quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

MANIFESTO DA DUQUESA DE GUIMARÃES


Em dia de Reis, vem de molde lembrar as palavras que abaixo seguem. Ao acendrado patriotismo da Sereníssima Senhora D. Aldegundes de Bragança, Infanta de Portugal, devemos a sua existência.
Mais do que se apresentarem escritas num português límpido, nelas é a alma nacional que vibra, no tom candente que enche aquele Manifesto do princípio ao fim. Não é um tratado de filosofia política que temos diante dos olhos. Mas pressupõe-na. Se assim não fosse, não poderíamos ler as verdades luminosas que ali estão. O estilo conciso e incisivo constitui outro dos seus méritos: é a arte de dizer muito e certo, em curto espaço.
De mim conhecido, constitui o último documento político ortodoxo firmado do punho real ou em seu nome.


À NAÇÃO PORTUGUESA:

Tendo assumido, para serviço da Nação e por encargo de meu querido e amado irmão, D. Miguel II de Portugal, como se fosse em Regência, a tutela política do Príncipe D. Duarte de Bragança, legítimo representante de El-Rei meu Pai e dos Reis nossos Avós, nesta hora incerta de ameaças e presságios, quero eu afirmar a todos os Portugueses, sem distinção de bandeiras, a fé nos destinos da nossa Pátria; e quero também afirmar-lhes a esperança certa de ver acordar nos seus espíritos e nos seus corações a antiga e firme lealdade, o amor e a dedicação com que sempre serviram o bem comum, sob o governo e a protecção das Dinastias para maior honra e grandeza do Reino de Portugal.

A todos dirijo neste momento as saudações gratíssimas ao meu coração de Mulher e de Portuguesa, e, quando a nossa Pátria, martirizada na sua dolorosa decadência, manchada de sacrifícios, ensanguentada pela guerra civil, vítima da sua ruína económica, reclama o esforço de todos os seus filhos para a obra da sua libertação e da sua reconstrução, eu relembro particularmente, para o reconhecimento da História, aqueles todos que pelo sacrifício do sangue, pelo sofrimento das prisões, pelas agruras do desterro, têm dado testemunho da sua fidelidade aos princípios eternos que defendemos, proclamando o protesto armado da Nação contra o poder usurpador e opressivo da sua actual forma de governo.

Na compreensão dos deveres que me incumbem e decidida a cumpri-los, sem transigências nem hesitações, para interesse da Pátria e por missão da minha Dinastia, solenemente declaro que é meu firme propósito restaurar, conforme a vontade da Nação, pela Monarquia Representativa dos Municípios e das Corporações da Inteligência e do Trabalho, aquela tradição de governo que em oito séculos de glória assegurou a independência e a felicidade do Povo Português, com as virtudes da Religião e da Honra e com a prática dos sãos costumes antigos, nos quais temos de firmar, agora ainda, as melhores razões para o resgate de tantos males e de tantos erros.

O Príncipe D. Duarte Nuno de Bragança, meu Augusto Sobrinho, oferece pela minha voz, com o penhor da sua juventude sem responsabilidades, a melhor esperança de continuar pela glória do Seu nome, pela virtude do Seu sangue, a verdadeira Tradição Nacional, já duas vezes interrompida, pela política do século XVI e pelo Liberalismo Revolucionário.

E, segundo os seus termos que me proponho em breve fazer definir e publicar, será respeitado o espírito das antigas leis e consagrado o valor das velhas instituições, filhas da índole e dos costumes seculares dos Portugueses e cuja ressurreição a consciência do mundo moderno reclama, adaptando-se, com escrúpulo e prudência, às condições do nosso tempo.

Neste sentido, serão reconhecidas as liberdades das Províncias e a autonomia dos Concelhos em seus foros reformados, será restaurada a Nobreza em função do serviço público, revigorada a instituição da Família na sua unidade, na sua indissolubilidade e no seu património inalienável, organizando-se a produção nacional nas suas respectivas corporações, com satisfação dos legítimos interesses dos trabalhadores.

