sexta-feira, 13 de setembro de 2019

PARTIDOS CONTRA FORÇAS VIVAS


De pé e em sentido que o povo vai desfilar. E não é qualquer povo – é o povo soberano; também não é um desfile banal – é uma marcha a caminho das urnas. É ou não magnífico?

Uma semana mais e é a festança que chega. Avizinha-se, todos o sabem, um novo acto eleitoral. Não tardam os pregões públicos, que o anunciam, na costumada berraria que tudo invade. O pior é que a próxima  peça, a subir à cena, não presta sequer para sofrível drama teatral, como outros tantos que há. Não, decididamente não serve para tal, porque mais não é do que um desventurado cortejo, pobre e trágico cortejo de uma ponta à outra, o que ainda lhe permitiria ser tomado como drama, se não fora a medíocre qualidade artística que lhe retira essa possibilidade. A mediocridade é, possivelmente, a pior nota na escala de valores, porque, mais do que impotência, esta nota exibe força bastante para teimar na recusa em subir ao suficiente, e é demasiado fraca para descer ao patamar do mau. Esta tragédia, pois, rica em mediocridade, o que a impede de valer como drama de entretenimento pela razão acabada de aflorar, foi desenhada há muito, muitíssimo tempo, nos escuros recantos da iniquidade. 

O navegante, que atravessou mares borrascosos, quando avista terra, sente voltar a confiança porque é sinal da proximidade de um porto de abrigo. Infelizmente, não é esse o sossego que se vive sempre que aparece à vista aquilo que os convencionalismos da política resolveram chamar eleições.

Isto que é, afinal? O que se vê são uns magotes de gente, onde cada qual  grita que vale mais que os outros, cobrindo-se reciprocamente de ataques soezes e de torpes injúrias, num clima em que frequentemente são postas de lado as regras mínimas da civilidade, umas regras que talvez  nunca tenham feito parte dos seus conhecimentos – eis aqui um esboço do quadro formado por esses cortejos bulhentos, que periodicamente teimam num ir e vir ao toque de uma música delirante. E é destes amontoados sem lei nem ordem que, certamente por artes de alquimia, há quem pretenda arrancar os benfeitores da sociedade política, os magos que trarão o remédio infalível, enfim, aqueles que, nas voltas do calendário, se apresentam ciclicamente como redentores da Pátria.

Ocupa-se um cargo político para servir. Isto e apenas isto confere legitimidade a quem está no respectivo lugar. O modo de selecção dos seus titulares é assunto sempre subordinado à legitimidade de exercício. O panorama eleiçoeiro é apto à consecução deste fim?

No dever constante de conceder o juízo mais favorável à parte, cujo comportamento se aprecia, obrigação esta que é indeclinável para cada homem, não se pode negar, primo conspectu, que parece estarmos defronte de um sentimento altruísta com uma ardorosa entrega ao interesse do próximo. Contudo, torna-se por igual irrefutável que esse sentimento, sem dúvida positivo, nas circunstâncias apontadas, cai em excessos que geram suspeição legítima. Há bondade a rodo, é notória a demasia! Quando a esmola é muita, o pobre desconfia, reza o ditado. Generosidade, aqui; abnegação, acolá! Tão ardente agitação será movida por um desejo autêntico a prol do comum? Merece crédito todo este afã, ainda por cima com um número incontável de desencontros e fricções? A afirmativa, em resposta à interrogação formulada, desafiaria as mais elementares normas do equilíbrio mental.

Os protagonistas desta balbúrdia contínua dão pelo nome de partidos. É manifesto que nunca podem governar coisa de jeito. Governar é construir, e os que gastam engenho e forças, que eventualmente possuam, a hostilizar-se uns aos outros, só guardam toda essa carga, positiva in abstracto, para a aplicar como meios de destruição. Para mais do que isto, não lhes sobra tempo nem energia.

A instabilidade dos governos partidários, resultado infalível da guerra permanente que os esgota, vem confirmar tudo que, à roda deles, nos é dado contemplar. É a sina a que não podem escapar por força do sistema em que se atolaram. Nisto está o contraste nítido, que os separa irreversivelmente de uma organização política dirigida no interesse do homem, visto e tratado segundo a lei natural.

Em seguida, se perceberá porquê.

Com efeito, as instituições, que ocupam o cabeçalho do presente texto, dizem tudo: apontam para uma relação de mútua exclusão e, na verdade, onde está uma das que ali figuram, sente-se a ausência da outra.

Tal como os órgãos do corpo humano, onde prontamente notamos que todos concorrem para um fim comum, que é o da saúde desse mesmo corpo composto por eles, de idêntico modo estão as forças vivas do corpo colectivo que os povos conhecem sob o nome de Nação. Tranposta esta figura do plano individual para o comunitário, como acaba de fazer-se, teremos por analogia de atribuição que essas forças vivas não se hostilizam, nem experimentam entre elas, quaisquer sentimentos de rivalidade, assim como não deixam atrás o mínimo vestígio de inveja.

Cada uma delas tem plena consciência da sua integral validade e que representa uma necessidade premente para todo o corpo social. Com os partidos, isto não sucede. Nenhum partido há que una; só dividem e confrontam. Essas óperas-bufas, a que chamam coligações, são ditadas por meros e fugazes interesses de momento, e nada têm a ver com um genuíno espírito de unidade, muito menos de doação recíproca. Os partidos são animados pelo único propósito de derrubar quem se senta no poder para, em seguida, ocupar o lugar deixado vago. Se, durante o assalto à praça tão apetecida, é ofensiva a sua táctica, depois de lá se instalar, passa a uma teimosa defesa da posição conquistada. Governar capazmente, para isso são impotentes, consoante acima se sublinhou.

Do sistema partidário, é lícito afirmar com inteira propriedade que é um estado crónico de guerra civil incruenta. Só o facto de ser um estado crónico, transforma a luta partidária noutro flagelo de nefastas consequências. Em contrapartida, nenhum corpo intermédio aspira ao senhorio do poder: deixa essa vã ambição aos partidos. Os corpos intermédios conhecem perfeitamente que a sua soberania é solidária e não deixa de fora nenhum deles.

Tudo quanto é humano, é contingente. Portanto, o que sai das mãos do homem leva infalivelmente o selo do que é limitado. Sendo limitado é, como do próprio termo se infere, obra imperfeita. Nem por isso, contudo, ficamos impedidos de separar o que, por ser humano, está sujeito à corrupção, daquilo que está privado de bondade na raiz e nos frutos.

É dado seguro que um exame desapaixonado da História logo nos revelará como os corpos intermédios, esses órgãos já antes referidos e que constituem as forças vivas da realidade política que é a Nação, reduzem a pó os partidos, verdadeiros agentes patogénicos das sociedades onde proliferam.

Os partidos, pela sua estrutura e pela sua teleologia, são instituições com vocação para a desordem e são também germes de cizânia na pólis. São frutos peçonhentos de uma árvore chamada Democracia. Não se encheram de podridão, nem degeneraram: eram já venenosos à data do nascimento. Transportam o pecado de origem do berço que têm.

Em suma: os partidos são o resultado fatal da mentira democrática. E esta mentira, não podemos pensar em travá-la no telónio, onde ela reparte o seu jogo viciado. Aquilo a que se dá o nome de Democracia não se enfrenta, lutando segundo as suas regras e o seu querer: com tal monstro não se pactua porque ele não tem um pingo de honra. E é assim que nos cumpre dar remate à ingente tarefa de lograr o fim desta aberração, levando a que a mesma acabe asfixiada nas máximas ocas com que inundou o mundo.

Os partidos e os seus antepassados de gorra com outros parentes espúrios – especialmente o individualismo e o relativismo – são o cancro aceso que vai roendo o corpo das comunidades humanas. Não pensemos em dominá-lo com paliativos: remédio para este mal, só a ablação do tumor letal.

