terça-feira, 24 de outubro de 2017

PORTUGAL E CATALUNHA


A turbação por que passam as nobilíssimas terras catalãs, são consequência não só das ciladas vis de um tredo independentismo, como também das não menos criminosas acções do liberalismo democrático que, desde longuíssima data, vem martirizando o povo daquele valioso rincão de Espanha. Não permita Deus que este desgraçado motim venha a transformar-se num vulcão de lava que tudo sepulte.

Entretanto, esta convulsão tem levado a uma associação do Portugal de 1640 com a actual Catalunha. Este propósito é abusivo ou, pelo menos, deslocado. Não há, com efeito, assimilação possível. E essa impossibilidade vem mais da própria natureza deste dois momentos do que da distância de tempo que os separa. Seguidamente, o veremos:

A nossa Pátria é um caso singular no universo peninsular. Quando se dá a União Pessoal, já Portugal erguera um império e Camões o cantara num poema, que continua vivo na memória dos homens.

Muito se ouve acerca do perigo, que representou para Portugal, o apetite de hegemonia que ferveu no peito castelhano. Verdade é que, para esta desconfiança, quase ou mesmo obsessiva para com o temido vizinho, muito contribuiu o crónico empenho de Castela, em unir as duas coroas. Esses receios ainda permanecem no subconsciente do nosso povo. O que se esquece, por via de regra, é que, se houve cobiça de lá para cá, certamente não foi menor aquela que Portugal alimentou em direcção a Castela.1

Neste jogo político de ora afasta-te e chega-te, ora chega-te e afasta-te, se foi andando até que Portugal se atolou nos areais adustos de África. E, realmente, o que isso provocou, não foi o melhor para o nosso devir histórico. Em Guadalupe, Filipe II não poupou o sobrinho a conselhos repletos de sisudez, procurando convencê-lo a esperar, antes de recorrer às armas. Mas o génio de El-Rei D. Sebastião era esquivo a lições de prudência. Consta que chegou a perguntar, ao Duque de Alba, triunfador por meia Europa, de que cor o medo andava pintado, ao que este replicou simplesmente, com a típica serenidade de militar experimentado em duríssimas pelejas, que o medo era da cor da prudência. Não transparece soberba por parte do grande cabo de guerra, como também nenhuma insolência terá carregado a pergunta do moço Rei àquele laureado veterano. A cena, a ter ocorrido, talvez fosse a tentativa desesperada de evitar um desastre que se adivinhava. Porém, o temperamento exaltadamente místico do último monarca de Avis era surdo a todas as vozes que convidassem à sensatez. A vitória teria feito dele herói, um daqueles das Idades Antigas, um dos muitos que firmaram padrões de glória na gesta de Portugal. Infelizmente, a derrota foi o fecho dos anseios de um luminoso Império.2

Depois das cinzas frias de Alcácer-Quibir, no Reino, vai-se agitando uma púrpura gasta, a quem uma dispensa canónica não bastou para lhe restituir a virilidade capaz de dar um herdeiro à Coroa. Estava-se à beira da desagregação. Morto o Cardeal-Rei, logo acudiram vários pretendentes na disputa pelo Trono. Só não teve as proporções lúgubres do banquete de um cadáver, porque Portugal era um corpo gigantesco gravemente combalido, mas onde a vida palpitava ainda.    

O Prior do Crato sonhou então repetir a façanha do Mestre de Avis. Mas nem ele tinha a estatura do filho de D. Pedro, nem o Vimioso, seu Condestável, era Nun’Álvares. As classes dirigentes estavam de rastos. A venalidade era quase geral e corria à rédea solta. Também o povo mudara: já não se ouvia pelos concelhos o mesmo tumultuar que enchera Portugal durante a crise de 1383-1385.3 E, principalmente, aquele que veio a reinar entre nós já não era só soberano em Castela: à época, ele como outro qualquer que reinasse em Espanha, reinaria sobre uma porção descomunal do Globo. Mesmo assim, o filho da Pelicana, com pundonor bem português, ousou enfrentar o colosso. Foi aclamado nalguns pontos do Continente e, por algum tempo mais, segurou com galhardia a Bandeira das Quinas, oferecendo resistência heróica nos Açores, com especial destaque para a ilha Terceira. Esmagado pelo peso das armas de Espanha, exilou-se tendo expirado em Paris. Até ao fim dos seus dias, confessou pertinazmente que a ele cabia o direito à Coroa de Portugal. Prova concludente de como, no fluir da política, é vã a legitimidade, se falta a uis cogens para a garantir. Aspecto este que é de reter, porque a ele se voltará.

A Duquesa de Bragança D. Catarina era outra pretendente com títulos invejáveis para suceder ao Cardeal-Rei, mas não fez valê-los na altura mais efervescente da crise. Quieta, parecia guardar-se protegendo o filho D. Teodósio. Pode dizer-se que o desenrolar dos anos veio dar razão ao seu comportamento discreto, não já a favor do filho, mas preservando o neto, que ascendeu ao Trono em 1640. Os outros, que alegavam direitos, não contavam. Em campo, com inegável legitimidade de origem e apoiado nas armas de Fernando Álvarez de Toledo, restava Filipe I de Espanha.   

O poderoso Habsburgo, que aguardara na fronteira o termo das operações dos seus exércitos, entrou em Portugal e foi aclamado Rei nas Cortes de Tomar. Jurou o que lhe foi pedido em capítulos daquelas Cortes e cumpriu.

O seu reinado, pois, iria selar a sua legitimidade de exercício por nula que fosse a de origem. Mas não era. O Prudente descendia do nosso Rei D. Manuel por linha materna.4 Tinha, portanto, legitimidade de origem. Nesse campo, muito se discutiu, na hora, se seria o de melhor direito. Debateu-se o problema exaustivamente, antes da sua aclamação e, mais tarde, depois de 1640. E não tem que ver só com o Prior do Crato, porque não era este o único concorrente. Simplesmente, verificou-se o que é lei constante dos pleitos políticos e em que nunca é demais insistir: esgotados todos os argumentos, sai vencedor o que, às razões aduzidas ou privado delas, alia o poder de facto.

Nas mãos de Lerma, ministro plenipotenciário de Filipe II, a governação do Reino continua a ser positiva e conserva-se fiel ao que foi o governo do 1.º Filipe. No reinado de Filipe III, porém, a situação interna de Portugal sofreu grave deterioração, no que concerne aos capítulos jurados em Tomar. Foi o rastilho de uma revolta que espanto seria, se não eclodisse.

Se a legitimidade de exercício se perde, temos de retornar à legitimidade de origem. O valido de Filipe IV tirou ao Habsburgo a legitimidade de exercício, resultante do prometido nas Cortes de Tomar e que vinha sendo observado. Foi a mesma força centrípeta, que pesou sobre a Catalunha e fez com que ela se levantasse em armas, pouco antes do 1.º de Dezembro.5

Chegadas as coisas a este extremo, tornou-se lícito afirmar, com inteira propriedade, que era manifesta a ameaça de absorção e que, então sim, perigava a independência de Portugal. Porque, até ali, Portugal e Espanha eram dois Reinos com um só monarca como soberano. Numa linguagem mais actual, tratava-se de dois sujeitos de Direito Internacional Público, revestindo uma das formas que podem assumir as Associações de Estados. Impunha-se, pois, o regresso ao Rei natural.

A subida do Duque de Bragança ao trono de seus maiores firma-se numa legitimidade de origem que é irrefutável. É escusado invadir um campo eriçado de dificuldades muito do gosto dos que se comprazem em remexer papéis cheirando a bafio, e se gastam em confusas discussões a respeito do que não são mais que preciosismos jurídicos. O direito de D. João IV encontra-se abundantemente provado por varões de inconcussa ciência. Deixemos as subtilezas dos seus autores e não entremos no denso matagal em que se movem, ali onde já se começa a respirar uns ares da nefasta soberania popular.6

Convém guardar bem presente que as leis humanas hão-de sempre derivar  de um sentimento jurídico, do senso moral ou, ainda melhor, do apetite pela equidade, à luz do que Deus dispõe, e nunca se pretenda caminhar da lei para um sentido mais ou menos correcto das coisas.

Por isso, não se esqueça uma verdade basilar. Só há duas comunidades, cuja organização é de direito divino: a Igreja, directamente fundada por Cristo; e a família, porque assim resulta da lei natural. Temos assim que, no âmbito espiritual, não há outra sociedade fora da Igreja Católica. Resta o temporal e, aí, além da comunidade doméstica, deparamos com todas as outras que a política nos oferece. Nesta realidade, não se vê um único modelo saído imediatamente das mãos de Deus --- o que por aí se levanta é obra dos homens! E cada um desses edifícios tem o seu construtor, o que significa que toda a sociedade política apresenta uma causa eficiente. Desde que o homem transpôs o limiar da comunidade doméstica para viver num tipo de sociedade mais amplo, a situação assim criada principiou por ser uma situação de facto e, só mais tarde, terá vindo a converter-se numa situação de direito positivo. Este processo, que não obedece a uma regra invariável, reflecte todavia um quadro que se repetiu ao longo dos séculos e, provavelmente, se há-de repetir no futuro.

Afligem-se alguns com a posição aqui tomada. Gente que diz ter virado costas ao que condena como sendo o reaccionarismo de certas doutrinas, mas que, por mais que se gabe de ir na onda do progresso, está afinal enfeudada a um espírito tristemente acanhado. Será tamanha a estultícia que não se veja como há-de um povo revoltar-se, se se consagra o império desmedido e intangível da lei vigente? Sabe-se bem como alguns conhecem, na perfeição e em toda a sua extensão, a magnitude do mal contido no sistema que proclama e busca impor um culto idolátrico da lei. Outros, porém, fazem-no por ingenuidade. Mas, venha de que banda vier, essa tendência deve ser combatida.

A resposta, a qualquer dúvida nesta matéria, repousa na base daquilo mesmo que há-de ser preocupação constante de quem estiver animado de boa fé. Ou seja: é a Verdade que aferirá da bondade da política seguida, como sempre foi e será a Verdade o padrão de tudo o que aspira à Justiça. E, assim, sem grave inquietação da alma, podemos considerar legítimo o poder que leva a cabo o Bem Comum, independentemente do modo como brotou. Resumindo: a legitimidade de exercício está por cima da de origem, como logo se falou ao abordar a degenerescência do governo filipino, por obra de Olivares, e que justificou o grito de 1640.

