sábado, 19 de Setembro de 2009

O MAL MENOR

A teoria do mal menor é uma teoria válida. Mas de que muitas vezes se abusa com grande impudência.

Rarissimamente, na qualidade de elemento do povo soberano, usei o direito de escolher o vassalo que me havia de governar. Quer dizer: votei muito poucas vezes.

Se bem me recordo, desde o 25 de Abril, fi-lo ao todo umas seis vezes: duas foram contra o aborto; e as outras quatro deram-se em dois momentos distintos, porque decorriam simultaneamente legislativas e autárquicas, e mais tarde, legislativas e europeias.

Contra o aborto, votei porque se decidia claramente entre civilização e barbárie; nas outras, agi ao sabor da teoria do mal menor.

Na defesa da vida intrauterina, como muitos outros Portugueses, saí derrotado porque o Governo resolveu liberalizar o aborto, por via parlamentar, uma vez que a consulta referendária não fora vinculativa. Fez isto ao arrepio do que prometera. E já agora vem a talhe de foice lembrar o seguinte: desde 05JUL07, o Tribunal Constitucional tem, sob a sua alçada, um requerimento de deputados da AR, no qual estes pedem a declaração de inconstitucionalidade da Lei do Aborto, que o Governo promulgou com a perfídia já assinalada.

Das outras vezes em que votei, tive a confirmação de que a teoria do mal menor exige uma análise muito cuidada, antes de a aplicarmos. Ela foi ali a continuação e o prólogo do que vem sucedendo desde a traição de 1974.

Trinta e cinco anos é tempo mais que suficiente para medir bem este melindroso problema. E ou achamos que já passou a altura de escolher o mal menor, ou pensamos que esse é o caminho. Num ou noutro caso, devemos extrair as ilações que se impõem.

Eu, como não sou democrata, não me atrevo a indicar ao povo soberano o rumo que há-de tomar.

Limito-me a dizer: Portugal não se serve com o mal menor; Portugal é, logo abaixo de Deus, o maior bem que temos enquanto vivermos. E é um património histórico de tal grandeza, que temos de o recuperar das mãos de usurpadores, para o restaurar e deixar intacto aos vindouros.

Portugal espera o melhor de cada um dos seus legítimos filhos!
Joaquim Maria Cymbron

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

MANIFESTO CONTRARREVOLUCIONÁRIO

A REVOLUÇÃO MUNDIAL

Existe ordem dentro e para além do que o tempo conta e o espaço mede, ordem que realiza o exemplar divino.

A quebra dessa ordem é a Revolução. Como a primeira ordem, a mais perfeita e a mais importante é a de Deus, dizemos que a Revolução começou com a prevaricação angélica e chamamos revolucionários aos que imitam Lúcifer, continuando na Terra os atentados contra a majestade divina.

Este é o grande processo revolucionário em marcha. Isto e não outra coisa é a Revolução que fustiga os povos, tem já muitos deles avassalados e se prepara para reduzir os restantes à mais abjecta escravidão.

Quando, nos tempos modernos, a Revolução começou a cavar os seus alicerces, não demorou a censurar o pensamento escolástico porque, em lugar do esforço continuado na procura intrépida do que é recto, ansiava por firmar solidamente a vitória do pecado contra o Espírito, queria assentar o reinado das Trevas contra a Luz. Esse reinado seria coroado por um dogmatismo mau porque não apresentava a firmeza da Verdade, mas sim a confusão do individualismo demagógico e a intolerância do autoritarismo, individualismo e autoritarismo que todos aqueles povos, onde começou por alastrar a Reforma --- os povos germânicos --- traziam dentro deles.

Não admira, pois, que a Revolução procedesse daquela forma uma vez que estava empenhada na inversão dos valores. E também não espanta que se tenha insurgido contra o célebre distinguo da casuística, em que eram mestres os membros da Companhia de Jesus, talvez o mais formidável baluarte que se levantou contra a heresia. É que o novo magister dixit não devia ser, como o antigo, entendido sempre de uma forma flexível, muitas vezes contrariado: tinha de possuir a rigidez do aço, não podia sofrer contestação. E o certo é que, com o tempo, isso se foi manifestando cada vez mais até vir a apresentar hoje proporções assustadoras, na tirania de uma filosofia que é uma autêntica filosofia de negação.

Quando dum pólo ao outro da Terra se ouve o som infernal da dialéctica que grita --- ''morte ao que foi criado!'' --- é forçoso convir que já não se trata de uma mera guerra entre nações, impérios ou até culturas. Temos de aceitar que não é possível teimar mais nessa ideia, porque tudo isso está ultrapassado, para se situar em plano diferente. E observamos então a luta intestina do que há de vil no homem com os ecos bons da sua consciência, o duelo da barbárie e da civilização, a revolta de Satã contra Deus.

A estratégia e a táctica da Revolução são delineadas por mentores astutos e têm os seus executantes. Como se distribuem? Deste modo:

A classe mais numerosa é a dos acomodados e medíocres e essa é, por norma, conservadora: não entra no combate; quando muito é apanhada no meio dele. A que lhe é socialmente inferior está quase sempre, se não é que está sempre, aberta às teses revolucionárias. Esta, enquanto se vê insatisfeita, constitui a vanguarda de assalto, forma as tropas de choque. O estado-maior, por regra, acha-se nas camadas favorecidas. Parece que não deveria ser assim, mas torna-se facilmente compreensível, se atendermos a que a mola da Revolução está na sede de mando, na ambição, no pecado de soberba, de que nos fala a teologia, e só um escol pode alimentar tais sentimentos com alguma garantia de os ver concretizados.

Melhora-se deste feitio? Não, por certo! Sem custo se verifica que isto não é progresso, mas um contínuo agitar e que, em última análise, se traduz num recuo, um recuo assustador, um recuo a marchas forçadas.

Afigura-se-nos que isto vem sendo, de alguns séculos para cá, uma lei indesmentível da história. A Idade Média, apesar das suas imperfeições, surge como uma excepção, porque foi nessa época que as comunidades políticas melhor casaram o temporal com o espiritual de inspiração cristã.

A degradação permanente e progressiva da sociedade humana continuará, pois, a observar-se, enquanto a Revolução Universal se mantiver de pé, com os seus chefes mandando os soldados matar e morrer, e estes obedecerem tolamente porque, além de criminoso, é tolice que se mate e que se morra por uma causa contrária ao bem de todos em geral e de cada um em particular. Se os homens continuarem a ser atirados uns contra os outros, cegos pelo ódio, sem outra finalidade que não seja a de revolver por revolver, torna-se fácil antever que estão cavando a sua própria destruição.

Tudo isto, que não é difícil prever, é sobretudo aflitivo. Há um estado de angústia que lavra com uma intensidade assustadora: uma parte da humanidade está animada de instintos exterminadores; outra, amorfa e inerte, parece alimentar dentro de si um desejo suicida. Que é a inquietante obra La barbarie à visage humain, de Bernard-Henri Levy, senão um grito de descrença no universal, uma tentativa de «penser jusqu'au bout le pessimisme en histoire» (1), como confessa o seu autor?

O perigo é real e tem de ser denunciado. A procela que se divisa no horizonte dos tempos futuros, num horizonte que pode estar lá ao longe, mas que também pode estar bem perto, virá a ser a mais medonha de quantas a história guarda memória.

Só uma doutrina na corrente da Tradição se lhe pode opor. A Tradição não se confunde com o conservadorismo porque é dinâmica: no plano metafísico, é o Ser rodeado dos seus atributos transcendentais --- Unidade, Verdade e Bondade --- apresentando-se assim como a expressão do acto passado e a potência de se tornar noutro.

CRISE UNIVERSAL

O mundo em que vivemos é presa da Revolução.

Rasgando e queimando as letras pontifícias, o desvairado Lutero entrava na corte do Príncipe onde a soberba e a luxúria são lei. Com a sua reforma, dividiu o mundo.

Contra a heresia, levantaram-se Portugal e Espanha, na altura ainda separados, mas logo a seguir numa união pessoal que contrariava a lei do dualismo político que deve presidir aos destinos da Península para defesa da civilização. Em 1648, os tratados de Vestefália reconhecem a vitória da nova ética. Foi uma Cruzada colossal que se perdeu por causas que escapam ao entendimento humano. Depois disto, acelerava-se a decomposição, e as pugnas travadas eram disputas no seio de uma família que havia perdido a noção de Deus. A ordem teocêntrica desaparecia totalmente, dando passo à dimensão vitoriosa --- a grandeza antropocêntrica.

Cerca de dois séculos de lutas tenazes eram esquecidos. O misticismo de Santo Inácio de Loiola e de Santa Teresa de Ávila; o apostolado de S. Francisco Xavier e de S. João de Brito; o arrojo de Colombo e de Vasco da Gama; a coragem de um Albuquerque e de um Pacheco, de um Cortês e de um Pizarro, tudo isso parecia sumir-se.

E o mundo que Portugal e Espanha criaram, movimentando-se dentro dos compromissos assumidos no Tratado de Tordesilhas, assinado debaixo de quem, antes da rebelião de Vitemberga, era a suprema autoridade no campo do ius gentium --- o Papa --- tornava-se alvo da cobiça de aventureiros e gananciosos.

O holandês Hugo Grócio, com a publicação do seu Mare Liberum, veio dar uma fachada de respeitabilidade ao que não passava de uma empresa de flibusteiros. A isto, opôs-se, no que respeita a Portugal, Frei Serafim de Freitas com uma obra de mérito colossal: De iusto imperio lusitanorum asiatico adversus Grotii Mare Liberum. Mas contra a razão da força bruta tiveram de vergar as indignações justas de homens como aquele.

Apagavam-se os últimos traços da velha comunidade medieval, desse corpus mysticum que se erguera sobre os escombros daquilo que foi o Império Romano. E assim nascia outra sociedade de nações que, a todo o custo, quer continuar a identificar-se com a civilização cristã. Está errado!

Desde o início que o Cristianismo se espalhou graças ao apostolado de santos e mártires. Com a conversão de Teodósio I, o Grande, tornou-se religião oficial do Império Romano, que o mesmo será dizer daquela imensa parte do continente europeu sujeita à sua soberania. A partir daí, é lícito referir uma civilização cristã ainda depois da queda do Império Romano do Ocidente, porque os invasores bárbaros se arvoraram em continuadores da cultura romana, e aqueles que professavam religião diferente, mais cedo ou mais tarde, vieram a abraçar o Cristianismo. Fazia então sentido o uso trivial das palavras civilização cristã paralelamente à de Europa, uma vez que Europa e Cristandade se confundiam quase por completo.

Porém, com a reforma protestante, essa civilização deslocou o seu ponto de gravidade e pousou para cá dos Pirenéus: os seus missionários foram Portugal e Espanha. Por conseguinte, ou a Europa volta a ser cristã, ou acabe-se de uma vez com o mito de que a civilização cristã é também a do Ocidente, visto que do Ocidente é a Europa, e esta escancarou as portas à Revolução, precisamente nos séculos XVI e XVII.

O tempo andou e logo chegou o Iluminismo trazendo o culto de uma razão especial, a razão divorciada da Fé. Em política, íamos ter o despotismo esclarecido. Era o corolário lógico do poder real absoluto proclamado pelos países protestantes, cujos chefes, desde a ruptura com Roma, negavam qualquer obediência ao Papa. Essa ideia estendeu-se, e a ela também não escaparam os príncipes católicos, educados nas doutrinas cesaristas do direito romano justinianeu, e que recebiam agora a influência nefasta do ateísmo enciclopedista.

Já a Revolução Francesa se anunciava. Quando esta explode, solta-se a fúria jacobina, que vai alastrar, por toda a Europa, os erros de uma liberdade, de uma fraternidade e de uma igualdade que não são as do Evangelho.

Com a derrota de Napoleão em Waterloo, três de entre as potências vencedoras --- Áustria, Prússia e Rússia --- projectaram anular o clima revolucionário, formando entre si aquilo a que deram o nome de Santa Aliança (destas três nações só a primeira era católica, apostólica, romana). Em vão o fizeram. O esforço mostrava-se inútil --- o processo não se detinha, porque não era possível detê-lo senão em bases verdadeiramente contra-revolucionárias.

O liberalismo e a democracia passeiam de triunfo em triunfo. No dealbar do século XX, assiste-se a uma tentativa serôdia de decalcar Waterloo --- os impérios centrais insurgem-se contra a ordem maçónica, carregada com tintas da belle époque. São esmagados.

Duas décadas depois, é um eixo de países, muito afastados da ordem tradicional, que se erguem, procurando derrotar o contubérnio formado por uma democracia relapsa na nostalgia de um passado de quimeras, e por um totalitarismo bem actual --- o comunista. Perderam.

Hoje, de alto a baixo e de uma ponta à outra, estamos sufocados pelo materialismo. É que a Revolução não parou nos conceitos de 1789. Para o espírito que a anima, isso seria muito tacanho: segura e pertinaz, ela procura levar os princípios às últimas consequências.

Não se arriscará muito ao dizer que, dentro de algum tempo, na monstruosa termiteira humana, onde ameaça ir dar a sociedade próxima, se poderá ouvir um aflitivo bradar às armas, em nome da defesa do género a que pertencemos, contra um perigo comum, sabe-se lá de que espécie. Assim realizará a Revolução a sua tarefa, porque os seus atrozes desígnios cumprem-se com a degradação constante de valores, até ao esgotamento final.

A esta prática assassina, responde-se com a Contrarrevolução!

PORTUGUESES E CONTRARREVOLUCIONÁRIOS

A Contrarrevolução, em Portugal, terá de ser levada a cabo por Portugueses que sejam também contrarrevolucionários.

Como contrarrevolucionários, é nossa obrigação combater os que seguem Satanás, primeiro de todos os revolucionários, com prioridade de origem e também de condição; enquanto Portugueses devemos rejeitar as traições inomináveis que afundaram a Pátria.

Proclamemos como fim supremo do homem o dar honra e glória a Deus. Muito diferente, portanto, do que situá-lo e reduzi-lo ao próprio homem, segundo a tendência pagã, ou na sociedade, a exemplo de experiências passadas que agora se querem repetir pintadas de outras cores.

Para isso, reconheçamos a necessidade de uma ordem temporal que há-de ajudar o homem a ordenar os seus actos para o Bem teleologicamente apetecível. Nesta missão, a Política, sem qualquer sujeição institucional perante a Igreja, não poderá, todavia, ofender os princípios sagrados da Religião.

A Política regula coercivamente a vida do homem em sociedade. A Religião dá mais: oferece ao homem os meios necessários para alcançar a vida eterna. Mas, como esse prémio se ganha na Terra, é absolutamente compreensível que a Religião sirva de norma negativa à Política, isto é, que lhe marque limites morais, e que a Política adquira sentido religioso, ou que, por assim dizer, se santifique.

Em consequência, sustentemos a grandeza da Política, no ápice vertiginoso da cidade terrestre em direcção à cidade de Deus, se, na sua existência, governar bonum faciendum, malum vitandum. E, ao defender esta visão da Política, rechacemos aquilo a que, na ordem temporal, se pode classificar como erro do indiferentismo e do latitudinarismo. É o seguinte:

Para alguns, certos povos são fatalmente ingovernáveis, qualquer que seja a forma, sistema e regime político. Isto é notoriamente um erro, mas não se julgue, como muitos outros fazem, que todas as políticas são eficazes desde que os homens sejam honestos.

Sendo os homens honestos, as leis não seriam necessárias! É tempo de nos convencermos que a Política é uma arte valiosíssima e um instrumento precioso de auxílio à salvação espiritual do homem. E, portanto, de que não é indiferente a Política que se segue. De modo, que é imperioso desenvolver todos os esforços na busca da política mais perfeita. A qual, inevitavelmente, tem de conformar-se à verdade ontológica.

Não deixemos que nos invada a presunção sacrílega de nos encontrarmos na posse da verdade absoluta. Nenhum homem a atinge. Sabemos, no entanto, que ela existe e, por isso, recusemos admitir que seja negado tudo quanto formos proferindo, com verdade lógica.

Concluindo: há matérias em que é legítimo formular verdades; e outras que comportam opiniões caindo dentro da zona do mais ou menos provável. Em Política, não devemos ter mais que um dogma: obediência escrupulosa aos primeiros princípios da metafísica.

Daqui, partamos para o nosso ideário:

NA TORRE DE BABEL

Um ordenamento político não se imita. É um ponto aprimorado de velhas usanças e costumes antigos que, em tempos recuados, nasceram e romperam caminho, vindo sempre a ganhar as lições do magistério infalível da história. Venerando o passado, uma constituição política desta natureza está aberta à evolução, na qual se integra com esperança. Produto histórico, de uma história depurada das suas excrescências más, sobreleva todas as demais porque é autenticamente nacional.