Todas as profissões organizadas intervirão nos órgãos administrativos do Estado e na Assembleia das Cortes-Gerais da Nação, com exclusão das facções causadoras de lutas civis, coordenando-se todas as actividades e interesses pela direcção do poder do Rei.

No plano restaurador da Nação Portuguesa, a par da obra do povoamento do Sul do País, constitui um capítulo de primacial importância a defesa e desenvolvimento das Colónias, conquistadas e mantidas à custa do sangue dos nossos Maiores para título glorioso da nossa civilização, devendo consagrar-se-lhes a mais zelosa atenção, tão necessária à sua prosperidade e para bem de todos os Portugueses.

À Igreja Católica, por ser a depositária da tradição religiosa da nossa raça e mestra da verdadeira fé, serão restituídos os seus privilégios e liberdades no foro espiritual, reconhecendo-se o direito de associação e ensino às ordens regulares, consagrando-se a moral cristã como a base essencial da educação na Escola e na Família e promovendo-se ainda as possíveis restituições dos bens que lhe foram extorquidos.

A Cultura Nacional, confiada especialmente à Universidade, às Escolas, às Corporacões da Inteligência, receberá um impulso novo com a reforma dos programas e dos métodos e com a escrupulosa selecção moral e mental dos professores.

Quanto às relações externas, o bem da Nação exige que a Monarquia Restaurada mantenha, renovando-as, as antigas alianças diplomáticas que foram obra dos nossos Reis, procurando estreitar outras relações que os interesses da nossa vida política aconselharem, tanto na Europa como na América.

Importa afirmar também que, dentro da Nação resgatada pela Monarquia, todos os Portugueses dignos deste nome serão chamados a desempenhar, nas funções do Estado ou na representação corporativa, os cargos que lhes pertencerem, sem outros títulos ou preferências que não derivem dos seus próprios merecimentos.

No pensamento e execução destas intenções, vai o meu apelo para todos os Portugueses, para a lealdade dos soldados e marinheiros, para a nobreza profissional dos trabalhadores, para o apostolado dos professores, dos artistas e dos homens de pensamento, para o espírito criador dos chefes de empresa, lavradores, industriais, negociantes, e para as virtudes do entusiasmo e da sinceridade da juventude das Escolas; e que ele possa chegar até às populações do nosso Ultramar e às colónias de portugueses do Brasil, da América do Norte, do Oriente e a toda a parte em que os nossos compatriotas afirmam, entre tantas raças diferentes, o valor antigo da nossa raça.

Ao dirigir-me ao nosso País, um só pensamento me anima e conduz --- bem servir a Pátria dos Reis meus Avós. Sinto-me já mais perto de Portugal por ter o dever e a glória de trabalhar para o seu resgate.

E porque o Príncipe em quem se encarnam hoje todas as nossas esperanças, traz com o sangue o nome do grande Condestável, eu o confio à protecção do seu arnês de Soldado e à graça do seu burel de Santo; e certa estou de que nunca ele faltará ao seu Povo nas lutas e sacrifícios e de que sempre honrará o seu posto, para vencer, na tradição gloriosa dos Reis D. Afonso Henriques e D. João I, ou para morrer, no exemplo heróico de El-Rei D. Sebastião.

Sob a muito firme resolução de defender em sua Real Pessoa os direitos que lhe pertencem, aqui deixo selado o juramento de fidelidade e vassalagem e igualmente prometo e juro entregar-lhe todos os poderes, que por Seu Augusto Pai me foram confiados, logo que o Príncipe D. Duarte Nuno, conforme a Tradição e as antigas Leis, possa assumir por Si mesmo a direcção política da Causa Nacional.

