sábado, 25 de Outubro de 2014

BERGOGLIO E "L' ORGOGLIO"


Conforme prometido, foi publicada a mensagem que fechou o recente Sínodo dos Bispos. Optei por seguir a versão italiana (1), língua em que foi redigido o documento. Quem preferir outra, basta procurar no sítio oficial do Vaticano.
 
Enquanto ele decorreu, ergueram-se vozes insanas anunciando catástrofes apocalípticas. Partiram de gente que arde em altruismo, mas alguma dela possuída de uma histeria desmedida. Diz essa gente que é sua intenção salvar o povo de Deus, desviando-o do abismo que se abre debaixo dos pés de todos nós. Os clamores de fim do Mundo voltaram mais uma vez a ouvir-se, e agora correram porque, afirmava-se de ciência certa, os divorciados novamente casados e as parelhas homossexuais iam ter acesso à mesa da Sagrada Comunhão. Do primeiro grupo, lê-se na mensagem que os Padres Sinodais tinham riflettuto sull’accompagnamento pastorale e sull’accesso ai sacramenti dei divorziati risposati; a respeito das uniões homossexuais, nem palavra!
Foi a doutrina católica atacada pelo diploma saído deste Sínodo? Que dogmas, que sentenças, que cânones sofreram com ele? Eu não descubro um só ponto que sofresse danos. Na formidável muralha da Igreja, nem um lanço foi atingido. Nada estremeceu, nenhuma brecha abriu, tudo permaneceu firme e inabalável! Podiam ter sido mais explícitos, na redacção dada a lume? Talvez. Mas, saltar daqui até ir parar a um infindável rol de calamidades, a distância é grande. Para ser mais exacto, direi até que se torna num autêntico desaforo. Por mim, limito-me a dizer que a Igreja não se esqueceu que a prudência é a mais importante de todas as virtudes morais e que, sem ela, nenhuma das outras vale. Mestra desse mesmo ensinamento, como podia alguém esperar que não se lhe sujeitasse?
 
É coisa que não deixa de espantar-me, ver como as vozes enganadoras, que criam este clima de inquietude e pânico, irrompem de pessoas que  primam especialmente por uma escassíssima cultura e fraca formação intelectual. De uma ponta à outra, há anemia e despudor naquilo que bolçam da boca para fora. A menos que mintam consciente e deliberadamente, o que acaba por agravar o comportamento tido.
Pululam em diversas capelinhas, outras tantas seitas tal qual sucede na Maçonaria, onde cada uma é de diferente obediência. E, como esta, o único denominador comum que têm é funcionar como açoite de várias pontas, com o qual flagelam a Igreja de Roma.
Lefebvrianos; epígonos de Plínio Corrêa de Oliveira; e outras castas de integristas constituem legiões que não ficam atrás dos maiores heresiarcas dos tempos pretéritos, os quais também se apresentavam como núncios da ortodoxia e asseveravam vir para restaurar a Igreja prostituída pelos pecados da hierarquia, pecados esses que a desviaram da sua primitiva pureza. Isto é o que nos contavam e contam. Porém, não trazem mais do que sobressaltos e desorientação. No seio destes hierofantes e adoptando estratégias análogas, até se destaca, imagine-se, um arcebispo ortodoxo que garante trabalhar pelo bem da Igreja de Roma, sem contudo nos confessar os motivos que o impedem de voltar ao redil de onde fugiu qual ovelha tresmalhada, pondo asssim cobro, pelo menos, à sua defecção. Esta limpidez de processos, mutatis mutandis, já serve, nem que seja um pouco, para aquilatar da honestidade deste exército, movido por tão nobres propósitos de salvação da Igreja.   
Ministros de fancaria de um fantástico Santo Ofício, privados de todo o imperium, que de iure nunca possuirão, e sem qualquer poder de facto, que também jamais alcançarão, entretêm-se numas lides incruentas, mas nem por isso menos perniciosas.  
Depõem Papas como quem deita um trapo ao lixo --- não fazem a coisa por menos. Ignoram ou calam que prima sedes a nemine iudicatur (2), preceito que o direito canónico consagra e que se conjuga em perfeita harmonia com o primado da jurisdição universal do Pontífice Romano, primado que foi dogmaticamente definido pelo 1.º Concílio do Vaticano (3). A generalidade, se não mesmo a universalidade deles, proclama-se monárquica no temporal. Entretanto, esquecem que os Reis de Portugal, desde D. João V, usavam o título de Majestades Fidelíssimas. E Fidelíssimos porquê? Por uma fidelidade inconcussa à Santa Sé. Ora sem Papa não há Igreja. Derribar o Papa, é derribar a Igreja. É lançar por terra todo um edifício, um edifício colossal, o Templo Sagrado. Qual vai ser, pois, o objecto da nossa fidelidade histórica, enquanto Portugueses?
Não obstante tudo isto, com os seus procedimentos, vão minando o terreno e preparando as mentes para que estas aceitem a subversão da noção hierárquica, como medida legítima para uma crise que ajudaram a crescer, se é que também não a criaram de braço dado àqueles que zurzem farisaicamente. Querem, repito, que os fiéis depositem docilmente, nas mãos do Concílio, força suficiente para sobrepor-se ao Papa. E se um concílio estiver infiltrado pela Maçonaria ou, por qualquer outra causa, não for do agrado deles? --- É de remédio fácil: estoira-se com esse e ergue-se outro. Entrando por esta via, tudo poderia acontecer. Uma consequência indefectível seria a de reabrir caminho a uma heresia sufocada em Basileia. Em suma: os monárquicos, que existem no meio destes inquisidores de pacotilha, negam à Igreja o que querem no século. Ou desejam ir mais longe, ao ponto de instaurar um poder ao estilo dos Césares da antiga Bizâncio? Meta que, dados os vícios que os roem, não é de excluir.
Aqui temos os arautos de uma desgraça que, mais do que profetizá-la, vão precipitando de gorra com os que eles apontam como sendo os principais agentes de um próximo naufrágio da Igreja. Estes sinistros pregoeiros mostram-se contumazes na obra de devastação. Não lhes chamarei Sacerdotes do Templo, porque não são decerto ministros do Senhor. O nome, que se lhes ajusta, será o de Sacerdotes do Tempo. Sacerdotes e Sacerdotisas.As Sacerdotisas, mais do que eles, assumem uma particular fisionomia. Não é só pelos defeitos intrínsecos do que sustentam, que o estudo destas figuras convida ao exame. A contradição formal em que caem, com frequência acentuadamente maior do que os seus cúmplices masculinos, também obriga que a nossa atenção se fixe sobre elas.
Casualmente, travei conhecimento com uma que constitui paradigma digno de nota, numa dimensão que, infelizmente, não é positiva. No entanto, a ausência de qualidade é o comum dentro desta classe.
Por malícia ou crassa ignorância, como acima já eu disse, ela sempre está pronta a discorrer sobre tudo como, de resto, fazem os demais que a acompanham neste desvairado apostolado. A consciência ou inconsciência da impreparação sobre a matéria, que trata, não a estorva. Decide-se, e aí vai ela. A lição de S. Paulo (4), a quem tanto gosta de recorrer, quando lhe dá jeito, não a inibe: ou a ignora; ou esquece-a pelo tempo e na extensão que lhe convier. Entre outros percursos teológicos, onde foi que tentou penetrar esta Doutora da Igreja? No mistério da SS. ma Trindade! Nem mais, nem menos. Foi, portanto, ao mistério fundamental da nossa fé. Fundamental e o mais oculto. Além disso, um dos mistérios mais misteriosos da religião católica, releve-se a aparente redundância. A ciência teológica chama-lhes mistérios estritamente ditos, significando isto que superam o entendimento do homem e dos anjos.  
Mas a Sacerdotisa, de que me ocupo, não se amedrontou. Lá se dirigiu, com a afoiteza do costume. Afoiteza que não ia desacompanhada da sua leviandade habitual e bastante prosápia. Fê-lo, porém, com manifesta infelicidade. A certa altura já falava de Pessoa Una, que depressa passou a Pessoa Trina. Eis aqui uma exposição do dogma trinitário, que me colhe de surpresa pela sua novidade! Juro que nunca antes ouvi igual despropósito. Que metamorfose é esta? É sabido que devaneios febricitantes não tardam a conduzir ao reino dos mitos.

