quinta-feira, 27 de agosto de 2015

TRADIÇÃO E VIDA

 
Movidos, um após outro, na sucessão imparável do devir, os dias escapam-se e encerram o presente fugidio no sepulcro do passado. Esse presente ressuscita incessantemente --- a sua ressurreição chama-se presente projectado no futuro! Quando a linha, que ata estes momentos, é poderosa e reflecte a lei eterna, aí damos de rosto com a Tradição!
A riqueza do passado; a evidência do presente; e a chegada próxima do futuro são, pois, o património da Tradição. Vivemos no presente, escorados no passado e com os olhos postos no horizonte do futuro.
Nostálgicos do passado, nós? Não, mil vezes não! Entre os que o afirmam, alguns não são capazes ou não querem reconhecer como a transparência cristalina dos factos desmente o erro crasso em que incorrem; a maioria, porém, limita-se a fazer eco do que ouve a outros sem perceber uma palavra do que esses dizem. Para as mentes transtornadas que despejam tal desconchavo, a nossa nostalgia está na confissão da fé tradicionalista que professamos. Esses infelizes nunca repararam, que não é a nossa doutrina que regressa ao passado, mas são os tempos pretéritos a revelar uma força profética que só se explica por serem perenes os seus princípios.
A justeza dos ensinamentos, que nos legaram, salta à vista. A sociedade degenerou de maneira assustadora --- confirmou-se o vaticínio formulado para o caso de os povos se desviarem do caminho que o direito natural aponta. Mas a salvação continua guardada no depósito impoluto da Tradição. A esperança segue viva por muito que os cépticos desanimem e declarem o contrário. E há-de ver-se justificada porque não é possível que a Tradição se extinga.
Na sua raiz ontológica, a Tradição política tem a potência constante de se ir tornando actual e, por isso, é dinâmica. Nenhuma confusão, pois, com sectores cronicamente avessos à mudança, os quais já apodreceram por acção dos miasmas dos pântanos em que mergulharam e estagnaram. A Tradição, no domínio do que é temporal, espelha a imagem do Ser rodeado dos seus atributos transcendentais: a unidade; a verdade; a bondade; e a beleza. A sua unidade permite-lhe exibir a elasticidade que basta para se manter indefectivelmente válida, sem perder a identidade metafísica que a distingue. O tempo passa, mas não a mata. Não a matou até hoje, nem conseguirá fazê-lo, porque a Tradição é um formidável desafio à morte. Formidável e vencedor, registe-se.
De facto, a Tradição não morre. Pode, contudo, revestir-se de dó. Hoje, esse dó alastra por um modo que inquieta porque sobram motivos para que a Tradição se cubra de luto. A Tradição parece prostrada esperando a hora de despertar. Este farol, guia fiel da Humanidade, dá a impressão dolorosa de que se apaga. Num mar de ondas alterosas, sobre o qual navegamos em nau desarvorada, sem agulha e sem leme, são claros os prenúncios de naufrágio. Sabe-se que, na profundeza dos seus abismos, os oceanos escondem muitos testemunhos da via-sacra da Tradição: a história nacional, aqui como noutros domínios, é eloquente. Mas repita-se a ideia: morte e Tradição não combinam. Os soldados da Tradição podem morrer (já muitos morreram e serão seguidos por outros mais); mas a Tradição, essa, não morrerá jamais.   
A morte, em política, é a meta de uma enfermidade que toma nome na Revolução. Mas é bom que se saiba que, para o desenlace mortal, não trabalha só a Revolução. Não descuremos o perigo do conservadorismo e a morna religião dos moderados, seus parceiros de catástrofe.
O conservadorismo, esse agente morboso, que se insinua no meio dos povos, teme a flexibilidade da Tradição que vai quebrantar o sossego da sua fixidez. Entretanto, de envolta com ele, surge o moderado, ser incaracterístico, feito de metades, subespécie do género conservador, que se revolve na ilusão de ter descoberto a pedra filosofal da política num ponto de equilíbrio imaginário, bissectriz da notória demência que um desenhador híbrido traçou enquanto verberava os tumultos da Revolução e se retraía diante da agilidade da Tradição. Conservadores e moderados são, há muito, cúmplices da Revolução: a maior parte das vezes sem dolo, talvez, mas nem por isso menos cúmplices.
Afirmava José Agostinho de Macedo, homem de superior engenho, que os povos são desviados da Verdade por duas buzinas (1): a buzina da moderação e a buzina do adormecimento. Já assim era naqueles anos distantes. Nos tempos modernos, a buzina da moderação, baixando o som do pregão, segreda a ouvidos descontentes: não peças muito a ti próprio nem aos outros, porque isso não é politicamente correcto. Segue-se-lhe a do adormecimento, e caladas as vozes contestárias, vem o torpor e as pessoas passam a andar como se fossem sonâmbulas: não repugna admitir que esta é a buzina tocada pelos conservadores, a da música do antes mal que pior. E é sob o efeito deste estupefaciente duplo, que os povos vão avançando cegamente para o precipício que os há-de tragar.
Anos mais tarde, o espanhol Donoso Cortés, também ele outra figura de eleição, sustentava que as revoluções não existiriam se não houvesse moderados. (2)
Triste desfecho das contradições humanas: o moderado e o conservador, que se ufanam de não ser o que eles chamam retrógrados nem aceitam o nome de progressistas, que detestam a reacção, ao mesmo tempo que abominam as bruscas e violentas convulsões, estes estranhos actores são afinal o principal veículo da Revolução. Lado a lado, com eles arrastam a sina fatal do relativismo doutrinário, de cujos malefícios sofrem!
A Revolução terminará por sumir-se tão violentamente como é assassino o rasto que deixou e conforme os ódios que espalhou, enquanto quis modificar o homem. O conservadorismo, com a sua crónica esterilidade, há-de esboroar-se porque não sabe resistir aquele que não tem aptidão para renovar. Os moderados também se desfarão em pó porque são matéria informe e quem está neste caso não evita o aniquilamento. Juntos, uns e outros, eis formado um tipo curioso de monossomia, isto é, dois monstros vivendo como se fossem um só corpo: ora o destino das naturezas monstruosas é o desaparecimento. Os conservadores planeiam pôr freio à marcha das coisas, o que logo a simples evidência se apressa a mostrar que não é susceptível de se concretizar; os moderados, por seu turno, são como grimpas instáveis tomando a direcção para a qual o vento sopra. O conservador presta tributo ao positivismo legal: para ele quod constitum est, iustum est. Desprovido de um padrão absoluto, não rejeita a Revolução desde que ela se instale: numa rápida metamorfose, lá irá despontar outro acérrimo adepto desse novo estado de coisas. Do moderado, esse arauto do centrismo sem uma circunferência de raio curto ou longo porque nada há que se veja no centrismo, desse ente fantástico, não é melhor o que se possa dizer: moeda fraca, oscilando ao sabor das flutuções daquelas que ditam o valor do câmbio, nunca alcançando cotação credível no mercado, satisfaz plenamente a especulação revolucionária. Só a Tradição perdurará porque, como resulta da sua natureza filosoficamente definida, ela apresenta, a seu modo, todas as notas constitutivas do que é um princípio transcendente e, nessa qualidade, de vitalidade imperecível.
Os pergaminhos da Tradição servem de justo fundamento à sua exigência e à sua selectividade, transformando-a na porta estreita através da qual se sobe ao cume da montanha. A Tradição é exigente no rigor das suas normas; e é selectiva na admissão dos soldados que recruta. O seu rigor é bem visível e por causa dele é objecto das mais ásperas censuras: as apertadas condições de entrada depressa se volveram no alvo de quem ataca a Tradição, procurando afrouxar o quanto de apertado nelas há. Para quê? --- Não é difícil adivinhá-lo!
Há, desgraçadamente, quem misture Tradição com o arraial de umas linhagens vaidosas da sua antiguidade e, por vezes, de um lustre bastante duvidoso para além de poder contar, com maior ou menor fidelidade de prova documental, um número infindável de avós. Satisfazem-se com isto, porque de obras, passadas ou presentes, nem uma! Por obras, pretende referir-se a mortificação pela Tradição e, se as circunstâncias o reclamarem, será ainda mais, porque é a disposição de abrir mente e corpo à oblação última: passa a ser a virtude da fortaleza de quem não vacila em morrer abraçado àquela Cruz. Tomada a Tradição em toda a plenitude com que tem vindo a ser descrita, não será temerário afirmar que este suplício é, talvez, a forma suprema que a criatura humana pode eleger para comungar no drama que foi a Paixão e Morte de Cristo. Não será o Martírio Infinito porque esse só o Salvador pôde oferecer; mas será, decerto, o Martírio Integral de que é capaz o homem. A História traz-nos inúmeros exemplos dessa doação no altar da Tradição; dos vivos, ainda ignoramos quantos terão esse heroísmo.
