vemos a sorte da res publica confiada a quem fez do exercício da governação uma orgia de devassos e de medíocres.

Quando a fibra impoluta da nação vibrar, no dia em que o verdadeiro escol se congregar, veremos dissipar-se o horizonte negro que se postou diante dos nossos olhos e parece querer ficar. Ser-nos-à então lícito voltar a admitir a possibilidade de que se arrede para longe o castigo pavoroso que nos ameaça.

No meio das trevas, como esperança radiosa, brilha a luz fulgurante da Rainha e Padroeira de Portugal. Só um coração amantíssimo de Mãe pode olhar com tamanha indulgência um filho ingrato e, por isso mesmo, tão necessitado da Sua clemência. Lembrem-se os Portugueses que a única lei a que devem sujeição é a da grei que devem amar, é a da sua terra de Santa Maria.

Sabiamente dirigido, irá o povo português, com alento e com robustez, resgatar o chão sagrado, chão regado de sangue, sangue que foi de mártires que semeiam esse solo e de heróis que o juncam. À honra do combate, seguir-se-á a glória do triunfo. Retome Portugal as veredas da Tradição e logo verá como chega o arrebol da redenção!


Mês de Maria Santíssima


Joaquim Maria Cymbron
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  1. Lus., VII, 85, vv.7-8.
JMC

domingo, 26 de abril de 2009

A BATALHA E O CARMO


Neste dia, 26 de Abril de 2009, direi que não é vulgar sucederem-se duas datas de sinal tão antagónico e que mutuamente se excluem. De um lado, está a negação; do outro, a afirmação. A primeira fala-nos de destruição; a segunda conforta-nos na exaltação de uma figura que foi guerreiro e que foi santo.
O soldado, o soldado disciplinado e leal, profícuo na paz e combatente tenaz na peleja, esse soldado é um herói e como tal avança no caminho sublime da santidade. Por seu turno, o homem que a Igreja distingue com a auréola de santo, colhe essa rara distinção porque praticou as virtudes teologais em grau heróico.
Deus permita que a graça do canonizado seja o exorcismo contra a possessão diabólica da traição!

 
O Mosteiro que se levanta por entre o casario da Batalha, é, como todos sabem, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória. O triunfo, que ele evoca, entrou nos anais da história militar, mas tem, além disso, um sentido muito mais denso e profundo: é a explosão de um Portugal que mostrava as primícias da sua virilidade e se revelava pronto a cumprir o projecto que Deus quis confiar-lhe.

Quem rubricou estes feitos? Aqueles que se passaram a Ceuta, desceram ao longo da costa de África, tocaram ilhas que os oceanos escondiam, beijaram terras de Vera Cruz e saborearam o fascínio das paragens orientais. São os mesmos, enfim, que tornaram o mundo mais pequeno porque o fizeram mais conhecido, aproximando continentes e, sobretudo, estreitando povos e culturas num amplexo de amor fraterno, da única fraternidade possível que é aquela que se dá à luz do Evangelho e da fé de Cristo.

Estes gigantes são o fuste de uma coluna majestosa. A base desta coluna é o Infante de Sagres, esse príncipe que Camões não pôs fora da «ínclita geração» (1), nem eliminou do número dos «altos infantes» (2), aquele cuja mãe Fernando Pessoa sagrou com o nome de «humano ventre do Império» (3), um seio que intrigava o poeta da Mensagem, a ponto de este perguntar que enigma nele havia «que só génios concebia» (4). Por fim, essa espantosa coluna, da qual já aludi à base e ao fuste, tem o capitel em D. João II.

A filosofia de vida deste Rei encaixa-se, certeiramente, na sua divisa "pela lei e pela grei". Mentalidade e lema interpenetram-se com tanta espontaneidade que o reflexo fiel dessa equação de forças é-nos dado pelo emblema do pelicano. Jaz este modelo de homem de Estado, sob as arcadas góticas do histórico monumento, ao qual Mestre Afonso Domingues emprestou, de modo indelével, a centelha luminosa do seu talento.

O Mosteiro de Santa Maria da Vitória é, pois, verdadeiro relicário de glórias nacionais --- quando gravou na sua pedra o prodígio de Aljubarrota, logo perpetuou o nome e a figura do Condestável de D. João I.