E com o auxílio de Deus, por D. Duarte II, saberemos todos salvar o Reino de Portugal!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

RESTAURAÇÃO DE PORTUGAL


Só duas palavras, a propósito da data ontem vivida:
 
Antes de repelir o que não queremos, é da mais elementar higiene intelectual e moral, afirmar a nossa identidade. Do que somos, se há-de inferir o que rejeitamos.
 
Raras vezes, para não dizer nunca, vi melhor hino ao 1.º de Dezembro do que aqui se lê. Não é rompendo em diatribes contra Castela que uma nação se constitui. Portugal restaura-se a partir do dia em que cada Português procure merecer a honra de ser considerado um aristocrata.
 
Nos sombrios tempos que correm, a plebe ruge e a nação consente: são amargos os frutos que comemos. Mas, enquanto não mudarmos, também não temos direito a melhor sorte.

E a plebe, onde se encontra? Ela vem ocupando Belém, pulula em S. Bento, enche o Governo e infecta os Tribunais. Mostra-se nos salões elegantes e também desce, visitando os recantos de má fama. Tão depressa se esconde no segredo das alfurjas tenebrosas, como, vociferante, salta à praça pública. Conhece, e de que maneira, todos estes sítios: instilou-se neles e domina-os.
 
Que a Imaculada Conceição, cuja festa se aproxima, salve esta grei pela via da santificação e por outra que é a do combate. Que é um santo? --- O santo é o herói da virtude. Que é um bom guerreiro? --- O guerreiro audaz tem a virtude do heroísmo.
 
Ambos são aristocratas!

Joaquim Maria Cymbron

domingo, 31 de outubro de 2010

SUBLIME ANTERO

 
                    Intriga como, entre aqueles que queimam incenso na religião das urnas, ainda haja tanto fascínio pela figura de Antero. Parece-me um caso de atracção pelo abismo. 
                    Fazem mal. Repetem o que se verifica com os ataques à Inquisição, por causa da teoria heliocêntrica: o ódio à Igreja cega-os a ponto de não conseguirem ver que o episódio, à volta de Galileu, se alguma coisa de subsistente prova, é que um homem isolado pode ter razão contra o mundo inteiro.

 
Das prosas da célebre Questão Coimbrã, com assinatura do grande poeta açoriano, extraio estas passagens de um arrasador antidemocratismo:

«O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, incorruptível e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o lugar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela ciência, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior duma alma que só vê e busca o bem, o belo, o verdadeiro.» (1)

(...)

«As grandes, as belas, as boas cousas só se fazem quando se é bom, belo e grande. Mas a condição da grandeza, da beleza, da bondade, a primeira e indispensável condição, não é o talento, nem a ciência, nem a experiência: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta como ilustres, nem à opinião, à crítica sem ciência nem consciência das turbas, do maior número, deve pedir conselhos e aprovação, mas só ao seu entendimento, à sua meditação, às suas crenças!» (2)
 
«(...) não é sobretudo lisonjeando o mau gosto e as péssimas ideias das maiorias , (...)» (3)
 
(...)
 
«Como não buscam a verdade pela verdade, a beleza pela beleza, mas só a verdade pelo prémio e a beleza pelo aplauso, têm de as renegar tantas vezes quantas a beleza não agradar aos olhos embaciados da turba que aplaude, e a verdade ofender os senhores que premeiam e recompensam. Ora, quantas vezes num século premeiam os senhores a verdade sincera e inteira? quantas vezes aplaudem as turbas sensuais e ininteligentes a formosura ideal, límpida e simples?» (4)

A seguir, vibra-se a machadada mais funda:

