quinta-feira, 12 de agosto de 2010

RESTAURADORES NOVOS E VELHAS TOLICES


(Autor: Paulo Teixeira Pinto)
 
 
Sou monárquico. Isso sei-o bem.

Desde quando sou monárquico? Isso já não o sei dizer bem. Desde sempre? Bem, pelo menos desde que me lembro. Porque sei que desde o momento em que, ainda adolescente, meditei pela vez primeira sobre o assunto descobri, no mesmo instante, que era, naturalmente, monárquico.
 
Porque sou monárquico? Como acabei de dizer, para mim tratou-se de uma revelação natural, isto é, feita de acordo com a própria natureza das coisas. Não que tal decorra como inerente à própria condição humana, mas no meu caso pessoal resultou do reconhecimento da relação emocional e racional existente entre alguém que é português e Portugal, o mesmo é dizer entre uma ínfima parte e o todo a que esta pertence, uma Mátria que se fez Nação sendo um Reino.
 
Portugal ganhou identidade fazendo-se unido na sua pluralidade. E o que precisamente congregou e conferiu unidade às diversidades que sucessivamente lhe foram acrescendo foram os seus reis. O que tinham em comum todos aqueles que foram fazendo Portugal, no curso dos séculos e nos domínios das terras cujas fronteiras estavam sempre mais distantes, era o respeito a quem os conduzia e à bandeira que todos representava. Neste sentido, portanto, pode dizer-se que Portugal , porque nasceu, cresceu e envelheceu como Reino, é sem dúvida uma construção monárquica. Nada de mais natural, por conseguinte, do que um português gostar de gostar de Portugal, e só por isso reconhecer-se monárquico. Sem com isso se pretender, obviamente, que não haja portugueses que sejam republicanos e patriotas.
 
Porquê ser hoje contra a República? O problema é assim frequentemente colocado, embora o ponto não seja esse, antes o seu contrário. Não são os monárquicos que estão contra a República, mas os republicanos contra a Monarquia. Pois se foram aqueles quem derrubou esta...
 
Ser monárquico não é ser contra alguém ou alguma coisa. É ser por um ideal e estar em defesa de quem o encarna. Porque o Rei não é o senhor do Reino mas sim quem personifica em cada e determinado momento todos aqueles que vivem com identidade comum, num tempo comum e num espaço comum. O Rei é o primeiro servidor da comunidade, ou, dito de outro modo, o Rei é o último dos súbditos do Reino.

Nós, os monárquicos portugueses, também sabemos bem, à entrada do terceiro milénio, que a tradição que encerra a monarquia não é sinal de antiguidade, mas fonte de modernidade. Porque é uma prova de esperança. Esperança que Portugal não se dilua nuns putativos Estados Unidos da Europa. Não desconhecemos que só os povos que preservem os códigos da sua própria identidade poderão permanecer enquanto tais. Sem dúvida que é legítimo que alguns pretendam ser apenas europeus. Mas é mais legítimo ainda querer continuar a ser o que se é: portugueses por natureza e universais por vocação, logo também europeus por consequência.
 
A Europa não é, nem será nunca, uma Nação. E se não o é, nem pode sê-lo, também não deve pretender fingi-lo. Acontece que o faz. E sucede que o fingimento consiste em mascarar diversas Nações com as vestes de um Estado Federal. Ora, tal transformismo só é possível de encenação se nesta participarem abstractamente os chefes de Estado actuais. Resultará sempre realmente impossível se for ensaiado com Reis de Povos.
 
Por isso, ser monárquico hoje não é só uma manifestação de lealdade histórica. É sobretudo uma declaração de luta futura pela defesa da Independência de Portugal, para sempre.
 
E é esta a razão fundamental para todos os portugueses redescobrirem a necessidade e a urgência de emprestarem a sua vontade à restauração da Monarquia. Sem que isto signifique que até agora estejam convencidos do contrário, porque felizmente quase não há republicanos militantes. Se bem que, infelizmente, muitos ainda se julguem republicanos, apenas porque enfim...
 
Assim será até à proclamação: monárquicos porque sim!


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Ó povos, lede e exultai porque é um iluminado que tendes no meio de vós! Chorai também lágrimas amargas contra o destino cruel e avaro, que tanto tempo escondeu dos nossos olhos este valioso tesouro.
 
Que nos diz o oráculo dos modernos deuses?
 