Nun'Álvares, aquele que se pode chamar de pai da Pátria porque foi quem, na tarde de 14 de Agosto de 1385, a golpes de montante, abriu o sulco onde o tronco de Avis deitou raízes para, rico da mais abundante seiva, imediatamente florir e rebentar em frutos de uma epopeia inédita, esse indómito paladino, cumprida a sua missão temporal, largou o fausto magnífico do século para se sumir na apagada humildade do claustro. O vencedor de tantos recontros bélicos, sofreando o ardor do campeão debaixo do hábito grosseiro do monge, foi continuar o que sempre fizera: viver o amor de Deus nosso Pai, doando-se ao próximo na pobreza, como já se lhe entregara no auge dos triunfos militares! O culto prestado ao Senhor dos Exércitos, quando as armas lhe sorriam, passou a manifestar-se no socorro aos necessitados, repartindo tudo por todos. Assim se formou, segundo Oliveira Martins, o «exemplar mais belo da aliança do heroísmo e da santidade» (5). E a história atou um laço indefectível, que une a sonoridade artística da Batalha ao místico silêncio do convento que está no coração de Lisboa, e que recolheu o último suspiro do seu fundador.

Este venerando convento, o Convento do Carmo, devia ser, por conseguinte, lugar de romagem e de peregrinação patriótica. Infelizmente, conspurcaram-no: foi enlameado no dia 25 de Abril de 1974, na hora sombria em que a pusilanimidade de um governante céptico e tíbio deixou escorregar, das mãos duvidosas, a vara de um mando já vacilante. E é também profanado de cada vez que desperta a memória da vilania cometida.

Os fumos dessa traição encobrem a certeza de um quotidiano de demissão progressiva. Todo este quadro, que é um quadro de dor e de miséria, é igualmente um quadro de vergonha, de uma vergonha moral não só para os seus autores, mas também para todos os que nele consentimos. Antes de pedir contas aos culpados, que o foram por acção, temos de redimir-nos do nosso pecado por omissão. E essa redenção passa necessariamente pela recuperação da dignidade nacional.

Se esta é obra que a todos compete realizar, há uma geração que tem obrigação acrescida de lhe pôr remate. É a geração santificada nas aras de um sacrifício puro, em que se defendiam valores indiscutíveis, mas ao qual a felonia de uns tantos, adivinhando Portugal a um passo do sucesso, embora impotente para lhe roubar a honra, atreveu-se e conseguiu transformar esse esforço numa campanha inglória.

Os homens dessa geração mergulharam no crisol de uma luta em que experimentaram a prisão, sofreram o exílio, se chocaram com contrariedades, arrostaram e arrostam com a indiferença, a incompreensão e o escárnio, sentiram e sentem ainda a dureza da sorte adversa, tudo isto por quererem pagar o preço de continuar a ser portugueses. Esta geração ostenta o singular privilégio de ter sido chamada a formar a geração do resgate, se não quiser arrastar o peso de ser recordada como a geração do opróbrio, a geração que se deixou bater por aqueles que, para serem outros tantos Coriolanos, só lhes falta o fulgor do génio.

A Pátria convoca os seus melhores filhos à revolta justiceira. Não cerremos os ouvidos ao seu angustiado apelo. E ao Carmo da derrota e da desonra, oponhamos Aljubarrota, uma Aljubarrota mais exigente porque será a Aljubarrota do espírito, entendido o espírito na acepção paulina de alma e corpo em estado de graça, ou seja, neste caso, de pensamento ortodoxo e acção condizente não já de Portugal contra o estrangeiro, mas sim de PORTUGAL contra o ANTIPORTUGAL porque é interno o inimigo principal!

Condestável de Portugal, sagra com a tua espada de cavaleiro o futuro capitão da nova Aljubarrota, e protege-o na luta com a tua bênção de santo!
 
 
Joaquim Maria Cymbron

 
Nota: O texto, que aqui se insere, foi publicado no diário Correio dos Açores, a 30MAR94, quando este jornal ainda tinha um belíssimo chefe de redacção que anulava o que havia de negativo no carácter do seu director. Apresenta agora alterações que não prejudicam o fundo substancial da redacção originária.
Nesse dia, ou em data próxima, também O Dia, que estava entregue em péssimas mãos, recebeu o mesmo texto, colocando-o nas suas páginas: bem melhor fora que o não fizera porque o que deram a público foi uma verdadeira lástima!
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  1. Lus., IV, 50, v. 8.
  2. Ib.
  3. Mensagem.
  4. Ib.
  5. A Vida de Nun'Álvares, 8.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1968, p.314.
 
JMC

sexta-feira, 10 de abril de 2009

INFIDELIDADE





Pai! Pai! Porque foi que me abandonaste?
Perguntava Jesus, na agonia,
Daquela acerba hora, que vivia,
Sem que por isso o Pai a dor lhe afaste.