«Esta, a verdade, quer só dar-se a quem a procura por amor, exclusivamente por sua formosura, não pelo aplauso ou pelo preço que possa render. Ora isto é o que não podem fazer as literaturas oficiais. Seria renegar o seu mesmo princípio, o culto da opinião, e o seu fim, o triunfo ruidoso mas efémero das praças públicas. Falam às maiorias, têm de ser comuns. Dirigem-se ao vulgo, têm de ser vulgares. Especulam com as paixões públicas, têm de as aceitar e lisonjear. Dependem dos ídolos do dia, têm de os incensar. Recolhem juro dos prejuízos e ilusões nacionais, têm de conservar esse capital rendoso. Têm por infalível pontífice o juízo popular, não podem renegar de suas doutrinas, seus dogmas, seus cultos. Hão-de ir sempre ao nível do espírito público, do pensar das maiorias: nunca acima. Serão entendidos, aplaudidos, estimados. Nunca, porém, elevarão, nunca hão-de ensinar, nunca hão-de mostrar mais do que pode ver qualquer dos que estão no meio da turba ...» (5).

E remata nestes termos:

«O povo, a verdadeira nação, isto é, os homens que sentem e os homens que pensam, esses não têm simpatia nem admiração pelos formosos sofismas duma arte brilhantemente estéril, que só serve para entorpecer o espírito adormecendo-o ao som de um canto doce mas fraco, sensual e sem altura. (...). Não querem ser divertidos, mas somente ensinados e melhorados.» (6).

Joaquim Maria Cymbron
 
 
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  1. Bom Senso e Bom Gosto, I.
  2. Ib.
  3. Ib.
  4. A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, III.
  5. Ib., IV.
  6. Ib.
NB.: Os negritos são da minha responsabilidade.

JMC

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A RAZÃO DE ANTERO


Corria o ano de 1865, quando Antero de Quental, então em Coimbra, publicava a sua veemente Defesa da Carta Encíclica. De que encíclica se tratava? Nada mais, nada menos do que a Quanta Cura de S. S. Pio IX. Esta defesa é um documento impressionante e que surpreende se tivermos em conta que saiu do punho de um homem como Antero, espírito permanentemente revolto e alma inquieta, tão inquieta que desfechou na tragédia de um banco perdido no Campo de S. Francisco, em Ponta Delgada.


Talvez por tudo isto mereça a pena recordar alguns trechos dessa tão notável peça. Diz, pois, o inolvidável poeta açoriano:


«Servir a Deus e servir o mundo --- ter um corpo para as venturas da terra e uma alma para as recompensas do céu --- a liberdade na vida para nos afagar o orgulho de homem e, além da morte, a fé que dissipe os terrores do crente --- ser cristão quanto baste para iludir a rectidão do Juiz na hora do julgamento e, em tudo o mais, pagão no viver, pagão na prática de cada dia, de cada hora --- aceitar de Deus a segurança da salvação da alma e de Satanás o gozo da carne --- será isto um belo sonho para quem não compreende o valor desta palavra sacrifício, será este o ideal da nossa sociedade sensual e burguesmente comodista (...).
 
(...).
 
(...) E, todavia, alguns milhares de burgueses, sem paixão e sem alma, ignorantes e gordos, conceberam tudo isto, confundiram tudo isto, casaram estes impossíveis, ligaram em abraço incestuoso Cristo e Satanás, uniram enfim os pólos e o equador, achatando o mundo, deslocando o globo --- e a esta coisa sem nome se chamou racionalismo cristão, catolicismo liberal, relação do Estado e da Igreja --- ignorância e absurdo!
 
(...).
 
A Igreja recusa esses auxiliares enganadores --- porque aceitá-los é transigir, e ela não transige porque não pode e porque não deve.
 
A Igreja é universal --- é católica --- o seu espírito é o absoluto. O que sai dela, o que não é dela, não é o indiferente ... é o inimigo, é o escravo revoltoso, é a heresia. (...) será, enfim, a sociedade moderna filha legítima e obediente da Igreja cristã?
 
Não é. A Cúria Romana o confessa. E que não o confessasse, sabíamo-lo nós de há muito. Se não é o filho, é o inimigo --- se não é o Discípulo amado, não pode ser senão Judas o traidor!
 
(...).
 
Hoje, nesta idade de luz, quem é lógico, quem faz justiça inteira ao mundo e a si?
 
