sábado, 8 de agosto de 2020

sábado, 25 de abril de 2020

DESPEDIDA A UMA MULHER



                            Sinto que falta cumprir
                            missão onde Deus me chama!

                            Não te aflijas, minha querida:
                            sossega, e pede que eu volte
                            de braço dado à vitória!

                            Deixa de lado as palavras:
                            reza apenas com fervor
                            o que na alma te vai,
                            e se em teu rezar há lágrimas,
                            verás luzir o milagre!


Joaquim Maria

quinta-feira, 9 de abril de 2020

GERAÇÃO PERDIDA


Este texto será duro e cru. Que seja duro, está nos meus hábitos quando é preciso fazê-lo; porém, a especial crueza, de que se revestirá, constitui novidade.
No entanto, não vejo como fugir-lhe. O aviso cá estáas sensibilidades mais delicadas não poderão queixar-se se as firo. Ninguém é forçado a ler-me!
No meu íntimo, experimento a convicção de que não serei atingido pela pandemia que angustia  a Humanidade.1 Não pergunteis em que me firmo para confissão tão arrojada, porque francamente não sei que dizer-vos fora disto – falta explicação racional a dar; repousa apenas sobre um fortíssimo sentimento!
Que Deus me poupe se isto é presunção! Mas, de modo idêntico ao que em mim prevejo, também estou crente que será debelado o mal que nos aflige. Será essa vitória suficiente para a salvação do Mundo? – Sou obrigado a responder com um não categórico!



À posição, aqui tomada, de não chegar a neutralização de um inimigo – autêntica ameaça universal – a fim de que haja Paz2 sobre a Terra, cabe justificá-la para o que, primeiro, se faz mister esclarecer os fundamentos do que foi dito.

Não chega, porquê? – A razão é muito simples! Mas como tudo que é simples, por vezes torna-se bem difícil de entender. O que se apresenta como simples, é quase sempre bastante exigente, e é isso que assusta as pessoas que preferem seguir adiante, passando ao lado de uma coisa incómoda para a qual nem sequer desejam olhar.
Encaremos o problema de frente, porque de nada nos servirá se tentamos rodeá-lo. Quando muito isso leva apenas a um adiar da solução, sem desfecho à vista e de funestas consequências para quem cair nesse erro.

O pesado ar,  que se respira, não é produto de um organismo que, por aí, gira. De facto, a crise não flui de um agente físico porque, antes que este aparecesse em cena, já era crise moral e, nessa qualidade, é causa deste efeito apavorante. Aceitemos a realidade insofismável de que o vírus terrífico não é biológico: antes disso ele é um veneno chocado no peito humano, muito mais devastador que qualquer dano físico, porque é o espírito que deve ditar a lei à matéria e não o inverso. A nossa carne rebelou-se contra o espírito que acompanha cada um de nós: a concupiscência desordenada pretendeu dominar a razão e conseguiu-o. Hoje, o homem arrasta só o corpo, porque a alma, essa, deixou-a esquecida e sofredora, nem ele sabe onde. Tudo isto se paga por um alto preço.

Sumiu-se o salutar costume de falar em pecado social. Nem admira! Pois se até se ignora – ou se nega mesmo – o que seja o pecado pessoal, como pode alguém entender o pecado social? Entretanto, ele existe: é a soma dos pecados de cada criatura humana, porque nenhum de nós está limpo de faltas. Dez justos teriam bastado para salvar Sodoma, mas nem esses foram encontrados.3

O mal que nos atormenta é, pois, o açoite de Deus à criatura que, inchada na sua desmedida soberba, mais uma vez julga ser possível ombrear com o Criador ou até varrer o Seu bendito nome da face da Terra. Agora, é um agente microscópico, que tanto bastou para pôr em sentido o Mundo; de outras vezes, tem sido por diferentes meios. Contudo, todos eles são meras causas instrumentais ao sabor do que Deus determina que aconteça.

Num labor de séculos, acumularam-se teses deletérias que vieram produzir resultados nefastos – as sociedades actuais estão enfermas, porque fraquejaram e se deixaram dessacralizar. É indiscutivelmente o caso de algumas; outras tocaram o limite da apostasia! E para estas últimas é que se interpõe uma questão pertinente: quando não existe fé, como reagem na sua incredulidade sobrenatural? – O certo é que nem assim se libertam da obrigação de parar e reflectir.

Na verdade, o Mundo carece de reflectir. A meditação é uma das maiores urgências que o homem moderno enfrenta, e a que tem de responder, sob pena de atraiçoar a sua condição de ser racional: sendo desde sempre uma tarefa nobre, é hoje incontroverso que o pensamento entrou em agonia! Em todo o caso, ele ainda não desapareceu. Portanto, à conta disso, fixe-se a atenção nesta pergunta – será assim tão difícil conceder que, se não podem ou não querem avançar pela via de uma fé que não professam, já não lhes é vedado conhecer a Natureza, realidade incontestada pelos mais comuns sentidos que o homem possui?

Nenhuma repugnância experimentará aquele que crê, se tivesse de percorrer este caminho. Quando nele tropeçasse, restar-lhe-ia o socorro imediato da fé. Insista-se, pois, que esse há-de estar aqui livre de toda a ansiedade, porque só é de esperar que olhará a Natureza como obra de Deus, na qual o Criador imprimiu as notas essenciais que a definem. Logo, quem a viola, atenta contra a Divina Majestade. Registe-se uma particularidade: ao passo que Deus perdoa sempre, se o penitente dá mostras de arrependimento, a Natureza já é inexorável. De modo que só Deus a pode suspender. Bom seria, para os que perderam ou nunca tiveram o dom da fé, que se debruçassem e meditassem sobre isto!

Enquanto se espera, lancemos uma olhadela sobre este ponto:

De entre os instintos do ser humano, como mais visíveis, sobressaem a fome, a sede e o apetite sexual: comer e beber têm por função a sobrevivência de cada um de nós; o sexo é destinado à propagação da espécie. Todos eles dão prazer a quem os vive; no entanto, é o terceiro aquele que, pelo maior deleite que proporciona, ocupa lugar de mais destacado relevo.