A defunção da Idade Média marca o primeiro golpe vibrado na organização corporativa, sem dúvida o mais benéfico de todos os regimes que o homem já experimentou no campo económico-laboral. Foi o mais equitativo nesse domínio tão sensível, mostrando como é possível satisfazer uma exigência básica, qual seja a de unir capital e trabalho (1).

Se não erramos ao sustentar que a influência dos corpos intermédios, sob o ponto de vista do que se torna lícito tratar como uma questão de salus populi, confere a mesmíssima dignidade a cada um deles, sem uma única excepção, nem por isso é irrazoável olhar com especial cuidado um ou outro, neste ou naquele momento. Obedece-se, então, ao que ditam as circunstâncias do tempo que corre sem cessar. E assim acompanharemos o dinâmica das instituições humanas, sem trair o que elas intrinsecamente possuem. Tudo de acordo com a própria vida, que é dinâmica segundo o defende a mais pura linha do ideário tradicionalista.

Nestes termos, não parecerá deslocado na matéria aqui abordada, nem extemporâneo na altura, acrescentar algumas palavras ao que já se alinhou sobre os grémios profissionais, por ser a produção e circulação de bens económicos, no viver quotidiano de todos nós, um sector de vital importância e que se reveste de um melindre muito delicado.

Por isso, se reverte ao ponto do que é a indissolúvel ligação capital – trabalho. É tão estreita esta ligação que só por louca temeridade pode ser esquecida. Mesmo por parte daquele que o mundo se habituou a olhar como pontífice infalível do credo mítico que pretendeu arrasar o capital, até por aí, frise-se uma vez mais, foi trazida à nossa beira a evidência do que há muito sabia a Tradição, na confissão aberta de que ninguém «(...) poderá produzir botas sem cabedal.» (2), confissão esta que a sua própria boca soltou. Só não entende isto quem não quer. Num laconismo impossível de encurtar, o certo é que, mesmo quem nas nossas fileiras combate afincadamente esse revolucionário, não lhe deve recusar a ponta de gratidão que lhe cabe, porque sendo autor das palavras, aqui transcritas, acertou e definiu primorosamente a relação que nos ocupa, na mais estrita fidelidade às normas dialéctico-formais – foi breve; preciso; claro; e conciso!

Na realidade, é património da corrente tradicionalista a tese de que a ruptura da aliança capital – trabalho abre caminho para a ruína, na medida em que é factor de riqueza qualquer dos dois elementos enunciados, mas em que nenhum deles basta se figurar sozinho. Por isso, só unidos se justifica o valor da existência de ambos. A via que aponta  para a luta de classes como padrão de comportamento, é a estrada do suicídio não só económico, como ainda colectivo, porque atinge todos os sectores produtivos do povo que aceita envolver-se nesse antagonismo. Até que as pessoas se convençam da falta de razão que subjaz às construções económicas vigentes, não veremos o termo deste pertinaz duelo, mais ou menos feroz, entre a força, que produz, e o sangue, que alimenta essa faina. Bom é que cessem ilusões e se acredite que no capitalismo está escondida a incubação do socialismo!

Um juízo precipitado leva a crer que cada um destes sistemas é a panaceia de todos os males de que o outro enferma. Erro funestíssimo! Porque lançar um destes sistemas contra o outro, cavando entre eles um divórcio que se pretende irreversível, é a grosseiríssima aplicação à realidade económica daquilo que parece justo chamar pecado ontológico. O Ser reclama o concurso de duas causas, que o constituem na sua unidade transcendente – uma, a causa material; e a outra, denominada causa formal.

Na vida económica, o capital é a causa material; e a causa formal manifesta-se no trabalho realizado pelo homem. A participação do homem, neste elemento de produção, confere ao trabalho uma nobreza que o capital não possui. Importa realçar esta nota para desfazer muitos preconceitos, gerados sobretudo no ventre daninho do liberalismo, desde que se assistiu à eclosão dos movimentos socialistas, os quais, contra um capitalismo desumano, levantavam a bandeira de uma luta igualmente sem ponta de bondade e que os seus optimates sabiam, como continuam a saber que era e é uma luta votada ao insucesso. Quando se combate por um troféu para dar a todos e ele fica nas mãos de uns poucos, esse combate é a derrota de quem arrostou com a dureza das hostilidades e prova manifesta da mentira propalada. Uma mentira da qual os mais logrados ainda se não compenetraram inteiramente.

Será, porventura, tamanha a cegueira, a ponto de não se descortinar a façanha das actuais doutrinas políticas, cindindo capital e trabalho no seu enunciado abstracto, para proceder, na prática, à mais promíscua união daqueles elementos de riqueza, que têm como timbre o que proclamam como valores irredutíveis um ao outro? Se buscassem o recto equilíbrio entre ambos esses elementos, estariam no caminho certo; deitando tudo no mesmo vaso, em lugar do canteiro florido, que alguns teimam em esperar, é um caldo de mau sabor que sai. Pegando nestes dois elementos – capital e trabalho – o sistema que ouse dar preferência a um deles sobre o outro, enquanto o fizer, ficará privado da integridade que enche e completa as coisas criadas que o quadro do que é contingente nos vai incessantemente oferecendo.

Desenganem-se os povos! Capitalismo e socialismo são parceiros de rota, ex rerum natura. Não conseguem dar um passo em frente se se aferram à ideia de fazer jornada isoladamente: somente avançarão quando se persuadirem que cada um tem o que ao outro falta, e resolverem juntar-se num todo harmonioso. Com mágoa se regista que o que hoje observamos neste propósito é, não a procura desesperada de um pelo outro para progredir vitoriosamente, mas sim a pobre realidade de um que, em desespero de causa, tolera o outro. Nos diversos planos em que tenhamos a ventura de ver radiar esse corpo novo, há-de chamar-se-lhe corporação. Nome que, por trazer o rumo salvador neste angustiante problema, é logo abafado, porque não está nos propósitos de quem dirige as sociedades modernas sanar coisa alguma.

Enfrentados o capital e o trabalho, porque abusiva e violentamente os separaram, vamos assistindo a um espectáculo que lá por não repetir o cenário das sociedades altamente industrializadas, nem por isso é menos desolador: hoje, não se avista o clássico quadro de um proletariado que, deserdado de todos os bens de fortuna, definhava e morria: agora, dá-se entrada a novos figurantes, que pisam o palco dessa mesma miséria – são nações inteiras, desgraçadamente sujeitas ao poder brutal de oligarquias que não conhecem pudor, não sentem compaixão e não recuam perante nada que as afaste de amontoar dinheiro.

Qual a base em que pousa esta coabitação que a muitos pode surgir como um conúbio contra naturam?

Não se compreende bem é o motivo da estupefacção. Pois custará assim tanto ver que as nações, onde prevalece um dirigismo económico mais acentuado, necessitam desesperadamente de fundos porque é fraca a sua produtividade e, consequentemente, baixas são as suas reservas líquidas? E que, por seu turno, para as nações mais fortes, é de toda a vantagem a existência desses redutos de pobreza, pois neles encontram mercado para os seus excedentes de produção, compensando assim os défices internos desses países em toda a casta de bens? Por último ainda: que onde o capital domina, é de uso ir buscar mão-de-obra extemamente barata, a qual explora com toda a facilidade através das multinacionais que cria por toda a parte?   

O que nos deve admirar é haver quem não acerte com o quadro verídico traçado por esta dupla, a qual se não encerra toda a perfídia que o homem é capaz de transportar consigo, será então porque o Mal é uma fantasia criada por mentes doentias.

Basta, pois, de reacções que apenas traduzem a ingenuidade mental dos seguidores do capitalismo, quando não se trata de malévola simulação.  Os que estão de boa fé, por mais que isso lhes doa, devem compenetrar-se desta fatalidade: o socialismo durará quanto tempo durar o capitalismo! É esta a sentença que se extrai de quanto a Revolução Universal engendrou.