Em noite de tempo agreste e hora já muito adiantada, ainda concebo o quadro de uma só pessoa a subir a rua das Trinas, em Lisboa. É uma aproximação grosseira? --- Está longe da precisão desejada, mas para tamanho desconchavo não se arranja melhor. Nem merece a pena que nos estafemos a encontrar paralelo. A Sagrada Escritura, como nem de outro modo podia ser, guarda uma lição admirável para casos como este. Com efeito, nela se lê: «Não respondas ao louco segundo a sua loucura, para não seres semelhante a ele.» (5) Todavia, para que o orgulho do dementado não lhe pinte de formosas cores o desatino que verteu, acrescenta logo a seguir: «Responde ao louco segundo a sua loucura, para que ele não se julgue sábio.» (6)
Entre a mofina gente, onde comunga a criatura que me suscitou estas linhas, há quem viva dominado pelo pavor da actual divisão que se desenha na Igreja. Desta vez, não deliram: a divisão existe e também o perigo de que aumente. Mas não acredito muito no temor que dizem sentir. De divisões, está cheio o passado da Igreja: umas (felizmente raras) acabaram em cisma; as outras, não. E pela que hoje os traz apreensivos, se ainda lhes sobra consciência e são capazes de remorso, bem podem bater no peito pelo que contribuíram e contribuem para ela.
Estultamente, colocam no Concílio Vaticano II a origem dos presentes males da Igreja. Erro este que é muito mais do que um erro primário, tanto como se se imputasse ao 25 de Abril as culpas da desordem e da ruína que se abateram sobre Portugal. E porquê? Porque o 25 de Abril foi a espoleta da crise que vivemos, mas as suas causas é atrás que se situam: a relaxação de costumes arrancava a galope, com uma necessidade doentia de imitar experiências do estrangeiro e subjugada pela ideia de um duvidoso progresso, ao mesmo tempo que assistíamos à subversão política, por influência de correntes obnóxias que sopravam de fora; em contrapartida, o Concílio posto diante de uma insofismável dessacralização da vida quotidiana, fruto de um profundo decaimento na fé, rasgou a via para reagir ao que já vinha afligindo a Igreja. Portanto, mesmo que fosse um concílio nefasto, seria antes que teria de buscar-se a génese da enfermidade que a atacava. Não admitir isto é a cegueira incapaz de avistar o Sol, em dia claro. E se ocorre por acinte, não é cegueira porque é crime!
Todos os heresiarcas foram monstros de orgulho. Repetiram e repetem o grito de Lúcifer, o anjo rebelde: Non seruiam! Levantar o punho contra o Papa, num gesto de revolta, é um acto de orgulho, sinónimo de soberba. E a soberba é o princípio de todo o pecado.» (7)
 
Joaquim Maria Cymbron

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  1. www.press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2014/10/18/0768/03043.html
  2. CIC, can. 1404.
  3. Dz. 1831.
  4. 1 Tim. 2, 12.
  5. Prov. 26, 4.
  6. Ib., 26, 5.
  7. Ecli. 10, 15.
JMC

segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

AS DUAS COLUNAS


Guilherme Almor de Alpoim Calvão morreu. Não caiu como o roble que era: à semelhança de outra glória do Ultramar, que também agonizou na cama de um hospital, acabou com algum sofrimento. Foi mais um sacrifício que Deus lhe pediu.
Liguei aqui o seu nome à memória de Alberto Rebordão de Brito. Fi-lo sem vacilar. Os heróis sempre se irmanaram e nenhum apaga o lustre dos outros. Saem invariavelmente engrandecidos, quando colocados lado a lado. E até quando pertencem a campos opostos, o respeito entre eles é uma constante indesmentida. A inveja só tem lugar nos mesquinhos corações de quem, incapaz de ascender, procura que os demais baixem.
O conjunto, ora formado, integra-se decididamente na categoria da concórdia reinante entre almas de eleição, no campo da coragem. Viveram os mesmos perigos; a fama beijou-os merecidamente; e, pior que a hostilidade porque dói muito mais, sofreram por igual o esquecimento como paga dos serviços prestados. Num estreito abraço da admiração e da saudade que, a esta hora enchem o meu peito, parece-me pois que é justo unir as duas formidáveis colunas do Corpo de Fuzileiros.
A data de 30 de setembro de 2014 entra inequivocamente na história de Portugal. Com efeito, esse foi o dia em que se finou um dos maiores heróis nacionais. E, sendo o amor à Pátria, o mais santo e puro amor que há, logo abaixo do amor a Deus, temos sobejas razões para esperar que a bem-aventurança da Pátria celeste se oferece, generosa e ridente, àquele que tanto amou a Pátria que Deus lhe destinou ao criá-lo, porque terá achado que essa Pátria, que é a nossa, precisava dele!
R.I.P.

Joaquim Maria Cymbron

segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

PRINCÍPIOS INEGOCIÁVEIS

 
Princípios inegociáveis? Ignoro o que sejam! Haverá, porventura, princípios negociáveis? Em bom rigor e são critério dialéctico, julgo que qualquer princípio é inegociável, sob pena de trair a sua natureza de princípio. Assim penso, e conto vir a demonstrar como é correcto.
Tanto quanto alcanço, princípios, princípios sem mais --- e não sei de outra espécie, insisto, --- são os fundamentos sobre os quais assentamos a construção de uma doutrina, autênticos alicerces do edifício onde se guarda o sistema político, económico ou social que temos como justo. Ali se encerra a nossa filosofia de vida no que é temporal, sem nunca esquecer a vocação sobrenatural, esse convite à salvação eterna que a todos foi dirigido. Se a razão natural basta para atingir a certeza da existência de Deus (1), a fortiori pode o homem conhecer, com verdade lógica, os princípios mais adequados ao preenchimento do exemplar divino. São princípios imorredouros e, nessa qualidade, não sofrem qualquer tipo de arranjos, espontâneos ou forjados.
 
Por isso, a doutrina, que acatamos, ou está conforme à verdade, ou anda afastada dela: no primeiro caso, são intangíveis os princípios em que fundamos as nossas crenças; na outra hipótese, também nada existe para negociar, porque a única opção, que se oferece, é corrigir o que há de errado com o propósito de encontrar o caminho da verdade perdida.
 
Àquele que se deixa assaltar pela dúvida de que são inegociáveis os princípios que formam as bases da sua mentalidade e da sua maneira de estar no mundo, se for honesto só lhe resta uma saída: rever os seus princípios, e se resultar que decaiu na convicção da bondade do credo até aí professado, crie então outra escala de valores, e apresente-se com nova identidade moral, assumindo o nome que lhe couber. Agora, sustentar que apenas meia dúzia de princípios merecem o estatuto da intangibilidade, eis aí algo que não hesito em repudiar.

Todos os princípios, na sua génese, na sua marcha e na sua finalidade, devem reconduzir-se à unidade, à verdade, à bondade e à beleza do Ser. Estes atributos transcendentais, os quais pela sua universalidade são absolutamente necessários, conferem ipso facto um valor indefectível aos princípios que neles encaixam, sem excluir nenhum. Uma simples excursão por terrenos da ontologia, e temos tudo o que a razão põe à nossa disposição, com suficiência plena, para resolver o problema da ascese pessoal ou do convívio com o semelhante.
Pergunto:

Contidos nos atributos enunciados, que espanto pode causar que todos os princípios tenham a mesma categoria? Com que autoridade se separam uns dos outros? Será demasiado pedir que se compreenda que há pontos de apoio, dos quais o agente arranca com o objectivo de tocar o cume da santificação, a que está chamado no plano misericordioso de Deus? Ora esses pontos são outros tantos princípios. Efectivamente, «(...) hoc nomen principium nihil aliud significat quam id a quo aliquid procedit;» (2). Como podem, pois, negociar-se se o seu objectivo é servir a efectivação dos princípios que alguns (e, neste segmento, bem) decretam que não permitem a mínima renúncia?
Quem se despir de preconceitos, terá de conceder que, no domínio do temporal, o legitimismo é o único sistema capaz de responder ao que se quer preservar com a observância dos chamados princípios inegociáveis. Tem a exclusividade? --- Se atendemos à primazia da qualidade, a resposta é forçosamente afirmativa, porque é aquele que, se for aplicado cumprindo a sua pureza abstracta, tanto quanto o homem pode aproximar-se do ideal, perfaz melius et conuenientius a nobilitante missão de orientar a cidade terrestre em direcção à cidade celeste.