É monárquico e sabe bem que o é. Já não sabe tão bem, desde quando o é. Para, logo em seguida, acrescentar que o é pelo menos desde que se lembra. Isto é: ele sabe que é monárquico desde quando se lembra; mas não sabe é desde quando se lembra. Se não, já saberia se é monárquico desde sempre ou não. E descobriu tudo isto numa meditação que durou um instante: outro prodígio!

Eu pensava que a ignorância não permitia afirmar ou negar fosse o que fosse. Ora a ignorância é privação do conhecimento. E a memória outra coisa não é do que o conhecimento do passado. Portanto, onde a memória falha, aí há ignorância do facto pretérito. Impõe-se o silêncio. Mas isto penso eu que sou um profano. Outras são as luzes que ele tem. Esta generosa confissão permite extrair uma conclusão: podemos pronunciar-nos sobre coisas do nosso íntimo que já não recordamos. O que, então, diga-se de passagem e em abono da verdade, ele não fez.
 
Deixemos agora o que está pelo meio, inquestionavelmente matéria de coturno como tudo o que diz este bafejado da fortuna, mas de nula transcendência se atendermos ao final sublime que nos é dado contemplar. O sobredotado põe remate às suas inspiradas palavras exortando a que haja monárquicos porque sim, até à proclamação. Fica a gente sem perceber muito bem se esses, depois do momento da proclamação, se transformam em monárquicos porque não.
 
E como antes, ele disse «se bem que, infelizmente, muitos ainda se julguem republicanos, apenas porque enfim...», da minha parte, primário que sou, fecho com o modestíssimo juízo de que ele tem esta opinião porque enfim, e eu acho-a errada porque sim!
 
 
Joaquim Maria Cymbron


Obs.: Com um ideal destes, é certa a restauração monárquica: isso sei-o bem. Quando se dará, isso já não sei dizer: nem bem nem mal!
 
JMC

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A MORTE DE ROSA COUTINHO


Parece um paradoxo, quase um insulto, que na véspera do Dia de Portugal eu encime as breves palavras que seguem, com o nome de um traidor sanguinário. Porém, talvez não seja assim.

A seguir ao 28 de Setembro, fui detido em Angola por ordem de Rosa Coutinho. À conta da sua morte, li trechos de grande violência, alguns recheados de comentários que não dignificam quem os escreve. A linguagem soez pode ferir os contrários, mas não edifica. E a agressão puramente verbal, só por si, não chega. Se queremos verdadeiramente resgatar Portugal, teremos de estar preparados para um combate que pode ser cruento. Para tal, devemos formar as nossas hostes de combatentes. Lançarmo-nos ao assalto, antes disso, é mais que temeridade, será estultícia porque, de momento, carecemos de meios humanos preparados para essa tarefa.

Voltando ao significado da morte de Rosa Coutinho, este nome cuja memória fez explodir de ira tanta gente, a personagem sinistra que causou ruína e morte numa escala assustadora, eu, embora respeitando a revolta dessas vítimas, não comungo dos sentimentos de levar essa sanha para lá da vida terrena. Não digo que também sofri, na carne e no espírito, a desgraça que se abateu sobre a Pátria, porque esse tormento continua. Mas o homem já compareceu perante Deus, a fim de prestar contas. Não entremos nesse ádito sagrado que é o Tribunal da Eternidade e o único que não falha. Reservemos a nossa sede de justiça para os que ainda estão vivos e continuam a representar um perigo contra a Pátria. Um deles tem a afoiteza de se propor para a Suprema Magistratura da Nação.

Quando Rosa Coutinho mandou o MFA deter-me, fez o que era sua estrita obrigação, dentro de um quadro de valores que eu repudio. Nós é que não temos cumprido o que nos cabe realizar. Devemos, finalmente, conseguir que a raiva e o ódio (se eles quiserem consumir-se nisso), passem para o lado de lá. Já tardámos muito. Seria bom que não nos atrasássemos mais.

É preciso convencermo-nos que somos os principais culpados das derrotas que nos tocam. Sem consciência disso, não podemos aspirar à vitória.

VIVA PORTUGAL CATÓLICO!


Joaquim Maria Cymbron

domingo, 23 de maio de 2010

AO DIVINO ESPÍRITO SANTO


Que o meu entendimento,
alumiado pela Graça santificante,
confesse, Senhor, a sua pequenez,
e declare,com humildade os seus acanhados limites.
Pela Vossa complacência,
seja eu digno do dom de se alargar,
tanto quanto possível,
o horizonte da minha inteligência,
dada a Fé minguada que borbulha na minha alma,
mas, sobretudo,
que cresça a minha Fé,
em virtude da fragilidade do meu entendimento.