Voltemos, contudo, à feira de tolas futilidades em que descambou a antiga nobreza. Esse cortejo de uns tantos representantes do que foram castas apuradas, mas que hoje, fora de uns círculos fechados, onde deixam vulgarizar-se o que era uma inegável elegância de maneiras que indisputavelmente possuíam e os diferençava do comum da população, essa gente inócua no seu bacoquismo, já não convence ninguém e, em qualidade, é condizente a ausência de grandeza, porque significa pouquíssimo ou mesmo nada. A isto está reduzida a aristocracia histórica.
Para ser combatente, nas hostes da Tradição, só dois títulos de nobreza importam: um é heráldico; o outro, de natureza genealógica. O primeiro recorta um escudo de armas com o campo cheio dos espinhos do sofrimento e manchado do sangue vertido na luta; a encimá-lo, tem o timbre da honra. No segundo, prescreve-se a obrigação estrita de ficar o nome de cada um gravado na memória dos sucessores. Dois títulos, qual deles o mais rico e ambos de muito peso para os que ousarem tomar sobre os ombros carga de tamanha responsabilidade.
A Tradição também dispensa antiguidades por muito dignas que sejam de figurar nos museus, galerias de arte ou em exposições de ocasião. Muito à semelhança do que se sutentou a respeito das genealogias e brasões, à Tradição não lhe interessam essas antiguidades e, sobretudo, não está nos seus propósitos perder tempo com algumas delas, autênticas velharias ressumando o bafio de arcas que apodrecem. Nem quer gastar-se em labores improdutivos ou em folguedos pueris, que se poderiam compreender em divertimentos de crianças, mas não fora desse âmbito estrito.
A Tradição flui a par do tempo e corre ao compasso dele. Numa aguda e curiosíssima mensagem, S.to Agostinho escrevia que não seria correcto falar de «pretérito, presente e futuro» (3) porque «(...) talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.» (4) E logo ajuntava o conjunto que estes três tempos formavam: «(...) lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.» (5) Perfilhando a prosa do Bispo de Hipona, não é tarefa suave enjeitar a luminosa ideia que, sobre o tempo, nos transmitiu o Doutor da Graça e, mediante os devidos ajustes, proclamar a Tradição como aula duradoura do passado; pedagoga directa do presente; e estrela segura que anuncia a aurora de um porvir mais justo.
Agora é altura de cativeiro, um cativeiro longo e penoso na razão directa do pecado praticado. Os homens acham-se à beira de um abismo terrífico porque, uma vez lá, dele não há retorno: é o abismo da perdição. De garras afiadas, o Demónio prende e rasga o tecido social. Um vento de loucura devasta paragens onde já floresceram culturas que as idades, ao longo dos séculos, não desistem de lembrar e admirar.
Em toda a face da Terra, que povoamos, quem é réu desta ameaça de destruição?
O Islão, carregando o estigma de carrasco temível, pronto a recolher os despojos de um Ocidente amorfo e moribundo? Israel, aparentemente longe da conversão prometida por S. Paulo (6), porque de novo se roja aos pés do bezerro de oiro? A Rússia, herdeira do formidável colosso soviético e que se mantém esfíngica, ocultando o seu histórico messianismo? Uma Europa irreconhecível, que abdicou de si mesma depois de Vestefália e que é, actualmente, uma mistificação política gerada num lugar geográfico pouco firme? Será este amontoado disforme, ostentando um nome que não merece ir além de uma designação toponímica, e que hoje, miseravelmente impotente, já nem vigor tem para recordar o seu passado? Ou é o titã anglo-saxónico de além-Atlântico, que nunca transmitiu uma identidade, provavelmente porque nemo dat plus quam ipse habet? A China? O Japão? Alguma das Coreias? --- Parece que a resposta mais avisada será a de culpas repartidas por todos!
A crise tormentosa, que nos aflige, exige como réplica a guerra. Essa guerra começará pela ascese individual. Constitui um exercício de todas as épocas, porque o primeiro inimigo que se nos atravessa, aquele que nos acompanha sem desfalecimentos, da concepção à tumba, é a concupiscência desordenada que em nós habita. Se permitimos que a sua persistência vença, será o mesmo que oferecer a esse inimigo a vitória que ele estima sobre todas, porque é entregar-lhe o nosso bem mais precioso --- a alma. Depois desta ascese que é o combate contra quem intenta tomar-nos de assalto por dentro, vem o combate contra o inimigo externo. E é esse o que vulgarmente se vê como guerra. Pese embora venha isto a ferir alguns ouvidos pios, de uma piedade de duvidoso sentimento cristão, esta medida, na sua mais nua e crua expressão, sem obviamente esquecer a ascese, é a derradeira solução humana para proteger vidas e fazendas e, acima disso, acautelar a nossa tranquilidade contra a ameaça que pairar sobre todos os que anseiam atingir o fim sobrenatural. Só um milagre pode impedir a necessidade de buscarmos abrigo, um abrigo que é quase paradoxal pela certeza de que nos vamos refugiar numa tempestade de metralha, mas que não deixa outra escolha, se pensamos num auxílio puramente humano.
Porque note-se bem: se não nos vale o Céu, onde está a defesa? Cruzamos os braços? Se o verbo é ainda a corporização formal dos conceitos e estes correspondem à verdade ontológica, Deus há-de demandar quem, dominado por tibiezas ou afogado em respeitos humanos, inclinar os demais à passividade e à rendição ante as novas hordas de bárbaros. Estes bárbaros não são outros Hunos que queimam e saqueiam os territórios que pisam. Eles moram dentro de portas: a fronteira já não é física, mas moral. Pode até ocorrer que a divisão se situe no coração de cada um, desde que ele não possua ânimo bastante para sufocar as suas más tendências ou, ensandecido do juízo, se vire contra os seus códigos e padrões de valores. Esse também virá a engrossar a horda de bárbaros.
Quantos são os desafios que vão colocar-se aos que se decidirem pela Tradição? E que sacrifícios lhes serão pedidos? Muitos e pungentes, sem ponta de dúvida!
A arquitectura medieval ergueu as mais belas catedrais que o génio humano alguma vez levantou. São obra-primas que saciam a sede de beleza do nosso espírito. As suas linhas seduzem e este encanto atravessou séculos, o que garante a sua continuidade. Todavia, o maior monumento deste período histórico não se compõe de pedras: a mais perfeita construção está na Respublica Christiana que encheu de benefícios a Europa quase inteira. Nunca, antes ou depois, se casou com tanta harmonia o modelo político com o espiritual de raiz cristã. Um Humanismo, de um antropocentrismo excessivamente soberbo, fez os primeiros estragos neste edifício; como era de esperar, seguiu-se a Reforma que lhe vibrou os mais duros golpes; o Despotismo Iluminado, com todos os destemperos do Enciclopedismo, não tardou; daí à Democracia e ao Liberalismo foram breves passos. O momento, que se vive, é a hora do delírio; para nele se cair, após o percurso aqui enunciado, foi mera questão de tempo.
No presente, a nossa civilização está à beira de ruir por completo: é um dado incontornável, já referido, e que ora se repete para melhor arrumação do que resta expor. A decadência é geral e toca os mais diversos campos: sentimento religioso; dignidade moral; culto da família; espírito comunitário, tudo isto foi paulatinamente invadido por um veneno letal. Na sua fereza, a Revolução não poupou templos, raças, países, classes ou instituições de qualquer procedência ou origem. O risco de o homem não sobreviver bate à porta. A sanha deletéria, que a impulsiona, traz o selo dos Infernos, porque não se lhe dá de também arder nas labaredas que ateou. O ódio é tão contra naturam que até apetece sofregamente triunfos com o travo das vitórias pírricas, onde acabará por se consumir à semelhança do herói do Épiro. O destino da Revolução é, efectivamente, o de se revolver nas cinzas, que a sua rota deixou atrás, e o de estorcer-se no meio do fogo, impenitente e raivosa por deparar com a derrota final.
Sirva-nos este turvo panorama para que dele se extraia lição profícua. Ensina-nos a História que, mais do que aos inimigos externos, a responsabilidade da derrocada de impérios e de culturas deve ser imputada aos que atraiçoaram a herança recolhida. Se Deus desencadear um castigo cósmico, quantos serão poupados a esse decreto de extermínio, como o foram Noé ou Lot?
São múltiplos e gravíssimos os males que abalam o que sobeja de ordem social. No entanto, há um que é o mais preocupante: a progressiva degradação do pensamento.
Quando a vida humana é vista como um valor absoluto (e isto, intrigantemente, acontece por parte dos que se dizem seus defensores), se tal se verifica, não deve admirar que as portas, já escancaradas há muito, se abram ainda mais a todo o tipo de desmandos. Este jeito de olhar a vida humana padece de um erro ontológico inadmissível e é um dos despautérios mais em voga. Sempre que, com palavras muito cativantes, se proclama a vida humana como um valor absoluto, sustenta-se algo que choca, pelo menos dialecticamente. Daqui irrompe um número de tremendos contrassensos, mesmo para os que, sem ter como nós a graça da fé, não renunciaram ainda às faculdades de que estão assistidos como seres racionais. E, para os que cremos em Deus, esta construção teórica, além de repugnar ao entendimento, é de um arrojo inaudito com proporções de sacrilégio.