Alianças escoradas nestes princípios, ditos inegociáveis, não servem a ninguém porque descaracterizam todos. É tamanha a amálgama que, a certa altura, não se defende nada: nem os princípios inegociáveis, nem os negociáveis, aceitando como válida tão triste e infeliz distinção. Os que se encontram em comunhão connosco, crendo no que classificam como princípios inegociáveis, se estão de boa fé, que se juntem a nós; se aguardam o contrário, será porque querem algo mais, e não têm de admirar-se se concluirmos que então se desvanece a sua recta intenção.
No esforço contínuo de penetrar na essência das coisas, não vejo outro direito além de poder requerer condições a fim de dar matéria e forma ao que é nosso dever realizar.

A obrigação de cumprir só na monarquia se manifesta com luminosa clareza, porque essa obrigação se reflecte na primeira figura da grei pelo simples facto do nascimento. Em mais nenhuma instituição humana, a consequência entre nascimento e serviço é tão estreita e inexorável.
O herdeiro do trono, por força do berço que o acolheu, recebe o encargo de servir, reinando; cada homem, ao renascer para a graça através do baptismo, contrai outro vínculo que parece o oposto do anterior: reinar, servindo. Parece, disse eu. Mas não é. A sequência verbal não é suficiente para que dela se conclua pela diferença --- no fundo, é do mesmo que se fala porque Rei posto e gente comum, todos são herdeiros da promessa que dá o prémio onde houver serviço: só a servir é que se reina; e apenas se chega à coroa da bem-aventurança, quando se serviu. E o que daqui resulta há-de sempre ser para glorificação de Deus Omnipotente, sem o que se constrói em vão.

Se é verdadeiro o juízo de que viemos para servir --- e é piamente que nele acredito--- temos provada a excelência da forma monárquica para regimento dos povos. Falei de forma monárquica, a que se plasma nos moldes da monarquia tradicional, a única digna desse nome. Porque nos simulacros a que dão o nome de monarquia, não se descortina ponta de serviço real. Não o descortinamos, nem podemos avistar pela razão de que serviço pressupõe responsabilidade, e os reis dessas monarquias são irresponsáveis por definição constitucional. Ou antes: por defeito constitucional, um aleijão que algumas vezes transforma em pigmeu quem poderia ter sido um gigante.
No dia em que me convencer de que é negociável o princípio monárquico, será porque ou enlouqueci, ou perdi noção do significado das palavras. Ao mesmo tempo, partindo da firme opinião de que nenhum princípio é negociável, sob pena de que, se o fosse, seria tudo menos princípio merecedor de veneração, também não há razão para fugir a uma aliança circunstancial. O todo informe, desfecho fatal onde desembocarão os que se revolvem na incredulidade da existência perene do princípio legitimista, um princípio indestrutível como todos os princípios que não se dispõem a perder o foro daquilo que são --- princípios ---, passando à tranquibérnia do que calha dizer, esse amontoado sem rosto, que nos permita saber de quem se trata, não é propriamente o mesmo que lutar ombro a ombro. Momentos há, nos quais o combate lado a lado é não só lícito como até obrigatório.

De resto, a dicotomia princípios inegociáveis-princípios negociáveis gera um contraste, falso no seu âmago, e perigoso na sua prática. É uma situação muito próxima da teoria do mal menor. Contudo, o mal menor, apesar da repugnância natural que desperta em nós, sempre tem a seu favor uma causa escusante: a não-exigibilidade, a qual não se verifica na questão aqui abordada, pelo menos com igual frequência e a mesma intensidade. Em contrapartida, o fabuloso confronto, que nos absorve, surge com uma nota agravante e que é o de ser mais enganador, porque tem a dose de alguma sedução. Com efeito, no momento de optar pelo mal menor, tem-se consciência do erro que comporta a nossa decisão; quem deixa para trás os pretensos princípios negociáveis, voga nas ondas de um mar de aparente bonança, mas corre risco de soçobrar porque esqueceu o rumo de bom porto.
Nunca dei, nestas estranhas coligações, por nada de inegociável fora dos dogmas de quem não comunga connosco em toda a linha: os outros princípios, esses são negociáveis e, portanto, prescindíveis. Isto é uma desastrosa ilusão, porque é grande, mesmo enorme a probabilidade de acabar em tragédia. Antevejo --- e Deus me perdoe se é temeridade --- que ou fazemos o mesmo que Ulisses, ou, arrastados pelos cantos de novas sereias, iremos navegando de encontro às rochas que nos hão-de fazer naufragar.

Os anos e o estudo que os vem acompanhando confirmaram o que, talvez por índole temperamental, eu já intuíra: a rigidez nunca é vício próprio;  está sempre com os outros. E o meu passado não regista um episódio de cedência por parte dos que apregoam a sua própria flexibilidade. Por isso, surpreende-me a facilidade com que gente provadíssima na defesa da ortodoxia e da mais inconcussa fidelidade à Tradição se deixa embalar por melopeias, que são outras tantas embustices.
Ao longo destas linhas, mais de uma vez confessei abertamente a minha devoção política ao legitimismo. Também ficou explícito como entendo que é um princípio inderrogável e o motivo por que o é:

Do direito, dispõe-se; o dever é para ser escrupulosamente observado. O peso deste fardo aumenta, à medida que se vai subindo na hierarquia do século. Ocupando a mais alta posição na escala humana da esfera temporal, a autêntica majestade real está condenada, em sumo grau, ao dever de servir. É a sua uia crucis, mas é igualmente por onde se vai desdobrando o caminho da sua ascensão à Glória. Como Salomão, saiba o Rei pedir sabedoria para exercer com êxito a sua espinhosa tarefa! (3)
Regresso, pois, à correspondência entre o direito e o dever. E recordo ter afirmado que a razão de ser do direito está subordinada ao exercício do dever. Na curtíssima relação, que estabeleci, deixei categoricamente gravada a ideia de como o homem, mais do que titular de direitos, é sujeito de deveres. Nada mais acrescento a este respeito, porque se então as minhas resumidas palavras não convenceram, também não será agora pela extensão que virá o acordo.

Para mim, a ordem desta composição é evidente. E da evidência  não pode dizer-se que dispensa demonstração: a evidência nega a demonstração, porque dela é que se parte para provar o que se pretende. E até, no plano moral, não se tem notícia de santo que brade por direitos, mas sim preocupado pelas faltas cometidas e sempre animado da vontade de melhorar. Santo ou herói desprendido, que é outro modo de santidade, nada pedem, nem esperam em troca, dão-se por inteiro em prol do comum. Leiam-se os hagiológios, compulsem-se os anais militares e nenhum desmentido ali se encontrará ao feito irrecusável e frequente que é o da oblação da própria vida.
É altura de concluir:

Os princípios não se negoceiam como se fossem mercadoria, cujo preço oscila ao sabor das flutuações próprias da lei da oferta e da procura. Há princípios genuínos e, a par destes, correm máximas que nos confundem porque são trapaças, inconscientes ou maldosas.

Todos os princípios têm de germinar, desenvolver-se e terminar na verdade. Quem falar em princípios inegociáveis, na eventualidade de emitir um juízo certo, abre porta à existência de princípios negociáveis. Tal opinião transporta o morbo do relativismo. De facto, esta desgraçada divisão dos princípios não consegue impedir que se levante a interrogação de ser também negociável o princípio lógico-formal que afirma a sua suposta realidade: se a resposta for negativa, incorrem em contradição; se se decidem pelo sim, então nada disseram. Pelo que não tem dignidade de princípio senão aquilo «a quo aliquid procedit» (4), que é coerente e que está acima de qualquer transacção!
 

Joaquim Maria Cymbron

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1.      Dz. 1806.
2.      S. Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica, I, q.33, a.1.
3.      1 Rs. 3, 9.
4.      V. supra, 2.

JMC

sexta-feira, 6 de Junho de 2014

FIDELIDADE E ESPERANÇA


Este blogue é um espaço dedicado à política. E nele se busca desenvolver a política que melhor sirva os interesses de Portugal. Mas comunidade humana, onde impere uma política esquecida ou alheada dos princípios religiosos, é como corpo individual sem alma --- um monstro!

