terça-feira, 11 de julho de 2017

CONTRA O ISLÃO?

 
Soam trombetas mensageiras de um perigo que alguns pintam de cores apocalípticas. Nos dias, que correm, difícil é que se acorde a som diferente daquele que se faz ouvir: é um bradar às armas contra o Islão! Podia, acaso, ser outra coisa que não fosse o aviso de um mal que, segundo nos asseveram, nasce lá nas paragens do Oriente, escondido nuns turbantes enrolados?
Porquê e para quê tal pânico que se vai generalizando em proporções de assustar? Está aqui o inimigo real? Repare-se! Se atacamos os Judeus, somos antissemitas. Mas se chamamos demónios aos que são Árabes, que labéu carregamos e que punição sofremos? Às vezes, tem-se a impressão de que só os Judeus são susceptíveis de doestos; as chanças e injúrias às outras raças, quando muito, não passam de inocentes brinquedos. E, se vão fora disso, é porque são merecidas. Ao menos, assim o crêem os passa-culpas de serviço à volubilidade das multidões ignaras. São servos obedientes ao verdadeiro agente da onda de pavor que nos vem atormentando. Alguns deles talvez sem consciência do mal que ajudam a disseminar, mas sempre dóceis ao mando criminoso que lhes ata as mãos e domina a vontade.
Volvamos um pouco atrás: Não são os Árabes tão semitas quanto o é o povo judaico? Se não o são, então que origem têm? É porventura distinta a ascendência de Ismael e de Isaac? Filhos ambos de Abraão, não entroncam um e outro no patriarca Sem?1 Os funâmbulos, que bailam na corda bamba da demagogia, não acham que sim nem que não. Eles nada pensam: pregam sermão de encomenda!
Dir-se-á: ninguém acusa para além de uma fatia bem determinada dos discípulos  de Maomé, e o certo é que os Árabes não esgotam o universo islâmico! Realmente, para esgotá-lo, faltaria contar ainda uns largos milhões. Devemos, pois, concluir: apesar de, por via de regra, serem maometanos os Árabes, isso não autoriza a que se pense: Árabe, logo maometano! Não são, com efeito, sinónimos e, por isso mesmo, os conceitos que traduzem não formam um conjunto indissociável. Esta assimilação é produto de vozes enganadoras soltas ao vento, e que tentam transformar o significado de cada um daqueles vocábulos de maneira que venham a fundir-se num todo inexistente. Resultado que, não obstante ser inviável, é ao mesmo tempo certo que, na sua forma tentada, é causa suficiente de estragos que cavam sulcos profundos nas mentalidades mais vulgares!
E é assim que, por umas bocas alarmadas se anuncia uma verdade cristalina: nem todo o Árabe é maometano, e há um imenso número de maometanos que não são Árabes. É nisto que importa assentar para conceder que, na sanha antijihadista de alguns, não houve um propósito de lesar o bom nome dos Árabes. Será mesmo assim? --- Não é crível. Porque de contrário, teríamos de concordar que, nas amaldiçoadas hostes do Islão, não há nem um árabe para amostra. Está visto que não: os guerreiros do Profeta são árias, do mais estreme sangue daquela raça! Recrutam-nos na Índia e no Irão, notoriamente dois dos países árabes mais representativos no cenário político deste mundo.
Conclusões neste ponto, só uma e da qual não se consegue escapar: dêem-lhe as voltas que quiserem porque o desfecho será apenas um --- quem ataca a mal designada Jihad, nos termos até agora publicamente usados, fere a dignidade do povo árabe. Para que a coerência não deixe de ter um significado moral e as palavras não percam o seu sentido, é forçoso acrescentar que o inimigo das pretensas forças mujahidin não é menos antissemita do que aquele que se refere, com palavras desairosas, ao povo judaico. Fiquemos pelo desaire nas palavras, que tanto basta para magoar uma nação como é aquela. Os seus filhos são muito delicados. Dão-se ares de ter reunido em si toda a sensibilidade do género humano!2
Ou estaremos condenados a ter de dar ouvidos a quem trata por tu as grandes religiões; lida familiarmente com as diferenças étnicas; e está a par dos objectivos estratégicos dos que têm nas mãos as rédeas do governo dos povos? É isso que desejam impor-nos? E, por cima deste conhecimento dos segredos guardados, ficaremos também obrigados a não esquecer a honestidade profunda e diáfana, de que incessantemente dão provas? Perante tamanho delírio, se os canais por onde reboam os ecos de uns depoimentos que, embora suspeitos, nos garantem que os maometanos são maus, apenas resta corrigir a qualificação em grau, porque é uma obrigação indeclinável precisar que os sequazes do Profeta são muito maus, são até malvados e hediondos.
Alguém que nos acuda! Falam de extremismo estes arautos, que vão de moda, mas o equilíbrio deles, onde está? Em que se mostra, afinal, a sanha islâmica? Quem, de modo tão cruento, lhe vai dando corpo? Se os Árabes, a quem uns mercenários que subvertem a desgraçada opinião pública vêm imputando a autoria do mal, se estes povos, insista-se, não são a totalidade do mundo islâmico, onde mais se encontram os bastardos que seguem o Profeta? Que seguem, ou que dizem seguir, ressalve-se já, porque o Corão não ensina a semear a táctica do terror. As hordas sanguinárias do ISIS são tão fiéis ao Islão como o Santo Padre de Roma é hindu ou budista.
Só um cego de espírito é incapaz de ver que o mundo está dessacralizado. No meio de um deserto religioso, não pode espantar que, entre os raros que ainda possuem da vida um sentido sobrenatural, despontem alguns exaltados. São esses, porventura, os soldados de Alá?
Terror é crime. Neste campo, impõe-se determinar quem são os agentes dos factos que se têm por criminosos. No caso que vimos abordando, estão bem identificados os autores materiais. Mas se a perpetração do crime não se fica por um ou por vários autores que agem, em conjunto, por sua livre iniciativa, e há alguém que dirige o que outros fazem, então estamos em presença da coautoria moral. Isto não é certamente de inferior gravidade. Pode mesmo gerar uma maior responsabilidade, porque mais intensa costuma ser a culpa que acompanha a participaçãodo do autor moral no crime que se julga. Importa pois investigar se, no presente flagelo terrorista, há a mão de alguém mais do que aqueles que descem ao terreno.
Antes de qualquer resposta, convinha que nos debruçássemos sobre a lição do passado. Herculano chamava à História «a profecia do futuro.»3 Que nos diz, então, a mestra do tempo?
Citado Herculano, não deve surpreender que o excurso histórico diga, muito de perto, respeito ao que toca a Portugal. É universal a preocupação pela anunciada ameaça do Islão. Portugal, todavia, ainda antes de fundada a sua nacionalidade e a par do que hoje é Espanha, foi palco de uma experiência que não repugna aceitar como a expressão fiel da expansão árabe por este mundo de Deus. É nesta convicção que se evocará, no essencial, a memória do seu trânsito por terras da Península Ibérica.