Infelizmente, entre nós, não o entenderam assim os arautos do liberalismo, fiéis aos princípios burgueses da Revolução Francesa. E abateram, sem piedade, o tronco das vetustas instituições políticas portuguesas. Mas a origem do mal devemos ir buscá-la mais atrás.

Quando o Humanismo, na sua pagã soberba, derrubou a construção laboriosa da Escolástica, iniciou-se uma revolução de tal maneira grande que assinalou o fim de uma época --- a Idade Média --- para dar começo a outra --- a Idade Moderna.

A primeira fase desse processo oferece, como marco relevante, a reforma de Lutero, reforma falsa que teve consequências trágicas.

A Fé era calcada pelo naturalismo. O Concílio de Trento, purificador, não conseguiu apagar a Confissão de Augsburgo. A metafísica começava a ser moldada sobre a moral, segundo os ditames a que, mais tarde, Kant daria forma invertendo o sentido que era necessário respeitar. Em suma: a heresia estrangulava a ortodoxia.

Essa derrocada espiritual era, como não podia deixar de ser, acompanhada de grandes alterações no quadro jurídico-político. A Revolução Mundial, compelida a um papel modestíssimo por uma época de religiosidade intensa e profunda --- a Idade Média --- retomava em força a sua marcha. Caía um edifício, onde havia decoro, para em seu lugar se levantar o prostíbulo da orgia e da devassidão.

Non serviam! O grito medonho do frade agostinho estalou, rotundo e sonoro, sobre todo um continente, acompanhado do desabar apocalíptico de hábitos, de sistemas e até de impérios. Lançada a dúvida sobre o sentido precioso da Revelação (que só à Igreja de Roma cabe definir), atacada a Verdade no seu bastião terreno mais sagrado (esta mesma Igreja, a Igreja de Pedro e dos seus legítimos sucessores), tudo ruía.

Em França, desponta Descartes e a subversão faz avançar vitoriosamente mais uma das suas alas. O entimema que o filósofo francês enunciou como ponto de partida válido na actividade do conhecimento, tem de assentar forçosamente sobre outras certezas naturais que se alcançam sem antes duvidar delas, sob pena de se entrar num processo interminável para não acabar no mais pirrónico cepticismo. O pretenso equilíbrio proclamado pelo autor do Discours de la méthode, para ser coerente, conduz à esterilidade; e, se quer fugir a esta, enferma de contradição.

Depois de Descartes, não tardariam a surgir os profetas ardorosos da teoria do rei-filósofo. Os enciclopedistas, com as suas tramas, davam origem ao despotismo iluminado e, com isso, provocavam um movimento natural de oposição. Esse movimento, predispunha os espíritos a aceitar, em lugar daquele despotismo, a soberania ilimitada do povo debaixo da tutela de uma minoria esclarecida, germe daquilo que, mais de cem anos decorridos, foram os partidos únicos.

Porém, a Revolução sabe que, na mudança, quanto mais lentamente se progride, mais seguro é o seu avanço. Por isso, deixou a turba enfurecida sair do proscénio e subir à ribalta: a nau do jacobinismo enfunava as velas aos ventos da loucura para singrar numa rota destruidora. Com a lâmina das suas guilhotinas, o aço das suas baionetas e as balas dos seus canhões tintas no sangue do povo que dizia salvar, a Revolução andou mais uns passos e apareceu acobertada nas roupagens do liberalismo.

Em 1789, a França, saída da Bastilha, decapitou o seu Rei, a Rainha, gente do clero, nobres e até populares. E mesmo dentro das suas fronteiras, fez da Vendeia um cemitério. Alguns anos depois da cabeça de Luís XVI ter tombado de cima do cadafalso, Napoleão, à frente das suas tropas, vestia à Europa quase inteira, o figurino político dos convencionais. Carrascos da Legitimidade, os seus batalhões pisaram nações, acabaram com dinastias e mudaram governos. Da ponta das suas espingardas gritavam ao mundo a aurora de uma era de paz e de amor, mas atrás deles só deixaram um rasto de sangue, miséria, dor e revolta.

Esse individualismo feroz e dissolvente que nos trouxeram, em nada é nacional. E os direitos de importação que já pagámos --- burlas, revoluções e lutas civis --- são imensamente superiores a qualquer lucro que, por equívoco do destino, possamos ter arrecadado.

Na voragem de um desengano utópico sumiu-se o melhor e mais intenso labor de uma empresa de esforços sem limites postos ao serviço da Fé. E, em seu lugar, ergueu-se um conjunto de preceitos, que lançaram os homens para um reino onde muitos se terão já perdido e outros correm o risco de igual sorte. O mundo, que se nos depara, frenético, retaliado e posto a saque, é o desgraçado desfecho das proezas sinistras de duas novas hordas de bárbaros: o capitalismo infrene ou o comunismo, um e outro filhos espúrios dos amores incestuosos do liberalismo maçónico com o racionalismo cartesiano.

No século passado, quando Hegel foi erigido em pontífice e a dialéctica aclamada como dogma, a Revolução abeirou-se do ponto em que agora se encontra.

Da dialéctica do pensador de Estugarda à dialéctica materialista de Marx, viciada por um erro de análise e, depois, às doutrinas dos regimes totalitários das mais diversas cores, foram curtos passos. Pelo meio, a Revolução foi recrutando os escravos de que precisava nas massas, palavra que diz bem quanto se alcançou no domínio do aniquilamento da personalidade humana. O socialismo era a bandeira que agitava, um socialismo que, das cátedras onde começou por ser ministrado teoricamente, desceu à rua e levou os magotes de desenraizados a formarem atrás das barricadas, num grito de extermínio, mas sem compreenderem que constituem um exército suicida. Ultimamente, fiel à sua matriz filosófica, a Revolução já não se detém nas desigualdades económicas e socais, buscando tirar partido de todas as diferenças que existem: religiosas; nacionais; de raça; e até de sexo. Descobriu, assim, os novos pecados capitais: fundamentalismo; xenofobia; racismo; e homofobia.

A mentalidade do Progresso Indefinido passeia ufana e vai arrecadando os seus lucros pela tibieza e pelo quase total silêncio a que conseguiu reduzir a filosofia do Ser.

O LOGRO DA DEMOCRACIA

Hoje quer-se, a todo o transe, louvar a democracia. É já uma contumácia velha. Nos ouropéis de uma linguagem estafada, os amoucos do número enredam tudo e, com os seus juízos especiosos, subvertem a razão de muitos.

A democracia, que alastrou pelo mundo e tritura os valores morais, encarniçando-se especialmente contra os valores que informaram a civilização cristã, essa democracia criminosa tem as suas raízes mais directas em Jean-Jacques Rousseau.

Rousseau firmou num pacto a origem da sociedade política (2) e garante que esse pacto é a única lei que «par sa nature exige un consentement unanime» (3), e que « est elle-même un établissement de convention, et suppose au moins une fois l' unanimité.» (4)

Há os que apresentam essa convenção como uma verdade histórica (mistério insondável este de um pacto antes da vida em sociedade!); outros contentam-se em chamar-lhe simples verdade normativa.

Se é uma verdade histórica, afiançamos que não podemos testemunhar a seu favor porque a ela não assistimos, nem dela temos qualquer notícia através de fonte fidedigna --- seria um depoimento indirecto o nosso e, como tal, mesmo que o quiséssemos prestar, de valor probatório muito reduzido.

Mas, como verdade histórica (o que já se viu que não concedemos e porquê), ainda nos interrogamos porque há-de vincular gerações que não foram ouvidas; simples verdade normativa, inquieta-nos a ideia de que ela possa traduzir a vontade de maus e de inúteis. Perguntamos, então, se nessa declaração estão englobados os votos dos incapazes e dos indignos. Se estão, que há a esperar de tamanho absurdo? E se não estão, como é razoável presumir, quem tem autoridade para excluí-los? Com base em que lei se pronunciará esse juiz? (5)

Estas perguntas clamam por uma resposta inequívoca. Mas essa resposta não virá. Ou se aceita que essa lei foi elaborada autocraticamente, o que anula o mais sagrado da doutrina, a sua quinta-essência, ou não se consegue evitar a petição de princípio.

O filósofo genebrino desenvolveu um sistema sem forma natural: é uma aberração. E como todas as explicações sobre democracia, que se seguiram à de Rousseau, com matizes mais ou menos carregados, andam à volta do mesmo, caem debaixo de igual crítica. Apesar de tudo isto, sempre aparece quem exclama: Ah, a democracia! Isso é o ideal, esse é o sistema por que se governam as sociedades mais adiantadas do mundo.

Não perderemos tempo a fixar o que é progresso: convenhamos que é o dessas sociedades. Também não nos deteremos, agora, a provar que a democracia é um absurdo e que esta conclusão tem a universalidade e a necessidade de tudo que é metafisicamente certo (6): aceitemos que ela é o que apregoam os seus prosélitos. Por fim, não pediremos que nos demonstrem se a democracia é causa ou o triste efeito do suposto grau de civilização das sociedades onde é lei. Nada disto, que é de importância extrema, deve agora ser objecto do nosso cuidado.

Neste momento, basta analisar o seguinte truísmo:

Se a democracia é a panaceia dos males políticos, por que razão existem povos que não se dão bem com ela? E a resposta costuma ser --- Porque esses povos ainda não estão maduros para a democracia! (7) É uma resposta clássica, mas é também uma resposta estúpida.

É de uma imbecilidade pasmosa dar semelhante resposta porque, ou a democracia existe para que viva a comunidade e, se não serve, temos de afastá-la; ou vive a comunidade para que a democracia tenha existência, o que significa converter o meio em fim. E mesmo que seja um fim relativo, o mero acto de preparar o povo para a democracia contradiz, em absoluto, a sua decantada soberania.

E, ao tocar na soberania popular, dá-se uma volta completa e regressamos ao ponto fulcral.

O maior pecado da democracia, pecado mais grave do que confiar os negócios públicos a incompetentes e medíocres, pecado pior do que a refinada mentira da sua representatividade está, precisamente, no postulado da soberania do povo, de um povo que quanto mais o tentam definir, mais se nos escapa a sua verdadeira imagem.

Esse postulado é, no mínimo, cretino. Formulado intencionalmente é um atentado contra a inteligência: já vimos como essa argumentação se perde num processo até ao infinito ou, então, tem de negar-se a si mesma.

Com efeito, afirmámos isso e sustentamo-lo. Afirmámo-lo com carácter geral e abstracto depois de analisar factos concretos, que nada têm a ver com o que se passa agora em Portugal. Isso são os efeitos e estes são variáveis, com o tempo e com o lugar. Aquilo sobre que nos debruçámos foram as causas ou razões últimas da democracia; não nos contentámos com um estudo superficial, mas procurámos entrar num exame filosófico desta questão. Então, observámos que a sua essência está no sufrágio universal. E aqui é que dissemos e repetimos: a democracia é um absurdo e esta conclusão tem a universalidade e a necessidade de tudo que é metafisicamente certo.

Expomos a ideia em forma de silogismo para depois demonstrar:

Tudo aquilo que não evita a petição de princípio é de repudiar; ora a democracia não evita a petição de princípio. Logo, a democracia é de repudiar. Ou, então, se o quisermos: Tudo aquilo que envolve contradição é um absurdo; ora a democracia envolve contradição. Logo, a democracia é um absurdo.

Que não evita a petição de princípio ou que envolve contradição já o provámos atrás. Mas agora voltamos a fazê-lo com um exemplo bem eloquente até porque bateu em cheio no peito do povo português:

Na realidade, a máquina democrática, para se pôr em movimento, exige um impulso que é o princípio de razão suficiente (ou a sua causa eficiente) e esse princípio, insistimos uma vez mais, ou faz cair num ciclo vicioso, ou, para lhe fugir, não é democrático. Em Portugal, o regime instaurado é obra do MFA, esse movimento ao qual Adriano Moreira chamou Novíssimo Príncipe e foi quem empurrou os eleitores, aqueles que ele quis, até junto das urnas, para votarem nos partidos e só nos partidos em que ele consentiu. O MFA, pois, é que foi o autêntico soberano. E noutros países e noutras ocasiões, também a extensão e a liberdade do voto sempre estiveram condicionadas: não vota quem quer, nem se vota em tudo o que se quer.

Por outro lado, a democracia é, ou uma hostilidade aberta, ou a mais acabada deslealdade. Já veremos porquê:

Dos tempos da Revolução Francesa para cá, especialmente desde aí, que o espírito de luta de classes é uma realidade, triste mas irrefutável. Este antagonismo não é certo porque Marx ou Engels o disseram; um e outro limitaram-se a assinalar uma verdade.

Na sua estratégia, a Revolução pôs a um lado os que ela designa por explorados e, do outro, os que considera serem os exploradores. Deste modo, criou uma divisão, que não pretende resolver, mas da qual espera servir-se para instalar a anarquia, único objectivo que a anima.

Ora se a democracia consiste no governo do povo, e uma vez que o povo é formado por facções que, presentemente, se encontram separadas por um antagonismo aceso, a escolha democrática provoca forçosamente um destes dois resultados: ou a vitória da animosidade, ou a traição aos interesses de classe. Daqui não se foge. Esperar a cura dos males da democracia pela mesma democracia, é ter a ilusão de que um cérebro demente se pode tratar a si mesmo por forma satisfatória.

Já nos tempos recuados da antiguidade, Platão classificava a democracia como prelúdio da tirania (8). Também o achamos. Há a tendência fácil da pretensa soberania popular se achar ilimitada, depois que se viu convertida em objecto de idolatria. Dois dos seus mais estrénuos paladinos --- Hobbes e Rousseau --- permitem-nos verificar que assim é, pois as doutrinas por eles proclamadas levam à mais completa subordinação da pessoa perante a máquina estadual.

Os liberais destruíram a verdadeira representação nacional (viva nas antigas Cortes portuguesas, de iure apenas consultivas, mas que funcionavam com muito maior eficácia prática que os deliberativos parlamentos que vieram depois), mataram essa representação e tentaram colocá-la nos partidos, nesses bandos destinados ao assalto do poder e cuja sorte é ditada pelo capricho das urnas.

Que fazem os partidos? --- Arruaças e desatinos. Esgotam-se a adular as multidões e o resto não lhes causa preocupações de maior. Na luta permanente que travam para a hegemonia política curam mais dos expedientes para conquistá-la ou mantê-la do que dos verdadeiros problemas nacionais. Para eles, governar é um prazer egoísta que se exerce com exclusão dos demais. Sobem ao poder com a consciência plena de que o seu triunfo é efémero caso não se guardem devidamente. A sua ânsia é aguentarem-se; não lhes sobra tempo para traballhar.

E o povo dito soberano, como reage? Qual a atitude dos homens que o compõem? --- Bem, cada um desses, agraciado com o pomposo título de cidadão, mas simultaneamente relegado para a categoria inferior de indivíduo, lá segue com o papel mirífico na mão, sem medir bem que, ao depositá-lo, passa um aval de confiança a gente que, de todas as ridentes promessas lançadas da boca, nunca irá além daquilo que pode, fará apenas o que quiser e cairá, amiúde, no que não deve.

Nunca o povo andou tão empavesado de soberania, como agora; nunca, como hoje, ele foi tão pouco atendido!

DIREITA-ESQUERDA (DILEMA FALSO)

A divisão direita- esquerda , que parece a estabelecida pela Cruz Redentora, ganhou tragicamente razão de ser depois que, com a Revolução Francesa, se viveu outro Calvário --- o da Legitimidade do poder temporal.

Nessa altura, direita era sinónimo de Contrarrevolução e esquerda queria dizer Revolução. Mas porque se cingia a um pormenor de circunstância --- a colocação relativa dos representantes da ordem derrubada e daqueles que defendiam os imortais princípios --- sumiu-se. Hoje, direita e esquerda são os dois sentidos que se podem escolher numa direcção única --- a revolucionária. E a antinomia é penosa porque este campo é campo da Revolução.

Quando se radicalizam as posições desta linha, se a extrema-esquerda é o inferno, não podemos, não devemos, nem queremos esquecer e ocultar que a extrema-direita não é a Contrarrevolução. O sufrágio universal deu nisto: assembleias de irresponsáveis ou regimes totalitários. Num caso e noutro, Revolução!

A questão torna-se angustiante porque a mentalidade revolucionária conseguiu instilar o veneno a tal ponto que se crê que a única resposta possível à demagogia dos parlamentos reside no predestinado, no homem carismático, enfim, no poder pessoal que é efémero como a vida humana. Passa com a morte do seu titular.

Este estado de espírito corresponde plenamente aos objectivos pretendidos pela Revolução: a balbúrdia criada pelos areópagos democráticos, acaba muitas vezes na ditadura, quando interessa iludir o povo com a miragem de um oásis de paz. E sempre que as ditaduras, em lugar de recurso de excepção, se tornam regra, temos os césares, os quais, a par dos governos de fancaria de que derivam, são símbolos que encarnam a Revolução na veste que ela ultimamente vem exibindo: o totalitarismo!