Por isso, ao lançar-me à obra que é causa Vossa,
eu Vos imploro, Senhor,
que aclareis a minha razão
como se não tivera mais que a Fé indispensável
e, principalmente, volto a rogar-Vo-lo,
que aumenteis a minha Fé
atendendo à minha débil inteligência.

Amparado por Vós,
terão as minhas faculdades melhor disposição
para apreender e eleger o bem mais adequado.
Se o fraco poder dos meus reduzidos méritos
achar compaixão diante da Vossa infinita misericórdia,
ousarei esperar o gozo da bem-aventurança
na visão da Vossa divina majestade
e na companhia dos Vossos Anjos e Santos.

Permiti, ainda, Senhor,
que, nesta prece que Vos dirijo,
constitua, advogada minha,
a Virgem Santíssima,
Mãe de Vosso muito amado Filho.
Intercedendo Ela por mim,
estou certo que não me negareis
as dádivas que Vos peço.

E já que sinto o Vosso auxílio,
neste tempo em que vou de jornada,
ganho forças para exclamar
como o Bispo de Hipona:

Da quod iubes et iube quod uis! (1)

Joaquim Maria Cymbron
________________________________________________
  1. Confissões, Liv.X, 29.
NB.: Estas linhas saíram a lume, pela primeira vez, a 28 de Dezembro de 1978. Publicou-as o Semanário A Ordem, da diocese do Porto. Mais tarde, a revista espanhola Siempre p' Alante também as acolheu no seu número de 16 de Outubro de 2000, p.10.
JMC

quinta-feira, 22 de abril de 2010

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

 

  Quando as estruturas da sociedade civil estremecem, os povos, no caso de serem crentes, abraçam-se à fé que professam e, no plano terreno, religiosos ou não, todos se voltam infalivelmente para duas instituições --- tribunais e  forças militares ---, com ânsia igual à do náufrago buscando uma tábua de salvação. E, se as becas cedem o passo às armas, a mudança chega, mas em regra faz-se à custa de um sacrifício cruento, vivo nos horrores desse flagelo que é a guerra civil, último recurso para evitar a anarquia, o mais pavoroso estado em que pode tombar uma comunidade política.


Senhor Presidente:

Portugal, como o mundo inteiro, há muito que é açoitado pelo sopro da Besta. Resultado é a devastação que tudo vai assolando. Várias causas contribuem para isto, não sendo este o lugar para tratar de todas com um mínimo de vagar.

De resto, a sua enumeração detalhada não faria sentido, visto que elas se reconduzem ao mesmo pecado ontológico do pensamento --- o atentado à verdade, que se repete desde tempos imemoriais.
 
Presentemente, encontra-se nas mãos de Vossa Excelência uma lei onde se agita um conflito entre mentalidades, a que não chamarei diferentes filosofias de vida, porque só uma o é. Temos, pois, a noção de licenciosidade chocando-se com a de liberdade íntegra.
 
É grande a desorientação à volta da palavra liberdade. Provém do facto de se confundir este conceito com o de livre arbítrio.
 
Livre arbítrio, o suficiente para discernir entre bem e mal, actuando em conformidade, todos o temos e ninguém deve ser privado dele. De resto, passando mesmo por cima dos ditames da ética, nenhum poder criado conseguiria mover o arbítrio humano «(...) quia uoluntas semper remanet libera ad consentiendum uel resistendum passioni.»(1)
 
Já quanto à liberdade, tirando o singular privilégio da Virgem Santíssima (2), essa condição não é um dom certo para nenhuma criatura humana, mas sim uma conquista a alcançar. A liberdade não é um percurso; a liberdade é uma meta. E, sobretudo, a liberdade não consiste em fazer o que se quer, porque é um patamar onde se chega, quando agimos como se deve!
 
O poder do Estado não é omnímodo. Têm razão aqueles que o sustentam. Pondo de lado a impossibilidade absoluta de que isso ocorra, entende-se que o poder estadual não há-de ser abusivo, intrometendo-se em domínios que o precedem e transcendem. Aí, como profano diante do sagrado, tem de parar à porta e não tocar no que dentro se guarda recatadamente.
 
O mal está quando se faz depender esse comportamento do jogo democrático, no qual a vitória pertence a umas maiorias resvaladiças, ignaras quanto baste para ver que só a verdade liberta, e incapazes de compreender como essa verdade se pode situar muito fora da quantidade, único valor a que atendem. Para lá do número de sufrágios e até contra ele, a verdade, ainda que todos a neguem, não deixa de o ser, porque não temos de procurá-la em extensão, mas sim em profundidade, e só aí se pode encontrar.
 