O valor da vida humana é um valor sagrado, isso sim, mas a nossa vida não está dotada de valor absoluto, porque absoluto, inequivocamente, só Deus. O homem participa da Sua essência, mas não é divino. Deus não tem princípio nem fim e n' Ele não há sucessão de qualquer espécie; o homem tem princípio, sucessão de operações, está sujeito à corrupção da morte e só é imortal a sua alma, a qual Deus tem poder para aniquilar, conquanto não o faça pela fidelidade às leis que imprimiu à Sua obra, segundo a natureza de cada coisa criada. Em suma: Deus é Acto Puro, é ens a se; o homem muda, existe ab alio.
É da essência divina o existir; o homem apenas o tem. Sendo radicalmente diferente a essência, diferente há-se ser tudo o que se lhe possa atribuir. Ferir a nota de absoluto, como propriedade da vida humana, atira-nos para um ponto sem saída, uma vez que esta posição se converterá automaticamente na negação da legítima defesa individual ou colectiva. E assim é que, sob a capa de campeões de um valor positivíssimo, com a qual se cobrem, todos eles vão alimentando a subversão, uns inadvertidamente, maldosamente os outros.
Medir e pesar o valor da vida humana nos seus exactos limites, é empresa árdua, mas nem assim devemos lançar ao desprezo este assunto apaixonante, que é, ao mesmo tempo, delicado e espinhoso: o problema merece particular atenção e a sua solução é de suma importância. Fixar a noção precisa da vida humana é imperioso para quem queira encontrar a base sobre a qual opera a Tradição. Com efeito, se a origem de tudo é Deus, sem vida a Tradição seria inútil. De forma liminar, cumpre dizer que é a Tradição para o homem e não o invés. O excelso papel que a Tradição desenrola só tem lugar no palco do quotidiano: esta relação dita a necessidade de clarificar a noção de vida para se não duvidar do relevo que a Tradição assume na história do homem.
Convém, pois, ter presente que a vida é um dom outorgado pela magnânima liberalidade de Deus, e que fomos criados para amá-Lo, servi-Lo, glorificá-Lo e gozar da Sua visão beatífica. Temos apenas um direito: o direito permanente e inauferível de exigir condições para cumprir esta missão. E, pelos fundamentos já aduzidos, volta-se a lembrá-lo --- a vida humana nunca há-de ser elevada à categoria de valor absoluto. A tal se opõe, conforme vimos, uma impossibilidade metafísica confirmada pela dogmática teológica.
Por isso, a reprovação do recurso à guerra, arrancando de uma argumentação que repousa na falsa premissa de ser a vida humana um valor absoluto, não é de levar a sério. Mas, por mal dos nossos pecados, já se infiltrou no organismo das comunidades políticas em quantidade suficiente para as perturbar. Este incidente é mais um elemento a reforçar a nossa hostilidade contra tão incomensurado dislate.
Não se requer uma especial agudeza de análise, nem grande poder crítico para logo intuirmos casos em que a guerra é não só um direito como até um dever. Aquele que, de forma muito suspeita, invoca princípios religiosos para privar de legitimidade a defesa colectiva (e esta é a outra designação da guerra justa), está certamente animado de má fé ou anda esquecido do castigo sofrido pelos benjamitas às mãos das outras tribos de Israel (7). E é ainda maior o despudor ou a ignorância ao calarem os depoimentos pertinentes a esta matéria, todos eles fazendo parte do riquíssimo espólio dos mais ortodoxos teólogos e filósofos do Direito!
Se cada vida humana fosse um valor absoluto, nem ao seu titular seria permitido dispor dela porque o seu direito à vida era absolutamente indisponível. Realmente, no dia em que se puder dispor de algo absoluto, ipso facto esse quid perde a sua qualidade absoluta. Se discorremos de diverso modo, isso implicaria negar a licitude do martírio e de tantas outras acções não só legítimas, como até louváveis e, às vezes, mesmo imperiosas.
Estas são páginas de luta e foi para ligar a vida à Tradição, marcando a função que a esta cabe em defesa daquela, que se optou por um discurso de combate. Portanto, não deve espantar que as linhas finais prossigam neste sentido, uma vez que a noção de vida foi adulterada mais, muito mais do que consentia uma já benigna e tolerante indulgência. Contra essa deturpação, aguarda-se remédio na Tradição e nela reside a nossa confiança.
Retomando o fio ao que se vinha desenvolvendo no que respeita à suposição de ser válida a opinião que vê um valor absoluto na vida de cada homem, o que de maneira alguma se concede nem concederá, regressando aí, vem de molde acrecentar que teríamos de fazer orelhas moucas ao chamamento para uma guerra defensiva porque, em obediência ao consequente lógico de um antecedente sem tino, ou se se preferir, em fina criteriologia e são rigor de Justiça, não seria coerente afirmar esse valor para uns e recusá-lo a outros. Sendo todos, dentro daquela insólita tese, titulares de um direito absoluto sobre as suas vidas, se for o caso de alguma nação exercer violência sobre outra, como há-de esta reagir quando a corrente, aqui refutada, declara que as vidas dos soldados do exército agressor também assentam sobre um direito de valor igualmente absoluto? É forçoso concluir que, a iniciarem-se as hostilidades e mantendo-se esta insensata teoria, teríamos oportunidade de contemplar um quadro de antagonismo, onde múltiplos valores absolutos se encontrariam na iminência de entrar em colisão frontal com outros valores absolutos. Quod absurdum!
Quando há campos opostos prestes a digladiarem-se, que estilo de convívio apregoam esses mensageiros de uma sociedade em que todos são titulares de um direito aboluto à vida, o que exclui, como vimos, a viabilidade de uma legítima defesa colectiva? Que códigos anunciam? O que daqui se deduz é que resultou manifesta a inexequibilidade de qualquer coexistência sob um regime tão abstruso. E esta impossibilidade estende-se aos casos de defesa de cada particular diante de quem injustamente o ataca. De facto, se o que ataca e o que defende são, um e outro, senhores de um direito absoluto sobre as suas próprias vidas, ao que sofre o ataque, é-lhe vedado defender-se, se não tiver outro meio de sustar esse ataque sem provocar a morte do atacante. A validade de raciocínio é equivalente em todas estas situações: guerra (clássica ou subversiva); sedição; e defesa individual.
Não quererão explicar-se melhor os promotores desta charada, de modo a eliminar um desacordo que, como sucede tão frequentemente, pode derivar de um alcance mais afastado daquele que era prudente atribuir ao sentido vocabular das palavras usadas? --- A dúvida, em que o façam, é lícita. De qualquer modo, não custa esperar. E, enquanto isso decorre, prossigamos:
A guerra está legitimada, desde que observe a tríplice condição que foi indicada por S. Tomás de Aquino --- sumariamente, eis aqui os pressupostos indispensáveis: auctoritas principis; causa iusta; intentio recta (8). E casos há nos quais movê-la, além do poder moral e jurídico que é, se transforma num dever a cumprir. Fugir a este dever traduz omissão de uma tarefa que emana de um comando categórico: desacatá-lo, nestas circunstâncias, cheira a deserção e pode ser concausa ou, pelo menos, ocasião da iniquidade que se vai assenhoreando de todo o Mundo!
Mutatis mutandis, no magistério do grande teólogo, também o direito à rebelião contra o tirano vai achar a sua justificação: «(...) regimen tyrannicum non est iustum (...).» (9) Os pontos de apoio, de que o Doutor Angélico se socorre na questão de seditione, quando não são formalmente repetidos, ao menos em substância, sempre subentendem o conhecimento e a concordância com os da questão de bello. Sendo idêntica a matéria versada, as conclusões a tirar têm necessariamente de se aproximar podendo mesmo chegar à fusão completa. Determina isto que tudo quanto foi usado para mostrar a inconciliabilidade entre o fundamento da guerra justa e o pretenso direito absoluto à vida, isso tudo é inteiramente aplicável ao confronto que se cava entre a revolta contra o tirano e aquele descomedido direito à vida.
Sobre a defesa do particular é escusado argumentar muito: é um direito natural e é dele que os outros brotam. Brotam dele e para preservação do seu titular porque hominum causa, omne ius constitutum est (10).  
Não se pense que, por falar na legitimidade da guerra, da insurreição ou da defesa pessoal, cumpridos prévios requisitos, significa isso que o combate pela equidade se confina ao campo de pugnas cruentas. A luta pela civilização, que é afinal a luta da Tradição, pode e deve travar-se em três frentes: rezando; doutrinando; e pelejando de armas na mão.
Quando vai ser o termo desta Cruzada? --- É uma incógnita. Contudo, um dia a sarça voltará a arder e uma nova Páscoa há-de raiar. Então, outro Moisés surgirá para guiar o povo de Deus à Terra da Promissão (11)!
 Joaquim Maria Cymbron