Filho que sou da Nação Fidelíssima, não fujo ao encargo de proclamar que, se a rota de Portugal se desviar de Roma, então Portugal, cego à luz das Cinco Chagas e surdo ao apelo do Salvador, atraiçoou a missão em que foi investido nos campos de Ourique (1). Realmente, não faz sentido que, nesta terra de Santa Maria, despontem arautos de uma pretensa fé cristã, que não reconhece a cabeça visível da Igreja e cobre de aleivosas acusações, tanto a doutrina dos últimos pontífices como a pastoral de um concílio ecuménico. E porque pisam chão que a Mãe de Deus sagrou com a Sua amorável presença, esta ousadia devia chocar qualquer católico, particularmente se esse católico também se prezar da condição de português.

Sob o ponto de vista formal, importa destacar que é de uma pobreza confrangedora o discurso de que deitam mão: chegam ao consequente sem provar a verdade do antecedente; e, nos seus viciosos racicínios, chamam demonstração ao que afirmaram em tese. Quem não se ajusta ao modo de pensar destes apóstolos, tem a sorte traçada.  Estes campeões de uma falsa ortodoxia abrem a caixa das excomunhões e fulminam o desgraçado: anathema sit!

Para eles, a sede pontifícia está vaga desde Pio XII. Os que sobem ao trono de S. Pedro são antipapas que já ardem ou acabarão ardendo no fogo eterno. Esta espécie deturpada de maus inquisidores, quando instada a apresentar o catálogo de erros que o seu suspeitíssimo fervor aponta, só a muito custo acede a fazê-lo. Um houve, um só, que veio alinhar o que ele acha merecedor de censura, assumindo a autoria exclusiva do que me enviou e, portanto, a inteira responsabilidade pelo que escreveu.

Pelas já longas relações que mantenho com eles, posso assegurar que é uma cópia, se não exacta, pelo menos muito aproximada do pensar e estilo do comum destas gentes: a argumentação, com variações aqui e ali, plasma-se nos clássicos moldes a que já me habituaram (2). São conservadores. E o conservadorismo, porque padece de uma obsessão estática, mostra-se incapaz de acompanhar o dinamismo e a mobilidade do Ser: é, pois, um pecado ontológico. Conquanto de forma diferente, não deixa de ser tão revolucionário como o progressismo. Ambos são fonte de desordem. E, no assunto aqui trazido, não parece temerário adiantar que o conservadorismo causa ainda maior dano, porque a cor tradicionalista de que se reveste, sempre tão cara aos espíritos de boa fé, engana os menos cautos. Tradição e conservadorismo guardam entre si a mesma distância que vai da luz e do calor da vida às trevas e ao frio da sepultura!


 


Frederico de Castro 1 – Sobre o Concílio Vaticano II.


(a) O direito civil à liberdade religiosa.


Onde está: Declaração sobre a Liberdade Religiosa Dignitatis Humanae, parágrafo 2.
O que diz: “O Concílio declara, além disso, que o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da pessoa humana… Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa deve ser reconhecido no ordenamento jurídico da sociedade, de modo que se torne um direito civil.” (Declaração sobre a Liberdade Religiosa Dignitatis Humanae, parágrafo 2)

O que contraria: Quanta Cura do Papa Pio IX e Post Tam Diuturnas de Pio VII.

Censura Teológica: HERÉTICO.
Resposta:
Não refuto esta transcrição porque efectivamente ela reproduz palavras que constam do documento citado por si.
Pena é que não tivesse continuado porque se o fizera, logo veria o seguinte: «De harmonia com a própria dignidade, todos os homens, que são pessoas dotadas de razão e de vontade livre e por isso mesmo com responsabilidade pessoal, são levados pela própria natureza e também moralmente a procurar a verdade, antes de mais a que diz respeito à religião. Têm também a obrigação de aderir à verdade conhecida e de ordenar toda a sua vida segundo as suas exigências. Ora, os homens não podem satisfazer a esta obrigação de modo conforme com a própria natureza, a não ser que gozem ao mesmo tempo de liberdade psicológica e imunidade de coacção externa. O direito à liberdade religiosa não se funda, pois, na disposição subjectiva da pessoa, mas na sua própria natureza.» (ib.)
E antes afirma-se:
«Em primeiro lugar, pois, afirma o sagrado Concílio que o próprio Deus deu a conhecer ao género humano o caminho pelo qual, servindo-O, os homens se podem salvar e alcançar a felicidade em Cristo. Acreditamos que esta única religião verdadeira se encontra na Igreja católica e apostólica, (...).» (o negrito é meu; ib., n.º 1).
Refere o Frederico que a doutrina proclamada neste documento contraria os ensinamentos de dois Papas: quanto ao primeiro, digo-lhe que não vejo inconciliabilidade entre esta declaração e o magistério daquele grande Papa; a respeito de Pio VII, lembro-lhe que da Post tam diuturnas não se encontra o original latino (anda perdido), pelo que ficando-se o Frederico por uma apreciação tão generalizada, sem transcrever uma só passagem, eu não impugno nem concedo.
Para mim, o mais importante está na transcrição feita por si, textualmente incompleta, o que prejudica a sua análise. Sem prejuízo desta omissão, a qual impede uma leitura correcta do documento em análise, cumpre-me acrescentar o seguinte:
A certeza de ser a religião católica, apostólica, romana a única religião verdadeira é uma base comum de que arrancam tanto Pio IX como o Concílio Vaticano II. Divergem no modo como falam da relação do homem com ela, sem contudo se afastarem no que aqui há de substancial. Para Pio IX a necessidade de professar a religião católica, apostólica, romana, para alcançar a saúde da alma, tinha como consequência lógica a proibição de qualquer outro culto religioso e, coerente com esta doutrina, o Papa incluiu o indiferentismo e o latitudinarismo no Syllabus, esse formidável hino à Verdade; o Concílio optou por reconhecer uma realidade insofismável, qual seja a de pluralidade de cultos, declarando contudo que todos têm obrigação de procurar a verdade e que a única religião verdadeira se encontra na Igreja de Roma, com o qual implicitamente afirma que há o dever de rejeitar as demais religiões. De facto, aquele que está obrigado a procurar a Verdade aqui, tem o dever ou está proibido, conforme se prefira, de a não buscar ali.
Portanto, no meu juízo, o que sustenta o Concílio Vaticano II, nesta declaração, nada tem de ofensivo da fé católica. Apenas assistimos a dois estilos diferentes de expor a mesma doutrina.
E, fora deste documento, o Concílio ensina ainda:
«O sagrado Concílio volta-se primeiramente para os fiéis católicos. Fundado na Escritura e Tradição, ensina que esta Igreja, peregrina sobre a terra, é necessária para a salvação. Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr. Mc. 16,16; Jo. 3,15), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar.» (3).
Chamo a sua atenção para o último período deste trecho. Sinto, com bastante desgosto, que tenha ficado esquecido nas suas alegações.
Passo à al. b).
Frederico de Castro (b) A Revelação foi completada na Crucifixão.
Onde está: Declaração sobre a Liberdade Religiosa Dignitatis Humanae, parágrafo 11.
O que diz: “Finalmente, Ele completou a Sua Revelação quando realizou na Cruz a obra da Redenção, pela qual alcançou a salvação e verdadeira liberdade para os homens.” (Declaração sobre a Liberdade Religiosa  Dignitatis Humanae, parágrafo 11)
O que contraria: Concílio de Trento (Sessão 6, capítulo 14).
Censura teológica: HERÉTICO.
Resposta:
Li o capítulo 14 do concílio tridentino, para a frente e para trás, e não consigo ver qualquer ligação entre o que ali se estatui e o teor do documento promulgado pelo Vaticano II. De resto, para quê o trabalho de procurar naquele concílio magnífico a doutrina da graça. Não foi por Cristo que fomos salvos? Não foi Ele que nos libertou da servidão do pecado? Que erro se vê aqui?
Portanto, passo à al. c)
Frederico de Castro (c) Seitas heréticas e cismáticas são meios de salvação.