Pensar o contrário, é um erro colossal que nos custa caro. Veja-se só a triste situação em que nos encontramos. E, a continuar este caminho de um latitudinarismo moral assustador, outros e piores males virão.
 
A loucura, que nos avassalou, acha curial proclamar o direito de se proceder mal. Ninguém o tem: podemos prevaricar, mas não devemos fazê-lo! Assim como a física castiga quem desdenha as suas regras, também a lei natural faz sentir o peso de uma justa ira sobre aquele que ousou violá-la. A diferença, que separa estes dois tipos de reacção, está em que a lei física, quando contrariada, mostra logo os efeitos disso, ao passo que a lei natural sangra e só depois, às vezes muito mais tarde, pune o infractor. A sanção pela transgressão contra a lei natural aparece frequentemente sob a forma de calamidades colectivas.
 
E ainda se teima no direito ao erro? Quem possui o direito de errar não tem o dever de acertar. E, quem não está obrigado a acertar, não pode ser punido. Logo, se se insiste que há o direito de errar, forçosamente se terá de concluir pela legitimidade de um regime de impunidade.
 
Da impunidade, derivará necessariamente a licenciosidade. Já a temos connosco. Mas se a lei humana a tolera, ela é inadmissível nos quadros da lei natural. A lei natural é «(...) participatio legis aeternae in rationali creatura.» (3). Ora a lei eterna tem por autor Deus, supremo legislador e juiz infalível, que não deixa sem prémio o mérito, e manda o impenitente ao fogo da Gehenna.
 
Por aqui se vê que a lei natural, ao lado das leis físicas, apresenta uma mesma nota: quem a viola, paga por isso. Mas não é tão inexorável: dada satisfação, a paz volta graças à misericórdia divina; no mundo físico, já não se torna atrás porque, salvo milagre, o processo é irreversível.
 
Temos, pois, o dever permanente de observar a virtude e evitar a iniquidade --- «(...) bonum est faciendum et prosequendum, et malum uitandum.» (4). Daqui, deriva sumariamente um direito, o único que o homem pode arrogar-se: o direito de ver garantidas e respeitadas as condições que, in statu uiae, permitem o seu aperfeiçoamento moral na caminhada para Deus. Este é o direito fundamental que possui: o direito à salvação eterna, se a merecer ex condignitate. Direito fundamental porque é o que realiza o seu fim sobrenatural. Todos os outros lhe estão subordinados: a própria vida não é mais do que ocasião para o sublime destino do homem. E mesmo a vocação à glória celestial, esse direito, que está para lá do mundo contingente, provém de uma dádiva absolutamente gratuita, porque principium meriti non cadit sub eodem merito. (5)
 
Quando Deus nos confere o direito à bem-aventurança eterna, bem supremo que devia ser apetecido por todos, porque todos fomos chamados a essa felicidade, decretar a codificação do mal sabe quase a sacrilégio.
 
Nunca, como agora, o delírio subiu a tão alto grau. Contrariamente ao modo como procede o inventor, que se esforça por desvendar os segredos escondidos nos fenómenos da natureza, há quem, no campo moral, em vez de buscar um eixo de valores firmados na verdade, opte por gerá-los nas suas mentes e moldá-los ao sabor da respectiva concupiscência.
 
Assim, de um lado, temos gente que não desiste de subordinar o seu comportamento aos ditames transcendentes da verdade objectiva, incessantemente procurada; do outro, surgem criadores de verdades oscilantes que eles garantem estar contidas numas poções mágicas e que são a mais acabada manifestação de um sincretismo disforme, autêntico amálgama de vontades, a que chamam expressão da soberania popular. E são estes últimos, para cúmulo da ironia, que classificam de fundamentalistas os primeiros e lhes recomendam moderação.

A moderação é coisa muito bonita. É resultado do exercício da prudência, que é a virtude cardeal mais difícil de conseguir. E é também a mais ingrata porque, sem ela, nenhuma outra virtude moral se alcança. O que falta aqui saber, é onde está essa moderação. --- Nos votos que as urnas engolem? --- No escrutínio da papelada ali afundada?