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1.     O Desengano, n.º 16, p. 7.
2.     Correspondencia con el conde de Raczynski, 13 de agosto de 1849.
3.     Confissões, liv. XI, cap. 20.
4.     Ib.
5.     Ib.
6.     Rom. 11, 25 e ss.
7.     Iud. 20, 11-48.
8.     Summa Theologica II-II, q.40, a.1.
9.     Ib., q. 42, a. 2, ad 3.
10.   Digesto
11.   Ex. 3.
 
JMC

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O ESPECTRO REAL


  • Non seruiam! Este foi o grito que fixou o começo da Revolução Universal.
  • Sereis como Deus! Aqui temos a mola da primeira afronta feita pelo homem à Divina Majestade, patente na desobediência de Adão.
  • Subireis a Pontífices das religiões nos vossos reinos! Constituiu a insurreição do temporal contra o espiritual.
  • O poder dos imperantes é absoluto! Eis o cesarismo rasgando o tecido natural da sociedade.
  • Que são os nobres mais do que nós? Assim se discorre nas comoções da burgesia.
  • Porque não temos tanto como os ricos? É a obsessão dos agitadores socialistas.
  • Cada um de nós é soberano! Deste modo pensam os inimigos de qualquer tipo de ordem, sejam eles pedreiros-livres ou anarquistas libertários.  
 
A Humanidade, privada de ordem, assemelha-se a uma horda animalesca. E adopta pior procedimento que os brutos, bem patente no aparecimento de um novo culto --- o daqueles que se prostram diante do que é inanimado. Anda pior do que os irracionais, porque estes nunca erram nem prevaricam se seguirem o instinto; o homem, se falta ao dever, age com culpa, fora os casos extremos de não-exigibilidade. E, cedo ou tarde, paga por isso!

O Mundo, está visto, perdeu o sentido de tudo que é autenticamente sagrado. Quanto mais se desvia de Deus, mais o homem se afunda (1). Degrau a degrau, foi o homem descendo na escala da própria dignidade: como Lúcifer, revoltou-se primeiro contra Deus; depois, endeusou-se a si mesmo; hoje em dia, adora a matéria.

A degradação de Portugal não é um processo separado do que atinge o resto do Mundo e a sua explicação mais profunda radica no que acaba de expor-se. O resto são acidentes de um só percurso, ao qual não temos sido capazes de fugir.
Por conseguinte, provém de desvarios muito antigos a lepra que cobre Portugal e só agora veio a estender-se com mais intensidade, desfigurando-o a ponto de o tornar quase irreconhecível. A presente hora é sombria e nem outra coisa havia a esperar.

Passemos, pois, em veloz revista, o momento que se vive:

Pode o demónio da Troika entrar por aí e ditar leis em nossa casa, que isso não nos dói: organizam-se umas manifestações de protesto; vomita-se um chorrilho de injúrias nas redes sociais; e toca para casa que a canseira sofrida já foi muita. Nem interessa perguntar à história quem talou o nosso solo, trucidou populações, pilhou as nossas igrejas: o melhor será olvidar esses eventos, carregados do bafo pestilento da Bastilha e enodoados pelo sangue da guilhotina, autênticas ninharias, não há que ver, dando assim prova de coerência com o nosso proverbial feitio de passa-culpas. Prossigamos! Que os grifos do leopardo britânico, pelo menos desde Methuen, viessem rasgar, dolorosamente e fibra a fibra, as carnes de Portugal, é assunto irrelevante que não tem de afligir: vão-nos salvando as meninas do bom tom, falando português com um acento very british, numa linguagem estafada, e além disso pedantesca como tudo o que é copiado, mormente quando é grosseira a imitação. Também pouco ou mesmo nada importa que lá das bandas dos States, furiosos tufões, que ciclicamente se levantam por Wall Street, deitem por terra o equilíbrio de muitas economias. E cala-se a notícia de que a Casa Branca de braço dado ao Capitólio, tendo o Pentágono como virtuoso, multiplicam guerras para, em seguida, os seus dirigentes se apresentarem ao Mundo como cruzados. Não se sabe bem de que causa, porque são cruzados sem credo para pregar, privados de qualquer doutrina, despojados de semente que frutifique --- o rasto que deixam é o de um vazio confrangedor, e este deserto moral é o espelho da sua alma. Todavia, nisto tudo, que é muito, que é grave, e de outras escondidas ameaças, nada conta para preocupação da nossa gente. O que monta, aquilo que nos inquieta é a velha ameaça do leão espanhol, sempre à espreita, rondando a porta, mal pavoroso ao qual temos de opor, se queremos sobreviver, a altíssima missão de recuperar Olivença. Numa crónica, infeliz e apagada obsessão contra o país vizinho, da qual o episódio de Olivença é apenas uma amostra, alheados das batalhas que vale a pena travar, vamos consumindo energias com sério risco de desaparecer como Nação. Porquê este mau agoiro? Porque, no mínimo por omissão, se está colaborando, com maior ou menor consciência daquilo que se faz, na obra de destruição que paulatinamente vai corroendo a nossa identidade genuína.

Num povo, onde ninguém apareceu com força suficiente para impedir uns desnaturados de estadearem a traição, entregando um império, continuarem alguns a tocar estes clarins de combate, seria pilhéria de mau gosto, se antes não fosse desgraçadamente real. E como fenómeno tristemente vivo que é, indicia o sintoma funesto da nossa decomposição. Se a paranóia de Espanha é patriotismo, então o anafado marido de Madame Oriol, que Eça retratou com perícia magistral (2), também seria um exemplo de zelo da honra conjugal. Aquele pobre homem, miseravelmente, confessava a sua indiferença perante as infidelidades da mulher, desde que ela o atraiçoasse exclusivamente com amantes escolhidos na mesma roda social; explosão de brios ofendidos, apenas quando o parceiro de adultério era o trintanário. Esse estava proscrito! De forma análoga nos encontramos na matéria da qual, aqui e agora, se trata: alguns há que suportam todos os ataques à honra nacional na condição de não vir de Espanha a afronta: essa é o lacaio do conto queirosiano. Que desoladora mentalidade!

Hoje em dia, a Espanha não está menos de rastos do que nós. Efeito de uma decadência moral e material para que a atirou o mesmo veneno que vimos tragando e nos vai matando --- a democracia misturada com o liberalismo. Que resultou desta simbiose? Tinha de gerar frutos daninhos: a ética degenerou em licenciosidade; a ordem pública tombou na anarquia; a liberdade, há muito desviada do seu exacto conceito, é hoje uma miragem, inútil como todos os enganos; a probidade foi substituída pela corrupção!

Não se creia por isto que Portugal nada tem a recear de Espanha. A crença numa aurora de paz universal soa a falso, e é a melopeia que a subversão serve em bandeja de ricos lavores para embalar os néscios. É evidente que esquecer a lição do pot de fer contre le pot de chair tem um nome: temeridade! E Portugal, enquanto não levar volta, é cada vez mais uma panela de barro. Portanto, as nossas relações internacionais têm de ser orientadas pela medida da prudência. Relações com todos os Estados sem excepção, note-se! Centrar essa preocupação de reserva e cautela num único país, é não só doentio como também arrasta consigo o perigo de suicídio.

No entanto, contra tudo o que é previsível, se a Espanha eventualmente avançar sobre Portugal, pratica um acto injusto e mete-se num aventura insensata. Ventos de separatismo, já tem que lhe chegue. É razoável supor que queira mais? De parte a parte, seria um conflito de quem, por este andar, pouco falta para se estorcer nas vascas da agonia. Contemplaríamos o espectáculo macabro de uma guerra de moribundos. Está, por isso, afastado o fantasma do iberismo? Nunca, frise-se de novo! Porém, se a indesejável união peninsular se consumar, se isso ocorrer, não se dará a anexação operada pelo lado de uma Espanha triunfante e dominadora, porque ao que assistiremos, nessa altura, será à diluição conjunta de ambas as nações no todo imenso de uma Europa disforme. Este, o dano irreparável que é de temer; entretanto, há quem prefira ficar-se pelo brado do "arreda Castela". Construtivo e heróico, não haja dúvida! Pobre Portugal e pobre Espanha se a nossa repulsa primária prevalecer sobre a decisão de lutar contra o que é verdadeiramente deletério. Oxalá venham os campeões dessa persistente aversão a convencer-se de que, faz tempo, o inimigo de Portugal mora dentro das suas próprias fronteiras.

No dia em que Portugal e Espanha recuperarem as suas raízes históricas, conservando intacto o dualismo político, poderão servir de exemplo ao Mundo de como a unidade moral não destrói fronteiras territoriais, nem acaba com soberanias distintas. No presente, nem pensar em acordos dessa espécie: a guerra de moribundos cederia a vez à aliança do sepulcro!