É também o de maior e mais delicada complexidade. E, por mais inesperado que alguns possam ajuizar, está repleto de notas da mais rica espiritualidade. Apenas se requer que seja vivido segundo os preceitos de Deus ou da lei natural, entendida esta como a «participação da lei eterna na criatura racional»,4 que tudo vale o mesmo visto que uma e outra não são mais que manifestações da soberana vontade do Criador.

Esta é lição do Doutor Angélico, que permanece, e dela não se diga que invalida o entendimento observado por não-crentes. Ninguém lhes impõe que aceitem este comando como emanação da lei eterna, a qual manifestamente não professam. Ao que não conseguirão fugir será ao facto de se encontrar esta disposição gravada a fogo na natureza das coisas. Ora a rerum natura é já um código por eles aceito, sob pena de em nada acreditarem se defenderem o contrário.

A vida sexual, de entre os dons mais corpóreos, é o supremo bem que Deus nos outorgou. Talvez por isso mesmo é o mais maltratado de todos eles: o ser humano está propenso, quase invariavelmente, em estragar aquilo a que deita mão: parece dominado pelo gosto mórbido de enodoar preferentemente o que vê e avalia como mais perfeito. É uma inclinação satânica!

Com efeito, o homem mancha o sexo quando, pelo seu comportamento, dá impressão de ter esquecido que nessa actividade não é o único actor em cena: vive-a em comunhão de corpos, segundo o que as leis da Natureza dispõem. Esta sublime realidade coloca-o num palco, submetido à estrita obrigação interior de retribuir a dádiva de Deus. É seu dever proporcionar à mulher o que esta dele espera, numa entrega total e sem reservas, pois a generosidade desprendida não conhece o interesse próprio – neste acto,  aquilo que deriva de uma vaidade masculina sempre pronta a exibir-se. Casos em que, por força, não deixaria de ser positivo, o finis operis, mas onde, por certo, o finis operantis perderia grande parte ou mesmo a totalidade do que poderia ter informado valiosamente o mérito do seu desempenho.

Sabe perfeitamente o Demónio que o sexo é o meio de transmissão da vida e o papel relevante que esse meio é chamado a jogar na saúde moral e física da relação homem-mulher. E, porque é impotente para derrubar Deus, no ódio em que se revolve procura feri-lo no domínio da Criação, maxime na sua obra-prima que é o homem. Para alcançar esse fim, talvez o principal processo, adrede escolhido, terá sido a diminuição progressiva da capacidade sexual, acompanhada de uma indesmentida redução na sua frequência. O desfecho salta aos olhos: é um abrir portas à extinção da espécie! As correntes, que especulam à volta de esperançosas e ridentes teorias da hominização, até à data nada de categórico adiantaram que possa opor-se ao risco que isso traz em si.5

Reconheçamos que são cruciantes os danos provocados pelo Maligno. E multiplicam-se os sinais de um agravamento cada vez mais extenso e profundo. Razão esta pela qual temos de pôr de parte a ideia que corre, apontando como aviso de uma escatologia próxima a praga que nos apavora. Isso é quase uma puerilidade, comparado ao que se passará a expor.

Uma prova de masculinidade, possivelmente a mais significativa, é a do homem capaz de coito que transporte a mulher ao empíreo. Dar é gratificante porque nos aproxima da Divindade, fonte de tudo que temos, pelo que, no sexo como no decurso das demais relações humanas, melhor é dar que receber. O amor-próprio masculino há-de ceder espaço ao impulso da generosidade, como acima já se referiu. A generosidade é uma forma que a caridade assume; e da caridade nada a acrescentar ao que o Apóstolo deixou dito.6

Homem incapaz de provocar esse clímax, à que é sua companheira no acto sexual, constitui-se em forte dívida para com ela. Tal mulher é tratada como um saco, onde o seu parceiro despeja o sémen, quando não se esgota no onanismo. Isto só tem um nome: reles exercício de masturbação!

Um pródigo por tal forma desastrado, se nunca contemplou uma mulher irradiando esplendor idêntico ao que Bernini nos trouxe, quando fixou no mármore o êxtase de S.ta Teresa de Ávila, é alguém que nem sabe o que teve nos braços! Essa mulher, assim como está prestes a desfalecer, logo a seguir recobra alento para se agitar, soltando gritos de prazer que parecem arrancar do mais recôndito do seu ser.7

Regressemos ao mau amante. Este homem, se consegue a penetração, não é fisicamente impotente. Portanto, onde está o défice? – Não pode encontrar-se a não ser numa brutal carga de egoísmo. Provavelmente, discorre nestes termos: «eu já estou servido; ela, se quiser subir mais alto, que se satisfaça sozinha.» Todavia, seria curioso contar quantas serão as jovens decepcionadas, que merecem um maior cuidado por parte dos seus chevaliers- servants. E é também nesta incerteza que a tragédia se projecta.

Entre outras possíveis causas, este ambiente  ajudará a explicar que os índices de homossexualidade – da masculina e da feminina – subam em flecha. Quando não se encontra prazer no sexo convencional, não pode surpreender que se procure saciar a lascívia em práticas antinaturais. Para os que a elas recorrem, esses desvios oferecem-lhes um gozo, que é justamente reprovado segundo os cânones mais ortodoxos, mas que, por outro lado, lhes faculta a vantagem de andar desacompanhado dos encargos de uma paternidade ou maternidade que não querem suportar. Não devem, pois, estranhar se forem qualificados como membros de uma geração maioritariamente virada para o suicídio. Sentem desencanto pela vida: a própria; a que poderiam transmitir; e a dos outros!

Ao falar da defeituosíssima actividade sexual, que se vai descobrindo à medida que o tempo avança, não se curou em determinar se era um relacionamento moralmente lícito ou ilícito. E assim se fez  não porque se tenha caído no relativismo moral que é fundamento dos desregramentos actuais, mas sim por pretender apurar o grau de qualidade desses connubia sob um ponto de vista meramente fisiológico. Não será a nota de licitude que levará uma obra de fancaria a transformar-se em  cópula de sucesso. Pelo que a ferida onde há que pôr o dedo é o seu desprezo por tudo ou quase tudo que não traga o selo de uma catequese vizinha do niilismo. Descansando, nestas balizas, de que nem talvez os próprios se inteiram conscientemente, estão persuadidos que cumprem e acabou-se: o mais não lhes interessa!