 Os Árabes, quando aqui chegaram, imprimiram fortemente o seu selo por um espaço de tempo que durou mais de sete séculos. Passada a primeira vaga de assalto, que tudo parecia tragar, o ímpeto afrouxou porque também foi fraca a resistência oferecida por uma sociedade que mostrava todos os sinais de decadência. Não foi, pois, um exército de saque e pilhagem aquele que se derramou cobrindo as soalheiras terras da Península, a mesma que, hoje, Portugueses e Espanhóis dividimos. Nem de longe o foi, ao menos, com aquela intensidade que é costume num exército que vem para conquistar. De um ou de outro modo, é lei constante na cronologia dos povos o emprego da força por parte de quem invade: se vence, impera; derrotado, tem de retirar. Foi o que se viveu neste extremo ocidental da Europa: primeiro, nas margens do Guadalete; mais tarde, junto aos muros de Granada. E vem de molde recordar que os Árabes, já no desembarque e depois, encontraram abertas as portas da Península: os Judeus, desgostosos com a mão pesada dos concílios hispânicos e principalmente com o que eles denominaram a perseguição de Sisebuto, «(…) em toda a Espanha fizeram causa comum com os invasores»,4 porque esperavam deles a tolerância que não achavam na sociedade visigótica.
Essa tolerância confirmou-se efectivamente, junto deles e também a favor dos cristâos, ao contrário do que uma propaganda viciosa não se cansa de espalhar. Essa flexibilidade, no campo religioso, era comum a outros pontos por onde os Califas estenderam o seu império. Aqui, na Península, ficou bem conhecida a classe dos moçárabes, formada pelos cristãos submetidos ao domínio árabe. De resto, essa transigência religiosa era francamente vantajosa sob o ponto de vista fiscal: os que se convertiam deixavam de pagar imposto. É sabido como, no Egipto, a conversão dos cristãos coptas ao islamismo indispôs o poder muçulmano. Portanto, muito convinha que ficassem agarrados às crenças religiosas que professavam. Era esta a política praticada pelos Árabes, que tinham por hábito distinguir entre os idólatras ou pagãos e os povos do Livro, categoria que incluía judeus e cristãos. Com os primeiros --- kafir --- o seu radicalismo era impiedoso: ou se convertiam à palavra de Maomé, ou eram exterminados; para os demais, tolerância!
Sob o tecto da então Mesquita de Córdova, a exemplo do que acontecia em muitos outros lugares de culto, a parte virada ao Oriente era destinada aos muçulmanos, e na outra cabiam os cristãos. É certo que os constrangimentos não foram poucos: as manifestações públicas do culto cristão, ainda que consentidas, provocavam frequentemente a mofa dos vencedores, a qual por vezes, revestia um comportamento de declarada animosidade. No entanto, havia uma mútua penetração resultante da sensível benignidade com que os Árabes tratavam os vencidos. Oliveira Martins atribuiu-a a um desdém que não se ocultava.5 Fosse como fosse, era realidade o respeito dos que dominavam na Península Ibérica pelas instituições que os hispano-romanos guardavam da monarquia goda. As autoridades, tanto as civis quanto as eclesiásticas, regiam-se por normas que eram herança do império derrubado e formavam a sua cultura própria. E, apesar da maior ou menor aspereza nas relações mútuas de vencedores e vencidos, as populações lá se iam cruzando.
Para outro vulto eminente da historiografia hispânica --- o espanhol Menéndez Pelayo --- a situação social e religiosa da população peninsular nativa não era tão mirífica. A este respeito, o juízo daquele emérito autor é muito mais severo e denuncia a inclemência do rigor ditado pelos Califas a partir do ano 850.6 Contudo, Oliveira Martins introduz uma nota que permite atenuar o rigor daquela opinião, quando sustenta «(…) que nunca os Árabes seguiram à risca o código promulgado. (…) e que quase sempre o modus uiuendi das populações cristãs provinha de tratados especiais como sucedeu na Espanha.»7
Na verdade, por mais aguda que tenha sido, nalgumas ocasiões, a hostilidade vivida contra os naturais da Península, em nenhuma época foram estes obrigados a buscar refúgio nas catacumbas como séculos antes ocorrera aos primeiros cristãos da Roma pagã. O que de fanatismo intransigente possa ter havido cá, pela Península, só muito fugaz e acidentalmente terá sido obra de Árabes. A génese de uma dura opressão começa ainda em tempo dos Omíadas, fugidos à carnificina levada a cabo pelos Abássidas, e que tiveram em Almançor o seu mais potente braço armado. Daqui, o governo passou aos Almorávidas. Foi um governo que, na pessoa do temido Yusof, de modo nenhum foi fácil de suportar nas zonas ainda não remidas pela Reconquista. Seguiu-se a dinastia dos Almóadas, os quais nada dispuseram de mais suave. Com a queda destes, surgem os Merínidas, teimando na mesma política de perseguição religiosa. Todas estas dinastias, excepto a Omíada, eram dinastias oriundas do Norte de África. Ora o Berbere não é um Árabe.
Entretanto, o extenso império, cujos horizontes florescentes Tárique e Musa rasgaram, aproximava-se do seu ocaso. Matavam-no causas internas e causas externas, como sempre sucede a todo e qualquer domínio temporal erguido pelos homens: era a proliferação dos reinos de taifas que o roía, e o progressivo avanço das fronteiras cristãs que simultaneamente acentuavam a dissolução de um corpo que foi formidável. Obedecia, enfim, ao que é o curso normal de todos os impérios: nascem; atingem o cume; e decaem. E o que foi alargado pela força, ou possa voltar a sê-lo, não era certamente o Islão, mas sim uma ânsia de conquista e domínio que transtorna mentes e corações. Uma vez, pelo menos, como é o caso da ocupação da nossa Península, a traição foi articulada em palavras que nada tinham de árabe e por bocas que não eram de maometanos. Nem a tendência para a opressão nem uma insofrida sede de sangue podem confundir-se com a nação árabe. Aqui, nem sequer se faz apelo a um critério equitativo para proclamar isto mesmo, porque é de temer que os perversores da identidade árabe não compreenderão o sentido da palavra equidade. Esperemos que a eficácia do pedido se baste por ser feito em nome da mais fria lógica!
Os fogos, que se vão ateando, fazem subir as labaredas de um conflito antigo e que, agora como nunca, está crepitante --- é o dilema que se resume na disjuntiva Árabe-Judeu.