És tu filósofo? não: o teu sofisma confunde tudo! Tu, homem de Estado? não: tu és o interesse que se compraz no imbróglio e na contradição! Tu, jornalista? não: tu és a intriga; ou quando não és a intriga, és a ignorância (...).
 
(...).
 
Sejamos ultramontanos muito embora, mas sejamos lógicos.
 
(...).
 
Ou, então, (...) sede ímpios muito embora, mas sede lógicos!
 
(...).
 
Submetei-vos ... ou rebelai-vos!
 
(...)! Conciliar o inconciliável não é para vós --- não é para alguém no mundo.
 
(...).
 
Mas há no mundo uma coisa sem nome, um monstro formado de todas as contradições, de todas as antíteses de todos os interesses rivais, de todas as oposições que podem referver numa sociedade multiforme e confusa (...).
 
(...).
 
A esse monstro moderno chama-lhe a filosofia absurdo --- embora o mundo persista em lhe chamar opinião pública.
 
(...).
 
Lança mil vozes discordantes numa mesma hora a sua boca, que se chama imprensa. E, como é um Deus monstruoso, os seus sacerdotes são disformes e grotescos, são bonzos e não apóstolos: e o mundo, que lhes obedece, não pode todavia reprimir um sorriso de escárnio ao ver passar a falange sagrada dos Jornalistas!»
 
(...).

(...). A Opinião Liberal transviou-se mais uma vez. Não aceita das mãos da Igreja infalível a irrecusável conclusão de sua fé --- não a segue submissa, como crente e católica. Mas não tem também, como herética, o valor de a renegar corajosamente, absolutamente.
 
(...).
 
Não, ó liberais-católicos! a vossa revolta tem por nome impiedade. E, em face da grande, da luminosa, da omnipotente opinião pública, quem tem razão e direito e justiça, quem só a tem é esse velho sublime, cabeça coroada pelos últimos esplendores do astro cristão da fé, que acatais hipocritamente à luz do dia, e que à noite renegais e escarneceis!
 
Judas beijou a Cristo uma só vez. Mas aos vossos beijos fementidos e venenosos quem há aí já que lhes possa saber a conta?...»
 
Abeirando-se do final, Antero explica com luminosas palavras o motivo pelo qual a Igreja não pode transigir:

«Hoje a doutrina, e amanhã já o dogma. Agora é a tradição que se obscurece. Logo é o mistério que se explica. Depois, a moral que condescende. Breve será a fé que se perde (...). E, relaxada, confusa, esquecida, chegaria afinal um dia em que a Igreja, perdida a consciência de si, do seu ideal, do seu espírito, estenderia em vão as mãos no horror do vazio, buscando-se, e não achando mais que sombras! Sentindo lá dentro o flutuar incessante de todas as contradições humanas, a quem dera entrada a sua infeliz tolerância, sem defesa e desarraigada enfim da rocha da sua imobilidade, a Igreja começaria, como nau prestes a soçobrar, oscilando incerta dum lado e doutro, à mercê da menor onda, do mais pequeno interesse do mundo, do capricho dos grandes e da ignorância dos pequenos ...

A profetisa de Deus ver-se-ia serva dos reis! Escrava dos povos, a doutrinadora das nações! A mão que ata e desata as coisas do céu, algemada com grilhões da terra! E quem dá e interpreta a lei divina, recebendo inspirações e ordens da razão, quando não do interesse humano!»

E conclui:

«(...). No meio das convulsões tumultuosas deste mar desconhecido da revolução social, que há um século nos agita em todos os sentidos, o maior revolucionário foi o Papa e, nesta hora presente, o único talvez, porque foi ele quem achou a palavra da situação, a chave do grande enigma, a solução efectiva do problema moderno --- o Cristianismo e o mundo actual são incompatíveis e inimigos.
 