De novo treme o Mundo, ao ouvir o nome da Rússia. Não tardará que se volte ao maniqueísmo do pós-guerra: se te não agrada o tio Sam, olha que vem aí o urso do Leste! Simplesmente, pode suceder que, contrariamente ao esperado, o abraço yankee sufoque muito mais do que o russo. Não há asfixia mais dolorosa do que a angústia moral daquele que nada de bom ou de mau recebe e a quem cortaram o sopro anímico, roubando-lhe o fôlego que dá vida, uma vida que seja algo mais do que o mero existir; a Rússia é messiânica e, se nem sempre transportou uma fé que fosse luz e calor, iluminando todos os entendimentos e arrebatando as vontades, o certo é que nunca surgiu sem trazer com ela uma mensagem. Das vezes que impôs o seu selo, mesmo violentando, teve sempre o mérito de nunca esvaziar as mentes e secar os corações. Ninguém bem intencionado poderá negar a presença de uma mística naqueles que foram seduzidos pelos erros que ela, recentemente, espalhou. Entretanto, a América rival como responde a isto? --- Essa tem a generosidade de ofertar-nos os índices do Dow Jones e do Nasdaq! Mas dá mais --- ao som das trombetas de um pretenso princípio de autodeterminação, ela tira do seu depósito de mitos estes dois tesouros: a utopia democrática e uma ilusão de liberdade! Como os distribui? --- Simples brincadeira de crianças inocentes: derruba governos; semeia o caos; arrasa com bombardeamentos; e sobre as ruínas de uma terra devastada, para que não a caluniem acusando-a de tudo reduzir a pó e cinzas, cai em si e ergue um cemitério! Não realiza isto a felicidade dos povos?

Sob certo aspecto, mas muito mais ampliado, desenha-se hoje um quadro substancialmente parecido ao que a História registou no dealbar do séc. XIX. Por essa época, toda a Europa gemia debaixo da sola dos colossais exércitos franceses que, de arma ao ombro, desfilavam invictos do Atlântico aos Urais. Quem foi, então, o campeão que ousou desafiar o poderio de Napoleão com o fim de derrotá-lo? --- A Santa Aliança, coligação de nações, cuja alma foi a Rússia, que já expulsara do seu território le petit corse! Que papel reservará o futuro próximo à Rússia milenar? Custa assim tanto aceitar que há-de ser idêntico, no esforço despendido e no êxito obtido? Se o cepticismo tomou conta dos homens e o relativismo matou toda a certeza legítima, não pode haver esperança em quem por tal modo perdeu o sentido do absoluto, e não admira que o caminho venha a abrir-se àqueles que guardam a noção dos valores que perduram. A Rússia tem essa noção!    

Assim é o cenário que rodeia Portugal. Convenhamos que nada mostra de atraente. Na encruzilhada que se abre, num Mundo progressivamente mais dividido e desconfiado, cumpre aos Portugueses optar por uma via. Façamos votos de que, sem ofensa da nossa secular tradição, essa escolha seja ditada não por rancores ou ressentimentos, mas sim pelos interesses superiores da Nação. 

O amor a Portugal não se alimenta de ódios a nada nem a ninguém. Com efeito, ódio e amor não combinam. É até perfeitamente ajustado afirmar que se excluem mutuamente. A incompatibilidade entre amor e ódio é total, porque ainda que diverso o objecto, a verdade é que coração onde o ódio cabe, é necessariamente coração incapaz de amar. Depois de Deus, o amor à Pátria é o mais sagrado amor que há. Não está acima, nem abaixo do amor aos Pais porque é determinado por estes: é pelos Pais que conhecemos a Pátria e para ela nascemos, mas já é mais difícil conceber o contrário, se temos a desventura de não saber quem são os nossos Pais. Não se estabelece com isto nenhuma primazia, procurando-se apenas enunciar a relação de afinidade entre dois deveres indiscutíveis, definindo bem os seus contornos. Cientes desta ligação natural, somos levados a pensar que este nexo, sem sofrer alteração, se estende por um universo de pessoas, o que automaticamente transmite à Pátria uma identidade de transcendente valor e que é inconfundível: alfobre prodigioso de famílias constituindo os anéis vivos de uma formidável cadeia humana, corpo místico que se renova, de geração em geração, porque os seus membros vão coexistindo e sucedendo uns aos outros, alongando-se no tempo e no espaço, eis o que a Pátria é. Daí que à Pátria se deva um excelso amor. O ódio só viria macular a beleza deste sentimento!

Pisando estes domínios, com passo bem seguro, Alfredo Pimenta não se enganava quando, desassombradamente, sem vacilações nem ambiguidades, punha a Nação acima de tudo. E como esta exaltação candente tinha virtualidade bastante para causar alvoroto derivado da surpresa pela tese inusitada, logo o insigne Mestre da Portugalidade sossegava essas consciências mais escrupulosas e, firme na sua sabedoria, inabalável na sua convicção, esclarecia com placidez que «sem Deus, é a Nação sem alma; sem Rei, é a Nação acéfala.» (3), acrescentando que «(...) sem Deus, a Pátria é um mito, sem o Rei, nem o Poder de Deus encontra o seu legítimo executor, no mundo da Política, nem a Pátria possui o elo que prende eficazmente, através dos tempos as gerações, e as torna solidárias ou colaboradoras na procura normal dos seus destinos.» (4).

A concepção, que Pimenta revela ao nosso olhar, representa uma visão integral de Pátria, que confessa Deus e aclama o Rei. Não choca nem repugna. E merece destaque que, depois de fazer profissão de fé na existência de Deus e reconhecer o Seu poder no regimento dos negócios temporais porque d' Ele é o governo do mundo, Pimenta atribua à realeza a função mais característica da sua essência --- a de ser cabeça da grei! Com efeito, se nos lembrarmos que o Rei, além de Rei e antes de o ser, é um chefe de família, depressa compreenderemos como estruturalmente a monarquia é um conjunto de famílias, que buscam lição e aproveitam o exemplo numa delas, na qual se revêem. Neste processo forma­-se uma comunidade política, que mergulha no passado, atravessa as idades e tem vocação de futuro, com isto nos oferecendo, como já referido, a grata imagem de Pátria, rica de tantos sacrifícios gloriosos, e prenhe de ridentes promessas enquanto Deus for servido!

O último envolvimento de Portugal num projecto de cariz nacional foi, inequivocamente, a guerra do Ultramar. Não está o desalento na forma ignominiosa como acabou esse moderno Alcácer-Quibir, mas sim no comportamento de todos os que ali intervieram com consciência de que cumpriam um dever indeclinável e nobilitante. A obrigação pretérita não terminou com a felonia praticada. Até ao presente, nada se fez. E seria bem melhor ter pressa porque já não resta muito tempo à geração que lá andou. À tarefa de recuperar o que se perdeu, não há-de ser estranho um propósito de catarse redentora da dignidade e da honra que os traidores enlamearam. Isto tem sabor de penitência porque é verdadeira expiação de uma culpa em que incorreram todos quantos viveram esse período, uns por acção ominosa e os outros no grau exacto da sua omissão.

Há poucos meses, um dos maiores traidores de sempre, na já longa história de Portugal, alertava para a eventualidade de uma guerra civil, que seria, no seu entender, a réplica imediata a uma mexida na Constituição (5). Porque o fez? Provavelmente porque o projecto de alteração não lhe assentou de modo satisfatório, ou buscou talvez o sensacionalismo que tanto é do seu agrado. Por isto ou por aquilo, reagiu deste jeito.

Seja a razão qual for, saindo daquela boca, o mais certo é ser palavreado oco! Mário Soares fala assim porque bem sabe que pode agitar esse fantasma sem qualquer risco de que ele surja nos próximos tempos. Porventura, já regressaram a coragem e a tenacidade indispensáveis para uma guerra (e para mais uma guerra civil)? Pelo menos, sinais disso não se descortinam e, por isso, vai acontecendo o que vemos.

Quando o pundonor voltar, a música será outra. E lá que há-de vir, isso flui inevitavelmente do determinismo que rege as relações humanas, consideradas estas na sua generalidade, porque as sociedades, como os indivíduos, também possuem o seu instinto de sobrevivência. Tem a particularidade de ser um movimento de gestação lenta por força da sua natureza colectiva, com tudo que lhe está inerente. E isso demora a resposta.
 
S. Tomás de Aquino, para que a guerra fosse lícita, defendia que tinham de somar-se três elementos, em perfeita concórdia: a autoridade do príncipe; ser justa a causa pela qual se luta; e, por fim, recta intenção por parte de quem move a guerra (6). Faltando um destes componentes, a guerra não tem justificação.

 
Guerra e sedição reclamam tratamento análogo. Nestes termos, o que for justo num lado, sê-lo-á igualmente no outro. Não é raro que a sedição conduza a um conflito bélico dentro da mesma comunidade nacional. A diferença mais acentuada é, pois, uma eventual questão de precedência.

Num breve sumário, alinhemos as condições exigidas para que se possa partir para uma rebelião, no caso concreto de Portugal:
 
  • Um chefe --- Por enquanto, não se lobriga.
  • Congregar vontades --- Não é o mesmo que um piquenique: as pessoas, apesar das dificuldades económicas (reais umas, imaginadas as outras) habituaram-se a um bem-estar material, custoso de abandonar. E, além disso, o que pesa mais: numa guerra há mortos!
  • Traçar objectivos --- Quando uns desgraçados saíram com tanques para a rua, numa triste madrugada do mês de Abril, sabiam onde dirigir-se: não ignoravam que caídas certas cabeças, o sistema iria a terra como de facto aconteceu. E, se ainda que tenhamos garantido o que vem nos dois primeiros pontos, quem visamos quando é dado líquido que, na maioria dos cargos, os amos do poder efectivo não são indissociáveis  dos que ocupam os postos de mando? Por quem os vamos substituir? Que política se instaura?
  • Há ainda outra condição a preencher e é aquela a respeito da qual teólogos e publicistas mais ortodoxos sempre convergiram --- a de que, dentro de uma razoável prognose, a insurreição não traga maior dano à comunidade do que o regime perverso ao qual se pretende pôr cobro. Ora isto só pode observar-se quando se verificam os requisitos anteriormente enunciados. De outro modo, será um motim desordenado, que se alargaria a sectores da população, mais ou menos extensos.