A geração, que oscila entre os vinte e os trinta anos, a geração que serve de título a estas linhas, mostra fortes indícios de ser uma geração condenada. Os que a compõem, salvo felizes excepções, pensam que tudo sabem; não escutam conselhos; e acham que de nada precisam. Evidentemente, aos que se comportam por este modo é difícil, senão impossível, ensinar-lhes o quer que seja; aconselhá-los; ou dar-lhes alguma coisa. É, por consequência, esforço absolutamente vão: hão-de morrer nas teias da soberba em que cresceram. No meio de toda esta empáfia são escravos, bem possivelmente com menos noção da própria dignidade, que lhes cabe como pessoas humanas, do que aquela que ainda sobrava a alguns entre os que os precederam nesta deplorável condição. Assinale-se isto, porque é marca de como e quanto se deixaram reduzir à mesquinhez do automatismo. E bom número deles, se lhes é chamada a atenção para a triste situação a que desceram, nem disso fazem caso. Mais do que pelos sistemas imperantes que os engolem, dão impressão de revolver-se com gosto na desumanização para que resvalam sem cessar. Romperam caminho que supunham juncado de rosas: só colheram espinhos; o corpo saiu coberto de chagas e a alma a sangrar; e, cheios de uma suficiência que é sempre timbre desonroso, têm a desfaçatez de se proclamar realizados.

Que feitos deixam a perpetuar-lhes a memória? Até agora, que completaram de bom, de belo e de grandioso? Muitos já se abeiraram de  idade condizente a revelar-se com maior ou menor distinção. E mesmo dos mais novos seria de esperar que se fossem afirmando como ridentes promessas. Infelizmente, não sucede o que era desejável. Sente-se a desolação quase completa: vivem sobre si próprios, cada vez mais isolados mesmo entre os da sua criação. Deles, parece que o futuro apenas dirá, em breve nota: passaram! E eis tudo!8

Num teimoso e imenso despudor, esta gente confessa ser contrária à guerra porque lhe atribuem a perda de muitas vidas. Realmente, na guerra verifica-se a triste ocorrência da morte. Melhor, porém, fariam algumas dessas pessoas se olhassem as mortes a que dão causa, grande parte das vezes; e noutras, em que não vão além de ser mera ocasião, mas com uma negligência altamente censurável.

Ninguém, de coração, deseja a guerra. Mas a certos coros de um sentimentalismo assaz duvidoso, pouco crédito se lhes pode conceder, porque esses lugares estão prenhes de vozes de quem carrega a culpa de crimes contra a vida, praticados quer por acção, quer por omissão – aborto; eutanásia; sexo feito lixo não matam menos que a guerra! Com grande vantagem a favor da guerra, se a apreciação obedecer a regras morais.

Embora não se afastem as mais profundas razões éticas, estilo que o Movimento Legitimista Português, desde a sua origem, se vem esforçando por defender, neste passo apela-se somente a um princípio de coerência mental. Assim, parece forçoso declarar a inconciliabilidade que há entre condenar a guerra porque nela se morre e, simultaneamente, tomar posição a favor do aborto. Traga-se, ao de cimo, o que nenhum desses pelotiqueiros de um verbo enganoso ignora, enquanto maliciosamente quer convencer dos seus bons propósitos quem lhe dá ouvidos: quem mata, na guerra, está vulnerável; no aborto, o feto é vítima indefesa e os que o destroem não se expõem à morte! Deixando ao lado palavras amenas, este confronto leva a concluir do seguinte modo: a guerra é um flagelo para que nos empurra o pecado; o aborto é, in abstracto, crime de uma repugnante cobardia, que apenas a doutrina da não-exigibilidade poderá desculpar, sem que porém o justifique, havendo ainda o recurso ao estado de inimputabilidade de quem vive este drama (haja em conta o padecer da Mãe, a qual poderá, nalguns casos, colher o favor deste juízo indulgente). No entanto, aqui já se invade o domínio da casuística, o que diz respeito a uma análise subjectiva que exorbita do intuito do presente texto, embora cumpra lembrar que isto mesmo, ainda que no mais directo exame do problema, nunca invalidará a censura dirigida ao facto que é o aborto, na sua dimensão objectiva.

A terminar, ainda umas breves palavras mais a respeito da eutanásia, esse crime de homicídio assim chamado por mor de um cinismo que se pretende eufémico. Vem de molde realçar o parentesco que a língua grega revela entre eufemismo e eutanásia. Esse laço apenas expressa que há tanto de bom e de verdadeiro no que oferece a morte por eutanásia, como o eufemismo adoça a rudeza de um termo ou de uma ideia. De alto a baixo, de uma ponta à outra, temos a incoerência a dar cartas!

Não é o paciente que alegadamente pede e permite que lhe apressem a morte porque não suporta mais sofrer? É pelo menos o que se conta! Mas não é acaso o paciente, nessa hora de tremendas dores e angústias, alguém que tem alteradas as suas faculdades, o que necessariamente se reflecte na sua lucidez e num consentimento que, de resto, nem sempre sabemos em que medida foi prestado?

Seja quem for aquele que tão atrozmente pena, o seu estado mental e anímico nesses terríveis momentos não se distingue do que move quem celebra um negócio jurídico com a vontade viciada por alguma das causas que, em direito, determinam a anulabilidade. Não repugna até aceitar que, em tal quadro, a imputabilidade do paciente pela eventual ilicitude do facto, se encontra amplamente diminuída senão mesmo dirimida por completo. Logo, grande, imensa, descomunal é a responsabilidade de quem lhe dá morte, porque outra acusação não cabe aqui. E esta culpa é exclusiva desses que tão feia acção praticam!

Por este andar anárquico, não faltará quem tente legitimar o trato através do qual uma pessoa se obrigue a servir outrem como escravo, sendo para ela suficiente declarar que assim procede porque desse modo o quer. Quando se erige a vontade em padrão da moral, tudo acaba permitido. Esta é, desgraçadamente, a filosofia dominante que, há largo tempo, dá o tom aos povos.