Desfazendo equívocos que possam subsistir, dir-se-á que Portugal recuperou Rei natural não pelo alegado direito que ocupou as mentes fecundas dos Doutores da Restauração, mas porque o Reino reagindo ao perigo iminente de uma incorporação, que o sujeitaria aos usos de Castela, decidiu combater, reuniu condições e apoios para isso e, acima de tudo, porque saiu militarmente vitorioso na guerra travada. Se tivesse sido derrotado, de que lhe serviria o direito invocado? Em suma: o acervo amontoado pelas dissertações teóricas e cheias de riqueza jurídica, vertidas pelos sábios legistas, teve o mérito assinalável de formalizar o acto de sublevação perante as potências europeias. E não foi pouco; porém, o argumento decisivo esteve nas campanhas bélicas que se desenrolaram até que Espanha reconheceu que estava em presença de um facto consumado.  

Com algumas alterações, falta dizer o mesmo sobre a crise na Catalunha. Espera-se que os bons filhos daquela terra, que são igualmente Espanhóis de lídima cepa, não se enleiem com sofismas jurídico-políticos. Não há sinais de que Deus os chame a lutar pela Democracia, pela Liberdade, pela União Europeia ou por qualquer outro mito de um romantismo serôdio muito espalhado no presente. Agora ou em qualquer outro delírio desagregador que torne a assolar aquele território, o que está ou estará em causa, é Espanha e esse valor defende-se com coragem e patriotismo. Atributos que não há necessidade de recomendar a um verdadeiro espanhol, porque fazem parte do seu ser!

Seria errado e, até, uma grosseira deselegância prosseguir, sem uma referência  ao que sobressai na autêntica fisionomia da catalanitat e que tem o particular encanto de espelhar o que ela acumula de mais propriamente seu e de mais hispânico.

À Catalunha, ninguém em seu perfeito juízo lhe recusará o lugar que, de pleno direito, lhe pertence entre os mais fidalgos dos Reinos e senhorios, que se foram formando no deslizar dos séculos, e que compõem a Espanha moderna. Se atendemos à sua antiguidade, e repararmos na hierarquia que um dos deus próceres alcançou no todo que a coroa espanhola oferece, difícil é não o admitir. Nasceu como condado, quando o furacão árabe varria as terras peninsulares; cresceu deixando atrás de si uma história de riquíssimo brilho; liga-se ao Reino de Aragão por casamento de Ramón de Berenguer IV, Conde de Barcelona, com Petronila, filha de Ramiro II, el Monje; e é da linhagem do conde barcelonês que procede Fernando, marido de Isabel, os conhecidos Reis Católicos. Quando Fernando enviuvou, o Aragão funde-se com Leão e Castela, cuja coroa aquela grande soberana cingia. Portanto, não houve anexação de um lado, nem do outro, muito contrariamente ao que, transcorridos pouquíssimos anos, veio a suceder com Navarra.7

Afigura-se, pois, que é, a um mesmo tempo, muito precipitado e arrojado sustentar que foi a Catalunha um corpo político, aglutinado e perdido na imensidão de Espanha, porque o processo histórico aponta para uma unidade superior, criada inter pares, e onde é nitidamente visível o relevo saliente que tomou o antiquíssimo condado catalão. Portanto, nem a Catalunha entrou na Espanha, nem Espanha na Catalunha: uniram-se, como já se referiu.

Mais um facto curioso, que nem por ser um pormenor perde interesse:

Se os Condes de Castela sentam um dos seus no trono de Leão, vindo a ser representados em Isabel, a Católica certo é que o sangue de Ramón de Berenguer IV corre nas veias de Ferrnando de Aragão. Significa isto que a casa condal de Barcelona prefere à descendência de Fernán González, uma vez que o sangue da linhagem catalã se transmite por linha agnatícia aos soberanos espanhóis da Casa de Áustria e, mais tarde, à dinastia borbónica. Se ainda sobrevivem, esta minúcia permitirá aos colaterais dos velhos condes catalães que se ufanem, com legítima vaidade genealógica, daquela legenda que a prosápia heráldica gravou nas armas de muitas famílias: Reges descendunt a nobis, non nos a regibus.

No decurso deste paralelismo, há entre Portugal e a Catalunha uma claríssima nota distintiva:

O Portugal de 1640, que teimam fortemente em identificar com a Catalunha, não restaurou nenhuma independência perdida, porque não se restaura aquilo cuja existência nunca cessou. Já acima se aludiu à União Pessoal, sem ter então qualquer cuidado de entrar em detalhes jurídico-políticos, porque essa categoria de associação de Estados é um acidente que podia acontecer, como de facto foi acontecendo, na caminhada dos povos que se regem debaixo de uma forma monárquica. Também, agora, não fomos além, nem iremos. Apenas lhe dedicamos mais algumas palavras para marcar um sinal definidor de Portugal que contrasta directa e frontalmente com a Catalunha: se Portugal nunca foi espanhol,8 a Catalunha jamais formou Estado fora de Espanha, da qual, não como presa capturada, mas sim por direito dinástico próprio, é parte integrante desde que a nação espanhola se unificou em seguida à conquista de Granada. De modo lapidar: Portugal, por isto ou por  aquilo, não cabe dentro de Espanha; mas Espanha, dêem-lhe os renegados as voltas que derem, é o solar da Catalunha!

Joaquim Maria Cymbron

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1.      Até 1580, três foram os episódios em que o impulso para a união arrancou de Portugal. O primeiro ocorre quando D. Afonso V julga suficiente o casamento com a sua infeliz sobrinha, a Excelente Senhora, projecto ao qual pôs termo a batalha de Toro. Depois disso, D. João II persegue o mesmo objectivo ajustando o casamento do seu herdeiro com a que então era simplesmente a filha mais velha dos Reis Católicos, só mais tarde vindo a tornar-se Princesa das Astúrias. Porém, a desastrosa queda de um cavalo corta o sonho do Príncipe Perfeito. A viúva é dada em casamento a D. Manuel I, e deste matrimónio nasce D. Miguel da Paz, o primogénito do Venturoso, príncipe herdeiro de Portugal e príncipe das Astúrias, mas que a morte colheu aos dois anos de idade.

2.      «Por isso onde o areal está / Ficou meu ser que houve, não o que há.» Versos de um lindíssimo poema de Pessoa, sentido e merecido louvor ao infeliz Rei D. Sebastião. Neste como noutros passos, bom será que a sua Mensagem seja escutada e produza efeitos.

3.      Num dos mais belos poemas que já se escreveram em língua portuguesa ---  o poema a Afonso de Albuquerque --- Miguel Torga, da carta do Terríbil a El-Rei D. Manuel, dá forma de verso ao que era o anúncio antecipado de uma catástrofe nacional. O grande obreiro do nosso Império do Oriente, conhecedor dos homens e dos factos, «com um soluço que é sinal de morte», como ele prório dizia ao Rei, vaticinava o futuro.

4.      Era sua Mãe a Infanta D. Isabel, filha do nosso Rei D. Manuel I. Casou com Carlos I de Espanha e V da Alemanha, de quem teve, entre outros, a Filipe II de Espanha, que veio a herdar a coroa portuguesa sob o nome de Filipe I de Portugal.

5.      A Catalunha reagiu vivamente ao Gran Memorial que o Conde-Duque de Olivares secretamente dirigiu a Filipe IV, aconselhando-o a adoptar uma política mais centralizadora, subordinada ao aforismo multa regna, sed una lex. Com Filipe V, o primeiro da dinastia borbónica, a Nueva Planta privava a Catalunha dos seus antigos foros e instituições, em sinal de castigo por ter tomado partido pelo Arquiduque Carlos de Áustria, na Guerra da Sucessão de Espanha.

6.      De entre vários, ficam como exemplo: António Pais Viegas --- Manifesto do Reino de Portugal; e Francisco Velasco de Gouvêa --- Justa Acclamação do Serenissimo Rey de Portugal, D. João o IV.

7.      Em 1512, Fernando, o Católico, conquista a Navarra cispirenaica, deste modo se desenhando a actual configuração de Espanha.

8.      «A União Pessoal, que é, por definição, exclusiva dos Estados monárquicos, e resulta de a mesma pessoa física ser o titular de mais de um trono. (….) foi o caso da União Pessoal entre Portugal e Espanha na pessoa dos soberanos da dinastia filipina (…). A União Pessoal (…) é uma simples coincidência do titular dos órgãos, e não dos prórios órgãos, que permanecem distintos. Assim, a União Pessoal, (…), não tem consequências jurídicas, não gozando de personalidade internacional e não alterando em nada a plena capacidade internacional dos Estados membros.» (André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros --- Manual de Direito Internacional Público, 3.ª ed. revista e aumentada, Almedina, 2001, pp. 366 e s. O negrito é meu.)
 
JMC

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A PRAGA DO ILUMINISMO

 
Portugal é terra de Santa Maria. Por isso, como tantas vezes tenho feito, volto hoje a colocar as minhas palavras sob o Seu manto de Mãe extremosa. E, ao Santo Condestável, devoto ardente da Padroeira de Portugal, peço-lhe que rogue pela Pátria que tanto amou!
 