Esta exposição, não obstante o que tem de sucinta ou até por esse mesmo motivo, esclarece eloquentemente quanto aos escolhos que há a vencer. Isto traz-nos a pálida imagem do que nos aguarda numas proporções possivelmente gigantescas, se queremos, como devemos, pôr termo à crise real. Essa crise é a situação interna, que nos desgasta, e não a Espanha do pesadelo em que alguns, num delírio febricitante, a pretendem transformar. Essa crise, enfim, é reflexo da iniquidade que temos dentro de portas, e que não constitui caso isolado num Mundo em desalinho. Só essa crise é que corporiza o mal que temos de debelar e apenas ela devia constituir a nossa dor de cabeça.
 
Não nos espantemos se a contenda que fatalmente há-de estalar, provocada pela revolução que escraviza o Mundo, venha a assumir um aspecto distinto. Não será já uma guerra civil nos moldes clássicos. O Mundo não é o mesmo, muitas coisas se alteraram na substância e na forma. É outro o quadro, na sua especificidade e nos contornos que apresenta. Tudo, pois, se encaminha para um fenómeno novo, porque o pleito, que se vai discutir, debate-se à escala planetária e será uma polémica cruenta num confronto de civilização contra barbárie.
 
Se assim suceder, não sairá deslocado chamar-lhe a III Guerra Mundial. Queira Deus que seja a última, e que a Paz desça sobre a Terra. A Paz, sim, mas a Paz que repousa sobre a Virtude e a Justiça, e nunca a quietude do conformismo, das demissões, do indiferentismo. Em suma: a Paz de Deus, que é a única apetecível porque só ela consola!

 Joaquim Maria Cymbron

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  1. Proverbia, 14, 34.
  2. A Cidade e as Serras, Lello & Irmão - Editores, Porto, pp. 119 e s.
  3. As três verdades vencidas, Organizações Bloco, Limitada, Lisboa 1949, p. II.
  4. Ib., pp. 21 e s.
  5. http://www.noticiasaominuto.com/politica/17633/soares-alterar-a-constitui%C3%A7%C3%A3o-%E2%80%9Cdaria-uma-guerra-civil%E2%80%9D.
  6. Summa Theologica, 2-2, q. 40, art. 1.

 JMC

sábado, 25 de outubro de 2014

BERGOGLIO E "L' ORGOGLIO"


Conforme prometido, foi publicada a mensagem que fechou o recente Sínodo dos Bispos. Optei por seguir a versão italiana (1), língua em que foi redigido o documento.
 
Enquanto aquele Sínodo decorreu, ergueram-se vozes insanas anunciando catástrofes apocalípticas. Partiram de gente que arde em altruismo, mas alguma dela possuída de uma histeria desmedida. Diz essa gente que é sua intenção salvar o povo de Deus, desviando-o do abismo que se abre debaixo dos pés de todos nós. Os clamores de fim do Mundo voltaram mais uma vez a ouvir-se, e agora correram porque, afirmava-se de ciência certa, os divorciados novamente casados e as parelhas homossexuais iam ter acesso à mesa da Sagrada Comunhão. Do primeiro grupo, lê-se na mensagem que os Padres Sinodais tinham riflettuto sull’accompagnamento pastorale e sull’accesso ai sacramenti dei divorziati risposati; a respeito das uniões homossexuais, nem palavra!
Foi a doutrina católica atacada pelo diploma saído deste Sínodo? Que dogmas, que sentenças, que cânones sofreram com ele? Eu não descubro um só ponto que sofresse danos. Na formidável muralha da Igreja, nem um lanço foi atingido. Nada estremeceu, nenhuma brecha abriu, tudo permaneceu firme e inabalável! Podiam ter sido mais explícitos, na redacção dada a lume? Talvez. Mas, saltar daqui até ir parar a um infindável rol de calamidades, a distância é grande. Para ser mais exacto, direi até que se torna num autêntico desaforo. Por mim, limito-me a dizer que a Igreja não se esqueceu que a prudência é a mais importante de todas as virtudes morais e que, sem ela, nenhuma das outras vale. Mestra desse mesmo ensinamento, como podia alguém esperar que não se lhe sujeitasse?
 
É coisa que não deixa de espantar-me, ver como as vozes enganadoras, que criam este clima de inquietude e pânico, irrompem de pessoas que  primam especialmente por uma escassíssima cultura e fraca formação intelectual. De uma ponta à outra, há anemia e despudor naquilo que bolçam da boca para fora. A menos que mintam consciente e deliberadamente, o que acaba por agravar o comportamento tido.
Pululam em diversas capelinhas, outras tantas seitas tal qual sucede na Maçonaria, onde cada uma é de diferente obediência. E, como esta, o único denominador comum que têm é funcionar como açoite de várias pontas, com o qual flagelam a Igreja de Roma.
Lefebvrianos; epígonos de Plínio Corrêa de Oliveira; e outras castas de integristas constituem legiões que não ficam atrás dos maiores heresiarcas dos tempos pretéritos, os quais também se apresentavam como núncios da ortodoxia e asseveravam vir para restaurar a Igreja prostituída pelos pecados da hierarquia, pecados esses que a desviaram da sua primitiva pureza. Isto é o que nos contavam e contam. Porém, não trazem mais do que sobressaltos e desorientação. No seio destes hierofantes e adoptando estratégias análogas, até se destaca, imagine-se, um arcebispo ortodoxo que garante trabalhar pelo bem da Igreja de Roma, sem contudo nos confessar os motivos que o impedem de voltar ao redil de onde fugiu qual ovelha tresmalhada, pondo asssim cobro, pelo menos, à sua defecção. Esta limpidez de processos, mutatis mutandis, já serve, nem que seja um pouco, para aquilatar da honestidade deste exército, movido por tão nobres propósitos de salvação da Igreja.   
Ministros de fancaria de um fantástico Santo Ofício, privados de todo o imperium, que de iure nunca possuirão, e sem qualquer poder de facto, que também jamais alcançarão, entretêm-se numas lides incruentas, mas nem por isso menos perniciosas.  
Depõem Papas como quem deita um trapo ao lixo --- não fazem a coisa por menos. Ignoram ou calam que prima sedes a nemine iudicatur (2), preceito que o direito canónico consagra e que se conjuga em perfeita harmonia com o primado da jurisdição universal do Pontífice Romano, primado que foi dogmaticamente definido pelo 1.º Concílio do Vaticano (3). A generalidade, se não mesmo a universalidade deles, proclama-se monárquica no temporal. Entretanto, esquecem que os Reis de Portugal, desde D. João V, usavam o título de Majestades Fidelíssimas. E Fidelíssimos porquê? Por uma fidelidade inconcussa à Santa Sé. Ora sem Papa não há Igreja. Derribar o Papa, é derribar a Igreja. É lançar por terra todo um edifício, um edifício colossal, o Templo Sagrado. Qual vai ser, pois, o objecto da nossa fidelidade histórica, enquanto Portugueses?
Não obstante tudo isto, com os seus procedimentos, vão minando o terreno e preparando as mentes para que estas aceitem a subversão da noção hierárquica, como medida legítima para uma crise que ajudaram a crescer, se é que também não a criaram de braço dado àqueles que zurzem farisaicamente. Querem, repito, que os fiéis depositem docilmente, nas mãos do Concílio, força suficiente para sobrepor-se ao Papa. E se um concílio estiver infiltrado pela Maçonaria ou, por qualquer outra causa, não for do agrado deles? --- É de remédio fácil: estoira-se com esse e ergue-se outro. Entrando por esta via, tudo poderia acontecer. Uma consequência indefectível seria a de reabrir caminho a uma heresia sufocada em Basileia. Em suma: os monárquicos, que existem no meio destes inquisidores de pacotilha, negam à Igreja o que querem no século. Ou desejam ir mais longe, ao ponto de instaurar um poder ao estilo dos Césares da antiga Bizâncio? Meta que, dados os vícios que os roem, não é de excluir.
Aqui temos os arautos de uma desgraça que, mais do que profetizá-la, vão precipitando de gorra com os que eles apontam como sendo os principais agentes de um próximo naufrágio da Igreja. Estes sinistros pregoeiros mostram-se contumazes na obra de devastação. Não lhes chamarei Sacerdotes do Templo, porque não são decerto ministros do Senhor. O nome, que se lhes ajusta, será o de Sacerdotes do Tempo. Sacerdotes e Sacerdotisas. As Sacerdotisas, mais do que eles, assumem uma particular fisionomia. Não é só pelos defeitos intrínsecos do que sustentam, que o estudo destas figuras convida ao exame. A contradição formal em que caem, com frequência acentuadamente maior do que os seus cúmplices masculinos, também obriga que a nossa atenção se fixe sobre elas.
Casualmente, travei conhecimento com uma que constitui paradigma digno de nota, numa dimensão que, infelizmente, não é positiva. No entanto, a ausência de qualidade é o comum dentro desta classe.
Por malícia ou crassa ignorância, como acima já eu disse, ela sempre está pronta a discorrer sobre tudo como, de resto, fazem os demais que a acompanham neste desvairado apostolado. A consciência ou inconsciência da impreparação sobre a matéria, que trata, não a estorva. Decide-se, e aí vai ela. A lição de S. Paulo (4), a quem tanto gosta de recorrer, quando lhe dá jeito, não a inibe: ou a ignora; ou esquece-a pelo tempo e na extensão que lhe convier. Entre outros percursos teológicos, onde foi que tentou penetrar esta Doutora da Igreja? No mistério da SS. ma Trindade! Nem mais, nem menos. Foi, portanto, ao mistério fundamental da nossa fé. Fundamental e o mais oculto. Além disso, um dos mistérios mais misteriosos da religião católica, releve-se a aparente redundância. A ciência teológica chama-lhes mistérios estritamente ditos, significando isto que superam o entendimento do homem e dos anjos.  
Mas a Sacerdotisa, de que me ocupo, não se amedrontou. Lá se dirigiu, com a afoiteza do costume. Afoiteza que não ia desacompanhada da sua leviandade habitual e bastante prosápia. Fê-lo, porém, com manifesta infelicidade. A certa altura já falava de Pessoa Una, que depressa passou a Pessoa Trina. Eis aqui uma exposição do dogma trinitário, que me colhe de surpresa pela sua novidade! Juro que nunca antes ouvi igual despropósito. Que metamorfose é esta? É sabido que devaneios febricitantes não tardam a conduzir ao reino dos mitos.