Quando não é o momento de zurzir o povo árabe, é porque é altura de o amesquinhar. Porquê? Este acto é sempre ou infame ou imbecil. De facto, se o alvo da zombaria é um pobre diabo, temos que a acção de rebaixá-lo, além de cruel, é o recurso dos incapazes em ascenderem e se comprazem, portanto, em torturar os mais fracos, única compensação que têm para as suas limitações; se tem valor, é crassa a estupidez da troça. Com os Árabes, é este o caso. Recusar méritos ao povo árabe, quando este é um povo que pode legitimamente orgulhar-se de um valiosíssimo contributo à cultura universal, é um atentado à verdade histórica  tão grave como, não importa a época nem o sítio onde isso se verificar, gozar o que foi criado e desprezar o criador.
Deve-se muito a este povo. Foram grandes, enormes em muitos campos: filosofia; matemática; astronomia; medicina; arquitectura; agronomia. Tentar roubar-lhes a glória deste passado brilhante, seria o que a doutrina jurídica classifica de crime impossível. O que, acrescente-se a título interlocutório, não anula a malícia de quem assim age. Espelho de ingratidão, é o menos que se lhe pode chamar.
A sua pujança intelectual inspirou o pensamento filosófico de S. Tomás de Aquino. Tendo bebido na ciência antiga que brotava das fontes gregas de Platão e Aristóteles, por um lado, e havendo mergulhado na tradição patrística, este Doutor da Igreja não desdenhou escutar o magistério dos Árabes. Tirou dele  os argumentos que podiam harmonizar-se com a Revelação Bíblica, e tratou-os a essa luz. Esse labor produziu o que é, de sempre, uma das mais extraordinárias obras da inteligência humana. A Teologia católica saiu a ganhar.
Enquanto corria a Reconquista Cristã, nos paços reais e em outros lugares de destaque, era assídua a presença actuante de médicos, filósofos, astrónomos e mais sábios, de extracção árabe. As bibliotecas proliferavam e, no seio delas, abrigava-se um número assombroso de volumes. É fama que sob os Omíadas de Córdova se reuniram mais de meio milhão. No Cairo, a febre de leitura também era altíssima. E do apurado gosto de quem tinha a seu cargo a selecção bibliográfica, dá nota o facto de ser Aristóteles o mais procurado e apreciado pelos leitores. Entre tantos luminares dos mais variados ramos do saber, não deixará de ser curiosa esta preferência por aquele que foi marco milenar da filosofia ocidental.
O Árabe tinha e ainda hoje tem imaginação fértil. Sem espírito imaginativo, a arte é difícil ou até impossível. Arquitectura não é toda a cultura humana e, de modo algum, a arte se resume nela. Porém, se a estimamos suficientemente e quisermos percorrer um roteiro de maravilhas arquitectónicas, quem poderá negar que impressiona e encanta o rasto deixado pelos Árabes? Nem o tempo, que apagou boa parte desse legado, evita que, aqui ou noutra parte, gozemos essas obras-primas, seguramente já igualadas em preciosismo artístico, mas dificilmente superáveis. Tais monumentos são  autênticos tesouros saídos da magia a que chega o engenho humano. Aqui é difícil resistir à tentação de lembrar uma particularidade no outro ramo da família semita, precisamente o que, nesta peça, vem sendo posto em posição frontal aos Árabes: enquanto estes deleitam pela perfeição estética, os Judeus, como protótipo da mais límpida beleza, fundam bancos com as suas caixas-fortes e, a cada esquina, levantam um balcão que eles dizem estar às ordens do povo! As construções dos primeiros elevam; as dos últimos são um valhacouto de perfídias.
O apóstolo S. Paulo ensina que a perfeição invisível se pressente pelo que foi criado.8 Nos minaretes de uma mesquita, palpita o anseio de se passar os limites do contingente; em contrapartida, é bastante difícil descobrir fome do que é eterno no dinheiro que tomba no fundo de uma arca. Só nas linhas da mesquita, que constrói, o Árabe já está rezando ao Omnipotente; o Judeu, tristemente, põe a Divindade em cada cobre que amealha.9
Espiritualidade na arquitectura é um regalo que o povo árabe legou à Humanidade. As mesquitas são, para o Crescente muçulmano, o mesmo que foram as catedrais góticas para o Ocidente cristão: os minaretes daquelas são agulhas que apontam ao Céu, murmurando a oração de Maomé; os arcos ogivais, as naves do interior e os pináculos das catedrais, tudo isto desperta em nós a imagem do cristão, que une as mãos numa prece a Deus.
Depois desta visita ao valioso museu do passado árabe, é chegado o momento de identificar os autores morais do terrorismo que se derrama sobre o mundo. É tarefa que custa pouco trabalho e não vai reclamar muito tempo. Aqui, o apontar de dedo aos culpados, que ficam na sombra, não é propriamente o mesmo que pronúncia num julgamento formal. Assume a dignidade de um juízo que pertencerá também à História, e a exigência desta nesses requisitos é de diferente natureza. Embora nos seus juízos, a História procure uma decisão definitiva, como aliás cumpre a qualquer ramo do conhecimento humano fazer, a descoberta da verdade dos nossos comportamentos só se transforma em certeza, após sentença final a proferir por um Tribunal legítimo; à História vão bastando indícios seguros para apreciar as acções dos homens. Essa missão prolonga-se no decurso das nossas vidas e o seu exercício é não só um direito, como principalmente constitui um dever para cada um de nós. Essas páginas, que vamos escrevendo na História, têm sobre os Tribunais a altíssima vantagem de vir eventualmente a corrigir os erros que estes cometem: em linguagem jurídica, na História está constantemente aberta a via para uma cadeia de processos de revisão.
Partindo destes antecedentes, tentemos então isolar os responsáveis morais pela calamidade que nos vem assolando.
O ISIS tem bases no Iraque e na Síria. Ninguém ignora a proximidade geográfica destes países a Israel: o último até lhe é fronteiriço. Há notícia de algum ataque terrorista ou até mais convencional ao território de Israel ou a interesses judaicos espalhados por todo o lado? --- Nem uma! Então quem alimenta esta legião de extermínio? --- É a Coreia do Norte? A China? Será o próprio Irão, pertíssimo do território onde se instalou a cáfila assassina? Ou mesmo a Rússia? --- Não é sensato supor nenhuma destas origens! Seria até ridículo admiti-lo! Lá temos, como é hábito, os Estados Unidos, esse foco revolucionário da nossa era, colosso descomunal que, não obstante os ventos de mudança que parecem soprar em seu redor, ainda aloja no seu imenso bojo o santuário da judiaria internacional. É assim que se vai traçando um percurso sem aquela nitidez que a congruência nos dá, porque, mais que ambíguo, é contraditório de uma à outra ponta. Porém, só à superfície, este caminho é paradoxal: na raiz, é isto mesmo o devir histórico da nação americana. Se hoje parece condenar o inimigo, amanhã já lhe dá o braço e com ele acende o fogo da impiedade. A cólera só pode quebrar as Tábuas da Lei, em sinal de protesto, quando há um Moisés para receber outras novas. E, no domínio temporal, é este o drama contemporâneo: o de estarmos desgraçadamente privados de um chefe que nos liberte da servidão aviltante, para a qual nos arrastaram os adoradores do  bezerro de ouro, os quais se vão repetindo século após século.10 Continua por aparecer o varão suscitado por Deus. Grandes são as nossas faltas!