Só a Tradição pode vencer a Revolução. Para entender isto, nada como recordar, ainda que a breves traços, o trajecto percorrido desde a convulsão antropocêntrica:

As corporações históricas iniciaram, então, uma decadência que se foi arrastando através de um lento processo de altos e baixos, cujos passos, insista-se, não cabe aqui esmiuçar. É preciso deixar que, sobre os grandes fenómenos que marcam o andamento da vida colectiva, decorra tempo suficiente para que eles se tornam perceptíveis. Hoje, ressalta claro que o destino do regime corporativo logo ficou traçado com o triunfo do mercantilismo. Não queiramos, pois, reviver o calendário passado, quase dia-a-dia, quando as diferenças assinaláveis demoram pelo que, muitas vezes, tal exame é supérfluo, se é que não se está mesmo perante um exibicionismo de erudição.

Retomando o fio do discurso. Naquela queda das corporações, não vieram abaixo só os grémios profissionais, os quais, enquanto duraram, transmitiam uma invejável tranquilidade social às comunidades, onde derramavam a sua acção benfazeja. A estrutura apresentada opunha-se à génese dos grandes capitalistas com tanta eficácia que esta virtude era reconhecida  e apreciada por destacados vultos do campo socialista, os quais lhe dispensavam rasgadíssimos elogios.

Os corpos intermédios formavam uma realidade viva, pujante de seiva; eram notoriamente actuantes; e estendiam-se por todo o tecido social. Desapareceram, mas podem voltar na veste das autarquias geográficas tomando figura no município, de tão rico passado entre nós; das corporações da cultura e do ensino; das artes; da educação física e desporto; e de tudo o mais, onde se sinta vivamente o pulsar da Nação.

A antítese partidos – forças vivas impõe que não se protele a opção. O regresso à Tradição manda restaurar os corpos intermédios por uma questão de sobrevivência nacional; a integração nos partidos dissolve e, com isso, rouba personalidade aos que por ali se perdem, que é, a bem dizer, o caso de uma imensa maioria, senão mesmo de todos. A escolha repousa na distância que separa a atitude de quem decide viver, em contraste com a posição daquele que se nega a si mesmo, sumindo-se paulatinamente  nas profundezas do seu próprio ser.

A sociedade, onde vigore o sistema partidário pelo qual se governa, não é uma sociedade com rosto humano, porque está atomizada: é um composto de indivíduos, que contam como números para uma soma aritmética. Na comunidade, que obedeça à ordem tradicional, cada pessoa é avaliada segundo o peso que tem, preservando assim uma identidade que não se confunde com a de nenhum dos que o rodeiam: ali, não se rende culto à atroz mistificação da mensagem igualitária! Do fementido princípio da igualdade, derivam todas as falácias democráticas, in casu, o sufrágio universal, cujo funcionamento não se entende sem as trombetas de mau agoiro que são os partidos.

Na feira que os partidos levantam, feira que tem o bulício de todas as feiras, mas delas não guarda aquele cunho alegre e simpático, tão comum a outras bem conhecidas que se estendiam e ainda se vêem nas nossas terriolas, a algazarra, repita-se, dos seus comícios e debates, paredes meias com o vozear de sessões em que o obscurecimento sobra e a luz escasseia, nessa turbulenta feira é só uma a música que soa. Os clamores gritados, que por ali se erguem, são arrancos de gente sem outro sentir para lá do mórbido apetite de semear desgraça. Incapazes de entoar algo que dê uns longes de coerência lógica, ocupam-se no ofício de moer os ouvidos e esvaziar as mentes. Esta tarefa, que podia não ir além de mera tentativa, as mais das vezes é crime consumado!


Joaquim Maria Cymbron
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  1. Ver https://legitimismo.blogspot.com/2007/12/economia-luz-da-metafisica.html.
  2. Karl Marx – O Capital, I, Delfos, 7.ª ed., p.103 .

JMC

sábado, 1 de junho de 2019

DIA DA MARINHA EM COIMBRA



Para o que se tornou meu hábito escrever neste blogue, apresenta-se notoriamente curto o que hoje publico. É simples a explicação: o episódio, que relato, está marcado por uma nota castrense; e a linguagem de militares ou para militares só resulta inteligível, quando obedece a um estilo – aquele que vai  directo ao núcleo da questão!
Especulações, essas ficam a cargo dos políticos.


A Marinha escolheu Coimbra para palco dos eventos com que celebrou o seu dia neste ano de 2019.

Na cerimónia militar, usou da palavra S. Ex.ª o CEMA. Justificando o esforço desenvolvido para captar gente moça, o Vice-Almirante Mendes Calado destacou as possibilidades de valorização pessoal, que a Marinha proporciona, afirmando que «(...) na Marinha é possível atuar no mar, em terra e no ar, onde e quando necessário, salvando vidas, protegendo os nossos recursos, investigando o oceano e, se requerido, combatendo por Portugal!»1

Nada a estranhar neste excerto se não fora o segmento final. Ali se lê que se combate por Portugal, «se requerido».

Muito bem! Pergunta-se, então: Quem é o requerente? Se era ideia do orador incluir nas missões da Marinha a de combater por Portugal, quando as circunstâncias o requerem, temos que as suas palavras são sábias. Todavia, o pior é que isso não resulta claramente da letra do discurso, a qual neste ponto, força é dizê-lo, abre via a muitos entendimentos.

Na estrutura de um discurso escrito ou oral, é certo que deve prestar-se atenção à sequência de exposição das palavras que o compõem. Embora não necessariamente, essa disposição é capaz de influir na interpretação do mesmo.

Considerando, porém, a altíssima hierarquia do autor desta peça, devemos admitir que o seu pensamento não se afastará uma polegada do que é a vocação primacial de qualquer corpo militar, seja ele qual for, maxime tratando-se da Armada de Portugal, rica em tantas e tão gloriosas tradições. E porque fora disto, se entra no domínio das conjecturas, processo ao qual falta dignidade para que o sigamos, vamos adiante:

Ninguém, de seu perfeito juízo, regateia louvores às diversas polícias que nos servem; às unidades de bombeiros sempre prontos a dar a vida pelo seu semelhante; à protecção civil; ou a quaisquer outros movimentos cívicos formados ou a formar. Em todas as acções que constituem missão destes organismos, nenhum argumento há para não intervirem também as forças navais. Dir-se-á mesmo que isso é um imperativo ético!

Mas por mais meritórias que sejam essas funções, a  razão de ser da Marinha de Guerra é bem outra.

As Forças Armadas têm filosofia diferente da sociedade civil, em que se integram e que servem. Provém essa diferença da sua génese; do seu viver; e dos reais fins para que existem. A sua mentalidade foi moldada, pois, por tudo isto junto, mas predominantemente pelo último motivo. Com efeito, o destino dos corpos militares está definido sem ambiguidades – a defesa da Pátria contra o inimigo externo ou interno!

Nenhum poder político traçou este rumo, como também não conseguirá que dele se desviem as Forças Armadas. A consciência, que as lança nessa rota, fala com a eloquência própria de um grito de alma profundamente gravado nos tecidos da sua memória colectiva.

Monarquia ou república; sistemas de autoridade bem marcada ou as águas mornas da praxis democrática; ditaduras de sufoco ou a caprichosa prepotência das balbúrdias demagógicas, tudo isto é apenas um amontoado de trajes, que vão cobrindo uma Pátria ao longo do seu percurso histórico. Porém, nenhuma destas roupagens lhe dá a feição por que é conhecida e venerada – a Pátria é uma linha que o tempo desenha, geração após geração. Nunca desapareceu, apesar dos sobressaltos que a sacodem de quando em quando, porque a sua identidade transcendente permanece. Daqui, impende sobre as Forças Armadas o dever sagrado de se manterem fiéis ao mandato que lhes chega do passado – garantir condições para a preservação do Bem Comum!