Onde está: Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 3

O que diz: “As igrejas e comunidades separadas, enquanto tais, embora creiamos que padeçam dos defeitos já mencionados, não estão de forma alguma despojadas de sentido e de importância no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não se recusou a usá-las como meios de salvação, os quais derivam sua eficácia da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja Católica.” (Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 3).
O que contraria: Concílio de Florença (Papa Eugênio IV (1441)):

“A Santíssima Igreja Romana firmemente crê, professa e prega que nenhum daqueles que estão fora da Igreja Católica, não só pagãos, mas também judeus e hereges e cismáticos, podem ter parte na vida eterna; mas que irão para o fogo eterno que foi preparado para o Diabo e seus anjos, a não ser que, antes de morrer, entrem nela…”
Censura teológica: HERÉTICO.
Resposta:
Mais uma vez, calam-se excertos bem eloquentes. Lastimo, francamente.
Antes do texto citado pelo Frederico, pode ler-se:
«Também não poucas acções sagradas da religião cristã são celebradas entre os nossos irmãos separados. Por vários modos, conforme a condição de cada Igreja ou Comunidade, estas acções podem realmente produzir a vida da graça. Devem mesmo ser tidas como aptas para abrir a porta à comunhão da salvação.» E, logo abaixo, a lição é esta: «Contudo, os irmãos separados, quer os indivíduos quer as suas Comunidades e Igrejas, não gozam daquela unidade que Jesus quis prodigalizar a todos os que regenerou e convivificou num só corpo e numa vida nova e que a Sagrada Escritura e a venerável Tradição da Igreja professam. Porque só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação (o negrito é meu), pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares. Cremos também que o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança ao único colégio apostólico, a cuja testa está Pedro, com o fim de constituir na terra um só corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus. Este Povo, durante a peregrinação terrena, ainda que sujeito ao pecado nos seus membros, cresce incessantemente em Cristo. É conduzido suavemente por Deus, segundo os Seus misteriosos desígnios, até que chegue, alegre, à total plenitude da glória eterna na celeste Jerusalém.»
No primeiro trecho omitido, o Concílio é claro ao dizer que «(...) estas acções (...) devem mesmo ser tidas como aptas para abrir a porta à comunhão da salvação.» Para abrir (sublinho esta última palavra). No segundo troço que terá ficado por referir, é manifesto o propósito de proclamar a excelência da Igreja de Roma e, mais que excelência, a sua exclusividade para garantir a salvação. De contrário, nem faria sentido que lá constasse que «(...) só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares.» Só pela Igreja católica de Cristo (só, outra palavra a sublinhar).
Por último e para evitar uma torrente de citações, lembro-lhe o Breve Singulari nobis, de Bento XIV, no qual este Papa deixa claro que «um herege baptizando alguém, se aplica a forma e a matéria legítima, esse alguém fica marcado pelo carácter do sacramento.» (ib., parágrafo 12).
Depois disto, que é doutrina constante da Igreja, sustentar que não estamos perante um meio de salvação porque foi administrado por um herege, pergunto: Então que é? É um meio de perdição ou de maldição? Valha-nos Deus!
Passo à al. d)
Frederico de Castro (d) Oração pública em comum com hereges e cismáticos é útil e louvável.
Onde está: Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 8.

O que diz: “Em algumas circunstâncias peculiares, como por ocasião das orações prescritas ‘pela unidade’ e em reuniões ecumênicas, é lícito e até desejável que os católicos se associem aos irmãos separados na oração. Tais preces comuns são certamente um meio muito eficaz para impetrar a graça da unidade. São uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados” (Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 8 ).
O que contraria: Cânon 1258 do Código de Direito Canônico de 1917.

OBS: o Cânon 1258 não era uma lei puramente eclesiástica. Representa em parte uma aplicação da Lei Divina; e nem mesmo um Papa é capaz de abolir uma Lei Divina (nem de dispensar dela). Prova plenamente suficiente de que uma Lei Divina está em questão pode ser encontrada na seguinte instrução sobre o tema da “communicatio in sacris cum acatholicis” dirigida aos católicos pelo Cardeal Allen em sua carta de 12 de dezembro de 1592:
Censura teológica: ao menos ERRÔNEO NA FÉ para a primeira proposição e HERÉTICO para a segunda proposição.
Resposta:
Desta vez, observo uma confusão lamentável. O cânone citado (e eu só tenho a versão em latim do CIC de 1917) decreta, com efeito, que não é lícito aos fiéis, por qualquer modo, assistir ou ter parte activamente em ofícios de não-católicos. Simplesmente, isto é uma coisa e outra, bem distinta, o que o Concílio autoriza, que não é de perto, nem de longe, um ofício de não-católicos: está claramente expresso que são reuniões de católicos e de não-católicos.
Passo à al. e)
Frederico de Castro (e) A geração e educação da prole não é a finalidade primeira do matrimônio.
Onde está: Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno Gaudium et Spes, parágrafo 50.
O que diz: “O matrimônio e o amor conjugal ordenam-se, por sua própria natureza, à procriação e educação da prole. Os filhos são, aliás, o maior dom do matrimônio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. O mesmo Deus que disse: ‘não é bom que o homem esteja sozinho’ (Gên. 2,18) e que ‘criou o homem, no princípio, como varão e mulher’ (Mt. 19,4), querendo comunicar-lhes uma participação especial na Sua obra criadora, abençoou o varão e a mulher dizendo: ‘Sede fecundos e multiplicai-vos’ (Gên. 1,28). Por isso, o cultivo do verdadeiro amor conjugal e toda a estrutura da vida familiar que daí promana, sem menosprezar os outros fins do matrimônio, tendem a dispor os cônjuges a cooperar corajosamente com o amor do Criador e Salvador, que por meio deles aumenta e enriquece a Sua família cada dia mais.
Os esposos sabem que, no ofício de transmitir a vida humana e de educá-la – o qual deve ser considerado como a missão deles própria –, eles são cooperadores do amor de Deus Criador e como que seus intérpretes. Por isso, desempenharão este seu encargo com responsabilidade humana e cristã; formarão um juízo reto, com um respeito cheio de docilidade para com Deus e de comum acordo e empenho, tendo em conta o seu próprio bem e o dos filhos já nascidos ou que estão previstos para nascer, sabendo ver as condições do tempo e da própria situação, tanto materiais quanto espirituais, e finalmente levando em consideração o bem da comunidade familiar, da sociedade temporal e da própria Igreja. São os próprios esposos que devem, em última instância, formar esse juízo, diante de Deus. Mas tenham os esposos consciência de que, no seu modo de proceder, não podem agir arbitrariamente, mas de que se devem guiar pela consciência, a qual se deve conformar à lei divina, e ser dóceis ao Magistério da Igreja, que interpreta autenticamente essa lei, à luz do Evangelho. Essa lei divina põe em evidência a plena significação do amor conjugal, protege-o e leva-o à sua perfeição verdadeiramente humana. Assim, quando os esposos cristãos, em espírito de sacrifício e confiança na divina Providência, exercem a função de procriar com generosa responsabilidade humana e cristã, glorificam o Criador e caminham para a perfeição em Cristo.

Entre os esposos que deste modo satisfazem à missão que Deus lhes confiou, devem ser especialmente lembrados aqueles que, após reflexão prudente e decisão conjunta, aceitam corajosamente uma prole mais numerosa, para educar convenientemente.
Porém, o matrimônio não foi instituído só para a procriação da prole; mas a própria natureza da aliança indissolúvel entre pessoas e o bem da prole exigem que o amor mútuo dos esposos se exprima convenientemente, cresça e amadureça. Por isso, mesmo que os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, faltem, o matrimônio continua sendo toda uma forma e comunhão de vida, conservando o seu valor e indissolubilidade.” (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno Gaudium et Spes, parágrafo 50).
O que contraria: Cânon 1013 do Código de 1917: “O fim primário do matrimônio é a procriação e educação da prole.”
Censura teológica: ERRÔNEO.
Resposta:
Depois de uma extensa transcrição, toda ela um hino sublime ao fim primário do matrimónio, vem o Frederico concluir que este excerto do Concílio Vaticano II contraria o cânone 1013 do CIC de 1917. Palpita-me que não leu todo o primeiro parágrafo daquele cânone porque, se o tivesse feito, logo depois daquilo que citou, encontraria o enunciado do fim secundário do matrimónio, expresso nas seguintes palavras: «(...) auxílio mútuo e remédio da concupiscência.»
Além do mais que culpa há em qualquer um dos cônjuges ferido, por exemplo, de esterilidade unilateral absoluta, ou que ambos sejam relativamente estéreis? Declara-se nulo um casamento que já tenha sido consumado?
Repare que o Concílio declara (e vem na sua citação):
«Por isso, mesmo que os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, faltem, o matrimônio continua sendo toda uma forma e comunhão de vida, conservando o seu valor e indissolubilidade.» «Os filhos, tantas vezes ardentemente desejados (...)» friso bem este segmento com o propósito de evitar mais esquecimentos para além do já assinalado na parte final do primeiro parágrafo do cânone que invocou.
Lamento mais esta argumentação, eis tudo quanto posso dizer!
Passo à al. f)   
Frederico de Castro (f) Os judeus não são apresentados na Escritura como rejeitados ou amaldiçoados.
Onde está: Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 4.
O que diz: “E embora a Igreja seja o novo Povo de Deus, nem por isso os judeus devem ser apresentados como reprovados por Deus e malditos, como se tal coisa se concluísse da Sagrada Escritura.” (Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 4).