Começar por falar de terror, quando o cabeçalho se vira para o Iluminismo, pode chocar alguns, que se confessam incapazes de ver a relação que há entre uma coisa e a outra. Precipitam-se, julgando a partir do que é uma impressão imediata e, com esta atitude, iludem-se a si próprios. Mas, mesmo numa análise mais profunda e demorada, não será isto misturar alhos com bugalhos? --- Não, não é! Porque aqui, pretende-se realçar como o Iluminismo não é menos terrífico do que aquilo a que se convencionou chamar terror. Mais que isso: o Iluminismo é antepassado, em linha recta, do moderno terror. Portanto, um exame sucessivo destas duas realidades --- Iluminismo e terror --- ajudará, assim se espera, a localizar o ponto exacto onde se situa o verdadeiro terrorismo. É a desordem nas ideias que conduz ao pecado e ao crime: os actos humanos são precedidos de uma elaboração mental, sem o que não iriam para lá de uns gestos automáticos, cuja dinâmica seria inculposa e, portanto, livre de toda a reprovação ética. Por isso, para uma boa arrumação de noções e dos termos que as traduzem, bom será que não se trate do efeito sem estudar a causa: o efeito, que aqui se descreverá, é o terror, não importa quem sejam os seus executantes, embora a acusação recaia hoje, quase por inteiro ou mesmo exclusivamente, sobre o Islão; a causa, na sua máxima parte, é o Iluminismo.
Logo se perceberá melhor como e porquê:
Suicidas e loucos? Eis o refrão que mais se espalha sobre o pântano da política que nos calhou viver. Os mimoseados com estas melífluas palavras, quem são? Os que já se sabe --- os jihadistas!
A tudo se recorre, numa tentativa desnorteada de lançar o descrédito sobre as gentes do Islão. Isto é obsceno; imbecil; e, acima de tudo, é criminoso.
De entre multidões que estão aglutinadas por uma crença religiosa, aponta-se o dedo a uns que pegam em armas e criam pânico. A seguir, com a maior ligeireza, a esses e aos que comungam da mesma fé, põe-se-lhes um duplo ferrete: suicidas e loucos!
O que custa compreender é como, sendo suicidas e loucos, se passeiam em solo que não é o deles, como o vencedor de uma guerra pisa território conquistado. É assim tão difícil combater os que são inclinados ao suicídio e têm a mente perturbada?
Desenhar uma estratégia bélica não é tarefa fácil: pressupõe uma cabeça lúcida e equilibrada, fértil em planos! Mandar homens para a morte não é menos espinhoso: requer pulso firme! E estar pronto a sofrê-la, com abertura de ânimo, ainda é mais raro, mesmo raríssimo: exige a consciência do que pode vir! Ora nenhuma destas virtudes se encontra num louco, pelo menos enquanto dura o seu estado delirante. Pode, casualmente, um louco privilegiado conseguir um destes resultados, num acto isolado; nunca, porém, em acção concertada e permanente. De resto, se não é assim, então os manicómios passariam a constituir um perigo público reclamando um pronto bombardeamento cirúrgico.
E um suicida, que ameaça constitui? --- Um suicida, no plano que cuidamos, é um inimigo a menos.  
De modo que, repetida a interrogação inicial, apetece perguntar de que lado está o delírio.
Realmente, a loucura é um estado que não se torna fácil determinar com precisão. A associação de suicidas a loucos parece formar uma categoria de duas realidades reciprocamente assimiláveis, de modo que, verificada uma, necessariamente se seguirá a outra. Faltaria prová-lo. Contudo, para quem a admita, teríamos que estes soldados do ISIS não são nem uma, nem outra coisa.    
Se a loucura, como acabou de ser dito, é domínio onde resulta difícil entrar, a qualidade de suicida já não oferece a mesma resistência a quem deseje defini-la. E se, em virtude de uma pretendida associação do suicídio à loucura, se demonstrar que os combatentes do exército do ISIS não são suicidas, a conclusão inelutável é a de que também não são loucos.
Não são suicidas, porquê?
Há suicídio, quando o ser humano, não suportando já o peso da vida, opta por lhe pôr cobro, fugindo assim dessa carga. No outro pólo, temos aqueles que, sem procurarem a morte, se dispõem a correr esse risco para satisfazerem um fim superior. É, portanto, grande a diferença que vai do desprezo pela vida ao desprezo pela morte: o primeiro é característica do suicida; o segundo é timbre do mártir, sabedor de que vai morrer, mas que aceita esse resultado para o triunfo de uma causa que o transcende e que ele quer servir. É fora de dúvida que pode levantar-se a questão da bondade da causa pela qual se morre. Discussão muito válida, mas que não anula a distância que impede a confusão entre a generosidade de quem se sacrifica por um ideal e o impulso daquele que corta o fio da sua existência física, porque nele secou o apetite por tudo o que a vida terrena lhe poderia dar.
Consequentemente, se os guerreiros do ISIS, como parece demonstrado, não são suicidas, então é líquido que esses soldados também não são loucos por força da assimilação, que atrás vimos, do suicida ao louco. Loucura seria a temeridade de continuar a caluniá-los com esses nomes. E se, como é dever nosso, nos lembrarmos do passado de Portugal, regado do sangue de tanta ascese mística e repleto de imensas doses de um abnegado heroísmo, depressa nos daremos conta que não fica bem tão primária repulsa contra os que, com tanta leviandade, são pintados de cores demenciais. Seria, até, feíssima ingratidão para com os nossos maiores, considerar loucura ou sinal revelador de tendências suicidas todo o cúmulo de oblação e de sacrifício que a nossa história pátria exibe. Nem interessa, para o que agora se discute, que sejam os propósitos do ISIS distintos na raiz, nos meios e nos fins daqueles que animaram os Portugueses de Quinhentos. Aqui, trata-se de outra coisa. Mas, como já se verá, não será por isso que vai sem juízo moral o que se abordou.
Duvidar do subido mérito de quem faz entrega da sua vida em favor de uma causa elevada, sobre ser injusto, é estólido. É esse o acto de maior caridade que pode o homem praticar, assim rezam as Escrituras.1 E a caridade, diz o Apóstolo, é a mais excelsa das virtudes teologais.2
Mesmo que a causa final de quem se imola esteja privada de bondade, não é prudente escarnecer do seu agente, relegando-o para a classe dos loucos suicidas. A coragem é sempre predicado altamente positivo mesmo quando mal encaminhada. Porque, estejamos sempre atentos a isto, se é certo que o facínora, que é valente, quando convertido se pode transformar num herói sem mancha e, até mesmo, em santo a elevar aos altares, já o pusilânime, mesmo animado de recta intenção, não consegue ir buscar a bravura que não tem.
Cautela, pois, não suceda que os ditos loucos suicidas lancem um ataque decisivo, e não encontrem a fazer-lhes frente mais do que gente vacilante entre a incógnita que são os nebulosos valores da Democracia e uma decisão a não tomar nunca, o que a arrastará ao matadouro.
Eis porque não parece demais ter-se dito que os ataques verbais, aos povos do Islão, são uma prática obscena, imbecil e criminosa.
Adiante! É visível, neste angustiante problema, que a emoção se vem sobrepondo à razão. Não tem de admirar. O que surpreende é que haja quem brade: «Não temos medo!»
Se este grito não é mentiroso, será o desabafo de inconscientes. A verdade é que devíamos estar com medo. Nem isso há-de envergonhar! O medo é, para os seres humanos, como a dor que mostra ser amiga, porque nos adverte de que um mal aflige a nossa saúde física; assim está o medo, essa primeira reacção psicológica e fisiológica, que temos, quando postos diante de uma ameaça. E quando não é produto de um temperamento nervoso e doentiamente impressionável, mas ameaça de um perigo real, então o medo é merecedor da nossa gratidão, porque prepara quem o sente para a resposta adequada. Quando essa resposta se verifica, aí temos os heróis dispostos segundo o grau do perigo que arrostaram; os outros são a massa que vai atrás.
Para esse combate, e antes de vencer o medo, importa definir o inimigo. De outro modo, é lutar no escuro. E, nesta definição do inimigo, vem-se falhando rotundamente.
Com um mundo à deriva nas procelas deste mar borrascoso, nós,  Portugueses, temos redobrada obrigação de não errar se queremos identificar o inimigo e situar onde ele está. É escusado remontar à época em que a cobiça protestante das grandes potências, que despontavam na Europa, começou a olhar para o nosso império ultramarino. Basta que nos fixemos na fase final do que foi uma gesta multissecular tão ignobilmente atraiçoada.
Sem esquecer o que, antes do 25 de Abril, formou o jogo concertado dos bastidores da política mundial, e que de modo nenhum foi pouco, há um episódio posterior àquela data que esclarece, com insuperável nitidez, onde devemos procurar as legiões que, possuídas de sanha desmedida, atacaram um dos mais tenazes paladinos daquilo que ia sobrando da civilização cristã.
Pode Portugal afirmar, com legítima ufania, que travou o que, até à data, foi o último combate em defesa do Ocidente, o Ocidente genuíno porque se tratou daquele corpus mysticum, temperado ao fogo da Respublica Christiana, padrão de uma universalidade de povos, todos eles filhos do mesmo Deus.
Neste esforço colossal, Portugal não desmereceu do seu passado de honra e de glória, até sucumbir vítima da maior felonia que o atingiu, no decorrer da sua longa vida como nação soberana. A isto, já se aludiu. Quando se dá, pois, o golpe de misericórdia, num momento em que muito (quase tudo ou talvez mesmo tudo) ainda se poderia salvar? Pelo menos Angola teria sido bem possível. E dizer Angola, é dizer muito.3
Não cabe ao Islão e, menos, ao Daesh, a responsabildade pelo que, então, sucedeu. Na derrota sofrida, o nome do carrasco, que ali se lê, é o dos States. Gritai aos quatro ventos o que quiserdes contra os Muçulmanos, se isso vos apraz. Mas onde virdes Judeus não os acuseis de serem perversos como Mouros, nem digais destes que são discípulos escrupulosos da Tora. Uns e outros são distintos. Haja rigor nas palavras, ao menos, para que o verbo seja expressão correcta do pensamento. Sempre fez muita falta; e, hoje, talvez mais do que nunca.
Olhemos agora para a Europa, e oiçamos um clamor que sobe. São as queixas de quem pede e espera medidas que travem os abusos dos imigrados. Isto é de aplaudir. O que não se entende, é o caminho escolhido, nem o lugar onde os respectivos governos colocam a origem do mal.
Quando ainda há pouco tempo foi notícia festejada uma lei austríaca que impõe aos adventícios a assimilação dos valores do Iluminismo, convém distinguir o acto, in se, e a teleologia do mesmo. A Áustria é um estado soberano e, como tal, cria o seu prório Direito. In abstracto, no fim pretendido por esta norma, que aparentemente visa preservar a identidade do povo austríaco, nada há de censurável. O mesmo já não se poderá dizer da base moral em que se apoia: o Iluminismo não é padrão a tomar como exemplo porque ele é a raiz próxima do descalabro que se vive.
Este vulcão de ideias foi o sopro vivificante que encheu a Enciclopédia de Diderot e D’Alembert. Um sopro mau, diga-se de passagem, alimento de todos as convulsões sociais que sacudiram o séc. XIX, e cujos efeitos bem pode dizer-se que se arrastaram até ao presente. É um sistema não menos satânico que outros, hoje elevados à categoria de Bestas do Apocalipse, com o que se incorre no risco de esquecer este. Quem, todavia, conservar os olhos abertos, rapidamente observará que o Iluminismo é um velho demónio, sempre pronto a rasgar o que resta do debilitado poder temporal, fundado na lei natural que é lei de Deus. Nem desiste das tentativas de derrocar o Chefe espiritual da Cristandade. Sem dúvida, neste combate, o Iluminismo é um inimigo muito mais insidioso que, porventura, possa ser o papão islamita escondido atrás de uns quantos refugiados. A menos que esta invasão seja mais uma arma de colheitas tardias do que essa doutrina semeou, proclamando ser foco de uma luzes redentoras, que afinal não eram mais que trevas e como trevas, que eram, só podiam produzir a morte. Probabilidade esta a ter seriamente em conta. Nesta sequência, o mal terá transitado para a democracia e para o liberalismo, o que, de modo algum, repugna conceder. Não completa isto o plano de subversão universal? É claro que sim!
 