Ao sublinhar o que é, especificamente, não a tarefa confiada às Forças Armadas, mas sim o que delas se espera porque constitui a sua essência, contribui-se para uma melhor ordem daquilo que faz parte do palco em que não podemos deixar de nos colocar – a comunidade humana.

Os dias, que passam, oferecem-nos uma autêntica babel de conceitos. Procuremos separar o que é distinto:

Em culturas como é a portuguesa, erguem-se duas instituições que acompanham os passos dos povos – a religiosa e a militar:

No seu múnus espiritual, os sacerdotes de qualquer culto não têm de ser guiados pelos profanos, nem devem ditar leis temporais: estão à parte; situam-se num patamar que se ergue isolado e que, em certo sentido, se encontra bem acima dos governos dos seus fiéis.

De modo análogo, não cabe às Forças Armadas o exercício da política, assim como não se encontram vinculadas a uma obediência incondicional por parte de quem detém o poder civil; por outro lado e à semelhança das sociedades religiosas, também as Forças Armadas, não obstante o que isso possa contrariar as boas consciências burguesas, são uma instituição que paira em alturas dificilmente acessíveis.2

As Forças Armadas, com todos os defeitos inerentes à condição humana, continuam a ser aquela instituição que as gentes, ao longo dos séculos, se habituaram a ver como sendo depositárias das mais nobres virtudes da espécie a que pertencemos. É assim que duram, e deste modo são olhadas e admiradas!

VIVA PORTUGAL
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Joaquim Maria Cymbron

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  1. https://www.marinha.pt/pt/media-center/discursos/Documents/DiscursoDM19.pdf.
  2. Ao glorioso C.el de Cavalaria Duarte Pamplona, primeiro oficial português a ser agraciado com a Torre e Espada, na Guerra do Ultramar, ouvi-o dizer que «ser soldado é quase um sacramento.»


JMC

domingo, 5 de maio de 2019

MARIA DE NAZARÉ

  
Em vezes anteriores, já foi dito que este blogue, sendo de raiz um blogue político, todavia não é exclusivamente político. Defendendo, como é notório, a tradição monárquica portuguesa, ele é, antes de tudo e acima de tudo, um blogue onde se professa a  fé católica, apostólica, romana!
Esta a razão do presente texto. Foi meu desejo inicial publicá-lo na festa litúrgica da Anunciação do anjo Gabriel à SS.ma Virgem1, mas isso tornou-se impossível.
O mais subido  propósito do que aqui se contém é o de louvar Nossa Senhora. Mas não vou esquecer as Mães deste mundo, pelo que quanto em seguida escrevo é também dedicado a todas as mulheres que vivem a maternidade na santidade do matrimónio; e ainda àquelas que trazem no seio uma nova vida, que cercam de amor.
Uma maternidade generosa é, talvez, a caridade cuja falta o mundo actual mais sente. E nunca se há-de esquecer que, na lição paulina, é a caridade que sobressai como a virtude teologal por excelência.2
Não julgo, pois, que seja deslocado dar a lume as palavras, que alinhei com devoção e amor à Mãe do Céu, num dia dedicado às Mães que a Providência destinou para cada um de nós!


­­­Vivia-se o último Natal, quando sucedeu o que aqui trato. Falar de Natal, é recordar o que foi a Encarnação e o nascimento do Salvador. Não são os presentes, que se trocam, depois do frenesi da procura nos centros de consumo; nem a figura de um velho de longas barbas brancas; como também não é o pinheiro enfeitado de luzes mais ou menos brilhantes.

Em Portugal, católico desde o berço, se queremos signos exteriores deste tempo litúrgico, só pode haver um que é o presépio! Prendas, essas que se guardem para o dia de Reis. E o Pai Natal que meta o saco às costas, regressando com ele aos nevados horizontes do Norte.

Voltemos ao genuíno núcleo do Natal: é o gaudium magnum, que o anjo do Senhor anunciou aos pastores.3 Não é possível, contudo, celebrar esta jubilosa festa, esquecendo a Encarnação. E este mistério leva-nos à donzela de Nazaré.

Por essa altura, um órgão da Comunicação Social arrastou o seu nome puríssimo em proporções de enorme gravidade. Fez isto para depois vir dizer que trocou depoimentos. Mera culpa ou acto bem acintoso? Não julgamos do foro interno. Mas, mesmo a existir a categoria de culpa mais leve, não deixaria de ser negligência grosseiríssima ainda que em quadro diferente; porém, tendo em conta os valores atingidos e quem os personifica, a culpa é muito mais intensa. E se houvesse dolo, o que não surpreenderia dada a procedência da notícia atirada para o ar, então seria um crime contra os sentimentos e crenças de todo o orbe católico.

A menos que preexista um manifesto animus iniuriandi, dizer de uma mulher que ela não é virgem, nada tem de ofensivo. Pode ser deselegante ou inoportuno tal juízo e, muitas vezes, certamente o é. Mas isso constitui violação de um código de valores que, a ser observado, fica muito bem para quem adopta esse comportamento, embora os desvios, que venham a dar-se, não alcancem ipso facto a dimensão de insulto.

Embora em diferente quadro, também o facto de negar in abstracto o conteúdo moral, que é o valor da virgindade, não constitui efectivamente injúria, porque a perda da virgindade nada tem de desprimoroso in se. Se assim fosse, que lugar ocupariam então as nossas Mães, podendo fazer-se a mesma pergunta em relação à mulher que cada homem toma por esposa. O dom da virgindade não se resume a uma mera condição simultaneamente anatómica e morfológica. É isso, mas não se fica por aí, pois não dispensa a pureza de alma. E o primeiro aspecto só ganha relevo na medida em que se lhe seguir o segundo.

Porém, na brutalidade relatada pelo órgão da Comunicação Social, esse acto já é injúria, porque envolve menoscabo da dignidade de Maria SS.ma. E se a afirmação é produzida por um baptizado no seio da Igreja Católica, esse que assim procede incorre em pena reservada ao pecado de heresia, visto que se trata de matéria dogmática de fé.

Na concupiscência, há a distinguir entre a concupiscência ordenada e a que é desordenada. É altura de afirmar duas realidades: razão e apetites. E, dentro deste propósito, é forçoso declarar que os apetites movem e a razão trava.

O apetite é visível na fome, na sede, no impulso sexual e noutros comportamentos que temos. Em cada um destes momentos são os sentidos que movem o ser humano. Não será certamente a razão que o faz sentir vontade de comer, de beber, de ter actividade sexual e do mais para que se sente atraído; em todos estes movimentos, o único papel que cabe à razão, e se lhe impõe como indeclinável dever, é o de servir de freio quando esse apetite não é eticamente lícito. Isto coloca-nos em presença da concupiscência ordenada; se os apetites se sobrepõem à razão, isto é, se a intemperança na comida ou na bebida, bem como, de outras vezes, a luxúria ou a preferência por qualquer outro dos vícios contra as virtudes morais falam mais alto, então caímos na concupiscência desordenada.

Deste cenário e de muitas outras situações, podemos concluir que onde a razão e o apetite dos sentidos se harmonizam por influxo da graça santificante, iluminando a mente e confortando a vontade, pode o homem, que lhe é dócil, fazer quanto queira que não viola a lei de Deus. Aqui se encontra, conquanto em plano imensamente superior, um equilíbrio idêntico ao que sucede com o bruto, cujo instinto não o engana na escolha do bem, e até o puxa nessa direcção. Convém, no entanto, não esquecer que o livre arbítrio concede ao ser humano uma nobreza icomensuravelmente maior pela própria natureza dos sujeitos em acção: o homem pode repelir a graça recebida e, indo por aí, cai escravo do pecado; o bruto está inexoravelmente ao serviço do instinto, ao qual não pode subtrair-se, mas que não o destrói. Eis a diferença óbvia de que não se consegue fugir.