Haja decoro e, a seguir, um pouco de equilíbrio no raciocínio, que tanto basta. Não há efeito sem causa e todo o agente actua com um fim determinado. O terrorismo não se exime a esta regra. Quando posto ao serviço dos potentados terrestres, é uma das vias execráveis por onde se vai a um domínio que arrasa nações, destrói culturas e reduz a pó a civilização humana.
Só uma miopia em adiantado grau ou uma gravíssima carência moral de autenticidade impedirão descortinar que o nervo motor do terrorismo é o dinheiro, conclusão que não pode ser afastada no caso que aqui se aborda. Se é evidente que a insofrida sede do ouro pode perverter o coração de qualquer um de nós, não é facto menos incontornável que um povo há com especial disposição para tratar o metal luzente com grande intimidade --- são os Judeus. Do capital, quando lhe tocam, parece que colhem aquela volúpia que o amante tira ao afagar o corpo da mulher amada. Esta particular feição da sua personalidade, aliada à inviolabilidade das suas fronteiras e à imunidade de teres e haveres, no meio da actividade desenvolvida pelo Daesh, é verdadeiramente inquietante!
De mistura com tudo isto, à nossa volta, a carnificina não pára de crescer. É trágico. O número de mortos e feridos aumenta a cada dia. A sangueira é medonha. Como está reagindo a Europa ao alastramento e à arrogância de uma estranha barbárie, açoite moderno dos povos e que já não se pode esconder? --- Mais miserável do que é seu costume desde um passado que começou a desenhar-se com a revolução antropocêntrica, esta Europa pecadora e, por isso mesmo, uma Europa que inspira dó, parece apenas empenhada em fazer peito ao Brexit, ao rombo no acordo de Paris e a umas quantas coisas mais com que, em nome da democracia, os seus amos ocultos  desejam estrangular os que já não estão interessados nelas, ou nunca estiveram. Sem ponta de garbo, porque a tanto a reduziu a anemia de que sofre, a Europa floreia o estoque diante dos Estados Unidos, enquanto exibe uma impotência confrangedora para defender, como lhe competia, os bens primários e que são igualmente os bens supremos da pessoa humana: a vida e, sobretudo, a dignidade moral e espiritual dos seus naturais. Quando o eixo dos cuidados imediatos, a ter em conta, se desloca do essencial para o que é secundário, o panorama torna-se desolador e bem pode a comunidade prantear os seus pecados.
De que servem manifestações de rua, com um número insignificante de presenças, em território hostil quando não é céptico e indiferente (o que o torna pior), que frutos produzem esses grupos, pergunta-se de novo, se não houver o propósito de algo mais do que passear uma Cruz e distribuir folhetos? É que, dali, nada mais sai do que uns apontamentos para os clássicos meios de comunicação social, deformados e deformantes, sendo  pois uma pura perda de tempo. Sem embargo do que acaba de expor-se, algum mérito se tem de reconhecer, pelo assombro demonstrado, àqueles que assim se aventuram. Contudo, não passa disso mesmo: aventura, que é algo muito distinto de um acto em que o risco foi ponderadamente calculado. Tem havido uns arranques de indiscutível coragem como réplica às explosões de ferocidade, que são do conhecimento público. Isto prova somente que bravura é predicado ainda não de todo extinto em quem se pode opor, embora os esforços de varrê-la sejam visíveis.
Nenhum cristão ignora o poder que tem a Cruz, como signo da Redenção; mas nenhuma pessoa sensata deve esquecer que, por vezes, à espada também pode estar reservado um papel na missão de garantir uma ordem conforme à lei natural. Tal missão, expressivamente definida pela figura bordada sobre o saio que o cruzado vestia, transmite a ideia de que  há uma espada, se a empunhamos por cima; cruz, se lhe pegamos abaixo. O que infalivelmente nos induz a ver o desenho do gládio, durante o combate legítimo; e se descobre o madeiro do suplício, na paz que for justa. Ou será que pretendem meter-nos à cara a repetição de um Pedro, o Eremita, ressuscitado? Não é um presságio animador, por razões bem sabidas.
Já se adivinha o coro pacifista. Atroa os ares, ribombante! É um coro de fôlego cheio, conquanto desafinado, porque perdeu ou nunca teve o diapasão que poria na sua frente a pauta de uma melodia ética.11 E não se inibe de vociferar: Isto é fundamentalismo com outra cor! Um discurso assim, berra o coro, é um discurso belicista, é o grito de quem ainda não abriu os olhos para uma idade de perfeita concórdia do género humano, na demissão dos preconceitos que esmagam, e na entrega generosa e passiva de vidas e fazendas, principalmente se forem as vidas e as fazendas dos outros. Junto destes, nasce o sagrado dever do Jornalista pregar a sua catequese, proclamando ser feio o apego a coisas temporais e revestidas de tanta materialidade. Catequese que é hipócrita, visto que outra coisa não pode ser uma catequese proveniente do jornalismo.
Realmente, certo desprendimento é virtude muito louvável. Louvável que é, procure-se que essa virtude seja louvada. O que resulta difícil é louvar essa catequese por parte de quem está no jornalismo. E é difícil porque nunca se sabe quando um jornalista é genuíno. De uma ou de outra forma, o seu peso na questão de fundo aqui falada tem a valia que deriva da perniciosa influência do seu lastimoso ofício. Nalgumas ocasiões, é proeza quase homérica não ver em certas manobras o dedo do Príncipe da Mentira.
Para esbater equívocos, atente-se nestas palavras finais:
A violência é condenável. Mas a força, que ampara o Direito, não é violência e, consequentemente, é uma arma lícita. Não adianta pedir compreensão para isto, a quem afivela ao rosto a máscara de uma mansidão nada credível, ao mesmo tempo que engrossa as fileiras dos que aceitam ser mentores ou os porta-vozes de uma propaganda tão terrorista como o terror que dizem reprovar. É muita essa gente e da mais variada espécie: políticos, que são mandaretes; profissionais da comunicação social; e, até, os que passam como moralistas. Será, pela certa, trabalho vão esperar que entendam a distância que separa violência e força, em grau que os faça confessar isso mesmo, porque entender, poucas dúvidas restarão de que, há muito, o entenderam. O que lhes falta, nuns casos, é coração animoso para aliviar o aro de ferro que os asfixia; outras vezes, será ausência de humildade para reconhecer o erro.
Neste tormentoso problema, poderá ser esse o primeiro passo em direcção à Paz verdadeira! 
Joaquim Maria Cymbron
 