(...) Pio IX arranca dolorosamente do seio da sociedade moderna o sofisma, a ilusão, a contradição que a roía como um cancro encoberto e lhe quebrava com as forças do corpo a energia e rectidão do espírito. Será impolítico no tribunal dos ineptos tiranetes a que chamam governos constitucionais, mas é político no grande, no alto tribunal da história, porque falou verdade.
 
Isto lhe basta.»


Estas palavras de Antero guardam uma actualidade pasmosa, bem visível com João Paulo II, o qual sem se deixar tolher pelo que diriam os bonzos da opinião pública (e muito foi, como era de esperar), não recuou quando entendeu que devia beatificar o Papa que Antero aplaudiu há quase cento e cinquenta anos. Por isso, a estes excertos, que gostosamente compilei, pus como título --- a razão de Antero!
 


Joaquim Maria Cymbron


___________________________________________________
NA --- Todas as transcrições foram tiradas da obra: Antero de Quental --- Prosas da Época de Coimbra, 1.ª ed., Sá da Costa, 1973, pp. 211-222.
JMC

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

RESTAURADORES NOVOS E VELHAS TOLICES


(Autor: Paulo Teixeira Pinto)
 
 
Sou monárquico. Isso sei-o bem.

Desde quando sou monárquico? Isso já não o sei dizer bem. Desde sempre? Bem, pelo menos desde que me lembro. Porque sei que desde o momento em que, ainda adolescente, meditei pela vez primeira sobre o assunto descobri, no mesmo instante, que era, naturalmente, monárquico.
 
Porque sou monárquico? Como acabei de dizer, para mim tratou-se de uma revelação natural, isto é, feita de acordo com a própria natureza das coisas. Não que tal decorra como inerente à própria condição humana, mas no meu caso pessoal resultou do reconhecimento da relação emocional e racional existente entre alguém que é português e Portugal, o mesmo é dizer entre uma ínfima parte e o todo a que esta pertence, uma Mátria que se fez Nação sendo um Reino.
 
Portugal ganhou identidade fazendo-se unido na sua pluralidade. E o que precisamente congregou e conferiu unidade às diversidades que sucessivamente lhe foram acrescendo foram os seus reis. O que tinham em comum todos aqueles que foram fazendo Portugal, no curso dos séculos e nos domínios das terras cujas fronteiras estavam sempre mais distantes, era o respeito a quem os conduzia e à bandeira que todos representava. Neste sentido, portanto, pode dizer-se que Portugal , porque nasceu, cresceu e envelheceu como Reino, é sem dúvida uma construção monárquica. Nada de mais natural, por conseguinte, do que um português gostar de gostar de Portugal, e só por isso reconhecer-se monárquico. Sem com isso se pretender, obviamente, que não haja portugueses que sejam republicanos e patriotas.
 
Porquê ser hoje contra a República? O problema é assim frequentemente colocado, embora o ponto não seja esse, antes o seu contrário. Não são os monárquicos que estão contra a República, mas os republicanos contra a Monarquia. Pois se foram aqueles quem derrubou esta...
 
Ser monárquico não é ser contra alguém ou alguma coisa. É ser por um ideal e estar em defesa de quem o encarna. Porque o Rei não é o senhor do Reino mas sim quem personifica em cada e determinado momento todos aqueles que vivem com identidade comum, num tempo comum e num espaço comum. O Rei é o primeiro servidor da comunidade, ou, dito de outro modo, o Rei é o último dos súbditos do Reino.

Nós, os monárquicos portugueses, também sabemos bem, à entrada do terceiro milénio, que a tradição que encerra a monarquia não é sinal de antiguidade, mas fonte de modernidade. Porque é uma prova de esperança. Esperança que Portugal não se dilua nuns putativos Estados Unidos da Europa. Não desconhecemos que só os povos que preservem os códigos da sua própria identidade poderão permanecer enquanto tais. Sem dúvida que é legítimo que alguns pretendam ser apenas europeus. Mas é mais legítimo ainda querer continuar a ser o que se é: portugueses por natureza e universais por vocação, logo também europeus por consequência.
 