O sangue divino que derramaste,
Foi sumo tributo que redimia
A pobre humanidade, que sofria,
Escrava do pecado que pagaste!

Assim o eterno Pai ao Filho amado,
Revelava o porquê alto e profundo,
Pelo qual O havia abandonado.

Exulte-se, pois! Triste, o maior dó
É o de quem pergunta, lá no fundo:
Pai! Porque te terei deixado só?


Semana Santa, 2009


JOAQUIM MARIA CYMBRON

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A PÉROLA DA CONSTITUIÇÃO

A Constituição da República Portuguesa tem um preâmbulo que é conhecido do público, mas não é verdadeiro. O autêntico é uma pérola bem guardada de olhos profanos. Nada mais justo, hoje que se cumprem 33 anos sobre a data da sua consagração democrática, que se revele a jóia mais preciosa da coroa republicana.

Entendo que esta homenagem é devida a tão augusta soberana!

A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Antiportuguesas, aproveitando a proverbial paciência do povo português e falseando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime farsista.

Procurar lançar Portugal na pior das ditaduras, na opressão e em colónia do estrangeiro representou uma transformação revolucionária e o início de uma traição histórica de que foi vítima a sociedade portuguesa.

A Revolução não restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No esbulho destes direitos e liberdades, os ilegítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma aberração que corresponde às aflições do País.

A Assembleia Aberrante contraria a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos e estabelece os princípios deletérios da democracia, assegura a catástrofe do Estado de Direito democrático e abre caminho para uma sociedade socialista no desrespeito do interesse do povo português, tendo em vista a construção de um país mais escravizado, mais injusto e mais carregado de ódios.

A Assembleia Aberrante, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, aprova e decreta a seguinte Aberração da República Portuguesa.

O descodificador,

Joaquim Maria Cymbron

terça-feira, 3 de março de 2009

CANCRO SOCIAL


 O texto, que segue, foi parcialmente extraído de um artigo meu publicado num jornal diário de 11AGO82 e s.


O poder é! E o poder que é chama para a governação pública quem quer e como quer:
 
Aqui convida um número restrito; além, um mais alargado. Agora, dá-lhe força deliberativa; mais adiante, só lhe concede valor consultivo. Congeminações à volta deste assunto, que se ocupem em procurar como deveria ser aquilo que é e deixem de analisar o que é, constituem o passatempo de especial predilecção dos democratas, os quais não chegam a elaborar nenhuma construção porque se explicam com o explicando e dão o explicando por explicado.
 
Na prática e na doutrina, a Democracia é qualquer coisa de farisaico e disforme:
 
No dia a dia, ela é para os povos a política em latim, política que muitos governantes só incipientemente articulam e alguns até fazem dela uso em calão. Isto é ainda mais aflitivo quanto é certo que hoje se mergulhou numa pavorosa indigência intelectual. Este quotidiano da Democracia aproveita apenas aos excepcionalmente dotados, que se servem sem servir. E é tanta a impudência que o sistema se diz do povo, pelo povo e para o povo.

Nas suas linhas teóricas, a Democracia é a apoteose do despautério. Com efeito, só a Verdade, diligente e rectamente procurada pela inteligência, Verdade a que a vontade adere pelo Bem nela contido, só a Verdade, repiso, assume o direito de orientar os homens e, com eles, os povos. A obediência cega da vontade ao sabor dos apetites desordenados significa, pelo menos, o reinado inconsciente do capricho.
 
O que vai contra a Verdade é o erro, maior ou menor, mas sempre erro. E assim uma proposição pode estar conforme à Verdade ou afastar-se dela. Suponhamos, então, que uma comunidade é chamada a pronunciar-se sobre dada coisa, que se submete à sua apreciação, e a fazê-lo em moldes democráticos, onde o justo se confunde com o que é querido:

Como quot homines, tot sententiae, há de assistir-se a um destes possíveis resultados: o Bem será ténue quando for escassa a vitória nas urnas; se ela é folgada, então aumenta a certeza de que é bom o sufrágio obtido; sempre que o escrutínio apontar para maiorias esmagadoras, aí veremos uma imensa Bondade; por fim, se não houver um só voto destoante, estaremos perante o Bem absoluto! Como monumento ao furor de cérebros transtornados pela maldade ou ao estupor pasmoso que a imbecilidade cria, não se pode exigir mais!
 