É altura de perguntar: por que razão Deus chamou Maria SS.ma para Mãe do Salvador?

A título prévio, cumpre dizer que Deus não tinha qualquer necessidade em redimir o género humano. E o homem não era titular de nenhum crédito que lhe conferisse direito a ser resgatado da servidão do pecado. De tudo isto e à margem de qualquer disputa teológica, na qual não se vai aqui entrar, impõe-se apenas que nos detenhamos a contemplar simplesmente o que deslumbra quem não está cego: realmente, se Deus ao criar-nos já o fizera porque, sendo Bondade infinita, transbordava de amor, que dizer então deste momento? Só nesta coroa de uma suma Caridade, é que deparamos com a única resposta para esta interrogação.

Derramando essa Misericórdia sem fim, Deus decidiu redimir o homem pecador através da Encarnação de Seu divino Filho. S. Tomás sustenta a conveniência deste meio porque «homo autem purus satisfacere non poterat pro toto humano genere; Deus autem non debebat; unde oportebat Deum et hominem esse Iesum Christum.»4 Assim, Deus decretou que o Salvador seria o Verbo encarnado. Dispôs mais: que o Verbo, em união hipostática, desceria à Terra para, entre os homens, distribuir os tesouros abundantes do perdão. Porquê? Porque isto foi o que a Sua divina Vontade determinou. Escolhendo a via da Encarnação, entendeu que o Messias a gerar nasceria do seio puríssimo de uma virgem, sem o concurso de varão.

Não cabe às criaturas humanas discutir o porquê deste procedimento e a validade do fundamento em que repousa.5 Se o prodígio da Encarnação vai infinitamente mais longe do que as forças da razão natural, porque é da natureza dos mistérios levar-nos à verdade eterna, o certo é que nele também nada há que repugne à mesma razão.6 E, como acabou de apontar-se, o horizonte que vai além do que a razão é capaz, isso já pertence aos domínios da fé.

Com pouco esforço, também se verá como o homem, movendo-se dentro dos seus acanhados limites e agindo como causa principal, tem a faculdade de abrir mão do instrumento de que habitualmente se serve, sempre que isso se lhe afigura mais adequado ao fim pretendido. Se o homem o faz, como pode surpreender que Deus, fonte e Senhor de tudo o que existe, actue como causa prima, deixando de parte o que não é mais que causa secunda? Aqui desenha-se, nem mais nem menos que o quadro de uma manifesta analogia de atribuição: de um lado, vemos o homem dispensar o instrumento que ele próprio forjou, suprindo com o seu imperfeito modo de ser, o que aquele faria; do outro, temos Deus, na forma por que julga mais conveniente, realizar o que Se propõe, servindo-Se do Seu poder infinito. Da pequenez do homem, pois, se vai subindo à majestade de Deus!

Duvidar deste mistério, ou negá-lo, constitui tremenda falta. É heresia ou soberba, se nele cai um fiel; apenas soberba para os restantes. No caso de ser praticado sem consciência da sua transcendente gravidade, tratar-se-á de um completo desvario que bem devia cessar.

Deus é o Inefável, o Iahué do texto sagrado --- «Qui est misit me ad uos (...).7 Se é inefável, só pela Revelação podemos conhecê-lo. Qualquer mistério sobrenatural, pois, que nos seja revelado, traduz-se no único modo pelo qual tomamos conhecimento daquilo que a Deus respeita. In statu uiae, tal operação pressupõe um acto de fé. Pressupõe-no e requere-o. Só na Glória, acabará esta exigência porque aí os bem-aventurados vêem facie ad faciem, conforme o magistério de S. Paulo.8

Um mistério, se fosse evidente, dispensava explicação. Também não é inteligível porque não comporta nenhuma explicação. Se a comportasse deixaria de ser uma verdade de fé para passar a um resultado que é atingido pela ciência humana. Será assim tão custoso de ver? Porquê tanta dificuldade em separar campos que são absolutamente distintos?

Se nem todos os dogmas se ligam a mistérios, o certo é que todo o mistério é objecto de definição por um dogma de fé. Não nos iludamos, porém: o dogma de fé não cria a verdade; pressupõe-na e formula-a. A quem lhe custe entender isto, dir-se-á que o dogma está para a verdade enunciada, assim como o termo está para o conceito de que é expressão verbal. A diferença, que existe, consiste em que cada palavra tem raiz convencional e o dogma é o que ali se expressa, sem que se lhe possa dar volta. Não deixa espaço à discussão: aceita-se ou afasta-se. Todavia, apesar de escapar à pura razão do homem por estar acima das suas faculdades cognoscitivas, nem por isso o dogma de fé é antirracional!

Não há, com efeito, nenhum confronto entre razão e fé. Mas há quem perca tempo reunindo argumentos para rebater questões de fé sobrenatural. Discorrem à solta, secando o seu poder dialéctico, e sobretudo esgotam a capacidade de tolerância de quem os ouve. Realmente, é precisa uma forte dose de paciência para os suportar.

Com efeito, nenhum dogma católico tem a pretensão de ser fruto de um acto da razão. Não é seu propósito impor-se porque a sua verdade se demonstra: a demonstração é um processo aplicável ao que o conhecimento racional alcança e, portanto, não é a via seguida em Teologia para a definição dos dogmas. A sua fonte está na Revelação, a qual é, por natureza, objecto de fé.

Os primeiros princípios metafísicos também são insusceptíveis de qualquer demonstração. Neles é que se fundamenta o espírito humano para proceder à demonstração de verdades filosóficas ou de ciências de outros ramos do saber. Em lugar de ser demonstráveis, esses princípios são expostos pela evidência que apresentam. Se se demonstrassem, perderiam a sua condição de primeiros princípios e teríamos de buscar outros: ora isso não pode suceder indefinidamente, sob pena de se cair na negação de tudo o que nos rodeia, ou a imaginação concebe obedecendo a uma estrutura lógica. Em suma: por esse caminho não se evitaria a petição de princípio. Só a demência sustentará o contrário. Até aqui, pode e deve chegar o raciocínio do homem que não se confesse agnóstico.

Escusam, portanto, os adversários da religião católica de repetir que nenhum dos seus fiéis é capaz de demonstrar a verdade de um único dos dogmas, que professa. Certíssimo: não é capaz! Aí estamos absolutamente de acordo. A verdade dogmática, em que o católico crê, é na sua essência uma verdade de fé e, por tal, só comungam dela os que guardam essa dádiva. Deixem-se, portanto, de ver aberrações onde elas não existem. Esgrimir contra temerosos gigantes escondidos atrás de fantásticos moinhos de vento, nem como quixotismo se pode aceitar porque, aos seus autores, falta aquela graça  própria do herói de Cervantes!

Não se peça, pois, aos que têm fé que provem as verdades dogmáticas em que acreditam --- nenhum católico o pode fazer. A fé foi dada gratuitamente a todos, embora alguns a rejeitem. E, como ficou dito, não está sujeita a demonstração: ou se tem ou não se tem. Quem a tem não ignora o seu valor; a quem não a tem, não se lha pode dar contra vontade do próprio. 

Desistam, por conseguinte, estes críticos, que são afinal muito menos menos científicos do que se crêem, de uma estratégia à qual, do grémio católico, ninguém se opõe enquanto ela se resume à censura já referida. Em termos bem claros: se não estão animados pela fé, ao menos por uma questão de sã lógica, abandonem veredas em que se sucedem raciocínios esvaziados de qualquer conteúdo idóneo para infirmar as verdades de fé.