O que contraria: Mateus 21,33-45, Mateus 27,25, conforme ensina São Jerônimo, por exemplo.
Censura teológica: HERÉTICO.
Resposta:
Na sua opinião, este trecho contraria o evangelista São Mateus. É, segundo diz, a lição de São Jerónimo. Pena foi que não a tivesse transcrito.
E, na censura teológica que faz recair sobre o mofino pedaço que extrai desta Declaração, afirma que estamos perante uma heresia. Fico assim a saber que São Paulo foi outro herege porque sustentou que “Deus tamen non repulit populum suum” e vaticinou “futura Iudaeorum conversio”, segundo destaca a Vulgata (4).
Mas, com o Frederico fiel ao seu costume, lá fica outro troço no olvido. E, caso curioso, é um que antecede imediatamente aquele que é mostrado por si. Era olhar só um bocadinho para trás. Diz assim:
«Ainda que as autoridades dos judeus e os seus sequazes urgiram a condenação de Cristo à morte (13) não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo, o que na Sua paixão se perpetrou.»
Pelo meu lado, sempre julguei que Cristo tinha morrido para resgatar todos os homens do pecado original, no qual o género humano incorreu, quando os nossos primeiros pais comeram o fruto proibido. E daí, nunca ter deixado de entender que eu também fui um dos culpados da morte de Cristo. Agora, sou notificado de que os matadores foram os Judeus.
Porque será que nunca vi nenhum adversário do Concílio Vaticano II exprobrar o comportamento de Pilatos, figura emblemática do liberalismo, sistema tão ligado à Tradição como é possível realizar a quadratura do círculo?
Que é a Verdade? Pergunta-base do relativismo, insídia mais perigosa que a pior de todas as desordens que podem afligir o pensamento humano. E esta interrogação fê-la o magistrado romano ao Redentor.
Por isso, Pilatos foi ambas as coisas: liberal e relativista! Quanto a mim, o seu lavar de mãos, atendendo à autoridade de que estava investido, é muito menos inocente da Paixão de Jesus do que a demência da turba, que teve o comportamento de qualquer multidão enlouquecida por um vozear enganador. No entanto, entre os que descobrem o Diabo em cada passo do Concílio Vaticano II, não conheço nenhum que aponte o dedo acusador a Pilatos. É estranho!
Passo à al. g) 
Frederico de Castro (g) Cristãos e judeus têm um patrimônio espiritual comum.

Onde está: Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 4.
O que diz: “Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima” (Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 4).
O que contraria: A Igreja ensina que, longe de cristãos e judeus terem um patrimônio espiritual comum, o traço mais significativo daquilo que os judeus da Era Cristã herdaram de seus ancestrais espirituais – aqueles que arquitetaram a Crucifixão – consiste na rejeição total do Deus Encarnado e também da Aliança do Antigo Testamento. A Igreja sempre instruiu os seus filhos a rezar pela conversão dos “pérfidos judeus” (como na liturgia da Sexta-Feira Santa).
Ressalte-se sobre o assunto um interessante ensino de Dom Antônio de Castro Mayer:
“Os cristãos, porém, receberam o patrimônio que herdaram do antigo povo judeu, e não do povo judeu do presente. O povo judeu do presente não pode ser descrito como sob todos os aspectos fiel à revelação do Antigo Testamento, dado que recusam aceitar o Messias que foi a causa de toda a Lei Antiga. Os israelitas do presente são antes os sucessores daqueles que São Pedro declara terem entregue Jesus à morte e os quais São Paulo declara que a justiça de Deus abandonou a terem um coração endurecido (Atos 3,13; 5,20; Romanos 10,3; 11,7). Portanto, não parece correto falar de maneira igual referindo-se aos judeus de antanho, que foram fiéis a Deus e ao Messias por vir, e referindo-se aos judeus do tempo presente. Dos primeiros, a Igreja recebeu e guardou fielmente o patrimônio dela, ao passo que os judeus de hoje, pelo contrário, empobrecem aquele patrimônio por sua infidelidade. Pela mesma razão, segue-se que diálogos com judeus devem ser introduzidos apenas com grande precaução, como é o costume – ou ao menos sempre foi – na Igreja. Ademais, o Concílio não deve abandonar esse costume a não ser por influência de razão grave, a qual deve ser explicada aos fiéis.” (Atas do Segundo Concílio do Vaticano, III:III, p. 161)
Censura teológica: OFENSIVO A OUVIDOS PIOS.
Resposta:
Para não fugir à regra, mais um trecho truncado:
«Sendo assim tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos.» Que perda há da identidade católica com este convite?
Concedo que cumpre distinguir entre os Judeus dos tempos bíblicos e os actuais. Estes, na sua esmagadora maioria, não professam religião nenhuma: também há nos hebreus de raça uma aflitiva perda do sentido sagrado da vida. Creio de muito maior probabilidade, descobrir entre os prosélitos a observância da lei mosaica que entre os Israelitas do presente (acantonados na Palestina ou em diáspora).
«(...) diálogos com judeus devem ser introduzidos apenas com grande precaução, como é o costume – ou ao menos sempre foi – na Igreja.» Não é este o ensinamento que se colhe das palavras do Sr. D. António de Castro Mayer, por si trancritas? Com que autoridade se atribui ao Concílio uma intenção diferente? Onde foi que o Concílio exortou à demissão ou à abdicação?
Recorro ao que respondi na alínea a):
«O sagrado Concílio volta-se primeiramente para os fiéis católicos. Fundado na Escritura e Tradição, ensina que esta Igreja, peregrina sobre a terra, é necessária para a salvação. Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr. Mc. 16,16; Jo. 3,15), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar. (5)
Quando isto se declara e se repete, não direi até à exaustão porque ninguém deve cansar-se de proclamar a Verdade ou de a ouvir, se isto sucede, repito, parece-me que só com grande temeridade, sem prejuízo de mais severa censura, poderá alguém acusar o Concílio de ter atraiçoado o depósito da fé.
Passo à al. h)
Frederico de Castro (h) Dissensões passadas com os muçulmanos devem ser esquecidas.
Onde está: Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 3.
O que diz: “No decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e inimizades. Este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua…” (Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 3)
O que contraria: A Igreja Católica tem o direito e a obrigação, instituídos por Deus, de (a) dizer às pessoas o que elas devem crer e (b) governá-las – em suma, o direito e o dever de ter a palavra final –, é naturalmente impossível que quaisquer “discórdias e inimizades” que tenham permanecido não resolvidas possam ser culpa dela. Noutras palavras, qualquer pessoa ou instituição que tenha dissentido da Igreja Católica está inescapavelmente em erro por ter recusado submeter-se ao julgamento dela.

[8. Ver Lucas 10,16 (“Quem vos ouve, a Mim ouve”) e Mateus 18,17 (“Se não ouvir a Igreja, considera-o como um pagão e um publicano”).]