Ante o avanço do bolchevismo, nas primeiras décadas do século XX, deu-se na Europa a explosão de nacionalismos destemperados, como já cem anos antes estiveram de moda os nacionalismos românticos gritando, sem nexo, hinos à trilogia da Revolução Francesa, ao mesmo tempo que maldiziam Napoleão e os seus canhões, numa raiva insensata e tola, uma vez que Revolução Francesa e Napoleão se completam. Com efeito, Napoleão não teria tido razão de existir sem aquela Revolução ou outra que espalhasse erros iguais, e a própria Revolução ficaria em nada, sem o cabo de guerra corso ou outro que a consolidasse (9). Mas calhou ser Napoleão: por isso, condenar este e aplaudir aquela, foi uma contradição.

Os nacionalismos exaltados do século passado não pecaram por incoerência formal. Porém, o totalitarismo em que desembocaram não se coaduna com a índole do nosso povo. A raiz política e filosófica daqueles regimes mergulha na doutrina de Rousseau e em autores germânicos como Fichte, Schelling, Hegel e Nietzche. Nada tem de nacional. Na nossa cultura católica, que foi alma de uma vocação de séculos, está a réplica a tudo isto.

Chamamos mais uma vez a atenção para a íntima relação entre Política e Religião. A luta é, fundamentalmente, movida contra a religião católica. O duelo trava-se entre o credo sublime ensinado pelo Filho do Homem e a fúria assoladora do anjo rebelde. Todas as revoluções políticas são consequência do desejo de atacar a verdade conhecida como tal. São um pecado contra o Espírito Santo e, por consequência, assumem carácter eminentemente religioso.

A ordem justa é desejada por Deus. Os seus titulares são, pois, vigários de Deus na esfera do temporal e, assim, um atentado contra a ordem que eles encarnam, ou contra eles, por aquilo que representam, é um atentado contra Deus. Esse atentado será, portanto, um delito temporal e é da alçada do braço secular, embora nunca se deva perder a ideia do seu conteúdo religioso.

Não se identifique isto com qualquer forma hierocrática no exercício do poder. Nós defendemos que se possua da Política uma noção particularmente viva da sua teleologia espiritual, o que não se confunde com a sacralidade do regalismo iluminista, nem com a que foi moda nos países atingidos pela reforma protestante, ou ainda, com o modelo da Rússia czarista, herdado do velho Império de Bizâncio.

Dissemos nas linhas iniciais que, hoje, direita e esquerda são os dois sentidos que se podem escolher numa só direcção --- a revolucionária. Esqueçamos essa via. E avancemos direitos ao instrumento de suplício onde, no Gólgota, padeceu e morreu a Humanidade d' Aquele que é a Verdade. Façamos da Cruz de Cristo o nosso mais alto pendão!

AS LIBERDADES ROUBADAS

Oliveira Martins, naquela que é por muitos considerada como a sua obra paradigmática, escreveu o seguinte: «O velho espírito português encarnara, com efeito, na alma do infante, cuja soberania foi a última genuinamente histórica.» (10).

Não se podia encontrar síntese mais bela para definir a figura excelsa de D. Miguel, tipo puro de católico, verdadeiro exemplo de português, que sacrificou a fazenda, desdenhou honras vãs e arriscou a vida tentando reconduzir Portugal à sua rota histórica.

Debalde o fez: foi o liberalismo que acabou por triunfar. A fera saía da jaula e dava largas aos seus instintos selvagens --- triturava, nas garras da sua brutalidade, quanto pela frente encontrava e podia estragar-lhe o banquete em que procurava cevar a sua fome bestial.

Évora-Monte assinalou a vitória das ideias que se puseram em voga sopradas pelos ventos de França. Essas ideias, que esvoaçaram ao lado das águias napoleónicas, lançaram o mundo numa insânia com o regresso à lei da selva. Era a concorrência desenfreada do liberalismo no mundo da economia.

O tríplice princípio --- liberdade; fraternidade; igualdade ---, segundo a cartilha francesa, ia semear os ódios mais sanguinários e a escravidão mais aviltante. Da confusão anárquica dos seus enunciados, que resultou? --- O revolver de um mundo para vir outro muito pior, onde se assiste à diminuição numérica dos poderosos, acompanhada do extraordinário aumento da sua força, no meio de uma pobreza mais extensa e mais escandalosa. A melopeia da igualdade jacobina serve à maravilha para gerar as maiores iniquidades, pois o compasso dessa música é o que melhor se ajusta à exploração, sem peias nem entraves, das desigualdades concretas.

Tratada por este modo, iria a pessoa humana ver seriamente comprometida as suas liberdades. Estas só existem onde se encontrem delimitadas e acatadas as diferenças. Não observar as diferenças naturais leva à submissão mais degradante e com isso se avança no sonho pérfido da sujeição da humanidade quase inteira a um reduzido núcleo de senhores --- a sinarquia judaico-maçónica.

A partir dos finais do século XVIII, a rasoira da Revolução proclamou, em força, o primado do indivíduo sobre a sociedade, aniquilando aqueles grupos naturais, onde se encontarvam albergadas as garantias fundamentais. Esses grupos constituíam os corpos intermédios. E, por cima deles, o Rei colhia os votos dos procuradores, pesava-os e, investido de um poder, independente na ordem política, mas moralmente limitado, decidia. Hoje as sociedades, depois de duros golpes, apresentam-se atomizadas, e o homem, reduzido a um isolamento assustador, está à mercê desse Leviatão que, há bastante tempo, vem sendo o Estado.

O mal, porém, é antigo. Deitou raízes com a dialéctica falaz dos humanistas e foi crescendo e fortalecendo-se com o tempo. Entre nós, é o verbo inflamado de João das Regras que, veículo do direito de Pisa e de Bolonha, introduz a ideia absolutista do poder real. O chanceler de D. João I, matreiro, perfeitamente sabedor do modo como havia de utilizar o direito para alcançar os fins pretendidos, cortou nos privilégios da nobreza, sufocou as autênticas liberdades populares e, com isto, lançou as bases do cesarismo.

D. João I abriu, em Portugal, uma época a todos os títulos nova. As circunstâncias particularíssimas da sua elevação ao trono permitiram ao astuto João das Regras exercer sobre ele fortíssima influência. Discípulo fiel dos mestres de Itália, o chanceler não se cansava de ensinar o Rei no sentido de que quod principi placuit, legis habet vigorem (11). E assim este monarca, fundador de uma dinastia, foi comparsa mudo, de um processo tendente a neutralizar, sufocando-a nas suas isenções, uma classe que até aí fora elemento vivo no corpo da nação e factor de equilíbrio nas normais oscilações do poder político --- a nobreza. Com D. Afonso V, ainda ela despediu os últimos clarões do seu antigo fulgor, para começar a agonia no reinado seguinte e acabar de estrebuchar sob o pulso férreo do tirano Pombal, quando, em Belém, numa cinzenta manhã de Janeiro, o vento soprando espalhou o cheiro acre de uma matança hedionda.

Extinto este braço da sociedade, instalava-se a monarquia cesarista, excesso tão revolucionário como os desmandos que haviam de sair dos imortais princípios de 89.

O trinómio --- rei, nobreza, povo --- expressava harmonia nos seus factores até que o segundo foi mortalmente atingido. O direito romano justinianeu, introduzido pelos legistas, que o iam buscar aos centros renascentistas, tirou força à nobreza, deu-a aos reis, ignorou as camadas populares e preparou assim o caminho do absolutismo cesáreo. Deitada a nobreza por terra, os reis já não precisavam ligar-se ao povo. Não tinham rivais: eram agora os únicos senhores, podiam exercer toda a espécie de prepotências. E o povo, um organismo privado dos seus naturais aliados, que se iam sucedendo no trono, ficou à mercê de todos os abusos sob um jugo cada vez mais pesado.

Mas os reis também vieram a morrer nas malhas do absolutismo. Se o povo tinha neles um amigo quando se sentia vexado ou oprimido pela nobreza --- daí a saborosa expressão de, em Portugal, sempre andarem rei e povo de braço dado --- não é menos certo que os reis possuíam no povo um esteio se algum barão, atrevido e insolente, esquecia que eram os monarcas os primeiros entre os nobres. Desfez-se o pacto: os reis deixaram de dispensar protecção ao povo; e o povo, um dia, foi atirado contra os seus defensores de outrora.

A Revolução começou por decepar um dos braços do Estado. Não tardaria a cercear as regalias e liberdades administrativas e profissionais. Costume e forais ficavam sepultados debaixo da pesada pedra que é a lei elaborada em nome da soberania popular. O costume é uma das fontes de direito que a ciência jurídica e política reconhece. Os romanos definiam-no como um tacitus consensus populi, longa consuetudine inveteratus. Um tacitus consensus populi --- com efeito, o costume é a via pela qual se manifesta, talvez da forma mais inilidível, o sentir do povo, do povo autêntico, não do povo que já «saiu à praça vociferando que é rei porque é povo.» (12)

Retomemos o fio da nossa exposição, no ponto em que a interrompemos, isto é, no tempo de D. João I.

Três reinados a seguir ao rei de Boa Memória, colhia Portugal o fruto sazonado das lições daquele soberano, porque tinha o monarca absoluto perfeito. Valeu-nos a Providência porque era um homem que possuía em elevado grau a consciência da missão, que lhe cabia. Absolutista, como produto normal da época que lhe deu o ser e, inquestionavelmente, porque a isso o inclinava o seu próprio temperamento, era sobretudo um português amante da sua Pátria. E o Império que criámos, ficámos em grande parte a devê-lo à sua extraordinária visão, ao seu fino tacto e ao seu génio político. Mas as suas qualidades, porque eram pessoais, morreram com ele.

O iluminismo ainda vinha longe, acabando contudo por chegar, rodeado de grande pompa exterior. E, entre nós, aparecia o despotismo engalanado na figura de Sebastião José. Quem era este homem, a quem alguns teimam em dar estatura descomunal, divinizando-o por obras cujo mérito não teve, e louvando-o por actos desumanos e atrozes ?

Odiando a Igreja (13), expulsava os jesuítas (14), mandava queimar o Padre Gabriel Malagrida e convertia a Inquisição em instrumento da sua mentalidade regalista. Num processo, quase insólito no seu barbarismo e na sua iniquidade, chacinava, ou condenava a prisão perpétua, o melhor da nobreza portuguesa. Através da Lei da Boa Razão feria de morte o costume. E, discípulo fiel de D. Luís da Cunha (15), repetia entre nós o colbertismo do conde da Ericeira, ao mesmo tempo que abatia o que restava das corporações. Tinha as mãos livres, podia fazer quanto quisesse (16).

Terminou o seu governo (seria ironia atribuí-lo ao Rei), com a morte do monarca. Caído em desgraça, foi desterrado para Pombal, onde acabou os seus dias livre do rigor dos tribunais pela clemência de D. Maria I.

No final do reinado desta soberana, Portugal via-se pisado pelos exércitos napoleónicos até que, com o auxílio de uma Inglaterra, invejosa da estrela do Corso, temerosa da hegemonia que este ia firmando, e desejosa de acabar com o seu poderio, conseguiu empurrar o invasor para lá da fronteira. Enquanto isto sucedia, a família real demorava no Brasil para onde se retirara quando Junot entrou no Reino. Passados alguns anos, D. João VI, já rei, regressa a Lisboa depois de muito instado. Na capital do Império, deparam-se-lhe os ânimos exaltados e vive-se um clima de insegurança, resultado da Revolução de 1820. Esse acto, aparentemente, era uma reacção ao regalismo absolutista. Mas, como era óbvio, os prometidos horizontes de uma rasgada liberdade não surgiram.

O País caminhava para uma confrontação, que o ia mergulhar numa sangrenta guerra civil, e seria somente o prelúdio de mais convulsões, de outra guerra, de pronunciamentos militares sem conta, de alguns magnicídios pelo meio, de golpes de estado e de quedas de ministérios, enfim, de uma desordem que, até aos nossos dias, não arredou pé. Mesmo nos períodos de acalmia, uma acalmia mais aparente que real, essa deordem era uma larva à espera de desenvolver-se nas mais venenosas formas.

A paz podre, que caiu sobre Portugal e o asfixia, bem parece antecâmara de um pavoroso cataclismo social. Para prevenir esse mal, a Pátria precisa conhecer a causa dos seu males passados, presentes e futuros. Já aqui dissemos qual é e repetimo-lo resumidamente: trata-se do desgraçado mito da soberania popular, porque é ele que emerge sempre como denominador comum de todos os sistemas que foram impostos ao mundo civilizado e não pouparam o povo português: o absolutismo regalista, ou as doutrinas liberais, ou ainda as ideologias totalitárias. Estes sistemas são contrários ao direito natural e aos mandamentos divinos. Desmentem o ser histórico de Portugal e da sua gente.

PODER POLÍTICO E MONARQUIA

Numa época em que os descendentes de reis se vulgarizam e as pessoas vulgares, levadas pela ambição, se julgam reis, poderá parecer risível terçar armas pela monarquia. Mas nós estamos dispostos a isso e nela confiamos sem desfalecimentos de qualquer espécie.

Que entendemos por monarquia?

Não damos este nome, decerto, às monocracias vitalícias ou quase vitalícias dos consulados, nem ao regalismo cesarista, à maneira de Roma imperial; afastamos igualmente desta categoria aquelas sociedades atomizadas, que entre os diversos órgãos do poder, contam um a que se chama Coroa. Para nós, a monarquia é a comunidade onde existe a realeza, com um poder próprio e forte, cume de uma nação organicamente estruturada nas suas diversas ordens e onde as autarquias geográficas e profissionais estão bem vivas. Assim, o poder político segue uma escala hierárquica e há uma representatividade tão integral quanto é viável.

Sendo os povos formados por pessoas e estas, consideradas uma a uma, intrinsecamente livres porque gozam de uma liberdade concedida por Deus, a nenhum poder humano é lícito ignorar esse dom. A monarquia não calca este direito fundamental do ser humano. Preocupando-se com a pessoa, não consente, todavia, que ela se encha de si mesma, mas serve-lhe de auxílio, orientando-a para o fim último --- o de adorar a Deus. Essa ajuda é levada a cabo pelo poder que é próprio da monarquia.

A causa de todo o poder (por vezes, mera causa acidental) é Deus. Negá-lo é pecar contra o Espírito.

Que é o poder na monarquia?

Esta pergunta, para ser respondida, requer que primeiro se defina o que é o poder político em geral. E precisar os contornos do poder político é o mesmo que falar na teoria da soberania.

Vemos a soberania como a vontade servida por um poder supremo e independente, orientada para o estabelcimento de uma ordem. Povo com gente capaz disto, é povo com uma organização política que o distingue no concerto dos demais povos porque lhe empresta uma individualidade muito particular.

Para quem, como mós, se mantém fiel aos ensinamentos da tradição bíblica (17), foi monárquica a primitiva organização da vida em sociedade, embora se tratasse de uma sociedade muito especial --- a doméstica. Mas, para a exposição daquilo que agora pretendemos, vamos fixar-nos em matéria que a experiência actual pode comprovar, prescindindo do que afirma o texto sagrado.

De passagem, apenas assinalamos que a quebra da ordem monárquica é, quanto a nós e como se torna fácil supor, ilegítima. Porém, o argumento lógico (embora de uma lógica que nunca perde de vista a perspectiva católica da vida), esse argumento reservamo-lo para o capítulo seguinte. Não nos demoraremos, pois, com aspectos que respeitam mais a um problema da legitimidade de origem. Neste momento, é nosso intuito tratar apenas do exercício do poder soberano. Referiremos o único critério que reputamos válido para dizer se este, ou aquele poder, é justo ou injusto. E deste modo mostraremos como nos afastamos de todas as falácias que a democracia vem tecendo ao redor do conceito de soberania.

A soberania, segundo dissemos poucas linhas atrás, manifesta-se como a vontade consciente servida por um poder supremo e independente, orientada para o estabelecimento de uma ordem. Os que isto fazem são os detentores da soberania e saem do grémio de toda a comunidade, mas só a Deus devem o poder. O resto da comunidade propende a aclamá-los.

Alcançada essa ordem, procuram os seus realizadores criar na consciência do grupo em que se integram a ideia de que são obrigatórias as regras estabelecidas. Quer isto dizer que todas as situações políticas de situações de facto que começam por ser, tendem a passar para situações de direito.

A legitimidade do ius positum mede-se em função de valores transcendentes. Rimo-nos da pretensa infalibilidade dos oráculos das maiorias porque as coisas devem ser apetecidas por serem boas e não são boas por serem apetecidas: admitir isto seria perfilhar uma moral de valores nietzcheana o que é manifestamente errado. Com efeito, se o chegar à bondade absoluta das coisas e, por conseguinte, à sua verdade e unidade não está, no campo dos factos, ao alcance de ninguém, muito menos o será pela maioria que constitui o rebanho dos ignaros quase cretinos. Se acontece que a maioria se aproxima dessa bondade, devemos atribuí-lo a sucesso casual.