Resumindo o que foi exposto:

Não se teime mais na obra de requerer provas dialécticas, quando os requeridos já concederam que não as há, nem pode haver dada a qualidade da matéria sobre que versariam tais provas. E nunca se esqueça algo que, por muito repetido que é, nem por isso perde ocasião de ser novamente lembrado: o dogma de fé é suprarracional, mas não é antirracional!

Torna-se impossível pôr fecho no que aqui se discorre, sem uma curta passagem por terrenos que parecem situar-se fora do que deu azo ao que aqui se tratou --- o mistifório torpe que atingiu a sacratíssima figura da Virgem Maria. Mas não é tal. É que nesses terrenos crescem umas hostes desassossegadas, sem ponta de tino, rebeldes à sua própria hierarquia. Os que nelas militam nunca andam por longe. Ficam muito mais perto do que aquilo que se julga, e não perdem ensejo de enfileirar com os inimigos da Igreja, aproveitando tudo para participar, embora de outro modo, na obra de destruição levada a cabo por aqueles.    

É dado já adquirido de que notícias desconchavadas, como as que deram corpo ao que agora se falou, não excitam só os inimigos declarados da ortodoxia. Conseguem isso, sim, mas vão ainda mais fundo --- despertam sempre uma legião furiosa lá das bandas de exterminadores integristas, os quais, pelas vestes de que se cobrem, geram confusão e, por isso mesmo, não representam menor perigo. Em certa medida até inspiram um reforço de cautela, porque o mais temível inimigo é justamente aquele que parece um aliado bem próximo.

Falhos da mais elementar prudência, neles não se descobre uma parcela de boa fé, por mais diminuta que ela apareça. Nas suas ofensivas, a obsessão é sempre a mesma: desancar o sucessor de Pedro, depois de S.S. PioXII, seja ele qual for. Insensatos, deslocando-se à beira de um abismo que os há-de tragar se não emendam o passo! Ou talvez néscios que nem sabem o que fazem! Pretendem o quê? Derrubar aquele que se senta no sólio pontifício e sentar outro no lugar dele? No seu delírio, será possível terem esquecido que o Papa não pode ser julgado por ninguém?9 Convocariam um Concílio? Eis Basileia que volta e sobe ao palco! Veremos estes guardiões da fé, ainda assim não contentes com as decretais do concílio cismático, trazerem à cena a múmia de Nogaret, que irão arrancar das brumas do passado? Não devemos admirar-nos.

Naquele meio, também há quem proclame que se vive sede romana vacante! E que esse vazio se arrasta desde S.S. Pio XII. É um dislate como outros em que abundam. O que facilmente se vê pela posição falsa em que se colocam. Com efeito, que se propõem fazer? Será que optam por deixar a escolha de um novo Papa aos Cardeais? Mas tais purpurados, filhos acarinhados dos Antipapas, que os elevaram a tão alta dignidade, certamente hão-de ser gente do Demónio pelo simples facto de carregar esse tremendo pecado de origem. No critério deles, os modernos Cardeais forçosamente sofrerão de uma ilegitimidade derivada ou reflexa. Se não é o caso, que realmente não é, como ousam atacar a legitimidade daqueles que os chamaram ao cardinalato? Será que, na sua pertinaz cegueira, não vêem que os Cardeais do tempo de S.S. Pio XII voltarão tanto como está assegurado o regresso daquele excelso Papa? Ou, para concluir, defenderão que o Papa, feito à medida da nostalgia de uma história pretérita e de uma catequese mal entendida, com dolo ou por inépcia, que esse Papa, insista-se, talvez surja por aclamação popular na Praça de S. Pedro? Se assim é, far-se-á então mister reconhecer que não vai nada mal para quem se apresenta como partidário do princípio da autoridade, princípio muito válido, é verdade, mas que não suporta destemperos e desvarios como os que se costumam escutar, de cada vez que esta falange abre a boca!

Para quê, pois, insistir? --- Teimam porque, como um pouco acima acabou de se afirmar, não é a boa fé que os guia!

Joaquim Maria Cymbron
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  1. Lc. 1, 26-38.
  2. I Cor. 13, 13.
  3. Lc. 2, 10 e ss.
  4. Summa Theologica III, q.1, a.2.
  5. Deus só não contraria as notas que Ele próprio pôs na essência das coisas. Em atinadíssimas palavras, dizia Jaime Balmes: «Lo que es absolutamente imposible no puede existir en ninguna suposición imaginable, pues ni aun cuando decimos que Dios es todopoderoso entendemos que pueda hacer absurdos (...).» Pouco à frente, acrescenta «que ninguna causa puede producir lo que de suyo es imposible absolutamente.»  El Criterio, cap.IV, IV.
  6. Neste sentido, segue-se mais uma vez a doutrina do Anjo das Escolas quando diz numa passagem bem explícita, tratando do sacramento da Eucaristia: «Cum enim effectus magis dependeat a causa prima quam a causa secunda, potest Deus, qui est prima causa substantiae et accidentis, per suam infinitam uirtutem conseruare in esse accidens subtracta substantia, per quam conseruabatur in esse sicut per propriam causam: sicut allios effectus naturalium causarumpotest producere sine naturalibus causis; sicut corpus humanum formauit in utero Virginis sine uirili semine.» (Summa Theologica III, q.77, a.1).
  7. Ex. 3, 14.
  8. I Cor. 13,12.
  9. CIC can. 1404. No entanto, para aquietar escrúpulos, sinceros ou farisaicos, já que é de esperar por parte dos integristas a recusa em reconhecer validade ao Código Canónico em vigor, deixa-se aqui registado que o CIC, promulgado por S.S. Bento XV em 1917, diz literalmente o mesmo no can. 1556!
JMC

terça-feira, 20 de novembro de 2018

A ILUSÃO DA GREVE


Greve, para os puristas da língua, é galicismo. Num portugês estreme devia dizer-se parede em lugar de greve. Ora uma parede dá logo ideia de separação, de divisão.
Quando ouvimos falar que, entre duas pessoas unidas por laços de amizade, se levantou um muro ou uma parede, tal notícia pode significar muita coisa menos a continuação de boas relações. Isto, no mínimo.
De forma análoga, a greve desencadeada (ou levantada a parede, como se prefira) mostra que a boa paz e harmonia social se deterioraram e só vem exacerbar um estado mórbido, contribuindo assim para que todo o edifício económico abale.
Há menos de um mês, o STAL convocou à greve. Parece que teve resposta muito ampla. E proveito? Se o houve, para quem foi?
Esta greve é apenas um minúsculo episódio numa história mais que centenária. Por isso, não será dela que se vai tratar. Foi mera ocasião das reflexões que seguem.


Convém distinguir a greve que se desenvolve para alcançar melhores condições de trabalho, daquela que se fica por exigir melhores salários.

A bondade da primeira ainda se pode debater. É, indiscutivelmente, uma medida a tomar in extremis, e que se deve aceitar como recurso de legítima defesa dos direitos ameaçados. Porém, à semelhança desta, só é de pôr em prática quando obedece aos mesmos requisitos: justa causa; organização claramente definida; recta intenção; e, por fim, necessidade e proporcionalidade do meio empregue.1

Quanto ao segundo tipo de greves, desde já se dirá que contém, no seu bojo, uma formidável mentira. A greve desta categoria, se observa os preceitos em uso há larguíssimo tempo, tende para o desastre dos próprios que a levam a cabo. E isto, já sem falar dos consequentes danos laterais sempre ligados a qualquer perturbação do habitual viver comum.       

Sobre a greve desta natureza se discorrerá, e é a seu respeito que se pergunta:

Concluída a greve, que visa salários mais robustos, que resta de palpável? Temos que os trabalhadores, que lutaram por melhores salários, satisfeitas as suas reivindicações, vêem aumentado o seu poder de compra. Em princípio seria um resultado muito positivo se não fora o que isso vai desencadear no universo laboral. É que a subida de salários provoca invariavelmente um movimento que alastra por toda a economia e ainda pela sociedade inteira, a qual também se ressente dos resultados assim produzidos.