A fúria sanguinária do Daesh, esta horda que por razão alguma é lícito confundir com a religião que os seus militantes dizem professar, essa sanha criminosa, frise-se outra vez, encontrou um continente inteiro, que foi belo e grandioso lar da mais sublime civilização que o homem jamais gozou, deu com ele, repita-se, num estado vizinho da agonia. Há podridão de uma ponta à outra.
Perante os nossos olhos, descobre-se uma Europa, outrora ridente, obreira de catedrais e missionária da Fé que em seus muros se confessava, mas que, mais tarde, apostatou em Wittenberg, até acabar laica ou mesmo ateia e, no presente, se transformou numa amálgama territorial, impotente para se encontrar dentro do próprio espaço que criou. As barreiras físicas caíram e, atrás disto, foi o que restava da personalidade nacional dos seus naturais. Contrariamente ao anunciado, vimos assistindo a uma perda sucessiva e continuada das notas distintivas que caracterizavam os seus povos, não se adivinhando a mais pequena compensação para equilibrar este debilitamento progressivo, e sem outro denominador comum que não seja um vazio de esperança no futuro. Aliás, prodígio seria que outro fosse o desfecho, visto que a Europa, como antes se referiu, perdera já os seus valores morais, os únicos pilares que a poderiam robustamente suster como um corpo solidário, rico de conteúdo espiritual. E apenas o espírito é capaz de dar vida.
Este espaço disforme e sem alma é, hoje, albergue de uma população gasta pela idade não renovada; que está convidada a seguir uma moral  assexuada; e onde a família passou a ser uma cruciante saudade, com o que, tudo somado, em prazo relativamente curto, se terminará numa esterilidade quase generalizada. A realizar-se o quadro desta prognose, isso marcará o fim de uma cultura, porque um povo numericamente encolhido, carregando aos ombros uma geração avelhentada, é presa fácil de quem quiser ferrar-lhe o dente. Era, pois, de prever, no estado a que foi reduzida, que a Europa se tornasse couto apetecido dos primeiros bárbaros que dessem conta do seu grau de decadência.
Ao mesmo tempo, não deverá espantar que o apelo aos valores do Iluminismo, lançado pelo governo da Áustria, seja uma reedição serôdia da política do Josefismo. O que aqui se supõe, pode ser que não explique tudo, mas estende mais o campo se quisermos lançar a ponte com a experiência vivida em Portugal, o que é sumamente importante. O toque de trombetas, chamando a formar detrás dos princípios que informaram o Iluminismo, quer naturalmente seduzir quem o escuta. Mas este pregão é pérfido: a situação actual provém daquele sistema na qualidade de herdeira espúria. O que vivemos, mais não é do que a fatalidade genética dessas ideias de confusão e desgraça.
Afirmava Platão que a cidade política não seria feliz, enquanto os filósofos não fossem reis ou o contrário.4 Voltaire terá entendido que seria difícil fazer reis dos filósofos e resolveu o problema, percorrendo o trajecto no outro sentido. Colheu, pois, o ensinamento daquele filósofo grego, e aplicou a lição a Frederico II da Prússia, de quem era conselheiro.
Áustria e Prússia têm a mesma mãe --- é a Germânia. Embaladas em berços próximos, pela raça e pela geografia, compreende-se a semelhança e convergência dos seus sonhos de imperium. Foi grande, enormíssima até, a influência por eles exercida e que alastrou por boa parte da Europa, que as lojas maçónicas, entretanto, iam ganhando para os ideais do Iluminismo.
Entre nós, o despotismo esclarecido teve o seu executante fiel no Marquês de Pombal, senhor de um imenso poder, recebido das mãos do Rei. É durante o governo deste infame imortal, na ajustada denominação de Camilo Castelo Branco,5 que o absolutismo régio, contrário à doutrina tradicional do poder, mas que, há tempo já vinha assomando, que este absolutismo, repise-se, amadurece no seio do Iluminismo, para aí vir a tocar o seu zénite. Daqui podia vir tudo, como de facto veio. O cenário português é apenas mais um dos dramas desenrolados em vários palcos da Europa. É, no entanto, o que requer o nosso especial cuidado, pois é aquele onde já se verteu o nosso sangue e pode voltar a correr por conta dos embustes do Iluminismo.
A política do regalismo absolutista foi a alavanca para que a democracia do individualismo, de gorra com as doutrinas liberais, irrompesse com uma força arrasadora. A Revolução Universal seguia o seu curso, numa rota de saque e de pilhagem. Os portos, a que vai arribando nessa escala das mais negras cores, têm os seus cais de desembarque. Os sobreviventes dos naufrágios sucessivos põem pé em terra, logo que podem. Mas os que saem a recebê-los, são figuras espectrais que, erráticas como os que chegam,  deambulam sem destino sobre esses cais de amargura e desespero.
Voltemos ao Iluminismo e à praga que ele sempre trouxe consigo. Já foi dito que o seu espírito foi alma da Enciclopédia. E esta é expressão consumada da incoerência porque uma filosofia, onde cabem todas as correntes de pensamento, tem forçosamente de desembocar num caldo de culturas, antes de se negar a si mesma num sincretismo relativista, teórico ou meramente abstracto.
Temos, assim, que o multiculturalismo, como o mais natural desfecho daquele movimento, seria risível se não fora o resultado de bem funestas consequências que ele produz. De facto, o comportamento do governo austríaco de invocar os valores do Iluminismo, pretensamente para que não se dilua a identidade do povo de origem, no meio de uma assimilação febricitante e desordenada com diferentes povos, ou é sina de néscios, ou partida da lógica. Uma lógica que, às vezes, reduz os homens a brinquedos quase infantis, rindo-se deles e dos projectos de construção que levantam. Por isto ou por aquilo, é manifesto o nexo de causalidade entre tudo o que o Iluminismo tem, desde a sua génese até às moléstias dele derivadas, e que se desejam anular valendo-se inconsequentemente do seu socorro. O Iluminismo poderia, talvez, ser caminho para tratamento da doença contra a qual se apresenta como sendo o remédio mais eficaz, se se quisesse tentar uma medicina homeopática. Não é, porém, crível que tal venha a dar-se, desde logo porque o propósito com que ele nasceu foi o de lesar e não o de sanar. Além disso, curar um mal físico com o mesmo mal que atormenta o paciente, é terapêutica que não dá nada: será como cobrir de água quem se está afogando.
Do parentesco entre Iluminismo e Enciclopédia já se falou. Neste momento, importa considerar outro dos frutos, por ele gerados e que, tal como o já referido absolutismo régio, foram incubados no ventre daninho da Enciclopédia. Combatendo a construção hierárquica e dogmática da Igreja Católica, acaba, numa explosão de orgulho humano, a proclamar o dogma do racionalismo, autêntica aberração religiosa e filosófica. Isto é: retira força à razão do dogma fundado na Revelação Divina; e, a seguir, já reconhece vigor ao dogma da razão.6 Ou se se preferir: tripudia com a Fé, mas endeusa a Razão. E que admiração há nisto, se toda a catequese enciclopedista é  contradição de um extremo ao outro?
Esta nova espécie de druídas ou magos da Razão nasceu quando a convulsão do enciclopedismo revolveu a mente e o coração dos povos, principalmente o coração porque, naquilo que pregam os seus apóstolos, por muito que falem de Razão, é mais a paixão que a inteligência. Saiu o cortejo de um qualquer templo, marchando pausado, solene, hierático, no começo, para logo depois se derramar tumultuosamente pela praça pública. A bulha não tardou a instalar-se. É um pandemónio sempre que cada um deles se arvora em Sumo Sacerdote da tribo. À vista de todos, desdobra-se o pior panorama. O pior, não! Porque o pior está quando os druídas ou os magos se multiplicam e assim se resvala para o individualismo relativista.
O ideal enciclopedista não repudia a herança iluminista, aceitação essa que o torna no mais cruel dos assassinos, porque, no fim, persegue a alma à qual já matara o corpo. O relativismo por ele defendido é um sistema onde reina a desolação. Este relativismo nega a transcendência. Negando-se a transcendência, negado fica quanto há de absoluto no Ser, outro tanto devendo afirmar-se do que também encerra de absoluto a noção de Verdade, porque ela é um dos atributos que estão acima de todas as categorias ou predicamentos que há no universo do Ser: para este sistema de negação, a Verdade é apenas subjectiva. Esta filosofia escancara as portas à imaginação, e fecha a única via que permite palmilhar o trilho que, por muito que pese aos fiéis da Razão como nova Divindade, conduz ao ádito mais sagrado da Verdade. Por sua vez, em virtude do seu carácter objectivo, a Verdade pode ser em parte alcançada através de certezas que legitimamente se vão formando. O relativismo não é veículo para tão radiante destino.
Donoso Cortés escreveu um dia: «Carlomagno fue la Francia hecha hombre para propagar la idea católica; Voltaire fue la Francia hecha hombre para propagar la idea filosófica; Napoleón ha sido la Francia hecha hombre para propagar la idea revolucionaria.»7
Está certo! A França é a filha primogénita da Igreja. Desgraçadamente, com o rolar dos anos, apareceu a já mencionada Enciclopédia, transportando o lume aceso da Bastilha que veio devastar a cristianíssima pátria de S. Luís. Bonaparte apagou o incêndio, dentro de portas, mas foi espalhar as cinzas por onde passeariam os seus exércitos.
Repentinamente, a sua estrela triunfal deixou de brilhar com o fulgor que até ali mostrara. As águias já não voavam tão alto e, ao fazerem ninho em Moscovo, o seu génio de conquista foi ali encontrar não o seu leito de morte, mas o primeiro de uma lenta agonia. Contudo, não será avisado esquecer que, se Waterloo aparece como a tumba militar do petit corse, isso, na marcha dos acontecimentos europeus, não passou de um desastre episódico, às mãos de quem o combateu. Foi apenas a derrota pessoal de um homem, porque o credo, levado nas baionetas dos seus soldados, abriu sulcos no solo que eles pisavam, adubou-o com sangue à mistura e, dali, germinou uma cultura de frutos peçonhentos.
Quando Napoleão saiu do palco, entrou a Rússia como primacial potência condutora da política europeia. Dava-lhe direito a isso o ter sido alma da Santa Aliança. Com ela, também se levantaram a Áustria de Metternich, a Prússia e a Inglaterra. Dada a peculiar fisionomia do carácter britânico, mesmo quando se veste com trajes conservadores, ao lado da mística Rússia,  com mais intensa fidelidade ao seu projecto, só ficaram os Impérios Centrais. Em conjunto, vieram a formar a falange defensora de uma viciada monarquia de direito divino, procurando extinguir os restos revolucionários deixados pelo inimigo que ela, parte integrante da Santa Aliança, tinha abatido. Foi nessa poderosa falange que se situou o mais formidável bastião contra os danos enciclopedistas gerados pelo Iluminismo.
É incontroverso que o artífice desta fortaleza foi o Czar da Rússia; entretanto, a sua aplicação na política europeia deve-se a Metternich. No entanto, os males que a Santa Aliança se propunha debelar, esses males cuja origem está determinada, pioraram, ainda mais do que estavam, e degeneraram em cancro, tumor maligno que rói as nossas sociedades e que continua por extirpar. Ao mesmo tempo que nada se faz no sentido de pôr cobro a uma situação em que é letal o risco de sobrevivência colectiva, aconteceu ser, ali mesmo no solo pátrio de Metternich, que se veio a ouvir um grito quase necrófilo, porque apela ao respeito pelo código de valores do Iluminismo!
Nesta medonha procela, qual o potentado capaz de trazer saúde temporal às nações? Os States? --- Não há fiar neles, porque nem os próprios confiam na linha política que seguem! A Europa? --- Só por ironia! Quem resta? --- A Rússia! Terá o novo Chefe do Kremlin estatura exigida para tão ingente missão? Há muitos sinais disso!
Voltemos um pouco mais atrás, justamente ao ponto em que da queda de Napoleão, se saltou para a monarquia destemperada que as cortes de São Petersburgo, Berlim e Viena ditavam à Europa.
Esta reacção é, também ela, um erro monstruoso, daqueles que tantas vezes se cometem na esperança de justificar o que está desprovido de bondade. As instituições jurídico-políticas humanas e outras não se sentem satisfeitas no que é positivo. Aspiram a mais que isso. Não lhes basta a legalidade; reclamam legitimidade! E essa anda afastada do falso direito divino dos reis, em tudo equivalente ao absolutismo régio propugnado pela Enciclopédia.8  Ao tratar do consulado pombalino, já vimos a censura que merece tal enormidade.
É um mal crónico: à iniquidade, talvez de boa fé, certas almas não resistem à tentação de responder com excesso, o que é sempre condenável, porque não há virtude onde faltar a prudência. Só o extremo ocidental da Europa  não renegou a herança moral do seu passado. Como quando os célebres tercios da infantaria espanhola, neste continente, levavam de roldão as hostes protestantes e D. João de Áustria vencia em Lepanto, ou as bombardas das nossas naus iam ferir os flancos do Turco, e cruzávamos as águas do Extremo-Oriente, foram as duas nações peninsulares que, três séculos volvidos, uma e outra fechariam em quadrado cerradíssimo para defesa dos valores intemporais. Infelizmente, estava-lhes reservada a sorte que coube ao Filho do Homem, Verbo absoluto da Verdade: levantando a bandeira da Tradição, que não se confunde com nenhuma heresia política, Portugal e Espanha deram testemunho do que é subir, humanamente, ao calvário da Legitimidade. Não exactamente como Cristo crucificado, porque esse é um sacrifício único e irrepetível, mas estas nações também gemeram as agonias da morte, aos pés da Quádrupla Aliança. Da qual, recorde-se, fazia parte a velha Albion, pérfida e cínica como sempre, quando não é simplesmente o caso de ser egoísta em sumo grau. O veneno do Iluminismo tinha penetrado em profundidade.
Se Portugal, vencido em África pela traição de uns desnaturados, mas revigorado pela acção combativa ali desenvolvida, souber reencontrar a sua perdida vocação histórica, será a Pátria renovada, o que pode significar a vitória da Legitimidade num mundo que perdeu o sentido desse bem. O valor de Portugal, mesmo quando foi grande nos limites fugazes do que é terreno, esteve sempre mais no espírito do que na matéria. Esta é a sua maior glória, e bem pode acontecer que ela o convoque, de novo, a completar o que foi a missão revelada numa longínqua alvorada, naquele raiar de sangue e sacrifício com que despontou em Ourique.9 Desta vez, não com o propósito de lutar contra cinco reis mouros, porque o inimigo não é rei nem mouro. Que é, então? --- É a escória da espécie humana, porque só uma pífia ralé se ocupa a sacar proveito dos instintos selvagens de uns quantos, dispostos por índole, a semear morte e destruição.
São esses o inimigo a ter em conta. Identificado e pesado o perigo, o resto acontecerá por si mesmo. Onde não é de talhar à espada, doutrine-se com a palavra. Para converter? --- Sim, para converter, mas sobretudo para confirmar na Fé os que crêem no homem integral, regressado ao serviço de Deus!
 