Simultaneamente, não podemos esquecer que todo o poder constituído perde legitimidade se exerce mal a sua autoridade. E a revolta contra esse poder fica justificada pela moral teológica e pelo direito (18). Os que mandam têm obrigação de realizar o Bem Comum. E sempre que tal é esquecido pelos governantes, não há só o direito, nasce também o dever de alterar a ordem que vigora.

Da comunidade sairão os que a vão salvar, animados do espírito daquele princípio, já formulado, de que os titulares da soberania pertencem ao grémio dessa mesma comunidade.

Montesquieu julgou encontrar o salus populi repartindo o poder de maneira que o resultado final seria a defunção do mesmo (19). Rousseau, categoricamente, proclamou a soberania indivisível (20), embora viesse depois a distinguir entre a força e a vontade do corpo político em termos tais que a soberania assim concebida alberga dentro dela o fermento da própria destruição (21).

A divisão dos poderes está intimamente ligada às ideias individualistas; a ordem tradicional tem em conta o homem situado nos grupos sociais da mais diversa natureza, e obedece a uma cadeia hierárquica, onde se delegam competências, mas em que não há fracções separadas.

O poder monárquico é, sem dúvida, aquele que melhor respeita esta exigência da unidade na variedade. E é talvez o único as consegui-lo. Apresenta, por este modo, o maior obstáculo à desagregação, mesmo que entre as pequenas comunidades que integram a Pátria lavre o germe da discórdia porque, na monarquia, é vertical a disposição do poder soberano, expresso através das forças vivas da nação.

É também a ajuda mais sólida para formar e garantir a continuidade da consciência nacional. Reage-se assim, eficazmente, aos efeitos deletérios das teses do internacionalismo político, sem cair na cegueira dos nacionalismos fanáticos.

REGRESSO À ORDEM TRADICIONAL

A perda do sentido do sagrado levou a um exagero horroroso, aliás previsto e desejado. O Estado deixou de secundar a Igreja Católica e decretou o divórcio entre ambas as instituições.

A Revolução rompeu a aliança entre os dois poderes: o espiritual e o temporal. Investiu depois em toda a linha --- semeou a discórdia na sociedade civil e visou o trono de S. Pedro. Esta ofensiva deu de si o materialismo, espécie viciada de uma religião nova. O processo revolucionário avança em direcção à meta ambicionada.

A ameaça é assustadora e o perigo é real. Mas há um reduto inexpugnável, onde podemos sempre acolher-nos. Esse reduto são as palavras de Cristo: «Et ego dico tibi, quia tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam, et portae inferi non praevalebunt adversus eam.» (22).

Esta certeza não obriga a deixar de lado a Política. Em certa medida, até a requer. Defendemos, assim, que a Política pode ser um instrumento de redenção, embora distinto da Religião pela natureza dos seus meios e fins específicos. Se efectivamente desejamos que o seja, temos de escolher a ordem temporal que se mostra fiel à Igreja de Roma, única depositária do Verbo da Salvação. E essa ordem é a ordem da Legitimidade.

Como se comporta o legitimista? --- Deste modo: adorando a Deus; querendo à Pátria; e dando voz pelo Rei.

O legitimista aclama o Rei, o qual, no uso pleno das prerrogativas que lhe são inerentes, é penhor seguro das liberdades, dessas liberdades consagradas pela lei e pelo costume. A realeza é a forma que determinará a matéria --- a sociedade --- para a transformar nesse todo especificamente novo que a nação monárquica constitui.

O Rei é o chefe natural da Nação. Restabelecida esta aliança, ergue-se, de novo, o quadro mais adequado para o povo português encontrar a perdida razão da sua existência.

Acima do Rei, está a Pátria. Ela é descanso dos nossos maiores, abriga-nos a nós e espera pelos que virão. Mais que um ser físico do instante que passa, é uma entidade moral que se desenha no tempo --- é a comunidade de avós, pais e filhos unidos pela mesma força, abraçados na mesma crença e confiados no mesmo destino que a todos transcende.

Falámos do Rei, tratámos da Pátria. Em frente de nós, por cima de nós, abre-se a majestade infinita de Deus, que é o Alfa e o Ómega.

Neste eixo --- Deus, Pária, Rei --- está a dimensão da Legitimidade. Esta dimensão dava uma ordem e essa ordem verteu-a o Portugal antigo nas suas Leis Fundamentais, que eram algo vivo e não mero documento de prosa mais ou menos sofrível.

No enunciado simples e discreto daquelas Leis palpitava uma constituição genuína. Porque todos os diplomas preparados para reger a sociedade portuguesa, a partir de 1820, apesar de toda a sua ressonância, não foram senão maus aparelhos ortopédicos moldados nos aleijões da Revolução Francesa.

Já definimos o eixo da Legitimidade --- estende-se pela fé em Deus, pela devoção à Pátria e pelo amor ao Rei. Vivendo a Legitimidade, vive-se a lealdade ao Rei, posta ao serviço da Pátria, com os olhos fitos em Deus.

É esta a linha da política que reputamos ortodoxa: reflexão, estratégia, acção. Seguimo-la com a monarquia legítima, que nos descobrirá a Tradição. E a Tradição não morre, visto que reflecte o Ser uno, verdadeiro e bom em movimento, como já tivemos ocasião de explicar no início deste manifesto.

Se não carregássemos a tara do pecado original, a Tradição espelhar-se-ia, com fidelidade, no testemunho que cada geração fosse deixando após a sua passagem. Não acontece assim. E, por isso, a Tradição deve ser objecto de constante esforço de uma procura animada pelo desejo de alcançar a verdade ontológica. Só deste modo admitimos a Tradição.

EXORTAÇÃO FINAL

Portugueses:

A nossa Pátria separou-se do resto da Península. É um facto político que passou por três duras provas. S. Mamede marca as aspirações de um povo que nasce; Aljubarrota afirma a certeza de uma consciência nacional que já não aceita escambos de identidade; e o 1.º de Dezembro de 1640 confirma uma vontade atávica --- a de permanecer livre e independente.

Começou pequeníssima; estendeu-se pelas quatro partidas do mundo, animada de zelo apostólico; e numa triste Primavera, apesar dos cravos que floriam (ou talvez por causa disso), foi vilmente atraiçoada por bastardos sem lei e sem pudor.

No açougue dos conluios internacionais, os magarefes sucedem-se a ver quem retalha mais. Mesmo assim, não desapareceu. A sua identidade metafísica permanece. E nós podemos restituir a Pátria amada ao caminho da sua missão histórica.

Forças temíveis, que se escondem nos abismos profundíssimos do Mal, desejam enterrá-la. Essas forças são aquelas que, sobre os escombros da civilização que vão abatendo, se preparam para levantar o governo de um Estado Universal monstruoso.

A esses perversos desígnios temos de opor-nos. Que nos é pedido, então? --- A resposta ao chamamento para uma cruzada sublime:

Trata-se de restaurar Portugal. Portugal restaura-se expulsando os corpos estranhos, como o expulsámos em Aljubarrota; em 1640; e em 1810. Portugal refaz-se repetindo todos estes exemplos e conseguindo aquilo que, desde a queda do Rei legítimo, há quase dois séculos, não temos sido capazes: conseguindo a ablação dos tumores causados por sistemas de ideias, autênticas células cancerígenas que se instalaram no organismo da sociedade portuguesa. É preciso cortar as raízes desses abcessos, é necessário extirpar esses cancros, porque uma nação não está só invadida quando exércitos de fora talam o seu território, ou grandes fluxos migratórios alteram o seu equilíbrio: pode está-lo tanto ou mais sempre que os espíritos se apresentem turbados por doutrinas de importação. É este fundamentalmente o estado de Portugal e nós temos o dever de impedir que ele se prolongue.

A Pátria sofre porque posta diante do espelho da sua memória não se reconhece nele: procuremos seguir os nossos valores tradicionais e já veremos como o Portugal de amanhã volta a identificar-se com o Portugal de antanho. Esta é a restauração que se impõe; para esta tarefa é que temos de preparar-nos.

VIVA A MONARQUIA LEGÍTIMA!

VIVA PORTUGAL CATÓLICO!

Joaquim Maria Cymbron

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  1. Éditions Grasset & Fasquelle , 1977, p.12.
  2. Du Contrat Social, Livre I, chapitres V-VI.
  3. Ib., Livre IV, chapitre II.
  4. Ib., Livre I, chapitre V.
  5. Ver Rousseau --- Discours sur l' origine et les fondements de l' inégalité parmi les hommes, Flammarion, Paris, 1992, p.257: «(...) puisqu' il est manifestement contre la loi de nature, de quelque manière qu' on la définisse, qu' un enfant commande à un vieillard, qu' un imbécile conduise un homme sage et qu' une poignée de gens regorge de superfluités, tandis que la multitude affamée manque du nécessaire
  6. Referimo-nos, como é óbvio, ao seu enunciado de princípios, não a práticas que é uso classificar de mais ou menos democráticas. Isto mesmo transparece no texto deste Manifesto , um pouco mais adiante.
  7. Interrogamo-nos também se, naquelas nações onde a democracia funciona com mais ou menos regularidade, não andaria tudo melhor sem ela. Cremos bem que sim, mas consideramos tal problema como uma questão que não diz respeito a quem, primordialmente, busca uma solução nacional.
  8. A República, trad. de Maria Helena da Rocha Pereira, Fundação Calouste Gulbenkian, 8.ª ed., Liv. VIII.
  9. Napoleão, esse génio administrativo mau e militar exterminador, teve talvez em Rousseau o seu profeta sinistro. «Il est encore en Europe, un pays capable de législation ; c' est l' île de Corse. (...). J' ai quelque pressentiment qu' un jour cette petite île étonnera l' Europe.» Aquele que alimentou, em grande dose, o pensamento revolucionário, que veio a explodir em 1789, prenunciava o advento do seu mais destro executante. Com Robespierre, Danton, Marat ou um dos raivosos, a Revolução Francesa não iria possivelmente além de umas crises frenéticas. Foi Napoleão, quem sagaz e persistentemente a cimentou. (Op.cit., supra, nota 2, Livre II, chapitre X).
  10. Portugal Contemporâneo, Livro Primeiro, cap. II, 3.
  11. D. 1.4.1.
  12. Camilo Castelo Branco --- O Bem e o Mal , VII.
  13. M. Menéndez-Pelayo --- Historia de los Heterodoxos Españoles, Liv. VI, capítulo 2, I: «Hoy es el día en que más se sienten los efectos de aquel régimen, que empezando por dar a Portugal un esplendor ficticio, acabó por anularle sin remisión y convertirle en el país más "progresista" de la tierra, en el sentido grotesco que tirios y troianos damos en España a esta palabra. (...) Abatió al clero por odio a Roma y al catolicismo, como quien había bebido las máximas de la impiedad en los libros de los enciclopedistas, por cuyos elogios anhelaba y se desvivía.»
  14. Ib.: «Pombal tenía la monomanía antijesuítica; (...) murió en 1782, y los enciclopedistas le pusieron en las nubes "por haber librado a Portugal de los granaderos del fanatismo y de la intolerancia", frase de D' Alembert
  15. Oliveira Martins --- História de Portugal, Livro Sexto, V: «O marquês de Pombal, representante eminente e audaz do naturalismo do século XVIII, aprendido nas missões de Inglaterra com D. Luís da Cunha, que decerto o educou (...).»
  16. O mais insuspeito elogio das corporações talvez se encontre no Manifesto Comunista, quando, sobre os operários se lê isto: «(...) tentam recuperar pela força a posição perdida do artesão da Idade Média.» (Marx/Engels, op. cit., trad. de Manuel L. Martins, Publicações Nova Aurora, Lisboa, 1976, II). Ver também de Marx, sobre a acumulação primitiva, O Capital, trad. de António Dias Gomes, I, 7.ª ed., Delfos, 8.ª Secção, cap. XXVI - cap. XXVIII. É curioso analisar este trecho.
  17. Nada há na doutrina da Igreja que proíba uma interpretação literal do Génesis. Sobre este ponto, leia-se a encíclica Humani Generis, de Pio XII.
  18. S. Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica, II-II, q. 42, a. 2: « Ad tertium dicendum quod regymen tyrannicum non est iustum: quia non ordinatur ad bonum commune, sed ad bonnum privatum regentis (...). Et ideo perturbatio huius regiminis non habet rationem seditionis: nisi forte quando sic inordinate perturbatur tyranni regimen quod multitudo subiecta maius detrimentum patitur ex perturbatione consequenti quam ex tyranni regimine.» Escute-se também Francisco Suárez, S.I . --- Defensio Fidei III, I Principatus Politicus, cap. III, 3: «(...) si rex iustam suam potestatem in tyrannidem verteret (...) posset populus naturali potestate ad se defendendum uti
  19. De l' Esprit des Lois, Livre XI, chapitre IV et chapitre VI.
  20. Du Contrat Social , Livre II, chapitre II.
  21. Ib., Livre III, chapitre I.
  22. Mt. 16,18.
  23. Apoc. 1,8; 21,6; 22,13.

JMC

domingo, 19 de Julho de 2009

DEPOIMENTO NOTÁVEL

Do blogue de um velho amigo, extraio, com a devida vénia, o texto que segue:

18 Julho 2009

REVISÃO... URGENTE

Neste mundo dos direitos, e apenas estes pois os deveres há muito se encontram abolidos, urge que tomemos consciência da apatia, desacerto e irrazoabilidade das nossas leis penais, do funcionamento global da justica e da real possibilidade de actuação da polícia.

Neste país (e mundo...) de pernas para o ar, tudo o que é correcto é criticado e tudo o que é "desviante" é glorificado. Por analogia ao que dizia o meu pai sobre a homossexualidade("antigamente era proibida, hoje é tolerada e no futuro será obrigatória... felizmente que já cá não estarei"), todos os valores vêm sendo abastardados e abolidos, num projecto global e convenientemente "multiculturalista".

De facto, quase tudo o que era proibido passou a tolerado e daí, cada vez mais, assume um carácter quase obrigatório. É obrigatório tolerar os drogados, os criminosos (frequentemente travestidos em "jovens") e outras chagas sociais, justamente recriminadas num passado onde imperava a normalidade. Agora tudo mudou e o anormal é eleito como normal... é o tal mundo em ruínas onde alguns vão teimando permanecer de pé entre as ruínas...

Serve este intróito para exortar os verdadeiros portugueses a que se insurjam, pelos meios que a lei lhes permitir, a uma profunda mas necessária revisão dos códigos penais, da autista actuação de tantos magistrados (da fornada deformada de pós-25A) e globalmente da justiça (afastada da realidade, respaldada em conceitos quase metafísicos e sobretudo afastada dos anseios da população) e finalmente que se coloquem as coisas no seu devido ponto: são os maus que são maus e não os polícias que os combatem... o resto são fantasias próprias de defensores de "workshops" de desobediência civil...

Há muito a fazer. Deixo algumas dicas que, desde já, espero o meu partido recupere:

- endurecimento global da legislação penal para crimes (não é preciso dizer mais, os cidadãos sabem bem o que são crimes e "crimes", embora mentes deturpadas por vezes se importem mais com os segundos);

- redução do limite da inimputabilidade para os catorze anos (infelizmente há muito que a inocência da juventude se perdeu, e cada vez há mais criminosos com estas idades);

- obrigatoriedade efectiva de trabalho no sistema prisional (nenhum português admite que os criminosos sejam encerrados em prisões onde tudo possuem e fazem o que querem vivendo à conta da sociedade - todos nós - contra a qual atentaram);

- criação de um mecanismo efectivo de controle da justiça (é tempo de acabar com aberrantes e casuísticas interpretações da lei e decisões absolutamente inacreditáveis de certos juízes; dificilmente se pode explicar como um mesmo crime gera, com inusitada frequência, condenações tão dispares);

- quanto à polícia apenas dizer que a polícia deve ser para policiar e os criminosos para acabar.

Muito mais há a fazer, nas se mudássemos isto já não era nada mau...

Etiquetas: Criminalidade , Justiça , Polícia , Tribunais

posted by HNO at 11:50

Meu caro Nuno:

Fora daqui, já fiz publicidade deste texto da tua autoria. Mas dado o seu valor, aqui o reproduzo, seguido do comentário que passo a fazer.

O mais grave, na administração da Justiça, não está na «(...) autista actuação de tantos magistrados (...) e globalmente da justiça (afastada da realidade, respaldada em conceitos quase metafísicos (...)». Se a metafísica que os norteasse fosse ortodoxa, as suas sentenças seriam bem diferentes. A metafísica é, no campo filosófico, o último degrau do conhecimento: tudo deriva dali e tudo ali se reconduz. É, portanto, o limiar da Verdade e onde há Verdade, existe Bondade. Logo, triunfaria a Justiça!