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1.   Gn. 11, 36; 16, 16; 21, 2. Tem sido uma constante, ao longo de todo este blogue, ir buscar as citações bíblicas à Vulgata. Desta vez, porém, atendendo ao especial melindre do passo aqui versado, decidi recorrer ao TOB, editado por Livre de Poche. É óbvio o motivo: espero assim deixar bem vincado que as passagens, para que remeto, não foram tiradas da cabeça de nenhum ultramontano.
 
2.   O pormenor em dizer toda a sensibilidade do género humano não foi uma mera construção de frase: os Judeus --- os Judeus hodierno, não os Patriarcas e os Profetas do Antigo Testamento, e obviamente, nos tempos messiânicos, Jesus, Sua Mãe Santíssima, S. José e os Santos Apóstolos, sem esquecer todos quantos, filhos de Israel pela carne, o foram e continuam a sê-lo também pelo espírito --- estes Judeus ufanam-se de constituir a única espécie humana sobre a Terra. Daí, que tivesse confluído ao sistema nervoso deles, por inteiro, a sensibilidade que uma criatura humana podia ter. Eles, e só eles, são essas criaturas!
 
3.   O Pároco da Aldeia, V (Lendas e Narrativas, Tomo II, Livraria Bertrand).
 
4.   J. Lúcio de Azevedo --- História dos Cristãos Novos Portugueses, Livvro Primeiro, I.
 
5.   História da Civilização Ibérica, Livro Segundo, IV.
 
6.   Historia de los Heterodoxos Españoles, Liv. II, c. 2. Cumpre lembrar que o ano de 850 pertence ao período em que os Omíadas já dominavam na Península muçulmana, e a política deles assumiu uma feição de rigor religioso ortodoxo, nos termos que, logo abaixo da opinião do autor espanhol aqui invocado, resumidamente se expõem e se explicam no texto principal.
 