Aqui se deixa, pois, o sumaríssimo relato de alguns males que ameaçam o género humano, muito possivelmente os determinantes principais da decadência vivida. No corpo social, não são certamente agentes menos inócuos que o vírus desta pandemia. Serão talvez mais lentos a produzir os seus efeitos, mas que também são letais, lá isso só restarão dúvidas a quem deseje caminhar de olhos vendados para o abismo. Instalou-se uma cultura de morte! O vírus passeia-se no seu habitat e nele vai estadeando o seu poder mortífero.

Mas Ser é melhor que não-Ser. Por isso, o Bem triunfará sobre o Mal, sem contar de que espécie for este. Já não é só a fé que o assegura; o mero entendimento também nos induz a esperar igual remate!

Semana Santa
Coimbra, 2020


Joaquim Maria Cymbron
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  1. Por esta altura, eu ainda depositava fé na verdade da anunciada pandemia. Agora, cada vez acredito menos nela porque chego a duvidar da existência de um vírus, até hoje muito mal definido – se é que cientificamente se pode considerar definição a que dele dão – e que apresentam como sendo a causa do mal que tanto terror semeia. Todo o texto acusa, pois, a suposição em que, talvez precipitadamente, eu me encontrava. 
  2. A Paz, à qual se alude, aquela que devemos apetecer, não a que se paga com demissões, porque essa também a encontramos nos cemitérios de corpos e nos ergástulos de almas, a Paz ideal, portanto, é a Paz que S.to Agostinho definiu nestes termos: «pax omnium rerum, tranquillitas ordinis.» (De Ciuitate Dei XIX, 13, 1). Tranquillitas ordinis, ou seja de uma tranquilidade de ordem, mas ordem que repouse sobre os valores perenes da Justiça. De outro modo, nada nem ninguém ficaria em Paz.
  3. Gen. 18, 32.
  4. Summa Theologica I-II, q. 91, a. 2.
  5. J. A. da Silva Soares – Pólis, 3, col. 320.
  6. I Cor. 13, 13.
  7. Sobre a estátua do italiano, como não podia deixar de ser, choveram já muitos juízos fundados em processos de intenção que, boa parte das vezes ou mesmo sempre, não terão escapado à falta do rigor exigido a qualquer crítico. A culpa, porém, cabe aos que nos dizemos católicos, porque deixámos o puritanismo protestante cobrir a realidade sexual como sendo algo vergonhosamente pecaminoso. Ora isto é um erro colossal! Pelo sexo, tanto o homem como a mulher, se o viverem de acordo com a lei eterna, participam, de um modo secundário e subordinado, na obra da Criação como causas instrumentais dispositivas de Deus. Não se estranhe, pois, que a mulher entre num momento extático, o qual nada tem a ver com o da Doutora Mística, de natureza perfeitamente distinta e cuja génese é exclusivamente sobrenatural.
  8. Há mais de trinta anos – o que demonstra que se trata de um fenómeno de gradual degenerescência – Miguel Torga escrevia estas luminosas palavras: «Demorada conversa com jovens. Vieram de longe para falar dos seus problemas. É sempre dos problemas deles que os jovens de hoje falam. Dos que dizem respeito aos pais, aos avós, aos mais velhos, não querem saber. (...). Além dos vinte anos, a humanidade e os seus dramas já os não interessam. Estoicamente, (...), fui aguentando aquele egoísmo, de que os próprios não tinham sequer consciência. É, de resto, essa crueldade inocente, sem maldade, essa indiferença sem remorsos, que singulariza de maneira terrível como fenómeno social a presente geração. A nossa lutava apaixonadamente com os progenitores, o que era ainda uma maneira de os honrar. Ela ignora-nos, pura e simplesmente. (...).» E concluía de forma impiedosa para com as reais culpas das gerações pretéritas: «Temos o que merecemos. Fizemo-la nascer num mundo sem esperança. Não queiramos agora que nos esteja agradecida e se reveja em nós. Quem não tem futuro, não tem passado. (...).» (Diário XIV, Coimbra, 13 de abril de 1984).
JMC

sexta-feira, 27 de março de 2020

RIP





A Secretaría Política de S.A.R. Dom Sixto Enrique de Borbón firma comunicado em que participa um lutuoso acontecimento, nos termos que seguem:

Ha fallecido María Teresa de Borbón Parma


qui 26-03-2020 20:58
Para:

Cc:

S.A.R. Don Sixto Enrique de Borbón comunica que en la tarde de este jueves 26 de marzo de 2020 ha fallecido en París, a los ochenta y seis años de edad, su hermana María Teresa de Borbón Parma y Borbón Busset, víctima del coronavirus COVID-19.


Don Sixto Enrique se encuentra muy apenado y ruega oraciones por el eterno descanso de su hermana. Mañana viernes en Madrid oficiará un funeral el Rvdo. y Excmo. Sr. D. José Ramón García Gallardo, oficial de la Orden de la Legitimidad Proscrita.



María Teresa de Borbón Parma había nacido el 28 de julio de 1933, hija del entonces Infante Don Francisco Javier de Borbón y Braganza, Príncipe de Parma y de Plasencia (quien en 1952 se convertiría en Javier I, Rey legítimo de las Españas), y de su esposa Doña Magdalena de Borbón Busset.



R.I.P.


Imperioso se torna para este blogue, defensor da Tradição e da Legitimidade, que ambos são valores universais, vestir luto e depor perante S.A.R. Dom Sixto os protestos do seu profundo pesar!

Que Deus guarde e conforte Sua Alteza Real!


P.N.; A.M.; G.P.!

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

PARTIDOS CONTRA FORÇAS VIVAS


De pé e em sentido que o povo vai desfilar. E não é qualquer povo – é o povo soberano; também não é um desfile banal – é uma marcha a caminho das urnas. É ou não magnífico?

Uma semana mais e é a festança que chega. Avizinha-se, todos o sabem, um novo acto eleitoral. Não tardam os pregões públicos, que o anunciam, na costumada berraria que tudo invade. O pior é que a próxima  peça, a subir à cena, não presta sequer para sofrível drama teatral, como tantos mais que há. Não, decididamente não serve para tal, porque não vai além de uns desventurados cortejos, míseros cortejos de uma ponta à outra, o que ainda nos permitiria olhá-los como peças a subir ao palco, se não fora a medíocre qualidade artística que lhes retira essa possibilidade. Ora a mediocridade é, possivelmente, a pior nota na escala de valores, porque, mais do que impotência para ter alguma parcela de utilidade e eficácia, é teimosa na recusa em descer ao patamar do mau, ao mesmo tempo que nela não se vê força capaz de subir ao suficiente. Esta tragédia, que não vale como drama de entretenimento, conforme se acaba de expor, foi desenhada há muito, muitíssimo tempo, nos escuros recantos da iniquidade. Desprovida de qualquer tipo de beleza, é fértil em resultados funestos. 