A Europa não é, nem será nunca, uma Nação. E se não o é, nem pode sê-lo, também não deve pretender fingi-lo. Acontece que o faz. E sucede que o fingimento consiste em mascarar diversas Nações com as vestes de um Estado Federal. Ora, tal transformismo só é possível de encenação se nesta participarem abstractamente os chefes de Estado actuais. Resultará sempre realmente impossível se for ensaiado com Reis de Povos.
 
Por isso, ser monárquico hoje não é só uma manifestação de lealdade histórica. É sobretudo uma declaração de luta futura pela defesa da Independência de Portugal, para sempre.
 
E é esta a razão fundamental para todos os portugueses redescobrirem a necessidade e a urgência de emprestarem a sua vontade à restauração da Monarquia. Sem que isto signifique que até agora estejam convencidos do contrário, porque felizmente quase não há republicanos militantes. Se bem que, infelizmente, muitos ainda se julguem republicanos, apenas porque enfim...
 
Assim será até à proclamação: monárquicos porque sim!


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Ó povos, lede e exultai porque é um iluminado que tendes no meio de vós! Chorai também lágrimas amargas contra o destino cruel e avaro, que tanto tempo escondeu dos nossos olhos este valioso tesouro.
 
Que nos diz o oráculo dos modernos deuses?
 
É monárquico e sabe bem que o é. Já não sabe tão bem, desde quando o é. Para, logo em seguida, acrescentar que o é pelo menos desde que se lembra. Isto é: ele sabe que é monárquico desde quando se lembra; mas não sabe é desde quando se lembra. Se não, já saberia se é monárquico desde sempre ou não. E descobriu tudo isto numa meditação que durou um instante: outro prodígio!

Eu pensava que a ignorância não permitia afirmar ou negar fosse o que fosse. Ora a ignorância é privação do conhecimento. E a memória outra coisa não é do que o conhecimento do passado. Portanto, onde a memória falha, aí há ignorância do facto pretérito. Impõe-se o silêncio. Mas isto penso eu que sou um profano. Outras são as luzes que ele tem. Esta generosa confissão permite extrair uma conclusão: podemos pronunciar-nos sobre coisas do nosso íntimo que já não recordamos. O que, então, diga-se de passagem e em abono da verdade, ele não fez.
 
Deixemos agora o que está pelo meio, inquestionavelmente matéria de coturno como tudo o que diz este bafejado da fortuna, mas de nula transcendência se atendermos ao final sublime que nos é dado contemplar. O sobredotado põe remate às suas inspiradas palavras exortando a que haja monárquicos porque sim, até à proclamação. Fica a gente sem perceber muito bem se esses, depois do momento da proclamação, se transformam em monárquicos porque não.
 
E como antes, ele disse «se bem que, infelizmente, muitos ainda se julguem republicanos, apenas porque enfim...», da minha parte, primário que sou, fecho com o modestíssimo juízo de que ele tem esta opinião porque enfim, e eu acho-a errada porque sim!
 
 
Joaquim Maria Cymbron


Obs.: Com um ideal destes, é certa a restauração monárquica: isso sei-o bem. Quando se dará, isso já não sei dizer: nem bem nem mal!
 
JMC

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A MORTE DE ROSA COUTINHO


Parece um paradoxo, quase um insulto, que na véspera do Dia de Portugal eu encime as breves palavras que seguem, com o nome de um traidor sanguinário. Porém, talvez não seja assim.

A seguir ao 28 de Setembro, fui detido em Angola por ordem de Rosa Coutinho (1). À conta da sua morte, li trechos de grande violência, alguns recheados de comentários que não dignificam quem os escreve. A linguagem soez pode ferir os contrários, mas não edifica. E a agressão puramente verbal, só por si, não chega. Se queremos verdadeiramente resgatar Portugal, teremos de estar preparados para uma luta que pode ser cruenta. Para tal, devemos formar as nossas hostes de combatentes. Lançarmo-nos ao assalto, antes disso, é mais que temeridade: será estultícia porque, de momento, carecemos de meios humanos preparados para essa tarefa.