7.   Supra 3, ib. Oliveira Martins alude ao célebre cânone do Califa Omar.
 
8.   Rom. 1, 19 e s.
 
9.   Os Judeus surdos à Boa-Nova.
 
10. Impõe-se sempre estar sobreaviso: é doutrina segura para a grei católica que toda a criatura humana, com excepção da Virgem Maria, já caiu ou virá a cair em pecado. Portanto, ninguém há que não tenha violado os mandamentos divinos, ou não venha a fazê-lo. Porém, os Judeus, na sua incontestável condição de mais antigos herdeiros da promessa directa de Salvação, têm uma obrigação especialmente acrescida de fidelidade a Deus. E é a teimosa rejeição, que aqui se regista, o que sinceramente se lastima. Sobeja a esperança da palavra de S. Paulo, anunciando a futura Iudaeorum conuersio (Rom. 11, 25-32). Por outro lado, nem só a cupidez do ouro é pecado: em rigor, mais que origem dessa desordem, ela é, in se, uma das consequências do apetite de um mando que não conhece limites, que se tem a si próprio como fonte desse mesmo poder, enfim, da soberba que é o princípio de todo o pecado. (Eccli. 10, 15).
 
11. Este coro é o que Antero, entre outros epítetos nada macios, chamava o «monstro formado de todas as contradições, (…) vulto escuro que interpõe sempre a sua forma confusa entre a verdade e os homens (…) maldição das sociedades democráticas (…).» (Prosas da Época de Coimbra, 1.ª ed., Sá da Costa, 1973, p.p. 214 e s.) 

JMC

domingo, 11 de junho de 2017

RIP



É com indizível emoção que dou notícia, neste blogue, de que foi Deus servido chamar a Si o indómito soldado da Legitimidade Carlista José Arturo Márquez de Prado.
 
Que a luz da Pátria celeste brilhe, nunc et semper, para quem na Pátria terrestre tanto lutou pelo triunfo do Bem!  
 
 
 Joaquim Maria Cymbron

quinta-feira, 20 de abril de 2017

PÁSCOA LIBERTADORA

 
Se houve períodos na nossa história, em que a grei portuguesa parecia sumir-se, perdido o rumo e interiormente possuída de uma hostilidade muda, mas nem por isso menos destrutiva, o tempo que vivemos, desde o 25 de Abril até hoje, é certamente aquele no qual a esperança num porvir de justiça e de paz está cada vez mais afastada.
 
Como ficou dito, além de uma aflitiva desorientação, volta a sentir-se uma hostilidade muda: porque é muda, não se ouve; mas, por ser intensa, também não passa despercebida. Por enquanto, o sangue ainda não jorrou em torrentes de largos caudais, lembrando episódios funestos do nosso passado. Mas nem por isso nos podemos julgar a salvo desse flagelo, porque se o que temos não traz, por enquanto, as mágoas que formam o cortejo de um enfrentamento armado, é indubitável que provoca danos pelo menos tão dolorosos como se já houvesse estalado um conflito bélico. É uma fatalidade, mas é, ao mesmo tempo, um desfecho natural e até lógico, porque essas reacções são a chave dos problemas criados pelas indefinições e pelos erros da política. Na realidade, quando tais indefinições e tais erros se mantêm teimosamente, por enquanto não existe outro remédio contra o mal a não ser o recurso a esses meios.    
 
São, pois, cinzentos os dias do presente. Brada-se (às vezes, mais que vozes humanas, há a impressão que se ulula), grita a multidão, frise-se de novo, que muitas coisas vão mal, mas que se goza a felicidade suprema da liberdade. Surpreendentemente, isto parece bastar-lhes. O que as turbas alucinadas por esta miragem não conseguem, é explicar de que lhes serve uma tal liberdade, quando apesar dela se mostram ineptas para  usufruir aquilo que ambicionam, e continuam privadas do que lhes cabe com lídimo direito. E que liberdade é essa assim uivada? --- É um título oco que permite a cada um rebaixar a sociedade a plano igual ao de uma imensa latrina, na qual se despeja como se quer e quando se quer toda a espécie de imundícies.
 
A verdadeira liberdade de modo algum se há-de confundir com a via que leva à profunda cloaca em que se vai transformando uma Pátria, abnegada e de recta intenção, como foi a nossa. Não é fenómeno exclusivo de Portugal, porque o mal não nos afecta só a nós. Bem pode dizer-se que é geral. Mas a nós, Portugueses, o que deve interessar, em primeiro lugar, é o caso nacional. Com todos os desvios e infidelidades em que infalivelmente cai o que é humano (e as Pátrias outra coisa não são do que um aglomerado de homens ao longo de sucessivas gerações), apesar dessas falhas, repita-se, no velho Portugal tinha-se uma correcta noção de liberdade, conquanto, como se acabou de referir, nem sempre se lhe seguisse uma aplicação condizente. Liberdade, a autêntica, não pode estar imóvel enquanto estivermos em estado de peregrinação, porque o seu conceito nunca pode andar desligado da nossa vocação sobrenatural; liberdade, esse precioso valor, há-de entender-se como o cume atingido por quem busca a santidade. Este percurso ascético, enquanto dura, é a liberdade que cresce. Quando essa liberdade em movimento dá entrada na Glória, aí temos a liberdade definitiva, porque é a liberdade da bem-aventurança, uma liberdade-resumo da caridade que, na sua catequese, já o Apóstolo pregava1. E porque do magistério de S. Paulo também se tira que a caridade não terá fim2, eis aí a razão para chamar definitiva à liberdade que aqui se aponta como a única digna de se observar.
 