O navegante, que atravessou mares borrascosos, quando avista terra, sente voltar a confiança porque é sinal da proximidade de um porto de abrigo. Infelizmente, não é esse o sossego que se vive sempre que aparece à vista aquilo a que os convencionalismos da política resolveram chamar eleições.

Isto que é, afinal? O que se vê são uns magotes de gente, onde cada qual  grita que vale mais que os outros, cobrindo-se reciprocamente de ataques soezes e de torpes injúrias, num clima em que frequentemente são postas de lado as regras mínimas da civilidade, umas regras que talvez  nunca tenham feito parte dos seus conhecimentos – eis aqui um esboço do quadro formado por esses cortejos bulhentos, que periodicamente teimam num ir e vir ao toque de uma música delirante. E é destes amontoados sem lei nem ordem que, certamente por artes de alquimia, há quem pretenda arrancar os benfeitores da sociedade política, os magos que trarão o remédio infalível, enfim, aqueles que, nas voltas do calendário, se apresentam ciclicamente como redentores da Pátria.

Ocupa-se um cargo político para servir. Isto e apenas isto confere legitimidade a quem está no respectivo lugar. O modo de selecção dos seus titulares é assunto sempre subordinado à legitimidade de exercício. O panorama eleiçoeiro é apto à consecução deste fim?

No dever constante de conceder o juízo mais favorável à parte, cujo comportamento se aprecia, obrigação esta que é indeclinável para cada homem, não se pode negar, primo conspectu, que parece estarmos defronte de um sentimento altruísta com uma ardorosa entrega ao interesse do próximo. Contudo, torna-se por igual irrefutável que esse sentimento, sem dúvida positivo, nas circunstâncias apontadas, cai em excessos que geram suspeição legítima. Há bondade a rodo, é notória a demasia! Quando a esmola é muita, o pobre desconfia, reza o ditado. Generosidade, aqui; abnegação, acolá! Tão ardente agitação será movida por um desejo autêntico a prol do comum? Merece crédito todo este afã, ainda por cima com um número incontável de desencontros e fricções? A afirmativa, em resposta à interrogação formulada, desafiaria as mais elementares normas do equilíbrio mental.

Os protagonistas desta balbúrdia contínua dão pelo nome de partidos. É manifesto que nunca podem governar coisa de jeito. Governar é construir, e os que gastam engenho e forças, que eventualmente possuam, a hostilizar-se uns aos outros, só guardam toda essa carga, positiva in abstracto, para a aplicar como meios de destruição. Para mais do que isto, não lhes sobra tempo nem energia.

A instabilidade dos governos partidários, resultado infalível da guerra permanente que os esgota, vem confirmar tudo que, à roda deles, nos é dado contemplar. É a sina a que não podem escapar por força do sistema em que se atolaram. Nisto está o contraste nítido, que os separa irreversivelmente de uma organização política dirigida no interesse do homem, visto e tratado segundo a lei natural.

Em seguida, se perceberá porquê.

Com efeito, as instituições, que ocupam o cabeçalho do presente texto, dizem tudo: apontam para uma relação de mútua exclusão e, na verdade, onde está uma das que ali figuram, sente-se a ausência da outra.

Tal como os órgãos do corpo humano, onde prontamente notamos que todos concorrem para um fim comum, que é o da saúde desse mesmo corpo composto por eles, de idêntico modo estão as forças vivas do corpo colectivo que os povos conhecem sob o nome de Nação. Transposta esta figura do plano individual para o comunitário, como acaba de fazer-se, teremos por analogia de atribuição que essas forças vivas não se hostilizam, nem experimentam entre elas, quaisquer sentimentos de rivalidade, assim como não deixam atrás o mínimo vestígio de inveja.

Cada uma delas tem plena consciência da sua integral validade e que representa uma necessidade premente para todo o corpo social. Com os partidos, isto não sucede. Nenhum partido há que una; só dividem e confrontam. Essas óperas-bufas, a que chamam coligações, são ditadas por meros e fugazes interesses de momento, e nada têm a ver com um genuíno espírito de unidade, muito menos de doação recíproca. Os partidos são animados pelo único propósito de derrubar quem se senta no poder para, em seguida, ocupar o lugar deixado vago. Se, durante o assalto à praça tão apetecida, é ofensiva a sua táctica, depois de lá se instalar, passa a uma teimosa defesa da posição conquistada. Governar capazmente, para isso são impotentes, consoante acima se sublinhou.

Do sistema partidário, é lícito afirmar com inteira propriedade que é um estado crónico de guerra civil incruenta. Só o facto de ser um estado crónico, transforma a luta partidária noutro flagelo de nefastas consequências. Em contrapartida, nenhum corpo intermédio aspira ao senhorio do poder: deixa essa vã ambição aos partidos. Os corpos intermédios conhecem perfeitamente que a sua soberania é solidária e não deixa de fora nenhum deles.

Tudo quanto é humano, é contingente. Portanto, o que sai das mãos do homem leva infalivelmente o selo do que é limitado. Sendo limitado, como do próprio termo se infere, é obra imperfeita. Nem por isso, contudo, ficamos impedidos de separar o que, por ser humano, está sujeito à corrupção, daquilo que está privado de bondade na raiz e nos frutos.

É dado seguro que um exame desapaixonado da História logo nos revelará como os corpos intermédios, esses órgãos já antes referidos e que constituem as forças vivas da realidade política que é a Nação, reduzem a pó os partidos, verdadeiros agentes patogénicos das sociedades onde proliferam.

Os partidos, pela sua estrutura e pela sua teleologia, são instituições com vocação para a desordem e são também germes de cizânia na pólis. São frutos peçonhentos de uma árvore chamada Democracia. Não se encheram de podridão, nem degeneraram: eram já venenosos à data do nascimento. Transportam o pecado de origem do berço que têm.