Em noite de tempo agreste e hora já muito adiantada, ainda concebo o quadro de uma só pessoa a subir a rua das Trinas, em Lisboa. É uma aproximação grosseira? --- Está longe da precisão desejada, mas para tamanho desconchavo não se arranja melhor. Nem merece a pena que nos estafemos a encontrar paralelo. A Sagrada Escritura, como nem de outro modo podia ser, guarda uma lição admirável para casos como este. Com efeito, nela se lê: «Não respondas ao louco segundo a sua loucura, para não seres semelhante a ele.» (5) Todavia, para que o orgulho do dementado não lhe pinte de formosas cores o desatino que verteu, acrescenta logo a seguir: «Responde ao louco segundo a sua loucura, para que ele não se julgue sábio.» (6)
Entre a mofina gente, onde comunga a criatura que me suscitou estas linhas, há quem viva dominado pelo pavor da actual divisão que se desenha na Igreja. Desta vez, não deliram: a divisão existe e também o perigo de que aumente. Mas não acredito muito no temor que dizem sentir. De divisões, está cheio o passado da Igreja: umas (felizmente raras) acabaram em cisma; as outras, não. E pela que hoje os traz apreensivos, se ainda lhes sobra consciência e são capazes de remorso, bem podem bater no peito pelo que contribuíram e contribuem para ela.
Estultamente, colocam no Concílio Vaticano II a origem dos presentes males da Igreja. Erro este que é muito mais do que um erro primário, tanto como se se imputasse ao 25 de Abril as culpas da desordem e da ruína que se abateram sobre Portugal. E porquê? Porque o 25 de Abril foi a espoleta da crise que vivemos, mas as suas causas é atrás que se situam: a relaxação de costumes arrancava a galope, com uma necessidade doentia de imitar experiências do estrangeiro e subjugada pela ideia de um duvidoso progresso, ao mesmo tempo que assistíamos à subversão política, por influência de correntes obnóxias que sopravam de fora; em contrapartida, o Concílio posto diante de uma insofismável dessacralização da vida quotidiana, fruto de um profundo decaimento na fé, rasgou a via para reagir ao que já vinha afligindo a Igreja. Portanto, mesmo que fosse um concílio nefasto, seria antes que teria de buscar-se a génese da enfermidade que a atacava. Não admitir isto é a cegueira incapaz de avistar o Sol, em dia claro. E se ocorre por acinte, não é cegueira porque é crime!
Todos os heresiarcas foram monstros de orgulho. Repetiram e repetem o grito de Lúcifer, o anjo rebelde: Non seruiam! Levantar o punho contra o Papa, num gesto de revolta, é um acto de orgulho, sinónimo de soberba. E a soberba é o princípio de todo o pecado.» (7)
 
Joaquim Maria Cymbron

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  1. www.press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2014/10/18/0768/03043.html.  Quem preferir outra língua, basta procurar no sítio oficial do Vaticano.
  2. CIC, can. 1404.
  3. Dz. 1831.
  4. 1 Tim. 2, 12.
  5. Prov. 26, 4.
  6. Ib., 26, 5.
  7. Ecli. 10, 15.
JMC

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

AS DUAS COLUNAS


Guilherme Almor de Alpoim Calvão morreu. Não caiu como o roble que era: à semelhança de outra glória do Ultramar, que também agonizou na cama de um hospital, acabou com algum sofrimento. Foi mais um sacrifício que Deus lhe pediu.
Liguei aqui o seu nome à memória de Alberto Rebordão de Brito. Fi-lo sem vacilar. Os heróis sempre se irmanaram e nenhum apaga o lustre dos outros. Saem invariavelmente engrandecidos, quando colocados lado a lado. E até quando pertencem a campos opostos, o respeito entre eles é uma constante indesmentida. A inveja só tem lugar nos mesquinhos corações de quem, incapaz de ascender, procura que os demais baixem.
O conjunto, ora formado, integra-se decididamente na categoria da concórdia reinante entre almas de eleição, no campo da coragem. Viveram os mesmos perigos; a fama beijou-os merecidamente; e, pior que a hostilidade porque dói muito mais, sofreram por igual o esquecimento como paga dos serviços prestados. Num estreito abraço da admiração e da saudade que, a esta hora enchem o meu peito, parece-me pois que é justo unir as duas formidáveis colunas do Corpo de Fuzileiros.
A data de 30 de setembro de 2014 entra inequivocamente na história de Portugal. Com efeito, esse foi o dia em que se finou um dos maiores heróis nacionais. E, sendo o amor à Pátria, o mais santo e puro amor que há, logo abaixo do amor a Deus, temos sobejas razões para esperar que a bem-aventurança da Pátria celeste se oferece, generosa e ridente, àquele que tanto amou a Pátria que Deus lhe destinou ao criá-lo, porque terá achado que essa Pátria, que é a nossa, precisava dele!
R.I.P.

Joaquim Maria Cymbron

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

PRINCÍPIOS INEGOCIÁVEIS

 
Princípios inegociáveis? Ignoro o que sejam! Haverá, porventura, princípios negociáveis? Em bom rigor e são critério dialéctico, julgo que qualquer princípio é inegociável, sob pena de trair a sua natureza de princípio. Assim penso, e conto vir a demonstrar como é correcto.
Tanto quanto alcanço, princípios, princípios sem mais --- e não sei de outra espécie, insisto, --- são os fundamentos sobre os quais assentamos a construção de uma doutrina, autênticos alicerces do edifício onde se guarda o sistema político, económico ou social que temos como justo. Ali se encerra a nossa filosofia de vida no que é temporal, sem nunca esquecer a vocação sobrenatural, esse convite à salvação eterna que a todos foi dirigido. Se a razão natural basta para atingir a certeza da existência de Deus (1), a fortiori pode o homem conhecer, com verdade lógica, os princípios mais adequados ao preenchimento do exemplar divino. São princípios imorredouros e, nessa qualidade, não sofrem qualquer tipo de arranjos, espontâneos ou forjados.
 
Por isso, a doutrina, que acatamos, ou está conforme à verdade, ou anda afastada dela: no primeiro caso, são intangíveis os princípios em que fundamos as nossas crenças; na outra hipótese, também nada existe para negociar, porque a única opção, que se oferece, é corrigir o que há de errado com o propósito de encontrar o caminho da verdade perdida.
 
Àquele que se deixa assaltar pela dúvida de que são inegociáveis os princípios que formam as bases da sua mentalidade e da sua maneira de estar no mundo, se for honesto só lhe resta uma saída: rever os seus princípios, e se resultar que decaiu na convicção da bondade do credo até aí professado, crie então outra escala de valores, e apresente-se com nova identidade moral, assumindo o nome que lhe couber. Agora, sustentar que apenas meia dúzia de princípios merecem o estatuto da intangibilidade, eis aí algo que não hesito em repudiar.