Que estranha força é essa, anunciando uma procedência que os factos desmentem, e portanto incapaz de se definir e revelar, pois uma origem apócrifa impede qualquer afirmação de identidade? ---Chamam-lhe democracia! Se desejam essa quimera, que só existe na cabeça de uns tantos que se sentam nas cadeiras do poder, e dos que dizem que não é democracia este ou aquele governo, quando tal governo não é da cor dos que assim falam, se a querem mesmo, deixem o mundo correr, porque quem admite tal perversão do ius imperii, como há-de admirar-se de outras aberrações que nos afligem?
 
De causas semelhantes, só podem esperar-se efeitos próximos uns dos outros: o mal produzido não apresenta diferenças de tomo, porque as suas raízes têm um denominador comum --- o relativismo, talvez a arma mais eficaz que a sanha demoníaca engendrou, já que lança nas trevas da confusão o pensar de cada um! Depois, é a sedução do «(...) haec omnia tibi dabo, si cadens adoraueris me.» (6) E quanto mais a inteligência for atrás de sofismas, tanto mais penetrante é a miragem do pecado arrastando a vontade para a corrente da morte!
 
Vivemos tempos de desolação. Há quem a queira combater usando a estratégia e a táctica dos autores da abominação contra a qual dizem lutar. Ingénuos, uns; maldosos, os outros, todos eles ignoram ou pretendem ocultar que mala non sunt facienda, ut inde eueniant bona, o que, na simplicidade do vernáculo quotidiano, mas nem por isso menos expressivo, tem equivalente no ditado de que os fins não justificam os meios.
 
Ao homem de má fé não lhe custará simular que entra com lealdade numa ordem moralmente sã. Lucrará sempre por ali se misturar, porque uma vez lá dentro e depois de ganhar a confiança dos superiores, depressa terá as mãos livres para se entregar à tarefa de destruição. A sua presença naquele meio nunca deixará de ser útil aos propósitos do mal, visto que, ao serviço do seu criminoso objectivo, a prática de uma só vilania já constitui triunfo, na medida em que é nódoa lançada em bom pano, a qual, alastrando, acabará por o manchar completamente. Em contrapartida, o varão justo, fundido numa organização desprovida de valores éticos, quantas baixezas não terá de subscrever para, remotamente, alcançar a hipótese incerta de realizar uma boa acção? Este preço é legítimo?
 
E muitas graças a Deus deverá dar herói tão deslocado, se escapar imune aos vícios dos seus confrades. É menos difícil uma conversão, do que saltar do bem para o mal (seja por que motivo for) e esperar o retorno ao ponto de partida. Por isso, colocada uma pessoa perante o estribilho de que se não podes vencê-los, junta-te a eles, ao soar tão desconchavada sentença, perguntamo-nos que valor pode ter a máxima de junta-te aos bons e serás um deles; junta-te aos maus e serás igual ou pior que eles.
 
A tudo isto acresce um falso conceito do perdão, que é apregoado sem descanso. E aqueles que menos conhecem a caridade, são precisamente os que mais usam a malvadez dessa insídia. Apelam aos princípios do Cristianismo, eles que rejeitam quaisquer regras, e de Cristo apenas falam para blasfemar, porque, sedentos de uma igualdade impossível de obter, incapazes de se elevarem e prenhes de ódio a toda a manifestação de santidade, experimentam um prazer satânico por levar a cabo o trabalho da rasoira.
 
O perdão, o verdadeiro perdão, é talvez a virtude em que o homem mais se aproxima da Divindade. Mas não nos termos pretendidos pelos que adulteram esta prática, reduzindo-a à moleza em que nos atolamos, à passividade do deixa andar, à cobardia que tudo consente. Havendo ofensa, uma satisfação é exigível. Porém, a compensação para o mal infligido nunca se atingirá, se não abrimos portas ao perdão. Nenhuma injúria encontra equivalência no encargo imposto ao culpado a favor do ofendido, por mais pesada que seja a obrigação fixada. Permanece inevitavelmente um quantum por ressarcir. E esse espaço tem de ser o perdão a ocupá-lo.
 
O perdão é, pois, de imperiosa necessidade; apesar disso, o pecador sempre terá uma parte a pagar. A falácia sobre o perdão, difundida pelos actuais apóstolos de uma caridade, que não sentem, não vivem, nem nela acreditam, numa catequese mentirosa, que aparece não para uso próprio, mas sim dos outros, é a repetição do monumental erro da forma como Lutero via a justificação. Ou seja: é a heresia que transbordou da religião para o temporal!
 
É compassiva a alma daquele que perdoa. Por outro lado, há um divórcio que separa inclemência e compaixão. O que não é capaz de sentir misericórdia, também não aceita piedade porque é um poço de orgulho. Não há pior desgraça «quoniam initium omnis peccati est superbia.»(7) Ora o pai da soberba é o Diabo --- portanto, quem se deslumbra com este pecado capital, avança a caminho da perdição.
 