Em suma: os partidos são o resultado fatal da mentira democrática. E esta mentira, não podemos pensar em travá-la no telónio, onde ela reparte o seu jogo viciado. Aquilo a que se dá o nome de Democracia não se enfrenta, lutando segundo as suas regras e o seu querer: com tal monstro não se pactua porque ele não tem um pingo de honra. E é assim que nos cumpre dar remate à ingente tarefa de lograr o fim desta aberração, levando a que a mesma acabe asfixiada nas máximas ocas com que inundou o mundo.

Os partidos e os seus antepassados de gorra com outros parentes espúrios – especialmente o individualismo e o relativismo – são o cancro aceso que vai roendo o corpo das comunidades humanas. Não pensemos em dominá-lo com paliativos: remédio para este mal, só a ablação do tumor letal.

A defunção da Idade Média marca o primeiro golpe vibrado na organização corporativa, sem dúvida o mais benéfico de todos os regimes que o homem já experimentou no campo económico-laboral. Foi o mais equitativo nesse domínio tão sensível, mostrando como é possível satisfazer uma exigência básica, qual seja a de unir capital e trabalho (1).

Se não erramos ao sustentar que a influência dos corpos intermédios, sob o ponto de vista do que se torna lícito tratar como uma questão de salus populi, confere a mesmíssima dignidade a cada um deles, sem uma única excepção, nem por isso é irrazoável olhar com especial cuidado um ou outro, neste ou naquele momento. Obedece-se, então, ao que ditam as circunstâncias do tempo que corre sem cessar. E assim acompanharemos o dinâmica das instituições humanas, sem trair o que elas intrinsecamente possuem. Tudo de acordo com a própria vida, que é dinâmica segundo o defende a mais pura linha do ideário tradicionalista.

Nestes termos, não parecerá deslocado na matéria aqui abordada, nem extemporâneo na altura, acrescentar algumas palavras ao que já se alinhou sobre os grémios profissionais, por ser a produção e circulação de bens económicos, no viver quotidiano de todos nós, um sector de vital importância e que se reveste de um melindre muito delicado.

Por isso, se reverte ao ponto do que é a indissolúvel ligação capital – trabalho. É tão estreita esta ligação que só por louca temeridade pode ser esquecida. Mesmo por parte daquele que o mundo se habituou a olhar como pontífice infalível do credo mítico que pretendeu arrasar o capital, até por aí, frise-se uma vez mais, foi trazida à nossa beira a evidência do que há muito sabia a Tradição, na confissão aberta de que ninguém «(...) poderá produzir botas sem cabedal.» (2), confissão esta que a sua própria boca soltou. Só não entende isto quem não quer. Num laconismo impossível de encurtar, o certo é que, mesmo quem nas nossas fileiras combate afincadamente esse revolucionário, não lhe deve recusar a ponta de gratidão que lhe cabe, porque sendo autor das palavras, aqui transcritas, acertou e definiu primorosamente a relação que nos ocupa, na mais estrita fidelidade às normas dialéctico-formais – foi breve; preciso; claro; e conciso!

Na realidade, é património da corrente tradicionalista a tese de que a ruptura da aliança capital – trabalho abre caminho para a ruína, na medida em que é factor de riqueza qualquer dos dois elementos enunciados, mas em que nenhum deles basta se figurar sozinho. Por isso, só unidos se justifica o valor da existência de ambos. A via, que aponta  para a luta de classes como padrão de comportamento, é a estrada do suicídio não só económico, como ainda colectivo, porque atinge todos os sectores produtivos do povo que aceita envolver-se nesse antagonismo. Até que as pessoas se convençam da falta de razão que subjaz às construções económicas vigentes, não veremos o termo deste pertinaz duelo, mais ou menos feroz, entre a força, que produz, e o sangue, que alimenta essa faina. Bom é que cessem ilusões e se acredite que no capitalismo está escondida a incubação do socialismo!

Um juízo precipitado leva a crer que cada um destes sistemas é a panaceia de todos os males de que o outro enferma. Erro funestíssimo! Porque lançar um destes sistemas contra o outro, cavando entre eles um divórcio que se pretende irreversível, é a grosseiríssima aplicação à realidade económica daquilo que parece justo chamar pecado ontológico. O Ser reclama o concurso de duas causas, que o constituem na sua unidade transcendente – uma, a causa material; e a outra, denominada causa formal.

Na vida económica, o capital é a causa material; e a causa formal manifesta-se no trabalho realizado pelo homem. A participação do homem, neste elemento de produção, confere ao trabalho uma nobreza que o capital não possui. Importa realçar esta nota para desfazer muitos preconceitos, gerados sobretudo no ventre daninho do liberalismo, desde que se assistiu à eclosão dos movimentos socialistas, os quais, contra um capitalismo desumano, levantavam a bandeira de uma luta igualmente sem ponta de bondade e que os seus optimates sabiam, como continuam a saber que era e é uma luta votada ao insucesso. Quando se combate por um troféu para dar a todos e ele fica nas mãos de uns poucos, esse combate é a derrota de quem arrostou com a dureza das hostilidades e prova manifesta da mentira propalada. Uma mentira da qual os mais logrados ainda se não compenetraram inteiramente.

Será, porventura, tamanha a cegueira, a ponto de não se descortinar a façanha das actuais doutrinas políticas, cindindo capital e trabalho no seu enunciado abstracto, para proceder, na prática, à mais promíscua união daqueles elementos de riqueza, que têm como timbre o que proclamam como valores irredutíveis um ao outro? Se buscassem o recto equilíbrio entre ambos esses elementos, estariam no caminho certo; deitando tudo no mesmo vaso, em lugar do canteiro florido, que alguns teimam em esperar, é um caldo de mau sabor que sai. Pegando nestes dois elementos – capital e trabalho – o sistema que ouse dar preferência a um deles sobre o outro, enquanto o fizer, ficará privado da integridade que enche e completa as coisas criadas que o quadro do que é contingente nos vai incessantemente oferecendo.