O mal, quanto a mim, é que eles não a conhecem, nem de resto estão muito interessados nisso. Aquilo de que falam, com grandes fumos de entendidos, é de uma filosofia de negação, e nem sequer desta devem saber grande coisa. Ainda bem para nós, se não o resultado podia ser bem pior.

Por outro lado, mesmo esses conceitos de uma metafísica errada e que eles conseguem ainda deturpar mais, mesmo isso, nem sempre é aplicado. Quando o que responde em juízo não se encaixa nas categorias mentais que uns criaram e onde outros se deixaram entaipar, aí vemos bem que têm mão dura. Daqui se conclui que a causa da lenidade na aplicação da Justiça não se encontra na legislação, tanto como alguns imaginam.

As nossas leis deviam ser mais severas? --- Não me repugna conceder! Algumas não são iníquas? --- Certamente que sim. Mas a verdade é que muitas delas ainda têm a virtualidade suficiente para realizar o fim para que foram feitas: disciplinar a vida em sociedade. Ponto é que fossem aplicadas. Ora isso é tarefa dos magistrados judiciais, em cujo grémio fez ninho um número não despiciendo de víboras.

Isto é, meu valente amigo, o que queria dizer-te. Prestaste um grande serviço à grei denunciando o mal. Mas eu vou mais longe, porque os conheço de sobra.

Fiz ontem anos: não podia ter melhor presente que a leitura do teu magnífico texto.

Deus te guarde no combate que travas!

Joaquim Maria Cymbron

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

UMA LIÇÃO VINDA DE FORA

Não vou discorrer sobre a estafada questão, aquela que pretende afirmar o velho 'Arreda, Castela!' como prova da mais indefectível portugalidade.

Chamo apenas a atenção dos que me visitam, para este blogue. Tudo o que ali se publica é digno de leitura. Mas fixem-se os que por lá passarem em textos como Inmenso Portugal, Atingir e tantos, tantos outros de louvor à nossa querida Pátria. É só procurar no arquivo do autor das páginas para que remeto.

O Canto al Viento que sopla é, do primeiro ao último verso, uma réplica formidável à Trova do Vento que passa. Para isto, requer-se espírito de observação, agudeza de análise e uma sensibilidade fora do comum. Revela também arte em virar o contra a favor das posições que defendemos. Na passagem que realizou por Coimbra, o seu autor ouviu aquela canção antinacional, e compôs o que podemos ver.

As suas origens são andaluzas, perto de Sevilha. Um amigo muito querido perguntou-me se ele teria nascido do lado certo da fronteira. Que um moço, na florida idade de vinte e oito anos incompletos, espanhol até ao tutano, demonstre este sentimento pelo que é português, devia fazer-nos pensar se é ele que nasceu no lado certo da fronteira, ou se somos nós que já não nos importamos de saber por onde ela corre!
Joaquim Maria Cymbron

terça-feira, 9 de Junho de 2009

ULTRAMAR ANTES E DEPOIS DA TRAIÇÃO

Na véspera de mais um 10 de Junho, entendo que não há melhor depoimento do que oferecer, aos que visitam este blogue, documentos de um tempo não muito distante e em que, pela última vez, Portugal mostrou a sua raça.

De então para cá, tem sido a demissão constante de todos os valores que enobreciam a Pátria. Portugal, o fidalgo valente e austero de outras eras, cujo timbre era gravidade e honradez, é hoje um labroste petulante, borra-botas sem crédito, quase maltrapilho, gozando babado o favor de se arrastar servilmente pelas chancelarias internacionais, e apanhando ufano as migalhas lançadas por quem o espoliou.

Pelos méritos do Santo Condestável, Deus tenha piedade da Nação Fidelíssima e a reconduza ao seu trilho heróico!



Joaquim Maria Cymbron

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NOTA:

Composto o texto que acima se lê, eu esperava a todo o instante um documento muito apetecido que o Walter Ventura --- meu querido amigo e velho camarada de armas, herói de guerra dos de primeira plana --- me anunciara.

Dificuldades informáticas, entretanto surgidas, impediram-no de me enviar logo o prometido. Por isso e à cautela, enquanto aguardava, decidi ir publicando o que era da minha autoria.

Há pouco, foi o obstáculo removido. E como as palavras chegadas têm assinatura do Rodrigo Emílio, não podia haver recusa.

São precedidas de uma expressiva introdução de quem as enviou.

JMC


Em nome (já não do MAP), mas dos combatentes

Amanhã, voltarei ao Restelo onde se realiza já não sei bem que cerimónia ligada aos Combatentes do Ultramar. Uns dizem que de homenagem aos que uma vez se "vestiram de soldados", como diria Rodrigo Emílio. Eu não iria lá por isso. Entendo nada me ser devido por ter tido a honra de cumprir um dever que então se impunha. Iria lá, talvez, homenagear os - os meus e todos os outros - que tombaram ao serviço da Pátria; os soldados "ao solo dados" (outra vez o Rodrigo!). Mas tais têm sido as tropelias que se têm vindo a acumular frente ao monumento dos Combatentes, ali mesmo à ilharga daquela Torre que evoca tempos de glória mas também de honra que já nem isso me resta.
Assim, muito simplesmente, vou lá na certeza de encontrar um punhado de camaradas de campanha que me praz rever, ao menos de ano a ano.
Da cerimónia em si mesma, não sei nem quero saber. Não sou só eu, diga-se em abono da verdade e já vi gente revoltada virar as costas à tribuna onde o orador contratado vociferafa palavras que nos revoltavam. Foi o que aconteceu no ano passado com o discurso do prof. César das Neves.
Já houve pior: até desertores por lá passaram... em anos que preferi ficar em casa.
Este ano, dizem-me, o convidado de honra é o prof. Manuel António Garcia Braga da Cruz. Deve ser cruz minha mas o nome mexeu-me com as meninges e sacudiu-me o fígado. E, valha a verdade, é um nome ilustre... por parte do pai do orador e demais antepassados. Tanto que, nos idos de 70, raiava a florida "revolução" pelas ruas deste rectângulo que nos resta, o escolhemos para encabeçar um movimento que queríamos a negação da arruaça que por aí andava de cambulhada com uma traição como jamais varrera terra lusitana. O Prof. Braga da Cruz aceitou. O que depois se passou, melhor do que eu faria, aqui fica contado pelo Rodrigo Emílio (que muitos, hoje, gostam de citar mas poucos parecem ter o ânimo para lhe seguir as pasadas), num exerto de um texto seu, intitulado "Em nome do MAP", demasiado longo para caber neste blogue. Mas o que se segue é suficientemente esclarecedor.
Resta-me agradecer ao meu velho amigo e camarada Joaquim Maria Cymbron a lhaneza com que me disponibilizou esta sua casa - a mim pobre "desblogado" - para este desabafo que, bem sei, pouco incomodará gente acomodada.
Mas leiam e que vos preste.
Aos meus velhos amigos de velhas campanhas, como diria o outro: "Até amanhã, camaradas"!


Walter Ventura




NARRATIVA COMPLETA DA CABALA CONTRA O M. A. P.

(As linhas com que a mesma se coseu, num relato, pessoalíssimo, de Rodrigo Emílio)