Este é o regime que vigora em Portugal.Vejamos ao que nos levou:
 
Tirando a crise de 1383-1385, que foi um marco excepcional porque se assistiu a uma reacção estuante de força, vai-se ouvindo, hoje como sempre que Portugal ameaçou extinguir-se, a jeremiada que é costumeira. Agora que de novo se mandam celebrar exéquias como se a Pátria morresse às ordens daqueles que se pranteiam, em vez de levar o luto aos traidores; quando tantos desesperam parecendo esquecer que, numa nação tão antiga, alguns anos bem se podem considerar um simples momento, agora mais do que nunca é que todos devemos guardar lucidez.
 
Não compreendo, melhor, revoltam-me os responsos fúnebres que se escrevem e se gritam por Portugal. Esses hinos chorosos partem de gente que se julgou salvadora da Pátria, uma salvação que se daria num abrir e fechar de olhos. Mas uma nação não se resgata de um dia para o outro; redime-se quando Deus o decreta e se assim estiver nos Seus insondáveis desígnios. Quanto a ser-se salvador da Pátria faz-se mister um estofo que esses, que se arvoraram em paladinos de Portugal e lhe passaram depois certidão de óbito, tinham de demonstrar que possuíam.
 
Uma coisa provaram sobejamente: mostraram não ter fé. E sem fé não se vai longe. Nem sequer falo da fé, virtude teologal que só a caridade supera, como nos ensina S. Paulo (1). Esse seria o dom excelente, mas aqui eu reporto-me apenas àquele sentimento que enche o peito dos que crêem nos princípios e nos objectivos, que lhes inculcam, sem indagar razões, tipo de mística defeituosa, mas, de qualquer forma, mística, força que os empreendimentos de vulto reclamam.
 
Esta mística é a mística da Revolução e, em parte, daí a explicação dos seus êxitos. Veja-se o exemplo dos comunistas e porventura se compreenderá algo do que eu pretendo dizer.
 
Só a perseverança, nuns casos, ou a obstinação comedida, noutros, importam. Apenas os animados de fortaleza e recta inteligência ou os obcecados em quem luza algum talento, e haja neles, por paradoxal que pareça, um fundo de equilíbrio, só esta gente deixa rasto. É a massa que solta os grandes facínoras, mas de onde também rompem os heróis, essa espécie de semideuses do paganismo como já os entendia a mitologia grega, e, na linguagem mais suave e quantas vezes mais sublime do catolicismo, ela dá os apóstolos, dá os mártires, dá os santos! Do resto, saem os homúnculos que, a par dos outros, são como anões ao lado de gigantes, pigmeus aos pés de uns colossos, formam enfim o cortejo da mediocridade que não conta. A mediocridade é timbre das maiorias e pesa unicamente na heráldica das democracias.
 
Eis algumas razões por que disse não compreender, revoltar-me e, acrescento-o agora, repudiar a litania plangente, pouco honrosa e, ao mesmo tempo sem base inilidível que se anda entoando. Não nego que o horizonte é um horizonte carregado, em que as sombras se adensam e se não vê brilhar uma ponta de luz. Mas são sempre os homens de fé, pelo menos daquela fé de que há pouco falei, são esses que vão agarrar, no meio das trevas mais profundas, um fio que alumia a esperança. Essa esperança é preciosa num panorama tão turvo como é aquele em que vivemos.

Há quem se deixe entorpecer, fiando-se dos reveses, mais aparentes que reais, sofridos pelos comunistas em diversas paragens do mundo. Esta é a ideia criada na grande massa do povo, povo que constitui o trampolim do poder político porque é povo e não qualquer povo, mas povo soberano.
 
A convicção, de que o comunismo é um perigo ultrapassado, reflecte um pensamento, que não só é insubsistente como também assume foros de perfeita loucura. Com efeito, pouco haverá tão contrário à verdade da vida política. A Democracia, nos nossos dias, alastrou bastante e tornou-se quase geral no concerto das nações mais influentes na marcha das sociedades humanas. Não é de hoje, nem foi ontem que os comunistas se habituaram a conviver com a Democracia. E se é inegável que aspiram ao seu derrube, não é menos certo que só lançarão o ataque decisivo quando estiverem seguros da conquista do poder, preservando até lá o sistema democrático com um zelo inexcedível por motivos mais que evidentes: «A história conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia proletária, que vem substituir a burguesa», escreveu Lénine (2).
 
Ex absurdo sequitur quodlibet. Este princípio, válido para a lógica, aplica-se também à prática da política. Sei que a teoria dos quanta, sustentando as relações de incerteza nas próprias leis físicas, já sepultou Laplace. Não há determinismo total no mundo cósmico, muito menos nas acções humanas. Mas não há dúvida que cada um de nós constrói o seu destino. E aqui importa não perder de vista que o assalto ao poder político depende da decisão e da combatividade de quem o cobiça.
 