Realmente, após este passo e para repor o equilíbrio, assistiremos a iniciativas de outros ramos económicos que irão empurrar os seus contingentes de profissionais pela  mesma senda. Quer dizer: completado o círculo, a posição relativa entre cada sector da actividade laboral volta a ser precisamente a mesma.

É fora de dúvida que, de entre os promotores e participantes em greves, muitos estão pugnando, com recta intenção, pela melhoria da sua situação material. Destes, não nos é permitido afastar a existência de uma ignorância desculpável, quanto à malícia habilmente escondida na complexidade que envolve este método de luta. Concedamos até que, pela sua acção, buscam que o desfecho de uma greve venha reflectir-se na saúde geral da economia, se atingem a vitória. Ponto este que já não é tão líquido e abre a porta a sérias dúvidas, dúvidas estas fundadas na própria essência do que a riqueza é e como surge.

Com efeito, riqueza não é senão capital com trabalho incorporado. Estes dois elementos são distintos, mas têm de caminhar a par, porque ambos são factores de riqueza. É, pois, de proscrever e do modo mais radical, o crime de os lançar, um contra o outro, numa briga sem sentido. Ao mesmo tempo, neste conúbio, é proibido deslocar o homem, titular do trabalho (chamemos-lhe assim), para lugar subalterno. Uma vez que o homem é a causa eficiente na produção económica, logo por aí, neste como nos outros campos da sua vida terrena, ele guarda o posto de excelência.

Na sua origem, o capital é simples matéria bruta, que o homem encontra, mas não cria: o seu autor é Deus. Entretanto, temos que é o homem quem desenvolve trabalho; o capital não lhe custa pena, porque lhe é oferecido na natureza criada por Deus, conforme dito acima. Por aqui, já se antevê a maior nobreza do trabalho em relação ao capital. Nunca, pois, será lícito esquecer esta primazia do trabalho, pese embora a certeza de que in ordo generationis, o capital provém directamente de Deus, enquanto o trabalho é acção do homem. Todavia, não se há-de esquecer que a prioridade se fixa por ordem de grandeza espiritual e não por precedências de uma origem com maior ou menor antiguidade no tempo. Nestes termos, há no trabalho uma causa final, que não se acha no capital --- a glorificação do Criador!

A forma importa mais que a matéria, porque daquela é que esta recebe o rosto. Por sua vez, na ausência do homo faber não poderia a forma actuar. Pelo que o autor supera a forma que por ele é imprimida à matéria. Está feita a obra. Neste trajecto, o autor da obra é o trabalhador, o qual, repita-se agora e sempre, ocupa o posto primacial dentro do processo económico. Há dúvidas sobre isto? Quem as tiver, abra os olhos e dispa-se de preconceitos marcadamente burgueses!

Sigam juntos, portanto, os dois elementos da riqueza a que se aludiu  e que são os que há. Em união e nunca desavindos, pondo diante de todos nós a imagem harmónica de uma perfeita articulação. Porém, se alguma eleição cabe fazer, essa preferência irá forçosamente a favor do trabalho.3 A explicação está dada. Só não a vê, quem não quer.

Regressando à greve, repise-se a opinião já formulada: não é admissível negar que fracções da população, mais ou menos numerosas, venham agindo, movidas de boa fé na crença de que aquele procedimento é meio eficaz para defesa dos seus direitos. Aos que formam esse grupo, muitos ou poucos é indiferente, se dirigem estas palavras.

A linha desenhada pelo percurso de qualquer greve é o desmentido categórico das teorias, que proclamam este meio como o único capaz para que o assalariado obtenha a paga justa do seu trabalho. O progresso económico só aparece quando a produção sobe. A este crescimento, junta-se uma maior riqueza, e é esta que tem virtualidade de proporcionar a concretização desse belo sonho. Cautela, porém: há sonhos mentirosos! A justa repartição da riqueza só se efectua quando e onde esta existe; e, para que exista riqueza bastante a enfrentar necessidades cada vez mais exigentes, é imprescindível que a produção aumente o seu volume.  

O crescimento da economia depende do capital e do trabalho, recorde-se. Já atrás ficou dito. Como agora se trata de um fenómeno que respeita exclusivamente ao mundo do trabalho, deixemos de lado o capital para nos centrarmos sobre o outro factor de riqueza.

Logo se verá como a greve, na medida em que se limita a conseguir maiores remunerações, não pode realizar as lídimas ambições de quem trabalha. Redunda num ciclo vicioso.

Se verificarmos bem, onde vão dar os aumentos de salário? Desembocam numa dinâmica com resultado em tudo igual ao que sucederia, se os detentores do capital decidissem trocar entre si o dinheiro incessantemente acumulado, ao longo de sucessivas operações realizadas no estilo que lhes é próprio. «Money which begets money, tal é definição do capital na boca dos seus primeiros intérpretes --- os mercantilistas.», anunciou Marx.4 No entanto, esta permuta será infecunda, porque é sabido que «a classe inteira dos capitalistas de um país não pode tirar benefício de si mesma.», escreveu o mesmo autor.5 Como sobrevivem, então? Na vertigem de uma depredação voraz e contínua, vão arrancar as suas mais-valias de quem os serve com o suor dos seus rostos, a troco de contrapartidas muito pouco ajustadas, quando não é caso de bradarem aos Céus.

Por isso, assim como a classe de capitalistas, fechada sobre si mesma, não pode enriquecer, também os que se consideram espoliados não esperem amuar mais dinheiro ao canto da lareira só com melhorias salariais. Incorrer neste erro não conduz a outro desfecho que não seja o de perpetuar um conflito. A solução nunca se deve buscar nas greves desta natureza, porque a resposta imediata da classe economicamente dominante será a de endurecer as suas condições de oferta de trabalho, na proporção exacta das vantagens conquistadas pelos movimentos grevistas. No final, todos perdemos!

Daqui, ser difícil compreender a pasmosa cegueira dos que sustentam, como direito dos trabalhadores, o recurso a uma táctica de luta que pouco ou nada lhes juntará. E é de esperar que por muito felizes se dêem, se saírem ilesos dos manejos da classe que eles frequentemente censuram com carradas de razão. Assim é lícito que através de uma observação exterior, sem julgar do foro interno, fiquem a pairar, pelo menos, duas interrogações: Há o desejo sincero de resolver questões laborais, por parte da gente que advoga esse meio de reivindicar direitos a melhores retribuições pecuniárias para quem trabalha? Ou será que se procura somente incitar a lutas que não são solução de coisa nenhuma, porque apenas têm como finalidade arrastar indefinidamente os problemas para benefício de propósitos inconfessados?

Por outro lado e na sua pureza abstracta, a ser viável o desenvolvimento da teoria que informa o acerto da luta por melhores salários, cedo ou tarde, essa estratégia conduziria ao aparecimento não de uma classe solidamente investida nos direitos que se arroga, mas sim na irrupção de uma casta tanto ou ainda mais privilegiada e despótica do que aquela que vieram derrubar, no cumprimento do ideário que professam. A este respeito, não subsistam dúvidas: causas idênticas, num ambiente ele próprio também idêntico,  produzem efeitos idênticos!

A Rússia, de há cem anos, foi talvez a nação onde se atingiu o mais alto grau de intensidade e de apuro na táctica de movimentar grandes massas de trabalhadores. Os bolchevistas, mestres insuperáveis na ciência de tratar a greve como uma arte, mostraram ao Mundo como funciona uma estratégia de assalto ao poder,6 na qual as greves assumiram e assumem papel de relevo. Neste campo, só é possível comparar-se-lhes o que ocorreu na Alemanha nacional-socialista, diferindo apenas nos caminhos percorridos e na filosofia política que inspirava o seu modo de operar.