Em segundo lugar, a ideia de que a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, a imaculada Esposa de Cristo, cuja alma é o Espírito Santo, o Espírito da Unidade, pudesse ser causa de discórdias e inimizades pode talvez ser descrita da melhor maneira como fantástica. É tão ridículo quanto sugerir que a Igreja tenha sido responsável pelas discórdias e inimizades que surgiram entre cristãos e muçulmanos ou sugerir que Nosso Senhor foi responsável pelas “discórdias e inimizades” de que os Evangelhos estão repletos e que culminaram em Seu assassinato judicial. Não estamos aqui negando que Nosso Senhor foi “um alvo de contradição” (Lucas 2,34), é claro, nem que Ele “não veio trazer a paz mas a espada” (Mateus 10,34), nem tampouco que essas duas observações aplicam-se à Igreja de Nosso Senhor não menos que a Ele próprio. Mas as ideias de que Nosso Senhor e Sua Igreja sejam de qualquer modo culpáveis pela contradição e “a espada” e que os conflitos do passado tenham aflorado por falta de “compreensão mútua” têm apenas de ser declaradas, para as suas implicações blasfemas ficarem expostas. Longe de haver falta de “compreensão mútua”, mal precisa ser dito que Nosso Senhor e Sua Igreja sempre entenderam os seus inimigos perfeitamente. E discórdias e inimizades entre a Igreja e o resto do mundo são causadas simplesmente pela recusa dos homens e nações de submeter-se à sábia, amantíssima e tenra direção e domínio maternais da Igreja.

Nega a verdade de que a Igreja Católica é igualmente perfeita em sua prática (onde isso consista de diretriz ponderada e não das ações ocasionais de católicos individuais) quanto o é em seu ensinamento.
Censura teológica: em (I) é no mínimo TEMERÁRIO; em (II) é BLASFEMO; em (III) é ERRÔNEO.
Resposta:
Não encontro ligação entre o que afirma em tese e as conclusões que dali arranca. Mas isto parece-me uma constante na via que percorre. Por isso, me limito a perguntar que tem compreensão a ver com adesão. Sobretudo quando o Concílio categoricamente sustenta que «considerando atentamente estas aspirações, e propondo-se declarar quanto são conformes à verdade e à justiça, este Concílio Vaticano investiga a sagrada tradição e doutrina da Igreja, das quais tira novos ensinamentos, sempre concordantes com os antigos.
Em primeiro lugar, pois, afirma o sagrado Concílio que o próprio Deus deu a conhecer ao género humano o caminho pelo qual, servindo-O, os homens se podem salvar e alcançar a felicidade em Cristo. Acreditamos que esta única religião verdadeira se encontra na Igreja católica e apostólica (o negrito é meu), à qual o Senhor Jesus confiou o encargo de a levar a todos os homens, dizendo aos Apóstolos: «Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos prescrevi» (Mt. 28, 19-20). Por sua parte, todos os homens têm o dever de buscar a verdade, sobretudo no que diz respeito a Deus e à sua Igreja e, uma vez conhecida, de a abraçar e guardar. (6)
Frederico de Castro (i) As ações litúrgicas dos protestantes engendram a vida da graça e aptamente dão acesso à comunhão da salvação.

Onde está: Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 3.

O que diz: “Também não poucas ações sagradas da religião cristã são celebradas entre os irmãos separados de nós. De maneiras que variam conforme a condição de cada Igreja ou Comunidade, estas ações podem, sem dúvida, produzir realmente a vida da graça. Devem mesmo ser tidas como aptas para abrir a porta à comunhão da salvação.” (Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 3).
O que contraria: II Pedro 2,1 e Catecismo do Concílio de Trento, capítulo “Do Sacramento da Penitência”, seção “A Segunda Parte Integrante da Penitência”, segundo parágrafo (“Necessidade da Confissão”): “Reconhecemos, sim, que a contrição apaga os pecados, mas quem ignora que ela deve ser tão forte, tão intensa, e tão ardente, que a veemência da dor esteja em justa proporção com a graveza dos pecados? Ora, como são muito poucos os que chegam a esse grau de arrependimento, segue-se que muito poucos poderiam, por esse meio, esperar o perdão de seus pecados.”
[Fonte do texto em português: Frei Leopoldo Pires Martins, O. F. M. (ed.), Catecismo Romano, (V. Da Penitência. § 36.) Petrópolis: Vozes, 1951, p. 331. (n.d.t.)]
Censura teológica: a passagem é no mínimo ERRÔNEA e, na medida em que o texto implica que rituais inválidos sacrílegos podem conferir diretamente a graça santificante, pode ser considerada inescapavelmente HERÉTICA.
Resposta:
Suba até à sua alínea c), que lá encontrará resposta: substancialmente, a questão é a mesma.
Frederico de Castro (j) A Igreja tem sincero respeito por doutrinas que diferem das dela.
Onde está: Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 2.
O que diz: “A Igreja Católica nada rejeita do que nessas religiões [não cristãs] existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, entretanto refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens.” (Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs Nostra Aetate, parágrafo 2)
O que contraria: toda a religião católica e sua razão de ser. Não precisaríamos ser rigorosamente católicos se não houvesse uma verdade a ser observada. Isso é claramente HERÉTICO.
Resposta:
Não sei francamente se devo dizer que este argumento é de todos o mais grave. E não sei, repito, porque o Frederico desenvolveu um número bastante significativo de tristíssimos argumentos. De qualquer maneira, se não é este o mais grave, por muito perto andará.
Sabe para onde o atira o escândalo que revela pelo teor deste trecho? Para o maniqueísmo! Nem mais, nem menos. O Frederico, que tanto porfia em pôr o ferrete de herege, de uma ponta à outra do Concílio, negou tacitamente uma verdade luminosa do pensamento --- a de que o mal absoluto não existe!
Devo acrescentar que é com profunda mágoa que, entre os mais acérrimos adversários do Concílio, se notam, com uma frequência pouco desejável, erros que chocam com a filosofia aristotélico-tomista, ou seja, a filosofia perennis.
De resto, quando o Concílio, neste documento, acrescenta que a Igreja «anuncia, e tem mesmo obrigação de anunciar incessantemente Cristo, "caminho, verdade e vida" (Jo. 14,6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo todas as coisas (4).», só vê sombras quem escolhe viver assombrado.  
Frederico de Castro (k) Reuniões e discussões teológicas de igual para igual entre católicos e acatólicos são louváveis.
Onde está: Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 9.