Desenganem-se os povos! Capitalismo e socialismo são parceiros de rota, ex rerum natura. Não conseguem dar um passo em frente se se aferram à ideia de fazer jornada isoladamente: somente avançarão quando se persuadirem que cada um tem o que ao outro falta, e resolverem juntar-se num todo harmonioso. Com mágoa se regista que o que hoje observamos neste propósito é, não a procura desesperada de um pelo outro para progredir vitoriosamente, mas sim a pobre realidade de um que, em desespero de causa, tolera o outro. Nos diversos planos em que tenhamos a ventura de ver radiar esse corpo novo, há-de chamar-se-lhe corporação. Nome que, por trazer o rumo salvador neste angustiante problema, é logo abafado, porque não está nos propósitos de quem dirige as sociedades modernas sanar coisa alguma.

Enfrentados o capital e o trabalho, porque abusiva e violentamente os separaram, vamos assistindo a um espectáculo que lá por não repetir o cenário das sociedades altamente industrializadas, nem por isso é menos desolador: hoje, não se avista o clássico quadro de um proletariado que, deserdado de todos os bens de fortuna, definhava e morria: agora, dá-se entrada a novos figurantes, que pisam o palco dessa mesma miséria – são nações inteiras, desgraçadamente sujeitas ao poder brutal de oligarquias que não conhecem pudor, não sentem compaixão e não recuam perante nada que as afaste de amontoar dinheiro.

Qual a base em que pousa esta coabitação que a muitos pode surgir como um conúbio contra naturam?

Não se compreende bem é o motivo da estupefacção. Pois custará assim tanto ver que as nações, onde prevalece um dirigismo económico mais acentuado, necessitam desesperadamente de fundos porque é fraca a sua produtividade e, consequentemente, baixas são as suas reservas líquidas? E que, por seu turno, para as nações mais fortes, é de toda a vantagem a existência desses redutos de pobreza, pois neles encontram mercado para os seus excedentes de produção, compensando assim os défices internos desses países em toda a casta de bens? Por último ainda: que onde o capital domina, é de uso ir buscar mão-de-obra extemamente barata, a qual explora com toda a facilidade através das multinacionais que cria por toda a parte?   

O que nos deve admirar é haver quem não acerte com o quadro verídico traçado por esta dupla, a qual se não encerra toda a perfídia que o homem é capaz de transportar consigo, será então porque o Mal é uma fantasia criada por mentes doentias.

Basta, pois, de reacções que apenas traduzem a ingenuidade mental dos seguidores do capitalismo, quando não se trata de malévola simulação.  Os que estão de boa fé, por mais que isso lhes doa, devem compenetrar-se desta fatalidade: o socialismo durará quanto tempo durar o capitalismo! É esta a sentença que se extrai de quanto a Revolução Universal engendrou.

Só a Tradição pode vencer a Revolução. Para entender isto, nada como recordar, ainda que a breves traços, o trajecto percorrido desde a convulsão antropocêntrica:

As corporações históricas iniciaram, então, uma decadência que se foi arrastando através de um lento processo de altos e baixos, cujos passos, insista-se, não cabe aqui esmiuçar. É preciso deixar que, sobre os grandes fenómenos que marcam o andamento da vida colectiva, decorra tempo suficiente para que eles se tornem perceptíveis. Hoje, ressalta claro que o destino do regime corporativo logo ficou traçado com o triunfo do mercantilismo. Não queiramos, pois, reviver o calendário passado, quase dia-a-dia, quando as diferenças assinaláveis demoram pelo que, muitas vezes, tal exame é supérfluo, se é que não se está mesmo perante um exibicionismo de erudição.

Retomando o fio do discurso. Naquela queda das corporações, não vieram abaixo só os grémios profissionais, os quais, enquanto duraram, transmitiam uma invejável tranquilidade social às comunidades, onde derramavam a sua acção benfazeja. A estrutura apresentada opunha-se à génese dos grandes capitalistas com tanta eficácia que esta virtude era reconhecida  e apreciada por destacados vultos do campo socialista, os quais lhe dispensavam rasgadíssimos elogios.

Os corpos intermédios formavam uma realidade viva, pujante de seiva; eram notoriamente actuantes; e estendiam-se por todo o tecido social. Desapareceram, mas podem voltar na veste das autarquias geográficas tomando figura no município, de tão rico passado entre nós; das corporações da cultura e do ensino; das artes; da educação física e desporto; e de tudo o mais, onde se sinta vivamente o pulsar da Nação.

A antítese partidos – forças vivas impõe que não se protele a opção. O regresso à Tradição manda restaurar os corpos intermédios por uma questão de sobrevivência nacional; a integração nos partidos dissolve e, com isso, rouba personalidade aos que por ali se perdem, que é, a bem dizer, o caso de uma imensa maioria, senão mesmo de todos. A escolha repousa na distância que separa a atitude de quem decide viver, em contraste com a posição daquele que se nega a si mesmo, sumindo-se paulatinamente  nas profundezas do seu próprio ser.

A sociedade, onde vigore o sistema partidário pelo qual se governa, não é uma sociedade com rosto humano, porque está atomizada: é um composto de indivíduos, que contam como números para uma soma aritmética. Na comunidade, que obedeça à ordem tradicional, cada pessoa é avaliada segundo o peso que tem, preservando assim uma identidade que não se confunde com a de nenhum dos que o rodeiam: ali, não se rende culto à atroz mistificação da mensagem igualitária! Do fementido princípio da igualdade, derivam todas as falácias democráticas, in casu, o sufrágio universal, cujo funcionamento não se entende sem as trombetas de mau agoiro que são os partidos.

Na feira que os partidos levantam, feira que tem o bulício de todas as feiras, mas delas não guarda aquele cunho alegre e simpático, tão comum a outras bem conhecidas que se estendiam e ainda se vêem nas nossas terriolas, a algazarra, insista-se, dos seus comícios e debates, paredes meias com o vozear de sessões em que o obscurecimento sobra e a luz escasseia, nessa turbulenta feira é só uma a música que soa. Os clamores gritados, que por ali se erguem, são arrancos de gente sem outro sentir para lá do mórbido apetite de semear desgraça. Incapazes de entoar algo que dê uns longes de coerência lógica, ocupam-se no ofício de moer os ouvidos e esvaziar as mentes. Esta tarefa, que podia não ir além de mera tentativa, as mais das vezes é crime consumado!