Sobre a matéria aqui versada, cabe ainda advertir que o fenómeno histórico, que teve palco em terras russas, constitui um quadro que teima em repetir-se. Desta vez, tudo indica, essa transformação verificar-se-á no seio das economias mais avançadas, confirmando assim as previsões de Karl Marx. O capitalismo será então vencido pelas suas contradições internas, que são múltiplas e reais. Simplesmente, isto oferece todos os dados para se concluir que nada mudou --- teremos, então, o que já foi dito: uma classe, com práticas mais ou menos refinadas, substituirá outra na crueza da opressão infligida à que cai, com a qual aprendeu a brutalidade que então, assim espera, será a sua vez de aplicar.

Vem a propósito, completar esta previsão que, de resto, não é segredo para quem estuda e analisa tais capítulos da economia. No ponto em que parámos, torna-se oportuno abrir um pequeno intervalo e, aproveitando a pausa, interpor um trecho curtíssimo, de certa maneira já implícito no que se escreveu. E não será pelo seu laconismo que deixará por esclarecer a mensagem que transporta.

Essa mensagem declara como possíveis duas categorias de greves: há a greve selvagem, que conduz à ditadura proletária, como a História mostra; e há a greve do amadorismo romântico, aquela de que os estrategos das greves do primeiro tipo se riam e continuam troçando dela. É que eles não desconheciam, antes nem agora, a sua inocuidade para a sociedade burguesa, precisamente aquela que alguns sindicatos de trabalhadores dizem estar a combater. Acima, tocou-se no logro a que leva esta greve, apenas idónea para funcionar como válvula de escape e dar, aos que assim pugnam, a falsa impressão de que fizeram muito. Não se voltará ao assunto. O suficiente ficou dito.

Fechada esta interpolação, retomemos o fio do discurso:

Não raro, insista-se de novo, sucede que a revolta e a indignação dos que trabalham são justas. Temos de reconhecer que são relegados para o lote dos deserdados de uma fortuna que é comum, e que está longe de ser repartida com equidade. Mas o confronto, como ele é procurado pelos agitadores sociais, não é via adequada para o objectivo legitimamente pretendido.

Sobre o que se discorre, não é correcto manter o princípio de que os conflitos são inelutáveis pela simples razão de que existem. Chama-se, pois, a atenção para o facto de que neste âmbito, como nas demais relações em que o homem é actor, esses conflitos deviam desaparecer e que é possível chegar a esse termo.

As diferenças enchem de cor o universo, mas não implicam que haja um antagonismo necessário: onde existe antagonismo, certamente há diferenças; porém, estas nem sempre pressupõem qualquer espécie de choque. Na verdade, a vida é composta de categorias, que se conjugam e dispõem ordenadamente para um fim determinado. Só nega a complementaridade aquele que anda arredado daquilo que o rodeia. Num grau de abstracção, que se situa em plano superior, percebemos a variedade que é o mais límpido testemunho da transcendente unidade do Ser.  

Dinheiro que gira sempre nas mesmas mãos a ninguém dará saúde económica. Foi referido atrás e volta a lembrar-se. Essa circulação é o ponto nevrálgico onde bate certeiro o ataque dirigido ao capital. De facto, o mundo capitalista, virado para si mesmo, não amontoa riqueza até porque, desacompanhado do trabalho, é impotente para a produzir e, assim isolado, não consegue sobreviver. Para não desaparecer, ao capital só se lhe abre uma via que ele nunca desdenhou: pagar menos do que o valor do trabalho realizado, comportamento, aliás, ao qual já se aludiu!

Querem agora os trabalhadores, que sofrem, teimar em ensaios de um modelo que está roído de podridão dos pés à cabeça? --- É um erro colossal, que não os tirará da agonia experimentada por uns e que lançou outros num estado próximo da letargia. Esse erro disforme bem se pode ter na conta de um suicídio profissional!

Desejam conquistar a dignidade que se lhes deve? --- É, de todo em todo, pertinente aspirar a esse resultado, porque ele é merecido. Mas que saibam: o caminho para o triunfo não passa por greves onde se grita por mais dinheiro.

A organização laboral tem de ser revogada de alto a baixo e de uma ponta à outra: nem o capital sufocando o trabalho; nem este ignorando aquele! Quem recusar esta saída, cria condições para que nasça um monstro: corpo dividido ao meio e em que cada metade está privado da outra que o devia completar.

O capitalismo veio e nada resolveu; o socialismo opôs-se-lhe e também não curou os males. São sistemas que parecem enfrentar-se e, nessa hostilidade simulada, se esforçaram para que ninguém desse pela imperfeição que toca aos dois: a cada um deles falta o que o outro possui. Isso mesmo se acabou de assinalar.

Neste momento, o que importa acrescentar é que a solução para este angustiante problema se não reduz à intervenção de uma política, que se limite a modificar a legislação sobre o tema que se vem tratando. A resposta encontra-se num patamar mais elevado: a mudança requer uma reforma profunda de mentalidades e instituições.

O vocábulo revolução, o que mais gostosamente acudirá à boca de muitos, não será sensato usá-lo. Não convém esquecer que essa palavra, tomada universalmente, é sempre condenável.7 Pelo que se tem por deslocado o seu emprego, na altura precisa em que se tenta apontar uma linha salvadora para este drama. Por isso é que se substitui por outro --- restauração --- e assim, o que urge fazer (nisto como em tudo), é restaurar a ordem natural, há bastante tempo violada.

Joaquim Maria Cymbron

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  1. Mais uma vez, valham-nos os ensinamentos do Anjo das Escolas para encontrar resposta aos problemas que afligem a humanidade. As greves, como distúrbios sociais que são, pedem tratamento equivalente ao que é dado a outros conflitos que os homens travam entre si. Por isso, não admirará que se faça remissão para a doutrina elaborada por S. Tomás de Aquino, onde este grande teólogo e filósofo se debruça sobre os vícios opostos à paz (Summa Theologica, II-II, q. 40, a.1; q. 42, a.2, ad.3).
  2. Ver https://legitimismo.blogspot.com/2007/12/economia-luz-da-metafisica.html.
  3. Do valor do trabalho na produção económica, entre muitas outras fontes, temos as palavras que S. João Paulo II nos legou na preciosa Encíclica Laborem Exercens, maxime §§ 7, 12, 13, 14 e 15. Dificilmente, busque-se onde se buscar, se irão encontrar trechos mais esclarecedores no que respeita a este ponto específico.
  4. O Capital I, cap. IV, Delfos, 7.ª ed.
  5. Ib. cap. V.
  6. Foi Lénine, através da III Internacional, quem deu o toque genuinamente revolucionário à praxis socialista, enchendo-a de uma mística inconfundível. Entre nós, destaca-se Cunhal como intérprete fiel e hábil da dialéctica marxista-leninista. É modelar a lição que nos deixou nos trabalhos preparatórios do VI Congresso do PCP (Rumo à Vitória, Edições Avante). Terminou num insucesso não obstante a lucidez, até hoje inigualável, que esse documento mostra entre as mais forças oposicionistas do xadrez político nacional, tal como esse tabuleiro se apresentava no período que antecedeu o 25 de Abril. Quando soou a hora crítica e decisiva, no Verão Quente de 1975, entre dois peões da Revolução Universal --- a democracia burguesa e a democracia proletária ---, aconteceu que Kissinguer decidiu avançar o primeiro deles.
  7. Revolução, na acepção absoluta e não relativa, é a sucessão de desacatos à Lei Eterna, e que teve Lúcifer à testa dos anjos rebeldes. De resto, é na sua linha que também se insere toda a conflitualidade do mundo económico-laboral.


JMC