O que diz: “Católicos devidamente preparados devem adquirir um melhor conhecimento da doutrina e história, da vida espiritual e litúrgica, da psicologia religiosa e da cultura própria dos irmãos separados. Muito ajudam para isso as reuniões de ambas as partes para tratar principalmente de questões teológicas, onde cada parte deve agir de igual para igual, contanto que aqueles que, sob a vigilância dos superiores, nelas tomam parte, sejam verdadeiramente peritos.” (Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio, parágrafo 9).
O que contraria: Mortalium Animos do Papa Pio XI.
Censura teológica: HERÉTICO CONTRA A FÉ ECLESIÁSTICA.
Resposta:
Desta vez, o principal defeito não está tanto no que falta de letra, mas sim no espírito com que ela é lida. Então não lhe dizem nada troços, por si incluídos, como «Católicos devidamente preparados (...)» e «(...) contanto que aqueles que, sob a vigilância dos superiores, nelas tomam parte, sejam verdadeiramente peritos.»?
Qual o risco que isto comporta? Como se evangeliza? O apostolado não se faz à distância. Ou queremos converter, ou consideramos que a nossa religião é a verdadeira, mas não é para ser levada aos outros. Ora bonum diffusivum sui. Portanto, a verdade não é para ser vivida de portas adentro. «(…) si evangelizavero, non est mihi gloria: necessitas mihi incumbit: vae enim mihi est, si non evangelizavero.», dizia o Apóstolo. (7)
Só conheço um povo que se fecha sobre si próprio num exclusivismo muito cerrado: são os Judeus! Quer alguém abraçar o Talmud? Se não provar que biologicamente descende de Abraão, de Isaac e de Jacob, nunca passará da porta da Sinagoga!
O Anjo das Escolas, aquele que o Concílio Vaticano II indica como Mestre modelar para a formação sacerdotal (8) ensina com toda a clareza que «(...) illi qui sunt infideles, etsi actu non sint de Ecclesia, sunt tamen in potentia.» (9)
Gottscalk e os predesticionistas, condenados pelo Concílio de Quiercy (10), seguidos mais tarde por Calvino, anatematizado em Trento (11), sustentavam que os que padeciam tormentos infernais foram desde sempre predestinados às penas eternas.
Quem são esses prescitos? Sem que seja possível afirmar um propósito intencional, o certo é que, pelo menos, parte da resposta vamos conhecê-la  nos erros de Jansénio, reprovados por Inocêncio X (12) e por Alexandre VIII (13)? Para o holandês, Cristo não veio salvar todos os homens: morreu apenas pelos eleitos e deixou de fora pagãos, judeus, hereges e outros do género.
Há muito que eu reparava nisto com bastante apreensão. Ao mesmo tempo, esta assimilação de malditos fez-me compreender por que motivo alguns há que vêem com maus olhos o esforço ecuménico do Concílio: para quê diálogo com réprobos, principalmente se são daquela casta?
Mas se compreendo, nem por isso aplaudo. Ecumenismo é sinónimo de universal. E a ontologia ensina-nos que a universalidade está no Ser. Logo, nenhuma ligação pode o ecumenismo ter com o sincretismo, que é o amontoado onde vão dar as paixões sectárias. E deste conjunto disforme é que nos devemos temer.
Dar um passo para falar ao que está fora, não é certamente o mesmo do que franquear a entrada a quem, se cair no meio de nós, só poderia conduzir a um destes dois resultados: ou defecção da nossa fé; ou uma horda indefinível!
Passo à alegada apostasia dos últimos Papas.
Frederico de Castro 2 - Sobre chamar os sucessores de Pio XII de anti-papas e os efeitos dessa afirmativa.
a) Sobre chama-los de anti-papas; sim, é um juízo pessoal (aqui colocado com muito cuidado essa afirmação por causa do que eu vou explicar em seguida.) porque obriga apenas a minha própria consciência. Devo dizer isso porque não houve ainda nenhum decreto formal por parte da autoridade (e claro, pois se a sede está vacante, primeiro essa vacância deve acabar, para apenas então essa autoridade realizar seu decreto.) É por esse motivo mesmo que eu entendo que os outros católicos que ainda permanecem fiéis a esses “papas” são perfeitamente católicos, salvo por causa de outros motivos alheios a esse problema.
No entanto, apesar de ser um juízo pessoal, devo dizer que tomo como base para o exercício desse juízo, que é lícito (porque não é um julgamento de autoridade, mas uma percepção da realidade) o CDC de 1917 (sem entrar na questão da Cum Ex Apostolatus Officio) que expressamente dispõe sobre os casos de perda de ofício no caso de apostasia, sem a necessidade de qualquer tipo de declaração.
b) Assim, respondendo a sua segunda pergunta, posto que não há qualquer necessidade de declaração, é lícito formar juízo dessas situações. Repito: obviamente, eu não tenho autoridade para decretar magisterialmente essa situação (não sou Papa nem Bispo), mas eu a posso reconhecer e mais: isso me autoriza a alertar os irmãos na fé e a desobedecer o magistério conciliar, o que não seria possível se eu desconsiderasse a vacância da Sé Apostólica.

Creio que você o deva saber, existe uma diferença entre uma sentença declaratória e uma constitutiva. O que um futuro Papa fará será meramente declaratória, que apenas reconhece um fato que já existe ou existiu. É algo semelhante a uma sentença de interdição de um louco; o louco, como o sabemos por simples lógica comum, não deixa de ser louco durante o tempo em que o juiz não o interditou. Ninguém em sã consciência segue os passos de um louco, sabendo-o, mesmo que lhe falte a interdição do juiz, não é verdade? De modo que eu posso falar sem prejuízo pessoal, mas terceiros não estão obrigados dar crédito às minhas palavras.
Resposta:
«Ius eligendi Romanum Pontificem ad S. R. E. Cardinales unice et privative pertinet, (...)» assim dispõe a Constituição Apostólica de Pio XII (14).
Cabe perguntar quais os purpurados que ali tomam assento. Que insensato haverá, capaz de sustentar que serão os sobreviventes de entre os nomeados por Pio XII? Ou afinal são legítimos os que subiram ao cardinalato por mão dos Papas que amaldiçoais? --- Se assim é, tanto melhor: nem toda a obra dos papas réprobos sofre do vício de invalidade. No entanto, confesso humildemente que não tenho a suficiente arte para superar o que se me afigura uma flagrante contradição: se, como sustentais, os últimos papas caíram em apostasia, pelo que não gozam de qualquer poder, onde vão buscá-lo os cardeais por eles criados? E se estes têm realmente dignidade cardinalícia, como se nega autoridade a quem a conferiu?
Que propondes, pois, na pertinaz cegueira do vosso teimoso orgulho? Novas regras que permitam uma eleição da qual, na catequese que insistis em pregar, sairá o Papa sem mácula? O objectivo de um Papa virtuoso é muito elevado, e dele também comungamos nós, que continuamos fiéis a Roma: o que nos divide é que não discutimos a legitimidade dos sucessores de Pio XII e não atiramos com eles ao fogo da Gehena. Prima Sedes a nemine iudicatur (15) e esta imunidade provém de uma verdade de fé (16).
Que solução tendes para o problema que levantais? Que remédio pretendeis aplicar-lhe? Será vosso propósito reavivar a querela entre conciliarismo e papado? Pois isto que outra coisa é, além de parecer uma nova tentativa de desforço pelo revés sofrido, quando se extinguiram as vozes rebeldes de Basileia? De que lado está, afinal, a heterodoxia?
Tratar um corpo arrancando-lhe a cabeça é matá-lo; e cuidar de um corpo acéfalo é entrar no domínio da teratologia. No célebre incidente de Antioquia, Paulo resistiu a Pedro in faciem e coram omnibus, mas nunca lhe negou a primazia entre os apóstolos (17). O que me inquieta, nesta fuzilaria sobre os sucessores de Pio XII, não é tanto a metralha daquele imenso fogo: dureza, mais que dureza, acritude e linguagem cheia de aspereza foram derramadas por figuras de santidade reconhecida e de inconcusso saber, ao longo dos tempos e tendo por alvo os Papas. O que me causa horror, nesta sanha persecutória, é a violência das acusações contra a pureza da fé que professam os visados naqueles ataques: vejo-me diante de um tufão de sabor galicano, com Nogaret ressuscitado, e multiplicado por tantos quantas são as bocas que assim insultam.
No transcurso dos séculos, sacerdotium e regnum disputaram o império do orbe. Ainda hoje, as suas relações estão marcadas por cautelas e melindres que não se encontram nos tratados que regulam a convivência de outros sujeitos do Direito Internacional.
Quem serão os próximos Césares? Na anarquia da moderna Babel, não se antolha fácil dizê-lo. Terá a Igreja de armar-se com toda a sua fortaleza para combater esta indefinição, e alcançar de Deus a graça de suscitar os varões justos para governo temporal dos povos. Porém, não se pare aqui. Enquanto isto se pede e espera, que um sopro de vento varra para longe os fumos de Satanás, e que os ímpios se revolvam na imundície dos ídolos que criaram, novos bezerros de um oiro que cega a vista, tira lucidez ao pensamento e fere de morte o coração.
A Igreja pede reforma, mas uma reforma a fazer-se de mão dada ao Bispo de Roma e nunca sem ele!
 
Joaquim Maria Cymbron
 
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  1. Não obstante faltar a comprovação histórica do milagre, é inegável a força anímica da lenda.
  2. Os argumentos, a que respondo, vieram alinhados no Facebook, com o que se tornaram públicos. Por isso, os transcrevo aqui. Causas várias impediram-me de o fazer mais cedo.
  3. Constituição LG, 14.
  4. Rom. 11, 1; ib., 18-32.
  5. V. supra, n. 3.
  6. Declaração Dignitatis humanae, 1. É realmente uma questão de dignidade, aquilo de que aqui se trata: o dever de cada homem não deturpar a verdade que tem diante dos olhos!
  7. I Cor. 9, 16.
  8. Decreto Optatam totius, 16.
  9. S. T. q. III, a. 3, ad.1.
  10. Cap. 3.
  11. Dz. 827.
  12. Dz. 1096.
  13. Dz. 1294-1295.
  14. Vacantis Apostolicae Sedis, tit. II, caput I, 32. O actual regime --- constante da Constituição Apostólica Romano Pontifici Eligendo --- é idêntico. Não me apoiei nesse documento porque temo que alguém conteste com o argumento de que é maldito o seu autor.
  15. Embora o CIC vigente repita literalmente o preceito (can. 1404),  preferi remeter para o Código de 1917 (can. 1556), pela mesma razão  alegada na nota anterior.
  16. Dz. 1831(1.º Concílio do Vaticano, numa das definições que mais exaperaram o progressismo)!
  17. Gal. 2, 11-14.
JMC