A fonte dessa liberdade não a conseguiremos achar fora de Jesus. A Cristo ficámos devendo o nosso resgate. Daqui resulta que, resgatados, nos tornámos livres. E, nesta condição, fujamos do pecado para não nos atolarmos outra vez na servidão em que jazíamos3. Aquele que peca, se persistir na impenitência, rouba eficácia a um sacrifício que foi universal na sua suficiência. Ao imolar-Se, o nosso bendito Salvador cumpriu, em toda a sua plenitude, a vontade salvífica de Deus Pai que abrangia o género humano, por inteiro. Esquecê-lo é a mais pavorosa das ingratidões, e o desgraçado, que o fizer, atrai sobre ele a maldição eterna4!
 
A liberdade, que gozamos, a verdadeira liberdade, embora nalguns momentos nós próprios nem dela tenhamos consciência, essa liberdade rejeita a divindade falsa que informa a liberdade democrática, esse ídolo triunfante dos tempos actuais e cujo culto, que não é de hoje, há muito que vem fazendo estragos. Viveu oculto, e permanece sem desvelar por completo o seu rosto humano. Isto não o impede de se expandir e ganhar volume, de tal forma que vem de molde afirmar não haver povo que escape aos seus efeitos desastrosos, e que o mundo, na quase totalidade, senão mesmo em toda a sua extensão, se inclina reverente e submisso diante do moderno ídolo que a democracia constitui. Essa pérfida divindade que, com direito satânico e por isso mesmo muito próprio, se apressa já a recolher as libações reservadas à Besta nos tempos apocalípticos, esta deusa também ela embriagada nos vapores das bebidas com que os seus partidários a vitoriam, fez subir a autonomia da vontade humana a um grau apoteótico. Pese embora as palavras seguintes venham a soar com aspereza aos ouvidos dos que queimam incenso nas aras deste culto perverso, a que alguns teimam em atribuir proporções religiosas, o facto é que não está o Bem onde cada um quer colocá-lo, antes o devemos procurar fortalecidos por uma  inteligência rectamente ordenada, que nos descobrirá a Verdade e, com ela, o Bem que sempre a acompanha5. Então, sim, já a vontade não só pode como também deve querer o que a mente lhe indicou como certo. Por outras palavras: não é o apetite o caminho último para o Bem, mas sim o laço que une o sujeito cognoscente àquilo que o deleita. Só isto já marca uma grande diferença; falta lembrar a exigência de licitude no que foi apetecido, na ausência da qual, o que houver será apenas uma aparência de Bem!
 
Pasma ver como há quem, depois de entoar um hino à liberdade que  conhecemos por revelação divina e pelo raciocínio, queira associá-la à democracia, estreitando-as num abraço impossível de dar-se. As notas distintivas da democracia são a negação do que aqui se defende, e não se encaixam, de modo nenhum, no essencial da manifestação daquilo que é a liberdade. Que seja democrata qualquer um quanto lhe der na vontade, é uma escolha ditada pelo seu livre arbítrio que nada tem a ver com a liberdade como ela aqui é exposta. Mas, por amor de tudo o que se chama coerência, não se pretenda ligar duas coisas separadas por um divórcio tão fundo como o que corre entre as duas: era o mesmo que juntar água e azeite. Desista-se, pois, do propósito de casar democracia com a legítima liberdade: seria antinatural esse conúbio. Divide-as um repúdio mútuo que é intrínseco e, portanto, insanável. Diz-nos a própria razão que ao Bem só corresponde o que é verdadeiro, assim como a Verdade apenas compreende o que é bom6. Ora a democracia não é verdadeira, sendo inclusive uma das mais grosseiras mentiras do pensamento: logo, está desprovida de Bondade!
 
A economia da Salvação é toda ela uma torrente de prodígios que formam o maior tesouro da humanidade. Porém, um momento há, com base no qual não será ousado proclamar que esse é o instante onde está gravado, com maior nitidez, o mérito da liberdade alcançada por Cristo a nosso favor. Acontece no Calvário, quando Jesus, a ponto de morrer, exclama: «Eli, Eli, lamma sabacthani7 O génio de Bossuet legou-nos um retrato de extraordinária beleza, a propósito desta sublime passagem das Sagradas Escrituras: «(…) pendant qu’il délaisse son Fils innocent pour l’amour des hommes coupables, il embrasse tendrement les hommes coupables pour l’amour de son Fils innocent.»8 Entra a democracia em cena e faz o que costuma: vira tudo do avesso. Por isso, repele este generosíssimo dom e dá corpo ao paradoxo que nos desumaniza: embora desempenhe esta missão sem confessar os seus intentos, ela veio para açoite indiscriminado de culpados e de inocentes por amor ao mistério da iniquidade! No turvo panorama que se estende ante os olhos, não repugna crer que é a democracia o justo castigo pelo pecado social. O fogo, que reduziu a cinzas Sodoma, nem dez justos encontrou e, por isso, a cidade não foi poupada9. Quantos justos são hoje precisos para que se afaste o flagelo democrático?
 
Porquê este discorrer simultâneo sobre liberdade e democracia, se tão antagónicos são os conceitos que ambas encerram? É exactamente este antagonismo recíproco que aviva a cor de uma e de outra: deste contraste, saem muito mais claras as características de cada uma na sua relação de oposição. Temos, por conseguinte, que a liberdade nos resgata da morte do pecado para uma vida de graça, ao passo que a democracia, mergulhada num feroz apriorismo de matriz kantiana, desenvolve o absurdo do relativismo até extremos catastróficos e, deste modo, sufoca no homem o que nele há de mais valioso --- o espírito.
 