De soberbos está o mundo cheio. São temíveis, mesmo na empáfia dos seus medíocres. Todos concorrem para formar a casta dos verdadeiros tiranos. No entanto, estes possessos são mais vulneráveis do que podem parecer. Lucidez e ousadia são condições de vitória. Se tivéssemos uma e outra para atacá-los, seguramente os derrotaríamos. Mas visão e ânimo é o que nos tem faltado culposamente.
 
Parte da sociedade portuguesa esteve suspensa de decisão a proferir pelo Tribunal Constitucional. Este Tribunal é o pior de todos os que existem na nossa ordem jurídica: muito atacado pela sua génese, o principal defeito dele está no modo como exerce as funções que lhe cabem. Contudo, é o que temos. E cumpriu-lhe agora ditar a sorte de uma das questões mais escaldantes que atormentam o nosso espírito em direcções opostas, traçadas segundo as distintas convicções das forças que estão em jogo.
 
Por cima do acórdão que foi decretado e da atitude que Vossa Excelência vier a tomar, paira uma certeza: as sociedades, como os indivíduos, também têm um instinto de sobrevivência. E este não se regula por mecanismos de duvidosa juridicidade e manifesta imoralidade.
 
Deus guarde Vossa Excelência!
 

Joaquim Maria Cymbron
 

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  1. S. Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica, I q . 111, a. 2.
  2. Dz. 833.
  3. S. Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica, I-II q. 91, a. 2.
  4. S. Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica, I-II q. 94, a. 2.
  5. S. Tomás de Aquino, O.P.Unde manifestum est quod nullus potest sibi mereri primam gratiam.» (Summa Theologica, I-II q. 114, a. 5.). Desta doutrina do Doutor Angélico, se extrai o enunciado daquela máxima.
  6. Mt. 4, 9.
  7. Eccli. 10, 15.
JMC

quinta-feira, 25 de março de 2010

COUNTER-REVOLUTION IN LITHUANIA AND BELARUS


Este título chamou a minha atenção. A Contrarrevolução cativa-me. Mas tem de ser a verdadeira Contrarrevolução.

Por isso, o meu entusiasmo logo esfriou quando vi a ligação deste movimento ao nome e à memoria de Plínio Corrêa de Oliveira, bem como à obra que ele fundou --- a Sociedade para a Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade.

Conheci a TFP, em Angola, quando se viviam horas muito amargas, no longínquo ano de 1974, já a seguir à traição nacional.

Num primeiro exame, os títulos com que se apresentava este grupo não deixam ninguém indiferente: ou captam, ou exasperam. Se este fosse o problema, o remédio seria fácil: escolha entre um dos dois caminhos.

Mas a verdadeira questão é muito mais profunda. A TFP nunca foi uma força da Tradição. Aproveitando-se do sentimento mariano de muitos povos, ela foi sempre uma falange da plutocracia americana.

Li uma parte substancial da obra de Plínio Corrêa de Oliveira. Repetia-se muito. Pelo que ler o que eu li, será ler já muitíssimo da sua produção doutrinária.

Logo em Angola, analisei cuidadosamente a sua festejada Revolução e Contrarrevolução. O resto veio depois.

O esquecimento, em que aquele professor brasileiro deixa o capitalismo, fez-me sempre a maior impressão. Nunca descobri, em nenhuma das suas páginas, uma crítica ao sistema capitalista. Entretanto, ataques ao liberalismo são seguidos. Ora o capitalismo mais não é do que a expressão económica dos erros liberais, que Plínio Corrêa de Oliveira tantas vezes fustigou.

Quando, em Nobreza e Elites Tradicionais Análogas, aborda a explosão do capitalismo industrial norte-americano, centra-se na imagem do novo rico e, recortando-lhe agudamente todos os defeitos, destaca apenas a fraca figura que ele faz ao procurar, se não encaixar-se, pelo menos equiparar-se à aristocracia histórica. Não descortinei nem uma linha lamentando a triste sorte dos trabalhadores assalariados.

Quem ataca o socialismo, também deve atacar o capitalismo. Acontece que Plínio Corrêa de Oliveira tinha redobrada obrigação de o fazer. Vejamos porquê:

O magistério pontifício é crítico do capitalismo --- e Plínio Corrêa de Oliveira apresentava-se como católico.