Todos os princípios, na sua génese, na sua marcha e na sua finalidade, devem reconduzir-se à unidade, à verdade, à bondade e à beleza do Ser. Estes atributos transcendentais, os quais pela sua universalidade são absolutamente necessários, conferem ipso facto um valor indefectível aos princípios que neles encaixam, sem excluir nenhum. Uma simples excursão por terrenos da ontologia, e temos tudo o que a razão põe à nossa disposição, com suficiência plena, para resolver o problema da ascese pessoal ou do convívio com o semelhante.
Pergunto:

Contidos nos atributos enunciados, que espanto pode causar que todos os princípios tenham a mesma categoria? Com que autoridade se separam uns dos outros? Será demasiado pedir que se compreenda que há pontos de apoio, dos quais o agente arranca com o objectivo de tocar o cume da santificação, a que está chamado no plano misericordioso de Deus? Ora esses pontos são outros tantos princípios. Efectivamente, «(...) hoc nomen principium nihil aliud significat quam id a quo aliquid procedit;» (2). Como podem, pois, negociar-se se o seu objectivo é servir a efectivação dos princípios que alguns (e, neste segmento, bem) decretam que não permitem a mínima renúncia?
Quem se despir de preconceitos, terá de conceder que, no domínio do temporal, o legitimismo é o único sistema capaz de responder ao que se quer preservar com a observância dos chamados princípios inegociáveis. Tem a exclusividade? --- Se atendemos à primazia da qualidade, a resposta é forçosamente afirmativa, porque é aquele que, se for aplicado cumprindo a sua pureza abstracta, tanto quanto o homem pode aproximar-se do ideal, perfaz melius et conuenientius a nobilitante missão de orientar a cidade terrestre em direcção à cidade celeste.

Alianças escoradas nestes princípios, ditos inegociáveis, não servem a ninguém porque descaracterizam todos. É tamanha a amálgama que, a certa altura, não se defende nada: nem os princípios inegociáveis, nem os negociáveis, aceitando como válida tão triste e infeliz distinção. Os que se encontram em comunhão connosco, crendo no que classificam como princípios inegociáveis, se estão de boa fé, que se juntem a nós; se aguardam o contrário, será porque querem algo mais, e não têm de admirar-se se concluirmos que então se desvanece a sua recta intenção.
No esforço contínuo de penetrar na essência das coisas, não vejo outro direito além de poder requerer condições a fim de dar matéria e forma ao que é nosso dever realizar.

A obrigação de cumprir só na monarquia se manifesta com luminosa clareza, porque essa obrigação se reflecte na primeira figura da grei pelo simples facto do nascimento. Em mais nenhuma instituição humana, a consequência entre nascimento e serviço é tão estreita e inexorável.
O herdeiro do trono, por força do berço que o acolheu, recebe o encargo de servir, reinando; cada homem, ao renascer para a graça através do baptismo, contrai outro vínculo que parece o oposto do anterior: reinar, servindo. Parece, disse eu. Mas não é. A sequência verbal não é suficiente para que dela se conclua pela diferença --- no fundo, é do mesmo que se fala porque Rei posto e gente comum, todos são herdeiros da promessa que dá o prémio onde houver serviço: só a servir é que se reina; e apenas se chega à coroa da bem-aventurança, quando se serviu. E o que daqui resulta há-de sempre ser para glorificação de Deus Omnipotente, sem o que se constrói em vão.

Se é verdadeiro o juízo de que viemos para servir --- e é piamente que nele acredito--- temos provada a excelência da forma monárquica para regimento dos povos. Falei de forma monárquica, a que se plasma nos moldes da monarquia tradicional, a única digna desse nome. Porque nos simulacros a que dão o nome de monarquia, não se descortina ponta de serviço real. Não o descortinamos, nem podemos avistar pela razão de que serviço pressupõe responsabilidade, e os reis dessas monarquias são irresponsáveis por definição constitucional. Ou antes: por defeito constitucional, um aleijão que algumas vezes transforma em pigmeu quem poderia ter sido um gigante.
No dia em que me convencer de que é negociável o princípio monárquico, será porque ou enlouqueci, ou perdi noção do significado das palavras. Ao mesmo tempo, partindo da firme opinião de que nenhum princípio é negociável, sob pena de que, se o fosse, seria tudo menos princípio merecedor de veneração, também não há razão para fugir a uma aliança circunstancial. O todo informe, desfecho fatal onde desembocarão os que se revolvem na incredulidade da existência perene do princípio legitimista, um princípio indestrutível como todos os princípios que não se dispõem a perder o foro daquilo que são --- princípios ---, passando à tranquibérnia do que calha dizer, esse amontoado sem rosto, que nos permita saber de quem se trata, não é propriamente o mesmo que lutar ombro a ombro. Momentos há, nos quais o combate lado a lado é não só lícito como até obrigatório.

De resto, a dicotomia princípios inegociáveis-princípios negociáveis gera um contraste, falso no seu âmago, e perigoso na sua prática. É uma situação muito próxima da teoria do mal menor. Contudo, o mal menor, apesar da repugnância natural que desperta em nós, sempre tem a seu favor uma causa escusante: a não-exigibilidade, a qual não se verifica na questão aqui abordada, pelo menos com igual frequência e a mesma intensidade. Em contrapartida, o fabuloso confronto, que nos absorve, surge com uma nota agravante e que é o de ser mais enganador, porque tem a dose de alguma sedução. Com efeito, no momento de optar pelo mal menor, tem-se consciência do erro que comporta a nossa decisão; quem deixa para trás os pretensos princípios negociáveis, voga nas ondas de um mar de aparente bonança, mas corre risco de soçobrar porque esqueceu o rumo de bom porto.
Nunca dei, nestas estranhas coligações, por nada de inegociável fora dos dogmas de quem não comunga connosco em toda a linha: os outros princípios, esses são negociáveis e, portanto, prescindíveis. Isto é uma desastrosa ilusão, porque é grande, mesmo enorme a probabilidade de acabar em tragédia. Antevejo --- e Deus me perdoe se é temeridade --- que ou fazemos o mesmo que Ulisses, ou, arrastados pelos cantos de novas sereias, iremos navegando de encontro às rochas que nos hão-de fazer naufragar.

Os anos e o estudo que os vem acompanhando confirmaram o que, talvez por índole temperamental, eu já intuíra: a rigidez nunca é vício próprio;  está sempre com os outros. E o meu passado não regista um episódio de cedência por parte dos que apregoam a sua própria flexibilidade. Por isso, surpreende-me a facilidade com que gente provadíssima na defesa da ortodoxia e da mais inconcussa fidelidade à Tradição se deixa embalar por melopeias, que são outras tantas embustices.
Ao longo destas linhas, mais de uma vez confessei abertamente a minha devoção política ao legitimismo. Também ficou explícito como entendo que é um princípio inderrogável e o motivo por que o é:

Do direito, dispõe-se; o dever é para ser escrupulosamente observado. O peso deste fardo aumenta, à medida que se vai subindo na hierarquia do século. Ocupando a mais alta posição na escala humana da esfera temporal, a autêntica majestade real está condenada, em sumo grau, ao dever de servir. É a sua uia crucis, mas é igualmente por onde se vai desdobrando o caminho da sua ascensão à Glória. Como Salomão, saiba o Rei pedir sabedoria para exercer com êxito a sua espinhosa tarefa! (3)
Regresso, pois, à correspondência entre o direito e o dever. E recordo ter afirmado que a razão de ser do direito está subordinada ao exercício do dever. Na curtíssima relação, que estabeleci, deixei categoricamente gravada a ideia de como o homem, mais do que titular de direitos, é sujeito de deveres. Nada mais acrescento a este respeito, porque se então as minhas resumidas palavras não convenceram, também não será agora pela extensão que virá o acordo.

Para mim, a ordem desta composição é evidente. E da evidência  não pode dizer-se que dispensa demonstração: a evidência nega a demonstração, porque dela é que se parte para provar o que se pretende. E até, no plano moral, não se tem notícia de santo que brade por direitos, mas sim preocupado pelas faltas cometidas e sempre animado da vontade de melhorar. Santo ou herói desprendido, que é outro modo de santidade, nada pedem nem esperam em troca, dão-se por inteiro em prol do comum. Leiam-se os hagiológios, compulsem-se os anais militares e nenhum desmentido ali se encontrará ao feito irrecusável e frequente que é o da oblação da própria vida.
É altura de concluir:

Os princípios não se negoceiam como se fossem mercadoria, cujo preço oscila ao sabor das flutuações próprias da lei da oferta e da procura. Há princípios genuínos e, a par destes, correm máximas que nos confundem porque são trapaças, inconscientes ou maldosas.

Todos os princípios têm de germinar, desenvolver-se e terminar na verdade. Quem falar em princípios inegociáveis, na eventualidade de emitir um juízo certo, abre porta à existência de princípios negociáveis. Tal opinião transporta o morbo do relativismo. De facto, esta desgraçada divisão dos princípios não consegue impedir que se levante a interrogação de ser também negociável o princípio lógico-formal que afirma a sua suposta realidade: se a resposta for negativa, incorrem em contradição; se se decidem pelo sim, então nada disseram. Pelo que não tem dignidade de princípio senão aquilo «a quo aliquid procedit» (4), que é coerente e que está acima de qualquer transacção!
 

Joaquim Maria Cymbron

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1.      Dz. 1806.
2.      S. Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica, I, q.33, a.1.
3.      1 Rs. 3, 9.
4.      V. supra, 2.

JMC