Joaquim Maria Cymbron
 
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1.     Io. 15, 13.
2.     I Cor. 13, 13.
3.     Estávamos no ano de 1975. Avizinhava-se o dia 11 de Novembro, data fixada pelos traidores para deixar Angola nas garras do monstruoso conúbio, há muito estabelecido por esse mundo fora, entre o capitalismo e o socialismo.  Às portas de Luanda, efectivos militares preparam-se para um confronto bélico. Eram forças heterogéneas, num e noutro lado. Ia ferir-se a batalha do Quifangondo. Contra as FAPLA e seus apoiantes cubanos, perfila-se uma força militar superiormente comandada, constituída só por Portugueses, poucos em número, mas muitíssimo bem treinados e senhores de um alto grau de combatividade. No terreno, junto com esses Comandos Especiais, também se moviam tropas da FNLA e uma coluna sul-africana, a qual, inesperadamente, abandona o campo quando já se travava combate. Na sua retirada, deixam sem culatras as peças de artilharia, que deveriam proceder a um fogo de barragem, tornando-as tão inofensivas como se fossem gigantescos brinquedos de plástico. Se até ali, a vitória, por mais que sorrisse às expectativas dos que fechavam o cerco a Luanda, era incerta, como o é até ao final de qualquer pugna em todos os palcos da vida, a partir deste momento ficou escrito o triste destino de Angola. Muito mais tarde, em Lisboa, o valoroso comandante da força portuguesa, o mítico C.el Cmd. Gilberto Santos e Castro contou-me que o comandante sul-africano, ainda no TO, sem descravar os olhos do chão, só repetia que eram ordens de Pretória. Quem as deu? ---É sabido que Henry Kissinger havia passado em Pretória e deixara estampado o seu selo. Um selo, atenção, que não traz os versículos do Corão. Não descuremos isto se queremos acertar com a raiz do mal que tanto pavor vem causando.
4.      A República, Liv. V.
5.      Perfil do Marquês de Pombal, 7.ª ed.., Porto Editora L.da, p. 282.
6.     É óbvio que o dogma católico não é produto da Razão. Se o fosse, teríamos um conjunto descaracterizado e inseguro. Com efeito, tot sententiae quot homines. Resulta difícil e arriscado levantar um edifício por um grupo de arquitectos, em que cada um quer ver realizado o seu projecto. Mas só a inconsciência de uns ou a ignorância de outros ou, ainda, a malícia dos restantes podem negar coerência ao dogma católico. O dogma católico é, pois, uma realidade suprarracional, mas que não é antirracional. Por aqui se vê que Fé e Razão não se confundem, mas também não brigam entre si. De resto, só a inconsciência ou a ignorância ou a malícia, que acima se invocaram, podem, mais uma vez, contraditar isto. Nunca a Razão foi estigmatizada por Roma. «Verum etsi fides sit supra rationem (...) nulla tamen umquam inter fidem et rationem uera dissensio esse potest: cum idem Deus, qui mysteria reuelat et fidem infundit, animo humano rationis lumen indiderit, Deus autem negare se ipsum non possit, nec uerum uero tamquam contradicere. (…)» (D. cânone 1797). O negrito, nesta transcrição, foi inserido com o objectivo de chamar a atenção para as palavras mais decisivas. Ainda uma nota, a reforçar o que aqui se sustentou --- este cânone foi decretado no decorrer do 1.º Concílio do Vaticano, o qual, a par do de Trento, devem constituir os dois concílios mais dogmáticos de toda a história da Igreja Católica.
7.     Discurso sobre la dictadura. Também o nosso Oliveira Martins lhe chamou «César do racionalismo francês e a revolução personalizada.» (Portugal Contemporâneo, Liv. terceiro, cap. I, 3).
8.     Para os que professamos a religião católica, só há duas autoridades de direito divino: uma é a do Papa (e também a dos Bispos), a qual é de direito divino positivo (D 1823, 1825, e 1831, referentes ao Sumo Pontífice; e ib., 1821 e 1828, respeitante aos Bispos); e a outra é a dos pais de família sobre a prole gerada, e que é de direito divino natural. Tudo que gire fora deste eixo, é doutrina do protestantismo e de outras confissões religiosas. É verdade que S. Paulo ensina que todo o poder temporal vem de Deus (Rom. 13, 1). Mas a sua específica configuração, isso incumbe aos homens desenhá-la.
9.     Quando se ouve Ourique, é difícil não associar a uma difusa crença popular na aparição de Jesus Cristo, prometendo a vitória a D. Afonso Henriques. Se o Redentor se mostrou ao Rei, ou esta versão é mais um conto como tantos outros, o certo é que esta interrogação constituiu uma uexata quaestio, como era de esperar de um evento tão fortemente ligado à fundação da nacionalidade, para mais da natureza que é. Foi até ocasião de uma carta, firme e respeitosa, dirigida ao Patriarca de Lisboa  por Alexandre Herculano (Eu e o Clero, Junho, 1850), à qual se seguiu uma candente polémica, mas sempre polida e elevada nos termos e na substância, e que opôs o grande historiador, adversário do que ele chama fábula, aos redactores do jornal miguelista A Nação (Considerações Pacíficas, Julho, 1850; e Solemnia Verba, Outubro, 1850 e Novembro, 1850). Com efeito, o que corre não pode afirmar-se mais do que lenda, que falta à História comprovar. Mas que as lendas têm o seu peso na memória colectiva dos povos, isso é insofismável. Por isso, separando sempre o lendário e o histórico, Ourique bem pode manter-se como marco do Crisma que sagrou Portugal.
 