Escrevo de um país livre. Quer isto dizer que estou finalmente em condições de reconduzir à luz da verdade um sem-número de afirmações caluniosas, postas a circular nos mais infectos órgãos dessa infecta Imprensa. Semelhante acervo de aleivosias reclama da minha parte a mais vigorosa contestação, porquanto envolve directamente o meu nome, brigando desde logo com a honradez do mesmo, e atenta, muito principalmente, contra os nomes (igualmente honrados, e sobremaneira honrosos) de alguns excelentes companheiros de ideário, que, a estas horas, se encontram discricionariamente encarcerados em Caxias, às ordens dos bandoleiros de Otelo/Cunhal/Gonçalves/Inácio & Cª.O depoimento que eu aqui passo a alinhar por escrito, bem poderia administrá-lo de viva voz, se porventura me tivesse deixado apresar pelos bandos de malfeitores armados que já mencionei. Não quis o acaso que eu, e mais uns tantos, fossemos elevados à (in)dignidade de prisioneiros dessa hedionda canalha de facínoras, que por aí age, a seu bel-prazer, e livremente se move, a coberto de um (des)governo de altíssima — traição, — quando não com o seu beneplácito, quando não com a sua cumplicidade, quando não com a sua instigação. E, se por um lado é certo que, em matéria de aprisionamento, penso, pessoalmente, o mesmo que pensava Afonso Lopes Vieira, quando lapidarmente observou, um belo dia, que
“O poeta português, que não passar ao menos uma vez pelas prisões, não é digno aluno de Camões”,
por outro lado, não é menos verdade que nunca gostei de ser tocado por mãos sujas, — só deplorando que tenham caído em poder delas muitos meus melhores camaradas. De toda a maneira, sei que estou exemplarmente representado por eles nas celas do segredo, para poder representá-los condignamente na liberdade do exílio. E só por tal motivo é que aceito passar pelo vexame — aliás, bastante improvável — de comparecer, aqui e agora, com este articulado, nas abjectas colunas do periodismo jornalístico d`antre Minho e Guadiana. Há quem diga que da calúnia sempre alguma coisa fica. Eu pretendo que da calúnia coisa alguma subsista, — pelo menos, desta feita. Concretamente. Vêm ao caso historiar a génese (e, sobretudo, precisar as finalidades) do chamado Movimento de Acção Portuguesa — M. A. P. —, que tão miseravelmente difamado veio a ser, em bases de clamorosa falta de verdade, e mediante a mais gratuita, a mais falsa e falsificadora campanha de pasquinadas que conceber se pode. Na sequência (e a pretexto) dos grotescos acontecimentos de 28 de Setembro de 1974 — com os quais o M. A. P. ainda em fase de estruturação, nada teve que ver —, logo uma diluviana bátega de atoardas, tudo o que há de mais inconsistente (como ao depois veio a verificar-se), desabou em peso sobre o Movimento. Animados pelos desígnios mais tortuosos, os mentores do bairro-da-lata do nosso jornalismo bem-pensante, sem mais perdas de tempo do mesmo assestam baterias sobre o M. A. P.; e vá de exporem os responsáveis, e restantes elementos do mesmo, à execração pública, imputando-lhes propósitos positivamente tenebrosos: e nada mais nada menos do que um duplo (ou um triplo) assassinato. A saber: a eliminação física de Spínola, a par da de um tal Gonçalves (segundos uns); a deste, e a de um Antunes (a crer na versão de outros); ou o extermínio, pura e simplesmente, de todos os três, logo ali, de uma assentada (conjectura formulada pelos mais ambiciosos analistas do caso). Em suma: um fartum de sangue… e três “deles p`ró galheiro!...”No detectivesco entender dos plumitivos, só uma coisa não dava lugar a quaisquer dúvidas: tamanha hediondez seria consumada a partir duma larga janela envidraçada, a qual janela apresentava (nem de propósito!) um fotogénico orifício, com vista para Gonçalve`s home, já se vê. O resto da operação facilmente se adivinha: pela brecha espreitaria uma espingarda (de mira telescópica e tudo, igualzinha à tal que, em Dallas, vitimou o Presidente Kennedy), e zás-pás, que por aqui me avio: pontaria certeira a dar em cheio no alvo; um homenzarrinho a entornar-se e a malhar redondo no meio do chão, abatido à queima-roupa por dois ou três tirázios… — e adeus, Gonçalves, que te foste à viola!Como se vê, tudo muito bem concertadinho! Tudo a bater certo… até aqui. Mas só até aqui. Porque, às duas por três, os dados da história alteram-se por completo, as coisas transformam-se de todo em todo, e a versão (tão meticulosamente urdida) deixa de ter ponta por onde se lhe pegue. Foi o caso que a janela incriminada, afinal de contas não pertencia tal às instalações do M. A. P.: pertencia, sim, ao inquilino do andar de cima — João Manuel Sousa (ou Cardoso?!)/Atelier, rezava a tabuleta que ele tinha aposta à ilharga da porta —, em casa do qual (logo por azar…) funcionava uma célula do Partido Comunista. De resto, foi o próprio locatário da mansão a que pertencia a janela difamada — ele mesmo, em pessoa — quem, primeiro que ninguém, pôs as coisas quase a claro, em entrevista concedida ao diário da tarde “A Capital”. Nas declarações que em boa hora prestou — et pour cause… — ao vespertino lisboeta, o proprietário da injuriadíssima janela (arquitecto de sua profissão, consoante ficámos a saber) deu por paus e por pedras que a sua vidraça estivesse implicada em qualquer atentado, alegando que não senhor, que se tratava de um equívoco fotográfico, que lá a sua janela desfrutou sempre de uma reputação inatacável, e que tudo o que ele mais encarecidamente implorava, era que lhe deixassem a pobre janela, a sua bem-amada janela, em paz e sossego. Mais adiantou — com geral surpresa dos setembristas mais cavilosos — que o intrigante buraco ostentado pela vidraça era coisa antiga, imemorial, muitíssimo mais idosa do que o M. A. P.. O que se chama um estilhaço já com barbas, um estilhaço de longa data… Acentuou, mais ainda, que o acesso à janela apedrejada estava humanamente vedado às hostes do M. A. P., a menos que estas se soerguessem do primeiro ao segundo piso e lhe entrassem marcialmente pela porta dentro, e assim, profanassem a intimidade da sua própria casa, — o que não era de todo em todo crível, a seu ver.De onde se segue que a eventualidade de alvejar Gonçalves dos aposentos políticos do M. A. P. era proeza, quanto a ele, impraticável, fosse de que ponto ou ângulo fosse, já que as instalações do Movimento não deitavam, de banda nenhuma, para os domínios residenciais do sobredito Gonçalves. Para atingir este, a tiro, não havia, realmente, como a casa do entrevistado, — que essa, sim: dava em cheio para (o Teatro Municipal de) de São Bento, e precisamente através da tal janela…, do alto da qual o sr. Gonçalves era, em verdade, figo no papo, à boca de toda e qualquer arma que o visasse com afinada pontaria, e se lhe desfechasse sobre a preclaríssima testa.Claro que não foi por muito nobres razões, nem foi tão-pouco pelos lindos olhos dos militantes do M. A. P. (todos eles, de resto, uns mal-encarados — na douta opinião do interlocutor d`”A Capital”), que o interpelado publicamente se apressou a render meio-tributo à verdade.O caso foi bem outro. Muito simplesmente, aconteceu que o arquitecto-vermelho-nosso-vizinho veio a ver-se praticamente compelido a falar quase-verdade, do ponto em que toda a cabala desencadeada contra o M. A. P. gravitava em torno de um equívoco, altamente comprometedor para o nosso homem: com efeito, o cavalo de batalha de toda a acção incriminatória, fomentada, à outrance, pelas grandes centrais da (des)informação, dizia respeito, preponderantemente, à estratégica janela, — cuja imagem, copiosamente difundida e propagada nos jornais, era tida e havida por estes à conta da dependência do M. A. P.. Porém, muito se engana quem mal cuida… A vidraça, ao cabo e ao resto, tinha tanto que ver com a sede do M. A. P. como o Movimento das Forças armadas… em forças com Forças Armadas autênticas!... Pertencia, sim, ao arquitecto: era irrefutavelmente sua, a janelinha… E contra isso, não havia a fazer nada, a não ser aquilo mesmo que ele fez: na impossibilidade de se libertar, como por encanto, da sua qualidade de dono e senhor da embaraçosa vidracinha, ei-lo que trata de atalhar, sem mais demora, ao curso da lenda negra do grande e horrível crime, — antes que semelhante balela viesse a assumir maiores proporções e incremento do que as já tinha tomado, e o envolvesse, assim, a ele, de forma irreparável, na tremebunda teia. Mas, não querendo ficar amarrado, unicamente, ao antipático e impopularíssimo papel de contraditor de inventonas que tanto jeitinho faziam ao Partido, daí o arquitecto e, num lampejo resgatador, arquitecta, logo ali, uma versão de alternativa, — quanto a ele, muito mais plausível: bem vistas as coisas, o décor do crime seria o telhado do próprio prédio. Só que esta hipótese de recurso, adiantada o que se chama em desespero de causa, está longe de ter, também ela, o condão de ilibar de implicações aquele que a formulou uma vez que os do M. A. P., para se alcandorarem à cobertura do prédio, teriam fatalmente de passar, ao que parece, por causa do Sousa (Cardoso, ou lá o que é…), e só daí poderiam içar-se à flor das telhas… Moral da história: pior que o soneto, terá sido a emenda!E assim ruiu por terra a engenhosa e formidanda maquinação tramada contra o M. A. P. pela Imprensa em peso. (Neste capítulo, cabe acentuar que, quando a entrevista em apreço veio a lume, já a campanha orquestrada, contra o Movimento, pelos principais órgãos de (des)informação, tinha atingido o paroxismo da distorsão e o auge do tremendismo sensacionalista. Como não podia deixar de ser, foi no “Expresso” que tudo começou a ganhar corpo: o presumido semanário do milionário Menelau Francisquinho Balsemão — com a petulante leviandade, a ligeireza de processos e aquele poder de especulação barata que lhe vêm sendo proverbiais — deu o mote para o motim, ao declarar a público, na página de rosto do número referente aos primeiros rescaldos do 28 de Setembro, uma empolgante sequência fotográfica, que se pretendia elaborada (a crer no teor da legenda respectiva) por não sei quantos peritos em balística. A ilação a tirar desse fio de imagens, alinhadas na contiguidade umas das outras, era só esta: Gonçalves, o soez, baquearia, com milimétrica precisão, exactamente entre o terceiro e quatro degraus da escadaria que conduz à sua casa oficial —, baleado, por um atirador especializado do Movimento de Acção Portuguesa, a partir da fenda da janela que se supunha ser do M. A. P… mas não era).Estes, os tópicos da calúnia, provincianamente brandidos — e pré-fabricados — pelo perversíssimo “Expresso”, e ao depois glosados até à exaustão, nas colunas confradescas da chamada grande Imprensa do rectângulo (designadamente: diários “ de Notícias”, “de Lisboa” e “Popular”, “Comércio do Porto” e “Sempre-Fixe”). No fundo, foi só uma questão de pegar na deixa, largada em primeira instância pelo “Expresso”, e vá de ver, então, o garotio jornalístico de Lisboa e Porto, a destilar infâmias e verrina, às catadupas, sobre o M. A. P., e mormente sobre os nomes visíveis do Movimento. Os impropérios choveram, um pouco de toda a parte, — assistindo-se a espectáculo sobremodo indecoroso.Durou cerca de oito dias a fio esse afã denegridor, desenvolvido à escala (des)informativa da Metrópole, através de inflamadas catilinárias, todas elas enfeitadas — a título pretensamente ilustrativo ou documental — com a imagem da invariável e vedetíssima janelinha, — que se alvitrou ser do M. A. P…. mas não era. (— Seguramente, nunca uma vidraça vulgar de Lineu “posou”, tão para profusamente, para os jornais!...) E o que é facto é que a empreendedora campanha só veio a abrandar, depois d`o Sousa “grenat” ter dito à “Capital aquilo que disse. Aliás, o teor — sumamente contrariante, e por demais concludente — da palinódia que produziu, acabou por dar lugar a pitorescos e muito discretos desmentidos, balbuciados o mais à contre-coeur que se pode imaginar… E assim, ocorreu que muitos dos periódicos estremenhos, que — impunemente, e a seu bel-talante — haviam de forjar tão delirante fábula, se viram, desde logo, na contingência (desagradabilíssima, valha a verdade) de dar o dito por não dito. Ainda assim, e a título de ressalva, tiveram o cuidado de decalcar, como bastante provável e perfeitamente exequível, a redentora conjectura do Sousa, segundo a qual: do telhado é que era… Quer dizer: pegara-lhe no alvitre e, sem mais aquelas, propalaram como certa a hipótese congeminada e aventada por ele. Não estiveram lá com meias medidas; e dando fé de um espírito de isenção muitíssimo bem doseado, trataram de insinuar — de forma extremamente canhestra, diga-se em abono da verdade… — que não era afinal de contas, da janela escaqueirada, e sim lá do alto do prédio, que os do M. A. P. se propunham ajustar contas em atraso com o famigerado Gonçalves, colocando-o no ponto de mira de uma carabina com alça telescópica, «modelo Dallas»…Quanto a esta, tão-pouco havia vestígios dela, em toda a sede do M. A. P.. De onde se segue que, tanto (des)governantes como periodistas, COPCÃOS como PC, milicianos da Marinha e/ou assassinos da LUAR — que é tudo, de resto, a mesma tropa fandanga…— andam, certamente, a sonhar com armas (e com armas de primeira grandeza, ou seja: quanto mais mortíferas, melhor!) — Eles lá sabem porquê… Nós também. Claro está que nem todos os chamados órgãos escritos(?) de comunicação(?) social se deram ao trabalhinho, ou tiveram a elementaríssima hombridade, de emendar a mão, — quanto mais não fosse, ao menos por especial deferência para com as declarações (algo clarificadoras) do camarada arquitecto… Foi o caso, por exemplo, d`um covil chamado “Diário de Lisboa”, que depois de se ter referido, com toda a voltagem do ódio, a “Um covil chamado M.A.P.” erguendo contra o Movimento o mais ignóbil arrazoado de insinuações e de injúrias de que tenho notícia, não se conformou com o facto de as ver cair da tripeça: e, longe de consentir que o chorrilho de mentiras debitado nas suas colunas cedesse o passo às meias-verdades que o Sousa (Cardoso, ou lá o que é…), entretanto, confiara à “Capital”, — vai daí e limita-se a quebrar o silêncio, um tanto comprometidido, a que prudentemente se remetera, com a publicação de uma carta (entre)aberta, por demais expressiva. Passemos, pois à cartinha, e vejamos qual a cartada que com ela pretendeu jogar a matulagem de delactores da Luz Soriano.Aparentemente, o signatário da missiva — de sua graça, Manuel António Garcia Braga da Cruz — sai a campo, e vem a terreiro, movido pelos mais nobres sentimentos filiais, quais sejam os de terçar armas em prol do bom nome do senhor seu pai, professor doutor Guilherme Braga da Cruz. No entender do impoluto rebento, a honorabilidade de Braga da Cruz (pai) estaria a ser abusivamente maculada por quantos se arrogaram o desplante de assacar, ao reputado catedrático de Coimbra, a dignidade de Presidente de Honra do negregado Movimento de Acção Portuguesa, atribuição essa que muito vivamente se contesta, agressivamente se refuta e categoricamente se desmente e repudia, no teor do documento epistolar a que temos o prazer de reportar-nos. — “Que amor de filho, este Manuel António!”, — hão-de ter comentado, seguramente, os mais incautos leitores da carta. Mas estavam eles muitíssimo enganados, se de tal sorte exclamaram: redondamente equivocados, quanto à pureza de intenções do carteante!... Porque, no fundo, o que o terá determinado a expender as considerações epistolares que revelou a público, não foi tanto o imperativo, a todos os títulos exemplar, de limpar o nome paterno de nódoas que este não tem, como de se limpar, a si próprio, do nome que herdou, e que ele transporta, penosamente, como quem arrasta um sudário… O impopular ferrete político que há várias gerações impende sobre esse ramo da família Braga da Cruz — clã tradicionalmente monárquico e nacionalista, como se sabe —, já de si dificulta e afecta, em muito, a posição dissidente que o jovem Manuel António à viva força pretende implantar no campo da batalha das ideias peculiares aos seus maiores.Logo, temos que: tudo o que concerne, publicamente, aos Braga da Cruz — e com maior força de razão, ao pai Guilherme — automaticamente se reflecte na vida política do moço, atingindo-o por tabela, como lindamente se compreende, — e, traumatizando, assim, toda a projecção que ele certamente visará fruir, como lidador de um ideário inteiramente contraposto ao da sua parentela mais chegada. Ora, ao ver o nome do pai intimamente associado aos da gente do M. A. P., e directamente envolvido, desde logo, na diabólicazinha tramóia que os vermelhos dos jornais (bandeados com as fardas terroristas do COPCÃO e com os bandos de bandidos da LUAR) armaram às hostes do Movimento, sob a bênção todo-poderosa do sicários comunistas enaipados no Governo, —eis que o nosso Manuel António rapa desabusadamente da caneta, e, por sua conta e risco, trata de salvaguardar-se, sem mais delongas, do opróbrio de se chamar Braga da Cruz. Para tanto, simula defender o pai, sem que este — ao que me consta —lhe tenha encomendado o sermão, ou passado procuração para tal. Até porque não é, propriamente, em defesa do pai (digo e repito), que Manuel António sai à estocada: defende-se, sim, a si mesmo, por bem perceber que tudo o que politicamente idealizou e sonhou para si, periga, muito seriamente, por via da incómoda filiação que o vincula, e a que está amarrado pelas leis implacáveis do sangue. Não protege o nome do pai: protege-se do nome do pai, acautelando, assim, a incidência nociva que os apelidos patronímicos podem vir a ter sobre ele, e sobre a carreira política que para si terá talhado. E daí que ele que se ponha a negar o inegável.Passando a explicar-me melhor, o caso é este: Braga da Cruz júnior, longe de trilhar — ideologicamente falando — as mesmas passadas paternas, milita, muito pelo contrário, nas fileiras do M. E. S. (Movimento de Esquerda Socialista), — e creio que está (quase) tudo dito, quanto aos inconvenientes, sem dúvida gravíssimos, de ostentar um nome que é um estigma cem-por-cento reaccionário. Demais a mais, a partir do momento em que Braga da Cruz (pai) foi tido e havido, à boca pequena, como Presidente de Honra de “um covil chamado M.A.P.”, que tramava “coisas do arco-da-velha”… Ora, a verdade é toda outra: se, por um lado, carece do mais elementar fundamento — como termos o ensejo de salientar adiante — que o Movimento de Acção Portuguesa fosse visto e achado em maquinações de morte-de-homem, por outro lado, não deixa de ser exacto que o Prof. Dr. Guilherme Braga da Cruz presidia, de facto, de direito, e a título honorífico, ao nosso Movimento. Ou seja: lá que era ele o Presidente de Honra do M. A. P., lá isso era, por muito que tal confranja o filho. De resto, posso atestar, pessoalmente, os termos inequívocos, e nobilíssimos, diga-se — com que Braga da Cruz deu o seu aval ao M. A. P.. Com efeito, estive presente, em carne e osso, à sessão de abordagem que nesse sentido lhe foi feita. E, já que o Manuel António — bem secundado, de resto, pelo indesculpável silêncio a que seu pai lhe votou a carta — quer obrigar-me a falar, — nesse caso relatarei como tudo se passou, tim-tim-por-tim-tim. A sorte daqueles de nós que a estas horas penam nos calabouços, repletos, da “democracia vermelha” instaurada a 25 de Abril, não se compadece com retraimentos mais ou menos encobridores, nem tão-pouco com omissões acobardadas, venham elas de quem vierem.Foi na sua casa de Coimbra que o prof. Dr. Guilherme Braga da Cruz nos recebeu, pela primeira vez. Batemos-lhe ao ferrolho numa noite de fins de Junho, e logo de entrada lhe dissemos ao que vínhamos: concitá-lo a aderir ao M. A. P.. Que o M. A. P., fundamentalmente, era um núcleo de inteligências e vontades, indefectivelmente aferradas a um código de honra puramente nacional. Mais lhe fizemos saber que os quadros de recrutamento do M. A. P. se baseavam em gente norteada, única e exclusivamente, por um alto sentido de fidelidade a valores e princípios de sempre, e por toda uma força de convicções, que o desastre — militar, histórico, político, social e económico — do 25 de Abril), não tivera o condão de abalar, no que quer que fosse. Que não nos empolgavam veleidades eleitoralistas, nem tão-pouco nos seduziam as manobras tacticistas, a que muitas direitas — subitamente envergonhadas de o serem — desde logo se entregaram, alardeando uma esperteza bastante saloia, valha a verdade, e sem que daí lhes adviesse, ao cabo e ao resto, qualquer parcela de honra, ou proveito de maior, como ao depois veio a ver-se… Reforçando, mais ainda, a posição, inequivocamente frontal, que o M. A. P. se propunha cravar a prumo, e implantar como sua, no concerto de indignidades e oportunismos a que um pouco por toda a parte se assistia, — inteirámos o Prof. Braga da Cruz de que a nossa intransigência não conheceria tréguas nem limites, e que surgiríamos inteiramente a descoberto, dispostos a agir, e a reagir, por pensamentos, palavras e obras à prova de quaisquer subterfúgios calculistas. Que não lisonjearíamos, fosse como fosse, quem quer (ou o que quer) que estivesse ligado, de algum modo, à pirosa revolução dos cravos vermelhos (já então, conhecida, também, por Revolução do Mau-Hálito). E que às vénias rasgadas, que muito boa gente ia fazendo à Junta de Perdição Nacional — e a idênticos comandos d`alta traição —, responderia o M. A. P. com os veementes exorcismos e manguitos que a circunstância impunha. Também logo ali demos conhecimento, ao nosso futuro Presidente de Honra, do propósito de nos colocarmos, de antemão, fora de toda a “farsa democrática”, por variadíssimas razões pormos e, mormente, por acharmos de mau-gosto — pelo menos, de muito mau gosto — a perspectiva de nos pormos, também nós, a jogar xadrez, ao tempo em que Damasco ardia. Integristas em matéria de fé, integralistas em ordem à doutrina, integracionistas quanto a Ultramar, — como tal nós nos perfilávamos no grotesco décor político que a todos se oferecia presenciar. Tocados pela mola-real do arrivismo, outros, que não nós, se deixariam atrair pela corrida às pastas ministeriais, e mais coisitas assim… Nós, os do M. A. P., singularizar-nos-íamos no domínio, apenas, das motivações cem-por-cento nacionais, posto que só o destino histórico da Nação Portuguesa, e absolutamente mais nadinha, nos sensibilizava a valer. De comum acordo, decidimos que havia que proceder, para tanto, a um levantamento de nomes de personalidades, o mais puro possível, e que constituí-los, depois, em Comissão de Honra que pontificasse nas mais altas esferas hierárquicas do M.A.P., e que exemplarmente presidisse, assim, aos supremos destinos do Movimento. Porque, também neste particular, nós fizemos questão de agir muitíssimo ao invés dos outros, que, lançados, também eles, à cata de bênçãos avalizadoras, sempre se ativeram, e se circunscreveram, para o efeito, a um acanhado lote de homens públicos, - sempre os mesmos de sempre, e de todos eles de reputação por demais esclerosada. Quer dizer: o que mais havia, era quem gravitasse no círculo vicioso, e extremamente estreito, de uma classe política viciada. Mas nanja o M.A.P.; e por isso mesmo é que ali estávamos: ali, e não alhures. E que tudo o que o M.A.P., em síntese, se propunha, era deixar lavrado um vigoroso protesto nas actas, digamos, da alta-traição, que com todo o descaro se consumava, dentro do maior desaforo e na mais clamorosa impunidade. E era desse protesto que nós nos fazíamos portadores. Ali lho levávamos, pois, por escrito, e sob a forma de decálogo programático do Movimento, para que o sr. prof. Braga da Cruz fizesse o favor de o passar a ler, e dissesse, depois, de sua justiça.Ainda manuscrito de fresco, o papel tombou sob os olhos do catedrático, e em suas mãos se deteve, por largos e atentos minutos de leitura e ponderação, após o que o nosso anfitrião se pronunciou, declarando que sim, senhores: que dava o seu pleno assentimento a todos os pontos do nosso programa. Inclusivamente, revelou que já dois agrupamentos políticos, antes de nós, ali tinham feito deslocar os respectivos representantes, também à conquista de uma adesão, - no que foram, de resto, mal sucedidos (esclareceu o Professor), uma vez que qualquer dos