Nos padrões da filosofia escolástica, o capitalismo é, como o socialismo, um sistema sem harmonia (o capitalismo dá predomínio ao elemento material da riqueza; o socialismo valoriza mais o trabalho, que é o elemento formal dos bens produzidos). Quer dizer: ambos incorrem num pecado ontológico. Ora Plínio Corrêa de Oliveira dizia-se tomista.

Por último, há a sensibilidade que não pode aceitar a exploração desumana a que eram sujeitos os proletários no auge do capitalismo. Todavia, Plínio Corrêa de Oliveira nunca fez saber que era uma fera.

«Lithuania is catholic but damaged by liberalism (...)», lê-se no texto do grupo promotor deste movimento. Pelo que se vê, nem só o comunismo perde as almas.

No entanto, a TFP ocupou-se a fazer o quê? --- Em vez de mover uma cruzada pela conversão da terra dos Czares, para que se cumpra a promessa deixada pela Virgem de Fátima, atirava-se aos Papas porque nenhum procedia à consagração da Rússia, nos termos que ela afirmava como necessários. E, pelo meio, iam recolhendo assinaturas de apoio à independência da Lituânia. O resultado, temo-lo diante dos olhos: a Lituânia tornou-se independente, «but damaged by liberalism (...)».

Por mim, só tiro uma conclusão: o propósito da TFP foi o de reduzir o poder do colosso soviético a favor dos Estados Unidos, não obstante a nação americana ser, desde há muito, a mais temível Besta do Apocalipse. E, hoje, é a única actuante!


Joaquim Maria Cymbron

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NB.: O texto que comento pode ver-se aqui.

JMC

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

RAINHA DE PORTUGAL

 
Guardai, Senhora, a Nação da qual sois Padroeira!


As leis que ofendem o direito divino, o direito natural e o direito eclesiástico não irrompem numa comunidade de um instante para o outro: ou o seu conteúdo já fervilhava antes que fossem promulgadas, ou vinham anunciadas em precedentes cuja essência era igualmente maliciosa, e apenas se distinguiam das que lhe sucederam por um menor grau de intensidade no acto da respectiva aplicação.

Nestes casos, observamos que a ordem instalada para continuar a obra deletéria, agravando-a, chega invariavelmente ao poder sem resistência digna de menção. Sinal incontornável de como os espíritos já estão preparados para a receber, não sendo de modo nenhum vítimas da mudança verificada, contrariamente ao que se apregoa amiudadas vezes. Por isso, deitar a carga de erros que afligiram Portugal durante a I República, para cima dos homens da Rotunda, afigura-se-me juízo tão ligeiro como atribuir ao 25 de Abril a autoria plena das misérias que nos desgraçam.
 
Parece-me, pois, um erro de consequências funestas dizer que a culpa dos males, que atormentam as nações, está exclusivamente nas instituições políticas vigentes em cada momento, cabendo-lhes por inteiro essa terrível responsabilidade. Aquelas que temos por más, mais do que causa, são o efeito das nossas falhas e dos nossos pecados. Não raro, para encontrar este nexo temos de recuar bastante, porque ele não está tão próximo, nem é tão imediato como se costuma crer.

Eu nunca me atreveria a compor este quadro de forma diferente daquilo que tracei, porque temeria lançar a sombra da confusão entre o que ali se desenhou e tanta luta de sacrifício e pundonor. Marcar esta linha separadora, é o meio que encontro de não apagar da memória a tenacidade jacobita, a gesta vendeana, a epopeia requeté, a cristíada mexicana e a fidelidade católica do miguelismo. Lembrar tudo isto, sem nostalgia e sem ódio, indicando apenas tais lances históricos como exemplos a seguir, tenho-o por obrigação indeclinável. É que eles encerram a lição da distância que vai da revolução contínua à reacção de um povo, quando este ainda conserva vigor anímico e combate as hostes da desolação e da morte.
 
Sempre que está cheia de saúde moral, a sociedade tende a plasmar-se segundo o figurino monárquico; se a rói a doença, revolve-se em crises geradas por doutrinas que negam o que há de transcendente no poder político, até que, consumida pelo liberalismo e pela democracia, acabará nas garras da anarquia. Depois, é a tarefa da recomposição e do retorno à ordem natural, porque as sociedades têm, como os indivíduos, o instinto de sobrevivência.
 