JMC

terça-feira, 11 de julho de 2017

CONTRA O ISLÃO?

 
Soam trombetas mensageiras de um perigo que alguns pintam de cores apocalípticas. Nos dias, que correm, difícil é que se acorde a som diferente daquele que se faz ouvir: é um bradar às armas contra o Islão! Podia, acaso, ser outra coisa que não fosse o aviso de um mal que, segundo nos asseveram, nasce lá nas paragens do Oriente, escondido nuns turbantes enrolados?
Porquê e para quê tal pânico que se vai generalizando em proporções de assustar? Está aqui o inimigo real? Repare-se! Se atacamos os Judeus, somos antissemitas. Mas se chamamos demónios aos que são Árabes, que labéu carregamos e que punição sofremos? Às vezes, tem-se a impressão de que só os Judeus são susceptíveis de doestos; as chanças e injúrias às outras raças, quando muito, não passam de inocentes brinquedos. E, se vão fora disso, é porque são merecidas. Ao menos, assim o crêem os passa-culpas de serviço à volubilidade das multidões ignaras. São servos obedientes ao verdadeiro agente da onda de pavor que nos vem atormentando. Alguns deles talvez sem consciência do mal que ajudam a disseminar, mas sempre dóceis ao mando criminoso que lhes ata as mãos e domina a vontade.
Volvamos um pouco atrás: Não são os Árabes tão semitas quanto o é o povo judaico? Se não o são, então que origem têm? É porventura distinta a ascendência de Ismael e de Isaac? Filhos ambos de Abraão, não entroncam um e outro no patriarca Sem?1 Os funâmbulos, que bailam na corda bamba da demagogia, não acham que sim nem que não. Eles nada pensam: pregam sermão de encomenda!
Dir-se-á: ninguém acusa para além de uma fatia bem determinada dos discípulos  de Maomé, e o certo é que os Árabes não esgotam o universo islâmico! Realmente, para esgotá-lo, faltaria contar ainda uns largos milhões. Devemos, pois, concluir: apesar de, por via de regra, serem maometanos os Árabes, isso não autoriza a que se pense: Árabe, logo maometano! Não são, com efeito, sinónimos e, por isso mesmo, os conceitos que traduzem não formam um conjunto indissociável. Esta assimilação é produto de vozes enganadoras soltas ao vento, e que tentam transformar o significado de cada um daqueles vocábulos de maneira que venham a fundir-se num todo inexistente. Resultado que, não obstante ser inviável, é ao mesmo tempo certo que, na sua forma tentada, é causa suficiente de estragos que cavam sulcos profundos nas mentalidades mais vulgares!
E é assim que, por umas bocas alarmadas se anuncia uma verdade cristalina: nem todo o Árabe é maometano, e há um imenso número de maometanos que não são Árabes. É nisto que importa assentar para conceder que, na sanha antijihadista de alguns, não houve um propósito de lesar o bom nome dos Árabes. Será mesmo assim? --- Não é crível. Porque de contrário, teríamos de concordar que, nas amaldiçoadas hostes do Islão, não há nem um árabe para amostra. Está visto que não: os guerreiros do Profeta são árias, do mais estreme sangue daquela raça! Recrutam-nos na Índia e no Irão, notoriamente dois dos países árabes mais representativos no cenário político deste mundo.
Conclusões neste ponto, só uma e da qual não se consegue escapar: dêem-lhe as voltas que quiserem porque o desfecho será apenas um --- quem ataca a mal designada Jihad, nos termos até agora publicamente usados, fere a dignidade do povo árabe. Para que a coerência não deixe de ter um significado moral e as palavras não percam o seu sentido, é forçoso acrescentar que o inimigo das pretensas forças mujahidin não é menos antissemita do que aquele que se refere, com palavras desairosas, ao povo judaico. Fiquemos pelo desaire nas palavras, que tanto basta para magoar uma nação como é aquela. Os seus filhos são muito delicados. Dão-se ares de ter reunido em si toda a sensibilidade do género humano!2
Ou estaremos condenados a ter de dar ouvidos a quem trata por tu as grandes religiões; lida familiarmente com as diferenças étnicas; e está a par dos objectivos estratégicos dos que têm nas mãos as rédeas do governo dos povos? É isso que desejam impor-nos? E, por cima deste conhecimento dos segredos guardados, ficaremos também obrigados a não esquecer a honestidade profunda e diáfana, de que incessantemente dão provas? Perante tamanho delírio, se os canais por onde reboam os ecos de uns depoimentos que, embora suspeitos, nos garantem que os maometanos são maus, apenas resta corrigir a qualificação em grau, porque é uma obrigação indeclinável precisar que os sequazes do Profeta são muito maus, são até malvados e hediondos.
Alguém que nos acuda! Falam de extremismo estes arautos, que vão de moda, mas o equilíbrio deles, onde está? Em que se mostra, afinal, a sanha islâmica? Quem, de modo tão cruento, lhe vai dando corpo? Se os Árabes, a quem uns mercenários que subvertem a desgraçada opinião pública vêm imputando a autoria do mal, se estes povos, insista-se, não são a totalidade do mundo islâmico, onde mais se encontram os bastardos que seguem o Profeta? Que seguem, ou que dizem seguir, ressalve-se já, porque o Corão não ensina a semear a táctica do terror. As hordas sanguinárias do ISIS são tão fiéis ao Islão como o Santo Padre de Roma é hindu ou budista.
Só um cego de espírito é incapaz de ver que o mundo está dessacralizado. No meio de um deserto religioso, não pode espantar que, entre os raros que ainda possuem da vida um sentido sobrenatural, despontem alguns exaltados. São esses, porventura, os soldados de Alá?
Terror é crime. Neste campo, impõe-se determinar quem são os agentes dos factos que se têm por criminosos. No caso que vimos abordando, estão bem identificados os autores materiais. Mas se a perpetração do crime não se fica por um ou por vários autores que agem, em conjunto, por sua livre iniciativa, e há alguém que dirige o que outros fazem, então estamos em presença da coautoria moral. Isto não é certamente de inferior gravidade. Pode mesmo gerar uma maior responsabilidade, porque mais intensa costuma ser a culpa que acompanha a participaçãodo do autor moral no crime que se julga. Importa pois investigar se, no presente flagelo terrorista, há a mão de alguém mais do que aqueles que descem ao terreno.
Antes de qualquer resposta, convinha que nos debruçássemos sobre a lição do passado. Alexandre Herculano chamava à História «a profecia do futuro.»3 Que nos diz, então, a mestra do tempo?
Citado Herculano, não deve surpreender que o excurso histórico diga, muito de perto, respeito ao que toca a Portugal. É universal a preocupação pela anunciada ameaça do Islão. Portugal, todavia, ainda antes de fundada a sua nacionalidade e a par do que hoje é Espanha, foi palco de uma experiência que não repugna aceitar como a expressão fiel da expansão árabe por este mundo de Deus. É nesta convicção que se evocará, no essencial, a memória do seu trânsito por terras da Península Ibérica.
 Os Árabes, quando aqui chegaram, imprimiram fortemente o seu selo por um espaço de tempo que durou mais de sete séculos. Passada a primeira vaga de assalto, que tudo parecia tragar, o ímpeto afrouxou porque também foi fraca a resistência oferecida por uma sociedade que mostrava todos os sinais de decadência. Não foi, pois, um exército de saque e pilhagem aquele que se derramou cobrindo as soalheiras terras da Península, a mesma que, hoje, Portugueses e Espanhóis dividimos. Nem de longe o foi, ao menos, com aquela intensidade que é costume num exército que vem para conquistar. De um ou de outro modo, é lei constante na cronologia dos povos o emprego da força por parte de quem invade: se vence, impera; derrotado, tem de retirar. Foi o que se viveu neste extremo ocidental da Europa: primeiro, nas margens do Guadalete; mais tarde, junto aos muros de Granada. E vem de molde recordar que os Árabes, já no desembarque e depois, encontraram abertas as portas da Península: os Judeus, desgostosos com a mão pesada dos concílios hispânicos e principalmente com o que eles denominaram a perseguição de Sisebuto, «(…) em toda a Espanha fizeram causa comum com os invasores»,4 porque esperavam deles a tolerância que não achavam na sociedade visigótica.
Essa tolerância confirmou-se efectivamente, junto deles e também a favor dos cristâos, ao contrário do que uma propaganda viciosa não se cansa de espalhar. Essa flexibilidade, no campo religioso, era comum a outros pontos por onde os Califas estenderam o seu império. Aqui, na Península, ficou bem conhecida a classe dos moçárabes, formada pelos cristãos submetidos ao domínio árabe. De resto, essa transigência religiosa era francamente vantajosa sob o ponto de vista fiscal: os que se convertiam deixavam de pagar imposto. É sabido como, no Egipto, a conversão dos cristãos coptas ao islamismo indispôs o poder muçulmano. Portanto, muito convinha que ficassem agarrados às crenças religiosas que professavam. Era esta a política praticada pelos Árabes, que tinham por hábito distinguir entre os idólatras ou pagãos e os povos do Livro, categoria que incluía judeus e cristãos. Com os primeiros --- kafir --- o seu radicalismo era impiedoso: ou se convertiam à palavra de Maomé, ou eram exterminados; para os demais, tolerância!
Sob o tecto da então Mesquita de Córdova, a exemplo do que acontecia em muitos outros lugares de culto, a parte virada ao Oriente era destinada aos muçulmanos, e na outra cabiam os cristãos. É certo que os constrangimentos não foram poucos: as manifestações públicas do culto cristão, ainda que consentidas, provocavam frequentemente a mofa dos vencedores, a qual por vezes, revestia um comportamento de declarada animosidade. No entanto, havia uma mútua penetração resultante da sensível benignidade com que os Árabes tratavam os vencidos. Oliveira Martins atribuiu-a a um desdém que não se ocultava.5 Fosse como fosse, era realidade o respeito dos que dominavam na Península Ibérica pelas instituições que os hispano-romanos guardavam da monarquia goda. As autoridades, tanto as civis quanto as eclesiásticas, regiam-se por normas que eram herança do império derrubado e que formavam a sua cultura própria. E, apesar da maior ou menor aspereza nas relações mútuas de vencedores e vencidos, as populações lá se iam cruzando.
Para outro vulto eminente da historiografia hispânica --- o espanhol Menéndez Pelayo --- a situação social e religiosa da população peninsular nativa não era tão mirífica. A este respeito, o juízo daquele emérito autor é muito mais severo e denuncia a inclemência do rigor ditado pelos Califas a partir do ano 850.6 Contudo, Oliveira Martins introduz uma nota que permite atenuar o rigor daquela opinião, quando sustenta «(…) que nunca os Árabes seguiram à risca o código promulgado. (…) e que quase sempre o modus uiuendi das populações cristãs provinha de tratados especiais como sucedeu na Espanha.»7
Na verdade, por mais aguda que tenha sido, nalgumas ocasiões, a hostilidade vivida contra os naturais da Península, em nenhuma época foram estes obrigados a buscar refúgio nas catacumbas como séculos antes ocorrera aos primeiros cristãos da Roma pagã. O que de fanatismo intransigente possa ter havido cá, pela Península, só muito fugaz e acidentalmente terá sido obra de Árabes. A génese de uma dura opressão começa ainda em tempo dos Omíadas, fugidos à carnificina levada a cabo pelos Abássidas, e que tiveram em Almançor o seu mais potente braço armado. Daqui, o governo passou aos Almorávidas. Foi um governo que, na pessoa do temido Yusof, de modo nenhum foi fácil de suportar nas zonas ainda não remidas pela Reconquista. Seguiu-se a dinastia dos Almóadas, os quais nada dispuseram de mais suave. Com a queda destes, surgem os Merínidas, teimando na mesma política de perseguição religiosa. Todas estas dinastias, excepto a Omíada, eram dinastias oriundas do Norte de África. Ora o Berbere não é um Árabe.
Entretanto, o extenso império, cujos horizontes florescentes Tárique e Musa rasgaram, aproximava-se do seu ocaso. Matavam-no causas internas e causas externas, como sempre sucede a todo e qualquer domínio temporal erguido pelos homens: era a proliferação dos reinos de taifas que o roía, e o progressivo avanço das fronteiras cristãs que simultaneamente acentuavam a dissolução de um corpo que foi formidável. Obedecia, enfim, ao que é o curso normal de todos os impérios: nascem; atingem o cume; e decaem. E o que, então, foi alargado pela força, ou possa voltar a sê-lo futuramente, não era, nem será por certo o Islão, mas sim uma ânsia de conquista e domínio que transtorna mentes e corações. Uma vez, pelo menos, como é o caso da ocupação da nossa Península, a traição foi articulada em palavras que nada tinham de árabe e por bocas que não eram de maometanos. Nem a tendência para a opressão nem uma insofrida sede de sangue podem confundir-se com a nação árabe. Aqui, nem sequer se faz apelo a um critério equitativo para proclamar isto mesmo, porque é de temer que os perversores da identidade árabe não compreenderão o sentido da palavra equidade. Esperemos que a eficácia do pedido se baste por ser feito em nome da mais fria lógica!
Os fogos, que se vão ateando, fazem subir as labaredas de um conflito antigo e que, agora como nunca, está crepitante --- é o dilema que se resume na disjuntiva Árabe-Judeu.