Neste campo, os comunistas são exímios. Estão integrados numa organização de estrutura férrea. De uma rigidez notória na teoria que professam, na táctica são de uma flexibilidade admirável. E com o seu relativismo moral, recorrem a todos os meios para lograr os fins pretendidos, lançam mão de quanto podem, não hesitam um minuto na escolha de processos desde que adequados à realização dos seus intentos. Portanto, o seu valor é de temer e será insensato quem o despreze.
 
À carneirada, os comunistas preferem uma vanguarda de qualidade: o resto vai atrás! «O exército, consequentemente, era já por volta de Outubro-Novembro de 1917 meio bolchevique», palavras de Lénine, o qual, logo a seguir, confessa que «sem isso não poderíamos vencer.» (3).
 
Meditemos sobre isto; proceda-se aos ajustamentos impostos pelo caso português; e que a lição nos sirva. Os comunistas terão muitos defeitos, mas, entre essas falhas, por certo que não se conta a leviandade. Minimizar as manobras comunistas é de uma ingenuidade ou de uma maldade que ultrapassa o admissível; considerar aventureirismo, como muitos fazem, o comportamento daqueles que, demarcando-se do blanquismo, entendem que «não se pode permanecer fiel ao marxismo, permanecer fiel à revolução sem tratar a insurreição como uma arte», como é lembrado por Lénine (4), olhar pois os comunistas como Quixotes desvairados em busca de encantadas Dulcineias, se não é uma requintada infâmia, é pelo menos risível!


Joaquim Maria Cymbron

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  1. 1 Cor. 13, 13.
  2. A revolução proletária e o renegado Kautsky, Obras Escolhidas, III, Edições 'Avante!', Lisboa e Edições Progresso, Moscovo, 1979, p. 15.
  3. As eleições para a Assembleia Constituinte, ib., p. 233.
  4. O Marxismo e a Insurreição, ib., II, 1978, p. 312.
JMC

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ESPANHA, 23-F


Sempre defendi o dualismo peninsular. As razões, ainda recentemente as apontei. Mas também nunca deixei de reconhecer o impressionante paralelismo existente entre a história de Portugal e de Espanha.

Hoje, limito-me a remeter para o
depoimento notável de um carlista, espelho da tenacidade de uma juventude integrada numa dinastia de combatentes com 175 anos de luta em defesa da Tradição.

Deus permita que, entre nós, mais soldados se juntem às honrosas excepções que vão surgindo na gente moça que levanta a bandeira da legitimidade.


Joaquim Maria Cymbron

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A RESPONSABILIDADE DE SER CATÓLICO


A carta aberta aos deputados do meu país é um documento apreciável. Mas nela há um trecho que não posso deixar passar sem reparo:

Encontra-se ele quando a autora, ao mesmo tempo que elogia o Grão-Duque do Luxemburgo pela sua recusa em sancionar, naquele país, a lei que autorizava a eutanásia e o suicídio assistido, escreve, a respeito daquele soberano, que «não é por ser católico que assim age, porque o direito à vida é de ordem natural e a eutanásia é tão reprovável para o cristão, como para o pagão.» (O negrito é meu).

É verdade que a eutanásia devia ser condenável aos olhos de qualquer homem e que o pagão pode ter disso uma noção clara, mostrando-se até muito mais fiel a este princípio do que aquele que se diz cristão. E isto porque o direito à vida é, de facto, um imperativo que decorre da lei natural!

Simplesmente, a lei natural, como a definia S.Tomás de Aquino, é «participatio legis aeternae in rationali creatura (...)» (1). Ora a lei eterna é aquela que existe na mente divina, desde toda a eternidade. E foi em Jesus Cristo e pelos seus Apóstolos que nos foi revelada.

Quando votei contra a despenalização do aborto, fi-lo como ser racional, mas fi-lo também como crente da religião que professo (2).

O Grão-Duque do Luxemburgo, sendo católico, quando se negou a assinar a lei iníqua, votada no seu país, deu testemunho, por obras, da sua fé católica.

Há uma coisa curiosa que tenho de registar, antes de terminar:

Se o Grão-Duque tivesse ratificado a lei, certamente não faltaria quem erguesse a voz perguntando: E é isto um católico?

O escândalo seria então legítimo. Porquê, pois, deixar no olvido a sua condição de católico, quando se mostra à altura dela?


Joaquim Maria Cymbron
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  1. Summa Theologica q. 91, a. 2, ad 3.
  2. Col. 3, 17; 1 Cor. 10, 31.
JMC