Voltando ao significado da morte de Rosa Coutinho, este nome cuja memória fez explodir de ira tanta gente, a personagem sinistra que causou ruína e morte numa escala assustadora, eu, embora respeitando a revolta dessas vítimas, não comungo dos sentimentos de levar essa sanha para lá da vida terrena. Não digo que também sofri, na carne e no espírito, a desgraça que se abateu sobre a Pátria, porque esse tormento continua. Mas o homem já compareceu perante Deus, a fim de prestar contas. Não entremos nesse ádito sagrado que é o Tribunal da Eternidade e o único que não falha. Reservemos a nossa sede de justiça para os que ainda estão vivos e continuam a representar um perigo contra a Pátria. Um deles tem a afoiteza de se propor para a Suprema Magistratura da Nação.

Quando Rosa Coutinho mandou o MFA deter-me, fez o que era sua estrita obrigação, dentro de um quadro de valores que eu repudio. Nós é que não temos cumprido o que nos cabe realizar. Devemos, finalmente, conseguir que a raiva e o ódio (se eles quiserem consumir-se nisso), passem para o lado de lá. Já tardámos muito. Seria bom que não nos atrasássemos mais.

É preciso convencermo-nos que somos os principais culpados das derrotas que nos tocam. Sem consciência disso, não podemos aspirar à vitória.

VIVA PORTUGAL CATÓLICO!


Joaquim Maria Cymbron

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  1. Seguindo a hiperligação, poderá ver-se notícia mais esclarecedora desta diligência, colocada no intróito do texto ali publicado ---https://legitimismo.blogspot.com/2008/09/manifesto.html.

JMC

domingo, 23 de maio de 2010

AO DIVINO ESPÍRITO SANTO


Que o meu entendimento,
alumiado pela Graça santificante,
confesse, Senhor, a sua pequenez,
e declare, com humildade, os seus acanhados limites.
Pela Vossa complacência,
seja eu digno do dom de se alargar,
tanto quanto possível,
o horizonte da minha inteligência,
dada a Fé minguada que borbulha na minha alma,
mas, sobretudo,
que cresça a minha Fé,
em virtude da fragilidade do meu entendimento.

Por isso, ao lançar-me à obra que é causa Vossa,
eu Vos imploro, Senhor,
que aclareis a minha razão
como se não tivera mais que a Fé indispensável
e, principalmente, volto a rogar-Vo-lo,
que aumenteis a minha Fé
atendendo à minha débil inteligência.

Amparado por Vós,
terão as minhas faculdades melhor disposição
para apreender e eleger o bem mais adequado.
Se o fraco poder dos meus reduzidos méritos
achar compaixão diante da Vossa infinita misericórdia,
ousarei esperar o gozo da bem-aventurança
na visão da Vossa divina majestade
e na companhia dos Vossos Anjos e Santos.

Permiti, ainda, Senhor,
que, nesta prece que Vos dirijo,
constitua, advogada minha,
a Virgem Santíssima,
Mãe de Vosso muito amado Filho.
Intercedendo Ela por mim,
estou certo que não me negareis
as dádivas que Vos peço.

E já que sinto o Vosso auxílio,
neste tempo em que vou de jornada,
ganho forças para exclamar
como o Bispo de Hipona:

Da quod iubes et iube quod uis! (1)

Joaquim Maria Cymbron
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  1. Confissões, Liv.X, 29.
NB.: Estas linhas saíram a lume, pela primeira vez, a 28 de Dezembro de 1978. Publicou-as o Semanário A Ordem, da diocese do Porto. Mais tarde, a revista espanhola Siempre p' Alante também as acolheu no seu número de 16 de Outubro de 2000, p.10.
JMC