Quando não é o momento de zurzir o povo árabe, é porque é altura de o amesquinhar. Porquê? O acto de amesquinhar é sempre ou infame ou imbecil. De facto, se o alvo da zombaria é um pobre diabo, temos que a acção de rebaixá-lo, além de cruel, é o recurso dos incapazes em ascenderem e se comprazem, portanto, em torturar os mais fracos, única compensação que têm para as suas limitações; se tem valor, é crassa a estupidez da troça. Com os Árabes, é este o caso. Recusar méritos ao povo árabe, quando este é um povo que pode legitimamente orgulhar-se de um valiosíssimo contributo à cultura universal, é um atentado à verdade histórica  tão grave como, não importa a época nem o sítio onde isso se verificar, gozar o que foi criado e desprezar o criador.
Deve-se muito a este povo. Foram grandes, enormes em muitos campos: filosofia; matemática; astronomia; medicina; arquitectura; agronomia. Tentar roubar-lhes a glória deste passado brilhante, seria o que a doutrina jurídica classifica de crime impossível. O que, acrescente-se a título interlocutório, não anula a malícia de quem assim age. Espelho de ingratidão, é o menos que se lhe pode chamar.
A sua pujança intelectual inspirou o pensamento filosófico de S. Tomás de Aquino. Tendo bebido na ciência antiga que brotava das fontes gregas de Platão e Aristóteles, por um lado, e havendo mergulhado na tradição patrística, este Doutor da Igreja não desdenhou escutar o magistério dos Árabes. Tirou dele  os argumentos que podiam harmonizar-se com a Revelação Bíblica, e tratou-os a essa luz. Esse labor produziu o que é, de sempre, uma das mais extraordinárias obras da inteligência humana. A Teologia católica saiu a ganhar.
Enquanto corria a Reconquista Cristã, nos paços reais e em outros lugares de destaque, era assídua a presença actuante de médicos, filósofos, astrónomos e mais sábios de extracção árabe. As bibliotecas proliferavam e, no seio delas, abrigava-se um número assombroso de volumes. É fama que sob os Omíadas de Córdova se reuniram mais de meio milhão. No Cairo, a febre de leitura também era altíssima. E do apurado gosto de quem tinha a seu cargo a selecção bibliográfica, dá nota o facto de ser Aristóteles o mais procurado e apreciado pelos leitores. Entre tantos luminares dos mais variados ramos do saber, não deixará de ser curiosa esta preferência por aquele que é marco milenar da filosofia ocidental.
O Árabe tinha e ainda hoje tem imaginação fértil. Sem espírito imaginativo, a arte é difícil ou até impossível. Arquitectura não é toda a cultura humana e, de modo algum, a arte se resume nela. Porém, se a estimamos suficientemente e quisermos percorrer um roteiro de maravilhas arquitectónicas, quem poderá negar que impressiona e encanta o rasto deixado pelos Árabes? Nem o tempo, que apagou boa parte desse legado, evita que, aqui ou noutra parte, gozemos essas obras-primas, seguramente já igualadas em preciosismo artístico, mas dificilmente superáveis. Tais monumentos são  autênticos tesouros saídos da magia a que chega o engenho humano. Aqui é difícil resistir à tentação de lembrar uma particularidade no outro ramo da família semita, precisamente o que, nesta peça, vem sendo posto em posição frontal aos Árabes: enquanto estes deleitam pela perfeição estética, os Judeus, como protótipo da mais límpida beleza, fundam bancos com as suas caixas-fortes e, a cada esquina, levantam um balcão que eles dizem estar às ordens do povo! As construções dos primeiros elevam; as dos últimos são um valhacouto de perfídias.
O apóstolo S. Paulo ensina que a perfeição invisível se pressente pelo que foi criado.8 Nos minaretes de uma mesquita, palpita o anseio de se passar os limites do contingente; em contrapartida, é bastante difícil descobrir fome do que é eterno no dinheiro que tomba no fundo de uma arca. Só nas linhas da mesquita, que constrói, o Árabe já está rezando ao Omnipotente; o Judeu, tristemente, põe a Divindade em cada cobre que amealha.9
Espiritualidade na arquitectura é um regalo que o povo árabe legou à Humanidade. As mesquitas são, para o Crescente muçulmano, o mesmo que foram as catedrais góticas para o Ocidente cristão: os minaretes daquelas são agulhas que apontam ao Céu, murmurando a oração de Maomé; os arcos ogivais, as naves do interior e os pináculos das catedrais, tudo isto desperta em nós a imagem do cristão, que une as mãos numa prece a Deus.
Depois desta visita ao valioso museu do passado árabe, é chegado o momento de identificar os autores morais do terrorismo que se derrama sobre o mundo. É tarefa que custa pouco trabalho e não vai reclamar muito tempo. Aqui, o apontar de dedo aos culpados, que ficam na sombra, não é propriamente o mesmo que pronúncia num julgamento formal. Assume a dignidade de um juízo que pertencerá também à História, e a exigência desta nesses requisitos é de diferente natureza. Embora nos seus juízos, a História procure uma decisão definitiva, como aliás cumpre a qualquer ramo do conhecimento humano fazer, a descoberta da verdade dos nossos comportamentos só se transforma em certeza, após sentença final a proferir por um Tribunal legítimo; à História vão bastando indícios seguros para apreciar as acções dos homens. Essa missão prolonga-se no decurso das nossas vidas e o seu exercício é não só um direito, como principalmente constitui um dever para cada um de nós. Essas páginas, que vamos escrevendo na História, têm sobre os Tribunais a altíssima vantagem de vir eventualmente a corrigir os erros que estes cometem: em linguagem jurídica, na História está constantemente aberta a via para uma cadeia de processos de revisão.
Partindo destes antecedentes, tentemos então isolar os responsáveis morais pela calamidade que nos vem assolando.
O ISIS tem bases no Iraque e na Síria. Ninguém ignora a proximidade geográfica destes países a Israel: o último até lhe é fronteiriço. Há notícia de algum ataque terrorista ou até mais convencional ao território de Israel? Ou a interesses judaicos espalhados por todo o lado? --- Nem uma! Então quem alimenta esta legião de extermínio? --- É a Coreia do Norte? A China? Será o próprio Irão, pertíssimo do território onde se instalou a cáfila assassina? Ou mesmo a Rússia? --- Não é sensato supor nenhuma destas origens! Seria até ridículo admiti-lo! Lá temos, como é hábito, os Estados Unidos, esse foco revolucionário da nossa era, colosso descomunal que, não obstante os ventos de mudança que parecem soprar em seu redor, ainda vai alojando no seu imenso bojo o santuário da judiaria internacional. É assim que se vai traçando um percurso sem aquela nitidez que a congruência nos dá, porque, mais que ambíguo, é contraditório de uma à outra ponta. Porém, só à superfície, este caminho é paradoxal: na raiz, é isto mesmo o devir histórico da nação americana. Se hoje parece condenar o inimigo, amanhã já lhe dá o braço e com ele acende o fogo da impiedade. A cólera só pode quebrar as Tábuas da Lei, em sinal de protesto, quando há um Moisés para receber outras novas. E, no domínio temporal, é este o drama contemporâneo: o de estarmos desgraçadamente privados de um chefe que nos liberte da servidão aviltante, para a qual nos arrastaram os adoradores do  bezerro de ouro, os quais se vão repetindo século após século.10 Continua por aparecer o varão suscitado por Deus. Grandes são as nossas faltas!
Haja decoro e, a seguir, um pouco de equilíbrio no raciocínio, que tanto bastará. Não há efeito sem causa e todo o agente actua com um fim determinado. O terrorismo não se exime a esta regra. Quando posto ao serviço dos potentados terrestres, é uma das vias execráveis por onde se vai a um domínio que arrasa nações, destrói culturas e reduz a pó a civilização humana.
Só uma miopia em adiantado grau ou uma gravíssima carência moral de autenticidade impedirão descortinar que o nervo motor do terrorismo é o dinheiro, conclusão que não pode ser afastada no caso que aqui se aborda. Se é evidente que a insofrida sede do ouro pode perverter o coração de qualquer um de nós, não é facto menos incontornável que um povo há com especial disposição para tratar o metal luzente com grande intimidade --- são os Judeus. Do capital, quando lhe tocam, parece que colhem aquela volúpia que o amante tira ao afagar o corpo da mulher amada. Esta particular feição da sua personalidade, aliada à inviolabilidade das suas fronteiras e à imunidade de teres e haveres, no meio da actividade desenvolvida pelo Daesh, é verdadeiramente inquietante!
De mistura com tudo isto, à nossa volta, a carnificina não pára de crescer. É trágico. O número de mortos e feridos aumenta a cada dia. A sangueira é medonha. Como está reagindo a Europa ao alastramento e à arrogância de uma estranha barbárie, açoite moderno dos povos e que já não se pode esconder? --- Mais miserável do que é seu costume desde um passado que começou a desenhar-se com a revolução antropocêntrica, esta Europa pecadora e, por isso mesmo, uma Europa que inspira dó, parece apenas empenhada em fazer peito ao Brexit, ao rombo no acordo de Paris e a umas quantas coisas mais com que, em nome da democracia, os seus amos ocultos  desejam estrangular os que já não estão interessados nelas, ou nunca estiveram. Sem ponta de garbo, porque a tanto a reduziu a anemia de que sofre, a Europa floreia o estoque diante dos Estados Unidos, enquanto exibe uma impotência confrangedora para defender, como lhe competia, os bens primários e que são igualmente os bens supremos da pessoa humana: a vida e, sobretudo, a dignidade moral e espiritual dos seus naturais. Quando o eixo dos cuidados imediatos, a ter em conta, se desloca do essencial para o que é secundário, o panorama torna-se desolador e bem pode a comunidade prantear os seus pecados.
De que servem manifestações de rua, com um número insignificante de presenças, em território hostil quando não é céptico e indiferente (o que o torna pior), que frutos produzem esses grupos, pergunta-se de novo, se não houver o propósito de algo mais do que passear uma Cruz e distribuir folhetos? É que, dali, nada mais sai do que uns apontamentos para os clássicos meios de comunicação social, deformados e deformantes, sendo  pois uma pura perda de tempo. Sem embargo do que acaba de expor-se, algum mérito se tem de reconhecer, pelo assombro demonstrado, àqueles que assim se aventuram. Contudo, não passa disso mesmo: aventura, que é algo muito distinto de um acto em que o risco foi ponderadamente calculado. Tem havido uns arranques de indiscutível coragem como réplica às explosões de ferocidade, que são do conhecimento público. Isto prova somente que bravura é predicado ainda não de todo extinto em quem se pode opor, embora os esforços de varrê-la sejam visíveis.
Nenhum cristão ignora o poder que tem a Cruz, como signo da Redenção; mas nenhuma pessoa sensata deve esquecer que, por vezes, à espada também pode estar reservado um papel na missão de garantir uma ordem conforme à lei natural. Tal missão, expressivamente definida pela figura bordada sobre o saio que o cruzado vestia, transmite a ideia de que  há uma espada, se a empunhamos por cima; cruz, se lhe pegamos abaixo. O que infalivelmente nos induz a ver o desenho do gládio, durante o combate legítimo; e se descobre o madeiro do suplício, na paz que for justa. Ou será que pretendem meter-nos à cara a repetição de um Pedro, o Eremita, ressuscitado? Não é um presságio animador, por razões bem sabidas.
Já se adivinha o coro pacifista. Atroa os ares, ribombante! É um coro de fôlego cheio, conquanto desafinado, porque perdeu ou nunca teve o diapasão que poria na sua frente a pauta de uma melodia ética.11 E não se inibe de vociferar: Isto é fundamentalismo com outra cor! Um discurso assim, berra o coro, é um discurso belicista, é o grito de quem ainda não abriu os olhos para uma idade de perfeita concórdia do género humano, na demissão dos preconceitos que esmagam, e na entrega generosa e passiva de vidas e fazendas (principalmente se forem as vidas e as fazendas dos outros, faltou que acrescentassem). Junto destes, nasce o sagrado dever do Jornalista pregar a sua catequese, proclamando ser feio o apego a coisas temporais e revestidas de tanta materialidade. Catequese que é hipócrita, visto que outra coisa não pode ser uma catequese proveniente do jornalismo.
Realmente, certo desprendimento é virtude muito louvável. Louvável que é, procure-se que essa virtude seja louvada. O que resulta difícil é louvar essa catequese por parte de quem está no jornalismo. E é difícil porque nunca se sabe quando um jornalista é genuíno. De uma ou de outra forma, o seu peso na questão de fundo aqui falada tem a valia que deriva da perniciosa influência do seu lastimoso ofício. Nalgumas ocasiões, é façanha quase homérica não ver em algumas das suas obras o dedo do Príncipe da Mentira.
Para esbater equívocos, atente-se nestas palavras finais:
A violência é condenável. Mas a força, que ampara o Direito, não é violência e, consequentemente, é uma arma lícita. Não adianta pedir compreensão para isto, a quem afivela ao rosto a máscara de uma mansidão nada credível, ao mesmo tempo que engrossa as fileiras dos que aceitam ser mentores ou os porta-vozes de uma propaganda tão terrorista como o terror que dizem reprovar. É muita essa gente e da mais variada espécie: políticos, que são mandaretes; profissionais da comunicação social; e, até, os que passam como moralistas. Será, pela certa, trabalho vão esperar que entendam a distância que separa violência e força, em grau que os faça confessar isso mesmo, porque entender, poucas dúvidas restarão de que, há muito, o entenderam. O que lhes falta, nuns casos, é coração animoso para aliviar o aro de ferro que os asfixia; outras vezes, será ausência de humildade para reconhecer o erro.
Neste tormentoso problema, poderá ser esse o primeiro passo em direcção à Paz verdadeira! 
Joaquim Maria Cymbron
 