Joaquim Maria Cymbron
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  1. Ver https://legitimismo.blogspot.com/2007/12/economia-luz-da-metafisica.html.
  2. Karl Marx – O Capital, I, Delfos, 7.ª ed., p.103 .

JMC

sábado, 1 de junho de 2019

DIA DA MARINHA EM COIMBRA



Para o que se tornou meu hábito escrever neste blogue, apresenta-se notoriamente curto o que hoje publico. É simples a explicação: o episódio, que relato, está marcado por uma nota castrense; e a linguagem de militares ou para militares só resulta inteligível, quando obedece a um estilo – aquele que vai  directo ao núcleo da questão!
Especulações, essas ficam a cargo dos políticos.


A Marinha escolheu Coimbra para palco dos eventos com que celebrou o seu dia neste ano de 2019.

Na cerimónia militar, usou da palavra S. Ex.ª o CEMA. Justificando o esforço desenvolvido para captar gente moça, o Vice-Almirante Mendes Calado destacou as possibilidades de valorização pessoal, que a Marinha proporciona, afirmando que «(...) na Marinha é possível atuar no mar, em terra e no ar, onde e quando necessário, salvando vidas, protegendo os nossos recursos, investigando o oceano e, se requerido, combatendo por Portugal!»1

Nada a estranhar neste excerto se não fora o segmento final. Ali se lê que se combate por Portugal, «se requerido».

Muito bem! Pergunta-se, então: Quem é o requerente? Se era ideia do orador incluir nas missões da Marinha a de combater por Portugal, quando as circunstâncias o requerem, temos que as suas palavras são sábias. Todavia, o pior é que isso não resulta claramente da letra do discurso, a qual neste ponto, força é dizê-lo, abre via a muitos entendimentos.

Na estrutura de um discurso escrito ou oral, é certo que deve prestar-se atenção à sequência de exposição das palavras que o compõem. Embora não necessariamente, essa disposição é capaz de influir na interpretação do mesmo.

Considerando, porém, a altíssima hierarquia do autor desta peça, devemos admitir que o seu pensamento não se afastará uma polegada do que é a vocação primacial de qualquer corpo militar, seja ele qual for, maxime tratando-se da Armada de Portugal, rica em tantas e tão gloriosas tradições. E porque fora disto, se entra no domínio das conjecturas, processo ao qual falta dignidade para que o sigamos, vamos adiante:

Ninguém, de seu perfeito juízo, regateia louvores às diversas polícias que nos servem; às unidades de bombeiros sempre prontos a dar a vida pelo seu semelhante; à protecção civil; ou a quaisquer outros movimentos cívicos formados ou a formar, desde que mostrem abnegação. Em todas as acções que constituem missão destes organismos, nenhum argumento há para não intervirem também as forças navais. Dir-se-á mesmo que isso é um imperativo ético!

Mas por mais meritórias que sejam essas funções, a  razão de ser da Marinha de Guerra é bem outra.

As Forças Armadas têm filosofia diferente da sociedade civil, em que se integram e que servem. Provém essa diferença da sua génese; do seu viver; e dos reais fins para que existem. A sua mentalidade foi moldada, pois, por tudo isto junto, mas predominantemente pelo último motivo. Com efeito, o destino dos corpos militares está definido sem ambiguidades – a defesa da Pátria contra o inimigo externo ou interno!

Nenhum poder político traçou este rumo, como também não conseguirá que dele se desviem as Forças Armadas. A consciência, que as lança nessa rota, fala com a eloquência própria de um grito de alma profundamente gravado nos tecidos da sua memória colectiva.

Monarquia ou república; sistemas de autoridade bem marcada ou as águas mornas da praxis democrática; ditaduras de sufoco ou a caprichosa prepotência das balbúrdias demagógicas, tudo isto é apenas um amontoado de trajes, que vão cobrindo uma Pátria ao longo do seu percurso histórico. Porém, nenhuma destas roupagens lhe dá a feição por que é conhecida e venerada – a Pátria é uma linha que o tempo desenha, geração após geração. Nunca desapareceu, apesar dos sobressaltos que a sacodem de quando em quando, porque a sua identidade transcendente permanece. Daqui, impende sobre as Forças Armadas o dever sagrado de se manterem fiéis ao mandato que lhes chega do passado – garantir condições para a preservação do Bem Comum!

Ao sublinhar o que é, especificamente, não a tarefa confiada às Forças Armadas, mas sim o que delas se espera porque constitui a sua essência, contribui-se para uma melhor ordem daquilo que faz parte do palco em que não podemos deixar de nos colocar – a comunidade humana.

Os dias, que passam, oferecem-nos uma autêntica babel de conceitos. Procuremos separar o que é distinto:

Em culturas como é a portuguesa, erguem-se duas instituições que acompanham os passos dos povos – a religiosa e a militar:

No seu múnus espiritual, os sacerdotes de qualquer culto não têm de ser guiados pelos profanos, nem devem ditar leis temporais: estão à parte; situam-se num patamar que se ergue isolado e que, em certo sentido, se encontra bem acima dos governos dos seus fiéis.

De modo análogo, não cabe às Forças Armadas o exercício da política, assim como não se encontram vinculadas a uma obediência incondicional por parte de quem detém o poder civil; por outro lado e à semelhança das sociedades religiosas, também as Forças Armadas, não obstante o que isso possa contrariar as boas consciências burguesas, são uma instituição que paira em alturas dificilmente acessíveis.2

As Forças Armadas, com todos os defeitos inerentes à condição humana, continuam a ser aquela instituição que as gentes, ao longo dos séculos, se habituaram a ver como sendo depositárias das mais nobres virtudes da espécie a que pertencemos. É assim que duram, e deste modo são olhadas e admiradas!

VIVA PORTUGAL
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Joaquim Maria Cymbron

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  1. https://www.marinha.pt/pt/media-center/discursos/Documents/DiscursoDM19.pdf.
  2. Ao glorioso C.el de Cavalaria Duarte Pamplona, primeiro oficial português a ser agraciado com a Torre e Espada, na Guerra do Ultramar, ouvi-o dizer que «ser soldado é quase um sacramento.»


JMC