Tempos foram nos quais os teólogos proclamavam a existência do pecado social. Hoje, quem ouve falar disto? «Vos estis sal terrae. Quod si sal euanuerit, in quo salietur? ad nihilum ualet ultra, nisi ut mittatur foras, et conculcetur ab hominibus.» Nos dias que correm, se o sal não salga, não é menos certo que a terra também não se deixa salgar. Por onde se vê que todas as estruturas da sociedade estremecem.
 
Regressemos, porém, ao estritamente temporal:
 
As instituições políticas não criam as comunidades que conhecemos: esta conclusão tanto é verdadeira para os adeptos da tese do pacto social, como para aqueles que, como eu, não o são. O poder político dá-se na comunidade como sujeito de informação na substância que o sustenta. Nunca se desenvolve em sentido inverso!
 
O exercício da soberania é fatalmente condicionado pelos seus destinatários. Esta reciprocidade determina que o poder político é, em grande parte, reflexo da comunidade sobre a qual actua. Daí, a justeza daquela máxima de ter cada povo o governo que merece.
 
Entretanto, a perfeição desse todo, unum per se, depende da harmonia dos dois elementos que o compõem. Esta, por sua vez, é tanto maior quanto a sua unidade for conforme à verdade ontológica.
 
De novo, aqui se descobre o papel decisivo de cada homem na construção da ciuitas. É verdade que a sociedade existe para o homem e não o homem para a sociedade. Todavia, isto não o dispensa de cavar os alicerces e erguer os muros da comunidade onde se insere, e graças à qual vive: impõe-lhe, isso sim, o dever de ser obreiro dessa tarefa ciclópica. Por isso, ou o homem se reforma, ou a onda avassaladora crescerá, galgará continentes e há-de afogar-nos, se até lá Deus não encontrar dez justos nesta Sodoma e Gomorra em que nos tornámos.
 
Termino, protestando a minha esperança na Monarquia como modelo político que está mais conforme ao exposto, e que é capaz de dar resposta aos anseios de uma ordem justa. Mas a Monarquia autêntica, aquela que nos oferece a dinastia como quadro de uma família prolongando-se no tempo, espelho da perenidade da nação já que em cada família está a célula fundamental da sociedade; a Monarquia que, por assentar a sua base na família, tem como todas as famílias uma chefia dotada de autoridade, responsável e, ipso facto, idónea a votar-se ao serviço dos que nela confiam; a Monarquia que repele a quimera da democracia e a descomunal mentira do conúbio promíscuo de um poder dividido, só reconhecendo, como canais da voz dos povos, os corpos intermédios, esses núcleos naturais anteriores à Pátria comum; por fim, a Monarquia que, moralmente fiel à Igreja, toma como encargo mais nobilitante a missão de ser farol da Terra Prometida, para a grei que dirige!
 
 
Joaquim Maria Cymbron
 
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  1. Mt. 5, 13.
JMC

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

EPIFANIA


Hoje é Dia dos Reis. A tradição bíblica relata-nos a visita de uns Magos do Oriente ao Rei dos Reis, Senhor de um Reino que não é deste mundo e cujo poder, por isso mesmo, nada será capaz de destruir.

Os idólatras do número exultam por conta da inegável descristianização, a que se chegou. Como seria de esperar, até no domínio do sagrado, as teses democráticas produziram os seus efeitos nefastos. Mas esta propaganda, toda ela feita da crua exterioridade do que a alma humana tem de menos sólido --- as convicções do vulgo; e de mais efémero --- as paixões do momento, a euforia de que dá mostras, frise-se bem, de nada lhes servirá.

Fosse universal a apostasia que nem por isso a Verdade, que Cristo revelou, se ia alterar. Esta é a Sua vitória, diante da qual as forças do mal, conhecedoras disso mesmo, não sabem opor senão a raiva do desespero impotente.

A majestade de Cristo não se mede como quem apura o activo e o passivo numa qualquer sociedade comercial, nem pelo sufrágio que procura colher de umas urnas eleiçoeiras a pretensa bondade de uma política. Sendo infinita, não é quantificável!

Se, porventura, todo o género humano viesse a perecer, ainda assim o poder de Cristo permaneceria intacto. Nunca Ele acabaria derrotado; os degraçados seríamos nós.

Na Sua Encarnação; com a Sua Paixão e Morte; e pela Sua Ressureição, Cristo venceu o príncipe deste mundo, libertou-nos das cadeias do pecado e, com isto, abriu-nos de novo as portas do paraíso que se nos haviam cerrado pela desobediência de Adão. Mas a glória de Deus não carece de nada na Sua plenitude; os Santos, gozando a Sua visão beatífica, é que são os bem-aventurados!

Joaquim Maria Cymbron