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1.   Gn. 11, 36; 16, 16; 21, 2. Tem sido uma constante, ao longo de todo este blogue, ir buscar as citações bíblicas à Vulgata. Desta vez, porém, atendendo ao especial melindre do passo aqui versado, decidi recorrer ao TOB, editado por Livre de Poche. É óbvio o motivo: espero assim deixar bem vincado que as passagens, para que remeto, não foram tiradas da cabeça de nenhum ultramontano.
 
2.   O pormenor em dizer toda a sensibilidade do género humano não foi uma mera construção de frase: os Judeus --- os Judeus hodiernos, não os Patriarcas e os Profetas do Antigo Testamento, e obviamente, nos tempos messiânicos, Jesus, Sua Mãe Santíssima, S. José e os Santos Apóstolos, sem esquecer todos quantos, filhos de Israel pela carne, o foram e continuam a sê-lo também pelo espírito --- estes Judeus ufanam-se de constituir a única espécie humana sobre a Terra. Daí, que tivesse confluído ao sistema nervoso deles, por inteiro, a sensibilidade que uma criatura humana podia ter. Eles, e só eles, são essas criaturas!
 
3.   O Pároco da Aldeia, V (Lendas e Narrativas, Tomo II, Livraria Bertrand).
 
4.   J. Lúcio de Azevedo --- História dos Cristãos Novos Portugueses, Livro Primeiro, I.
 
5.   História da Civilização Ibérica, Livro Segundo, IV.
 
6.   Historia de los Heterodoxos Españoles, Liv. II, c. 2. Cumpre lembrar que o ano de 850 pertence ao período em que os Omíadas já dominavam na Península muçulmana, e a política deles assumiu uma feição de rigor religioso ortodoxo, nos termos que, logo abaixo da opinião do autor espanhol aqui invocado, resumidamente se expõem e se explicam no texto principal.
 
7.   Supra 5, ib. Oliveira Martins alude ao célebre cânone do Califa Omar.
 
8.   Rom. 1, 19 e s.
 
9.   Os Judeus surdos à Boa-Nova.
 
10. Impõe-se sempre estar sobreaviso: é doutrina segura para a grei católica que toda a criatura humana, com excepção da Virgem Maria, cai em pecado. Portanto, ninguém há que não tenha violado os mandamentos divinos, ou não venha a fazê-lo. Porém, os Judeus, na sua incontestável condição de mais antigos herdeiros da promessa directa de Salvação, têm uma obrigação especialmente acrescida de fidelidade a Deus. E é a teimosa rejeição, que aqui se regista, o que sinceramente se lastima. Sobeja a esperança da palavra de S. Paulo, anunciando a futura Iudaeorum conuersio (Rom. 11, 25-32). Por outro lado, nem só a cupidez do ouro é pecado: em rigor, mais que origem dessa desordem, ela é, in se, uma das consequências do apetite de um mando que não conhece limites, que se tem a si próprio como fonte desse mesmo poder, enfim, da soberba que é o princípio de todo o pecado. (Eccli. 10, 15).
 
11. Este coro é o que Antero, entre outros epítetos nada macios, chamava o «monstro formado de todas as contradições, (…) vulto escuro que interpõe sempre a sua forma confusa entre a verdade e os homens (…) maldição das sociedades democráticas (…).» (Prosas da Época de Coimbra, 1.ª ed., Sá da Costa, 1973, p.p. 214 e s.) 

JMC