grupos solicitantes não reunia, a seu ver, as duas condições necessárias e suficientes para obterem dele o almejado beneplácito. A saber: uns e outros já, entretanto, tinham cometido a ignomínia, quanto a ele e quanto a nós inqualificável, de tirar “aos da Junta” a deferente chapelada da praxe (“atitude que me contende com os nervos” – comentou o velho Professor – “e que desde logo arreda, da minha parte, toda e qualquer hipótese de apadrinhamento ou de avalização partidária); acresce, por outro lado” – precisou, de caminho, Braga da Cruz – “, que mesmo em termos de ideário de combate, ambos os grupos me deixavam muito a desejar”. E daí que os não tivesse afiançado.Connosco, porém, já outro galo cantava, dado que não só não tínhamos incorrido na abjecção de render preito de vassalagem aos mais altos quadros – por assim dizer, à cúpula mesmo – da traição (…e jamais o fizemos ou faríamos por não estar isso na massa do sangue…), como o que é facto é que o teor da nossa linha de pensamento em acção afinava, a cem-por-cento – no dizer do conceituado professor -, pelo diapasão da sua óptica ideológica.E tão corajosos, e tão inequívocos, foram os termos com que Braga da Cruz logo ali autenticou a sua inteira vinculação ao M.A.P., que um dos presentes não se teve que não tratasse, espontaneamente, de o convidar a aceitar a Presidência de Honra do Movimento. E o caso é que, entre rogado e visivelmente comovido, o Professor lá anuiu de pronto ao convite que lhe fora formulado, dispondo-se a assumir a mais alta presidência do nosso Movimento, “mas a título predominantemente honorífico” – observou ele -, dado que se encontrava assoberbado de trabalho e entregue a inadiáveis tarefas de investigação e de erudição universitária, sendo assim de aduzir que lhe escasseava tempo disponível para poder desenvolver, no âmbito do M.A.P., qualquer actividade partidária propriamente dita, qualquer acção ou actuação partidárias dignas desse nome. Admitiu, quando muito, a viabilidade de comparecer, em carne e osso, num ou noutro comício, numa ou noutra sessão pública, que porventura levássemos a efeito. Em contrapartida, não deixou de sublinhar – e bem frisantemente – que o nome dele ficava, daí em diante, à nossa mercê, e que fizéssemos do seu nome, se tal nos fosse de alguma utilidade, o uso que muito bem entendêssemos.De onde se segue que não houve, assim, da nossa parte, a mínima “tentativa de instrumentalização (…) do nome” de Braga da Cruz (pai), como quer fazer Braga da Cruz (filho), na carta miseravelmente falseadora que o Diário de Lisboa tornou pública. Foi ao abrigo da autorização que, para esse efeito, nos deu o próprio catedrático, que nós, por mais de uma vez, invocámos o seu nome. Mas em circunstância nenhuma o invocámos em vão: disso pode estar ciente o prof. Braga da Cruz. E eu sei que está.Até porque não faltou quem – ingloriamente, aliás – desde logo tentasse demover o velho Mestre de Coimbra do apalavramento que nos dera, e que ele viria a reiterar, em diversas ocasiões, sempre de forma incontroversa e de molde a não deixar margem a quaisquer dúvidas.Entre os emissários, os enviados especiais (não sei de quem), que não sei quem destacou para terras do Mondego, e que em casa de Braga da Cruz mui pressurosamente se apresentaram, a impingir-lhe outra mercadoria político-partidária, que não o M.A.P. (tido e havido – por esses, e por outros que tais – à conta de pouco recomendável e de muito mal-afamado…), - avultam dois videirinhos de alta-escola, e acaso, os mais conceituados de todos os ineptos. Seus nomes. Mário Júlio de Almeida Costa e José Augusto Rebelo da Conceição.Mas não tiveram sombra de sucesso, junto do nosso Presidente de Honra, essas – e outras – manobras de dissuasão, manipuladas do escuro… sabe-se lá porquê e por quem!... Pessoalmente, sei, de ciência certa, que o Professor Braga da Cruz, ouvidos os dois abelhudos, arrumou de vez a questão, dizendo-lhes, muito cortesmente, que não podia aceder às propostas deles, uma vez que se comprometera connosco, conscientemente (“Comprometi-me com os rapazes, e em plena consciência o fiz” – foi a expressão do Professor), e que não via (que não havia) motivo algum para voltar com a palavra atrás. “Sou homem de uma só palavra, e como tal, incapaz de dar o dito por não dito”- acentuou.Já agora, resta acrescentar que foi, expressamente, por vontade de Braga da Cruz – desejo manifestado por ele, à data da vergonhosa entrega da Guiné aos facínoras do PAIGC – que nós, acatadoramente, e por inteiro concordantes, tratámos de dar, ao ponto primeiro do nosso programa, uma redacção algo diferente da versão original. Do renovado teor dessa cláusula lhe demos conhecimento, por via telefónica; e foi sobre a sua aprovadora ratificação – cumulada, aliás, com um fervoroso e encarecido e acicatante incitamento a que fizéssemos sair, quanto antes, o nosso manifesto partidário -, que enviámos o mesmo para a tipografia, e o pusemos a imprimir.Depois disto, pergunto eu: é, ou não é, de considerar imperdoável – e por demais condenável – o silêncio de Braga da Cruz (pai) perante a ignóbil carta do filho?!... A mim, quer-me parecer que estamos em presença de uma atitude nada abonatória do amor da Verdade, do espírito de isenção, da verticalidade moral que eu julgava timbre do velho Professor…Revertendo, ainda, à odiosa cartinha do menino Manuel António, é de morrer a rir que, em dado passo da mesma, se mimoseie o M.A.P. com o epíteto de “agrupamento subversivo”. – Vinda de quem vem, a qualificação é de gargalhada… e estridente. E tanto mais estridente, quanto é certo que, de agrupamentos subversivos propriamente ditos, está Portugal a abarrotar, está Portugal cheiinho e atulhado: a começar na pandilha (desgovernativa) e a acabar no Movimento das Cabeças Armadas, passando (está claro) pela Esquerda Socialista, - a ementa da subversão dá para todos os paladares…Já no declínio da carta, os do M.A.P vêem-se ainda apodados como “grupo de aventureiros sem escrúpulos”. Ora, devo dizer ao signatário, para seu governo, que, quanto a isso, de aventureiros sem escrúpulos, os que há estão no Poder: mormente em Lisboa, em Bissau, em Luanda e em Lourenço Marques.E temos conversado.Com base no que aí fica exposto, creio, assim, não poderem subsistir mais suspeitas, quanto aos desígnios prosseguidos por todos aqueles que se encontravam alistados no MOVIMENTO DE ACÇÃO PORTUGUESA. Fazer inflectir o rumo trágico dos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril, - era isso, o que a gente do M.A.P. se propunha: isso, e não propriamente matar fosse quem fosse. Até por termos plena consciência de que já não havia (nem há) punição suficientemente punitiva para os fautores de tanta traição e cobardia juntas…Hoje em dia, já não é preciso ser lince, para ver o 25 de Abril – a par de um bluff militar muito bem sucedido – foi uma jornada de rematados traidores à Pátria: isso está à vista de todos, ainda mesmo dos mais míopes… A sensação de rua, que me foi dado experimentar e trazer para casa nesse dia, depois de percorridos, um por um, e observados in loco, todos os pontos nevrálgicos que as Forças Armadas (melhor dizendo: que as Forças… “a armar”) iam criando por Lisboa fora, claramente pastoreadas pelo Partido Comunista; essa sensação, mediante a qual intuí logo, que se estava no limiar da derrocada nacional, - nada tinha de enganador. Infelizmente, correspondia em cheio à calamitosa realidade dos factos! Os dias que se seguiram foram, a esse respeito, bem reveladores da pestilenta estrumeira humana e das vagas de esterco moral que, acto contínuo ganharam de assalto a capital, propagando-se, depois, ao continente inteiro, numa assoladora e devastadora enchente de malefícios, que alastrou, enfim, à maré-alta, por todo o espaço português. Desgraçadamente, a minha capacidade de resistência (ou de habituação) ao nojo é por demais limitada, para que possa relatar fielmente o que foram esses dias latrinários… E o caso é que o vazadouro continua: em matéria de entulho social, dir-se-ia que o esgoto da Nação é inesgotável. – Que de lixeiras incubava, em seus esconsos, esse País desventurado que foi meu!...Cá por mim, dou em sustentar que as responsabilidade de primeiro grau, em toda a tragédia sem nome que se abateu sobre a flagelada Terra Portuguesa, há que assacá-las, muito especialmente, a esse general-fracasso que dá pelo nome de António de Spínola. Começa logo, porque o viveiro da traição foi a Guiné. Mais: o detonador da traição foi um livro de Spínola. Mais ainda: a vedeta da traição foi o mesmo Spínola. Foi Spínola – sempre ele – quem, inclusivamente, descerrou fronteiras ao invasor, e abriu, oficialmente, todas as comportas à subversão, ao consentir na legalização da canalha vermelha, a qual saltou de pronto para a garupa do MFA (e, ou redondamente me engano, ou já de lá não desmonta tão cedo…)Na plenitude da sua prosápia e da sua patológica insensatez, esse palhaçote trágico fardado de general desencadeou um processo vertiginoso de aniquilamento nacional (e até mesmo pessoal) que nunca mais foi capaz de controlar e em que não mais teve mão. Canhestro e acéfalo, António de Spínola incorreu e laborou no erro crasso de apelar demagogicamente para a sarjeta nacional, logo desde as primeiras horas, em vez de erguer bem alto a sua de militar em louvor de meia-dúzia de virtudes cardiais. Preferiu lisonjear os mais baixos instintos do Povo Português, e a sarjeta, está bem de ver, desbordou inundadoramente, arrastando-o, também a ele, na voragem, ao cabo de cinco meses de indecente e má-figura à frente dos destinos da Nação.Sem honra nem qualquer ponta de proveito (e antes com as mais irreparáveis consequências para o país), Spínola averbou, assim, mais um fracasso, a juntar ao seu já sortido pecúlio de misérias. (Recorde-se, a propósito, o desastre de Conackry; a culpabilidade, que sem dúvida lhe assiste, na morte do tenente-coronel Pereira da Silva e dos majores Passos Ramos e Magalhães Osório, barbaramente sacrificados, todos três, aos caprichos demagógicos de Spínola; o espectacular insucesso a que ele viu votadas as manobras que intentou levar a cabo, de parceria com o ex-Primeiro-Ministro Palma Carlos; as ultrapassagens constantes que sofreu, aquando do colapso do Primeiro Governo Provisório, e ao longo de toda a crise que precedeu a formação do segundo Gabinete; para já não falar, sequer, da colecção de malogros em série, na condução da chamada política de descolonização(1), ou do grau de pusilanimidade, que ele deixou transparecer, à evidência, quando foi do 28 de Setembro. Etc.,… etc.,… etc.,…)Como se vê, uma folha de serviços que é um sudário!...E o que é mais espantoso é que, mesmo agora, não falta, ainda assim, muito quem sustente que o discurso em que Spínola renunciou oficialmente ao seu (ilegítimo) mandato de Presidente da República, o redime, automaticamente, de tido o que de monstruoso se fez, à sombra da farda profanada, da farda sacrílega, que ele enverga!... Cá por mim, não distingo Spínola dos outros, porque não distingo entre traidores e traidores. E Spínola não é senão o que se chama um acabadíssimo traidor: aceito que se trate de um traidor traído – em Portugal, vai havendo um pouco de tudo, é bom que se note; inclusive, a existência de um bom número de traidores traídos, já a estas horas é fenómeno insofismável que convém assinalar -. Ora, Spínola traiu, primeiramente, tudo e todos; traiu-se, depois, a si mesmo; e, por fim, foi traído: lindamente traído, diga-se de passagem.Pois bem. A meu ver, António de Spínola só poderá considerar-se resgatado de quantas enormidades praticou (ou deixou praticar), a partir do momento em que devolva – em que restitua – Portugal a Portugal, recobrando para o retalhado Corpo da Pátria tôdolos territórios esbulhados, ou em vias de presúria, e reimplantando, na Metrópole, pelo menos a ordem que por lá vigorava, à data em que Sua Excelência fez a sua caricata aparição na cena política portuguesa.Não é resignando, comodamente, a um mandato presidencial a que nunca teve jus; não é arreando com o fardo de uma Nação, cuja consistência histórica – antiga de 8 séculos, bem contados… - ele próprio ajudou a despedaçar, em cerca de 5 meses; não é debitando (demais a mais, tarde e a más horas) desgostosas razões de queixa, quanto aos logros e manobras de envolvimento e de entorpecimento, as mais tortuosas, em que tolamente se deixou cair, fazendo com que a Nação em peso – por um fenómeno, digamos assim, de tracção… - resvalasse, também Ela, pelas ruas da amargura; não é, em suma, com palavras – ainda por cima, tardiamente pronunciadas, digo e repito -, que um chefe político, e muito menos um chefe que se pretende militar, entra na via da remissão, mormente depois de ter dado origem a toda uma catástrofe histórica de extensíssimas dimensões.É com actos de afirmação, e não, nunca, jamais com palavras de renúncia – e de renúncia a um posto político, em que ele, para além de tudo, não era visto nem achado – que um líder que se preze de o ser, que um oficial-general digno desse nome, age (e reage) em situações extremas. De facto, não lembra ao mais pintado, que os militares – como vai sendo comum de se ver em Portugal, nos dias que correm – desatem a exprimir-se, não pelas armas, mas em livros: em livros pré-primários (que outros lhes escrevem, bem entendido…) Ora, a tristíssima verdade é que está sendo apanágio dos militares portugueses – quase todos, de resto, uns fraca-letras – administrar coragem por via oral ou escrita; exporem-se pelas armas, e jogarem a vida numa cartada heróica, isso nunca: de maneira nenhuma! O amorzinho que têm à pele, não conhece limites.- Bravos estilistas! Bravos oradores! Mimosos militares!...Focando, concretamente, o caso singular desse Marchueta(2) fardado que é o general Spínola, ocorre perguntar: - que ponderosas e poderosas razões o terão levado a denunciar, publicamente, só em 30 de Setembro de 1974, toda a sorte de atropelos e de iniquidades, de que deveria ter dado fé, e feito constância, incomparavelmente mais cedo?!Spínola dirige-se à Nação com três meses de atraso, pelo menos. Tivesse ele tido a coragem de trazer ao conhecimento do país real, em devido tempo e a horas certas, esse sem-número de desvios que cedo se principiaram a cometer e a urdir nos bastidores do Poder, mormente quanto aos pontos vitais da política ultramarina, - e já as Províncias Portuguesas da Guiné e de Moçambique não seriam, seguramente, os feudos, que hoje são, de execráveis quadrilhas de bandoleiros!...Assim, toda a intrínseca cobardia de Spínola reside no facto de não ter atalhado, a tempo e horas, à traiçoeira confabulação dos entreguistas.Tivesse ele cortado o mal pela raiz, logo à nascença – isto é, à data em que a Guiné foi unilateralmente posta em hasta pública -; tivesse ele tido a hombridade de prevenir e de precatar a Nação – quando ainda era tempo – dos torpes e torvos desígnios de uns tantos obstinados traidores à Pátria, - e já a Guiné não teria sido teatro de uma independência – ou por outra: de uma dependência – imposta, à má-cara, à viva força, o que se chama a todo o transe, à vontade das populações, as quais só a poder de sangue se deram por vencidas no seu desejo de permanecerem portuguesas: cinco mil e tal guinéus já, a estas horas, pagaram com a vida o seu tributo de inteira fidelidade à bandeira nacional. Violentados nas suas mais íntimas aspirações patrióticas, somente se renderam, depois de mandados desarmar às ordens do spinolista Fabião, que em seguida os deixou, indefesos, à mercê do PAIGC. E a chacina e a sangueira (particularmente, entre os lealíssimos fulas) não se fizeram esperar, perante a passividade, a complacência e a total contemporização, e cumplicidade, do patibular Fabião – “homem de grande sensibilidade poética”, no dizer de Otelo, “o irreversível” – !...E foi assim que a Guiné Portuguesa (que passava por ser, e bem devia ter sido, a grande comenda de honra do general Spínola) se constituiu, daí em diante, na ominiosa vergonha da sua ligeireza de processos, da sua leviandade de escrúpulos, da sua criminosa incúria, da sua teatral responsabilidade!...Em tudo idêntico, reeditou-se em Moçambique o mesmíssimo fenómeno da entrega e do abandono da Província às hordas do terror, sem que o mutismo acobardado do general-fantoche se quebrasse, ainda mesmo quando todas as etnias da população, ombro a ombro com os europeus lá radicados, heroicamente se sublevaram, a 7 de Setembro de 1974, numa avassaladora demonstração de unidade lusíada, a que os vendidos – os vendilhões – de Lisboa (bem secundados, de resto, pelas fardas da traição estacionadas na Província) acabaram por pôr cobro, decretando o mais hediondo dos massacres. O número de vítimas – pertencentes, repito, a todas as raças e a tôdolos credos – foi da ordem dos quatro milhares. E Spínola, impávido e sereno: mudo e quedo qual penedo diante de outro penedo!... E o 25 de Abril, “ainda então a botar figura de revolução pacífica, levada a efeito, e consolidada, sem derramamento de ponta de sangue!...Até que sobrevém o 28 de Setembro. E mais uma vez, como era de prever, António de Spínola deu de si, dando inteiramente de barato com a oportunidade, única e sem-par – a última, por sinal, que teve à mão – de chamar a si poderes que nunca conheceu, não tanto porque não pôde, como porque jamais soube agarrá-los; e era imperioso que ele os tivesse agarrado o que se chama às mãos ambas, o que se chama pelos cabelos, quando foi tempo disso. O mal é que Spínola, só em desespero de causa, só em última instância, só in extremis, deu em apelar para a tal maioria silenciosa, - que ele próprio, de resto, ajudara a silenciar, desde as primeiríssimas horas da revoluçãozeca de Abril, ao dar o seu implícito agrément a toda a enxurrada de aleivosias e abusos, de malfeitorias e prevaricações, que publicamente se expandiram a Portugal inteiro.Um tanto à contre-coeur, e por demais vexada – como é natural, dado que se tratava, para todos os efeitos, de apoiar um traidor, com graves culpas no cartório, quanto à situação que se criara -, a tal maioria dispôs-se, ainda assim e apesar de tudo, a responder à convocatória, a corresponder, em massa, ao repto do general, e a acorrer sobre Lisboa para o aclamar – imagine-se: para aclamar semelhante bonzo! –. (E aqui, vem à colacção acentuar, à laia de mero comentário, que, por estas e por outras, e em face de tanto dislate e de tanto disparate pegado, já então se tornava impossível em Portugal fora de um manicómio!...)Quanto à maioria silenciosa, se silenciosa andava, silenciada ficou: uma vez, António de Spínola deixou que se gorasse um excelentíssimo ensejo de tomar para si alguma força, deitando tudo a perder. Como de costume…- Inditosa pátria que tal filho teve!...Sendo, por natureza, incuravelmente tíbio e desastrado, e como tal, vulnerável a toda a espécie de chantagens mais ou menos ameaçadoras e intimidatórias, - o caricatural general, ainda uma vez, foi presa fácil dos burlões, que em má hora, ele próprio elevou à dignidade de membros de Governo; e bastou que eles lhe acenassem com a eventualidade de se registar uma confrontação, mais ou menos violenta e sangrenta no decurso da manifestação da maioria silenciosa, para que Spínola desatasse a tiritar de coragem, declarando interdita a concentração popular e abdicando, logo após, de todas as suas (mais que ilícitas) prerrogativas de chefe de Estado.Espírito muito mais impressionável, pelos vistos, à ideia de um banhito de sangue na Metrópole Lusitana do que a todas as atrocidades que iam tendo por cenário a Guiné e Moçambique, - António de Spínola lá acabou por soçobrar aos ardis da chantagem, a pretexto de vislumbrar um poucochinho de sangue nas infectas ruas de Lisboa… - Sinceramente, não atino com os reais motivos de semelhante fobia (quanto ao sangue que pudesse vir a verter-se na capital…), já não é de descurar, inclusive, o papel altamente profiláctico que o sangue tem desempenhado na História Política dos Povos. E atrevo-me, assim, a indagar: para que anda Spínola, no fim de contas, a poupar sangue, no que concerne, exclusivamente, à Metrópole, sublinhe-se, - se é certo e sabido que, mais cedo ou mais tarde (e quanto mais tarde, pior será…), tudo há-de acabar, pela certa, numa sangueira inenarrável, - em Lisboa como em Bissau ou como em Luanda, em Lourenço Marques tal como no Porto ou como na Beira?!...Lá que Spínola haja prescindido da magistratura presidencial que ninguém, de direito, lhe outorgara, declinando o mandato respectivo, - ainda vá que não vá, e até foi bonito de se ver. Mas lá que ele, do mesmo passo, tenha renunciado (por omissão voluntária) à sua qualidade de cabo-de-guerra – que tão à viva força estima ser -, escusando-se, desse modo, à grandessíssima maçada de declarar abertas as hostilidades entre as forças vivas da Nação e a anti-Nação; lá que lhe tenha falecido estaleca para se arvorar em líder militar, e assim, concitar a que o seguissem todos aqueles que entrevêem, num golpe de força ou na guerra civil, a única via de salvação nacional ainda em aberto: - lá isso é inadmissível! E bem vistas as coisas, teria sido essa, igualmente, a única atitude susceptível de o resgatar, também a ele, de tanta e tanta vilania! – A verdade, porém – a grande verdade -, é que sua excelência, o general Spínola, não é muito dado a actos de coragem, ou coisa que com isso se assemelhe. Para servir de estrela ao 25 de Abril, esteve ele inteiramente pelos ajustes, e como tal foi sendo usado; mas nunca lhe passou pela cabeça – ainda mesmo depois de ter sido enxotado do “poleiro” – a ideia de pôr em marcha um movimento de sinal contrário, que colocasse as coisas no são, metesse o País nos eixos e proporcionasse uma batida a todos os traidores (Spínola não incluído). Simplesmente, acontece que proezas destas, façanhas assim, não são lá com ele… Para aí é que ele não está positivamente virado!...- E é isto, um general?- Eu chamo a isto, um “cepo”.E, já agora, querem saber quem é que pontificava – designado, para o efeito, pelo próprio general – na Casa Militar da República, enquanto Spínola morou em Belém?...- Pois nada mais nada menos do que um comunista de longa data: o tenente-coronel (ou lá o que é…) Robin de Andrade!A muitos, poderá parecer que é uma deselegância, da minha parte, a forma virulenta, e mesmo desapiedada, como eu traço aqui o perfil de Spínola, - mormente agora que ele caiu em desgraça. Mas não vá sem resposta quem tais coisas pense do meu procedimento: de facto, a ordem de grandeza das responsabilidades, que tocam, bem de perto, ao general, no aluimento de Portugal, afigura-se-me tamanha, - que, afinal de contas, não lhe dou senão o tratamento de choque que me merecem sempre aqueles que eu tenho na conta de altos e refinadíssimos traidores. Sinto-me, de resto, extremamente à vontade para o desencar sem comiseração, mesmo a estas horas; e isto, porque bem cedo lhe adivinhei a traição, e cedo o zurzi, publicamente, em crónica aparecida na revista “Gil Vicente”, oito depois do 25 de Abril…E chega de Spínola!Quanto à pessoa daquele que lhe sucedeu na chefia do Estado (o general Costa Gomes), bastará dizer que, em matéria de traições à Pátria, é bem o que se chama um veterano: tem estado em todas! E quanto mais trai, mais avulta!...Igualmente de vulto, é o caso de Otelo Saraiva de Carvalho: Otelo e maila sua paranóia de terceira; Otelo-o-bronco, Otelo-o-patego, Otelo-o-labroste, Otelo-o-etílico, Otelo-o-lapuz, Otelo-o-piroso-de-meia-tijela, Oteço-o-tal que era agente da SOTERRA e capitão em part-time, mas que é hoje brigadeiro de geração espontânea; Otelo-o-grande-labrego; Otelo-o-fala-barato, que sobre quase tôdolos temas discreteia, sem saber nada de nada, sem saber nada de tudo, alardeando o seu enciclopédico analfabetismo; Otelo-o-dandy-de-Oeiras, o gentleman-da-Reboleira, o-pipi-de-Santo-Amaro, o-super-galã-de-Algés, superstar-da-Outra-Banda…Otelo: um caso clínico!Mas de casos clínicos e de casos de polícia está repleto o actual (des)governo de Lisboa. Analisá-los, um por um, não pagaria a pena. Não paga a pena gastar latim com tão ruins defuntos.Vai alta a hora da plebe: - toca a fartar, vilanagem!...E é tudo, senhores.Ao menos por agora, tenho dito.


Rodrigo Emílio



Notas:


  1. E a propósito de “descolonização”: - para quando a descolonização da Metrópole Lusitana?!...

  2. Tonto inútil” do regime caetanista.

RE

sábado, 30 de Maio de 2009

SAGRES CONTRA EUROPA

CAVALEIRO MONGE

*
Agradecemos las correcciones ortográficas pertinentes de los amigos del Movimiento Legitimista Portugués

Olhando o mar,
Desde o profundo monte,
Tem forte o peito,
O cavaleiro monge.
Sacro estandarte porta,
Com uma cruz vermelha,
Emblema limpo que vai
Numa branca bandeira.
Cristo é a sua ordem,
Cristo é o seu general,
Cristo ilumina sua monarquia,
Bendita coroa de Portugal.
Cavaleiro das quinas,
Sangue de Viriato,
Guarda das estrelas
Do céu lusitano.
Do Medievo filho,
Valente e nobre cavaleiro,
Clarão de forte garganta,
Luz de católico império.
Cavaleiro da liberdade,
Cavaleiro do Evangelho,
Oh, cavaleiro monge,
Espada firme do mosteiro!
Cavaleiro monge,
Eco da bela história,
Quanta vida nos caminhos,
Cruzado da glória.
Cavaleiro português,
Cavaleiro monge,
É possível que ainda
Não fiques tão longe...

Publicado por Fray Trabucaire en 2:36
NB.:

Quando a Revolução Universal nos vai empurrando para o seio de uma Europa, esquecida das suas raízes, apóstata da fé cristã em que nasceu, e idólatra do ouro, única Divindade que adora, chega-nos de Espanha este poema que mostra a razão de um Infante que foi providencial.

As correcções, de que o seu autor se confessa devedor, resumiram-se a cinco falhas nos acentos. Duas dessa falhas respeitavam ao til que, como sabemos, não existe na língua castelhana. E que, portanto, não aparece nos teclados dos computadores espanhóis.

Isto, porém, nunca empanaria o brilho formal do poema e, sobretudo, a formidável lição que ali se contém!

O título, neste blogue, é da minha responsabilidade. O original pode ser lido aqui.
JMC

domingo, 24 de Maio de 2009

PORTUGAL À DERIVA

Desonra, miséria e dor, eis o quadro de Portugal. E lembrando um dos mais conhecidos sonetos de Camões, eu direi que a miséria e a dor sobejam já que bastava somente a desonra para a perdição de um povo.

Portugal foi e terá de voltar a ser uma nação sacrossanta, merecedora de toda a reverência pela missão que ainda não completou, missão excelsa, missão que constitui a sua razão de ser, missão que não pode falhar. Hoje, anda perdido porque, há uma trintena de anos, o desviaram brutalmente do seu rumo.

Quem são os agentes de tão vil atentado? --- Não perderei tempo a mencioná-los porque os autores materiais são do conhecimento público: homens despudorados, gente sem pundonor e sem brio, vendilhões da Pátria, concussionários de uma nação inteira, energúmenos a quem o seu democratismo (ou talvez por causa dele) não impede que se entretenham «(...) no ofício novo / a despir e roubar o pobre povo!» (1).

Passo, pois, por alto o nome de quem não carece de apresentação. Como responsável destes factos, poderia ainda apontar o povo, enquanto não sofre, como vassalo, as prepotências e desmandos de um estranho soberano que é ele próprio. Esta é a construção da democracia. Mas eu, como continuo a sentir uma repugnância invencível pelo absurdo, e não deixo de considerar que o sufrágio universal é um manto de completa inimputabilidade a cobrir os eleitos das urnas, não lhe concedo foros devidos a pessoa humana capaz.

Onde se encontram, então, os outros culpados? --- Em cada um que com o seu silêncio timorato, um vago receio das consequências, os respeitos humanos, o pavor de quebrar a confortável cadeira de um quotidiano sem sobressaltos, em suma, com a sua cobardia, assiste, inerte, à consumação da tragédia e se torna, ipso facto, cúmplice de um repugnante crime de lesa-pátria.

Perante este quadro, é difícil dizer que mais nos há-de espantar: se a malícia de uns ou a complacência dos outros; se os instintos destruidores daqueles ou a passividade dos últimos!

Quisera eu que este fosse um apontamento breve e vou esforçar-me por o conseguir. Não se pode, todavia, falar sobre Portugal e a sua situação, sem passar os olhos, ainda que rapidamente, pelo que lá fora acontece. Até porque é lá que nos querem diluir.

O falar pedante dos nossos tecnocratas, acolitados pelo coro pretensioso dos democratas que nos desgovernam, pretende sufocar-nos no seio de uma Europa, a nós que fomos chamados para uma missão ecuménica, a um povo que encheu as partidas, a uma nação que se dessangrou no zelo de cristianizar o mundo. Seria ridículo, se ao mesmo tempo não fora trágico.

Reduzidos hoje às dimensões do séc. XIV, julgam por isso acertado orientar a política a partir daí. Apesar de muitas coisas serem tristemente verdadeiras nos dias que correm, esquece-se ou, o que é pior, deseja-se calar que há mais: há a civilização e há a cultura que deixam as suas marcas.

Que Europa nos destinam? --- A Europa de uma Itália, onde durante anos a fio ditou leis a praga da democracia-cristã, ainda por cima impotente para esconder as suas ligações com a Maçonaria, e cujas sequelas continuam vivas? Pretenderão dar-nos a Europa de uma França sempre dúbia, ora burguesa, ora proletária, tão depressa liberal como socialista, de um chauvinismo feroz ou à beira de abrir mão da própria identidade nacional? Será ideia deles seduzir-nos com uma Alemanha que ainda parece dividida e não descobre meio de afugentar fantasmas de guerra? Ou finalmente haverá o projecto de impor-nos a imagem de uma Inglaterra, colosso que subjugou o mundo com ardis de flibusteiros, enriqueceu no saque e na pilhagem, sempre grandiosa no roubo e, hoje, Babilónia da moderna Europa, caída a capa do seu puritanismo, que tantas chagas cobria, já não consegue esconder a podridão que a rói? É a esta Europa que querem amoldar-nos?

A resposta encontrar-se-á no Clube de Bilderberg, selecto quanto baste para garantir uma pluralidade muito conveniente. Tudo ao jeito do mais puro estilo revolucionário, ríspido e inflexível se enfrenta oposição, não perdendo oportunidade em revelar-se generoso e compreensivo, quando os outros se acomodam, em nome de uma tolerância sonoramente proclamada, mas de que nunca dão exemplo.

Esse círculo, que escapou ao genial poeta florentino, é antro das mais engenhosas perfídias que se tramam e que têm repercussão internacional. Ocupam-no os privilegiados que idolatram a Europa, esta Europa ultimamente pronta a franquear portas a uma Turquia, mas que já não tem lugar para a Suíça, pela vantagem meridianamente clara de preservar uma distinta identidade política no país que é banco oficial e casa-forte das fortunas que se fazem por esse mundo fora, algumas delas sabe Deus como.

Não obstante os erros, que por cá se praticaram, tal Europa é-nos estranha. Alheou-se de nós quando se afastou da ortodoxia da Fé, e isso ocorreu com o cisma luterano. A partir de então, os Pirinéus separaram Portugal e Espanha da Europa antropocêntrica, a Europa que mergulhava na vertigem do abismo. Nós conservávamo-nos como derradeiros paladinos do universalismo, do objectivismo e da religiosidade, que caracterizavam a visão teocêntrica do mundo que se ergueu sobre os escombros, a que as hordas do Leste reduziram o corrompido Império Romano do Ocidente.

Fomos, na realidade, paladinos do universalismo espiritual, que vicejou sob a égide da Igreja Católica, a única internacional possível. E este universalismo, que não abafava a individualidade de cada povo, era barreira eficaz contra o poder ilimitado do Leviatão, cujas cabeças já começavam a chocar doutrinas enciclopedistas, mero prelúdio do império esmagador do capital em concorrência satânica com o socialismo.

Campeões do objectivismo, defendemos que cumpre ir buscar a verdade, em vez de sermos o centro do conhecimento. Entre os nossos, há um nome que é legenda de glória, nome que ficará a contar ao mundo como Portugal não era apenas discípulo dilecto de Marte e de Neptuno: o batalhador, o navegante também sabia dar vez ao pensador. E surge o humilde, o apagado, o sumido mas tão subido Frei João de São Tomás, luminar da metafísica, expoente da filosofia portuguesa, orgulho do saber cristão.

Por último, evangelizadores até à medula, morríamos mártires proclamando a verdadeira religião contra cultos pagãos e mitos nascentes.

Como se vê é algo de incomparavelmente mais profundo e absolutamente distinto de uma corriqueira questão de latitude ou de longitude. Portugal deixou de ser europeu, quando a Europa apostatou.

Infelizmente, Portugal também pecou, Portugal está hoje desviado da linha que a si próprio traçara, Portugal encontra-se de olhos fechados à luz. No entanto, devemos esperar a restauração de Portugal através da acção de um escol que sempre desponta nas épocas de crise.

Mas antes é curial definir o que se entende por escol:

Se o escol, de modo algum se confunde com a actual camarilha do poder, não importa menos evitar a tendência muito acentuada de o esgotar nas classes historicamente dominantes, cujos membros se tornaram incapazes de dar prossecução aos valores positivíssimos, de que se dizem depositários. Isto é fundamental, para não se correr o risco de que os menos esclarecidos se riam de tais valores, personificados em múmias caricaturais. Portanto, cumpre ao escol autêntico afirmar-se sem ambiguidades, e essa obrigação é maior agora que vemos a sorte da res publica confiada a quem fez do exercício da governação uma orgia de devassos e de medíocres.

Quando a fibra impoluta da nação vibrar, no dia em que o verdadeiro escol se congregar, veremos dissipar-se o horizonte negro que se postou diante dos nossos olhos e parece querer ficar, ser-nos-à então lícito voltar a admitir a possibilidade de que se arrede para longe o castigo pavoroso que nos ameaça.

No meio das trevas, como esperança radiosa, brilha a luz fulgurante da Rainha e Padroeira de Portugal. Só um coração amantíssimo de Mãe pode olhar com tamanha indulgência um filho ingrato e, por isso mesmo, tão necessitado da Sua clemência. Lembrem-se os Portugueses que a única lei a que devem sujeição é a da grei que devem amar, é a da sua terra de Santa Maria.

Sabiamente dirigido, irá o povo português, com alento e com robustez, resgatar o chão sagrado, chão regado de sangue, sangue que foi de mártires que semeiam esse solo e de heróis que o juncam. À honra do combate, seguir-se-á a glória do triunfo. Retome Portugal as veredas da Tradição e logo verá como chega o arrebol da redenção!

Mês de Maria Santíssima

Joaquim Maria Cymbron

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  1. Os Lusíadas , VII, 85, vv.7-8.

JMC