A Páscoa cristã tornou-nos livres da escravidão a que ficámos sujeitos pelo pecado original; a democracia precipita-nos num reino confuso, em cujos domínios não há farol de luz pronto a iluminar o caminho, e que houvesse, de pouco adiantava porque, dado o que precede, é cego quem nos guiaria nesse terreno.
 
Nas convulsões, que ameaçam tragar-nos, será que a paz ainda é possível? E que  categoria de paz nos pode calhar? A pergunta é pertinente porque envolve questão aqui tratada. Realmente, é a paz um bem apetecido por todos. Onde não há unanimidade, é no tipo de paz desejada. A este respeito, ensina S.to Agostinho: «Pax omnium rerum, tranquillitas ordinis10 É, porém, concebível uma tranquillitas ordinis fora do que é justo? Parece bem que não, porque de contrário teríamos que desejar, como paz, o silêncio dos cemitérios, espaço ocupado pelas sepulturas dos mortos e onde reina a quietude para os que lá descansam. Não é esta propriamente a paz por que suspira a sociedade política. Se a tranquillitas ordinis não pode conseguir-se separada do que é justo, eis-nos regressados ao ponto de arranque: bom só o verdadeiro; e apenas o que é verdadeiro nos brinda o que é justo. Dá isto que a paz para ser boa tem de ser verdadeira, coisa que a democracia é incapaz de  oferecer porque não sabe o que é a Verdade.
 
O relativismo democrático, como vem sendo dito, misturou querer com saber e, logo a seguir, subordinou o saber ao querer, deste modo invertendo a ordem natural que sobrepõe a Verdade à vontade11. Operada esta subversão pela doutrina democrática, viu-se cada membro do corpo político arvorado em dono de uma verdade que se choca com a dos outros, conflito que vem a ser solucionado por umas banais contas de somar: a vontade da comunidade é apurada pelo resultado desta adição, e o lado que reunir o maior número de sufrágios é aquele que se identifica com a verdade democrática. Daqui se extrai uma lição: não vale a pena que nos esfalfemos a moldar o nosso pensamento à Verdade. Para quê esse esforço? --- Limitemo-nos a querer e, se houver oposição, a aritmética resolverá o caso. Magnífica ideia, não tem dúvida: os frutos estão à vista!
 
«Ego sum uia, et ueritas, et uita12 Estas palavras de Cristo, na despedida aos discípulos, dizem tudo. Ninguém vai ao Pai a não ser por Ele. De todos os sistemas de pensamento, que os homens levantaram, o mais próximo da verdade evangélica é o que foi erguido pela filosofia escolástica. A Igreja Católica chama-lhe filosofia perennis. Ela é, por certo, a base mais bem estruturada de um sistema de pensamento perfeitamente conforme à natureza da razão humana. E é nos primeiros princípios metafísicos, tal como os enuncia esta filosofia perennis, que vamos ler a condenação da democracia.
 
 Páscoa, 2017
Joaquim Maria Cymbron
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1.      Gal. 5, 13.
2.      I Cor. 13, 8. Quadro esplêndido desta perícope paulina é dado na Divina Commedia, quando o seu autor nos transmite que o reino dos Céus «(…) violenza pate / da caldo amore e da viva speranza, / che vince la divina volontate, / non a guisa che l’omo a l’om sobranza, / ma vince lei perchè vuole esser vinta, / e, vinta, vince com sua beninanza.» (PA 20, 94-100).
3.      I Cor. 6, 12.
4.      A ideia de condenação assinada pelo florentino Dante, no mesmo imortal poema, assume uma magnitude poética conjugada com uma raríssima precisão teológica que, por felicidade, se ajustam maravilhosamente ao defendido no texto. São estes os versos de encantamento: «Giustizia mosse il mio alto fattore / fecemi la divina potestate, / la somma sapienza e’l primo amore.» (I 3, 4-7).
5.      São Tomás de Aquino, O.P. --- Summa Theologica I, q. 16, a. 4 ad 1; q. 59, a. 2 ad 3; q. 79, a. 11 ad 2; q. 82, a. 4 ad 1; q. 87, a.4 ad 2.
6.      Ib.
7.      Mt. 27, 46.
8.      Sermon sur la Passion de Notre-Seigneur, 2.nd point.
9.      Gen. 18, 32; ib.: 19, 12.
10.  De Ciuitate Dei, XIX, 13, 1. A mesma lição já saíra da boca do profeta Isaías: «Et erit opus iustitiae pax, et cultum iustitiae silentium, et securitas usque in sempiternum.» ( Is. 32, 17).
11.  O nosso Épico, em pura consonância a uma correctíssima filosofia dos valores, escrevia: «Vê, enfim, que ninguém ama o que deve, / Senão o que somente mal deseja.» (Lus. IX, 29, 1-2.
12.  Io. 14, 6.
JMC

domingo, 26 de junho de 2016

A HORA DA RÚSSIA


A Inglaterra afastou-se da União Europeia, dessa comunidade de nome enganoso, porque cada vez menos unida e que de europeia nada teve desde o começo, visto que a Europa, cujo projecto seria uni-la, está descaracterizada há muitíssimos anos.  E o que temos presentemente é que a Inglaterra recusou continuar a fazer parte de um amontoado em que manifestamente era a mais. Saiu, deste modo, de um conjunto onde provavelmente entrou sem o propósito definido de lá permanecer. Ainda que caprichos políticos de anteriores ministérios a tivessem arrastado, mais do que conduzido, àquele confuso tabuleiro, um bom observador logo veria que ela não seria capaz de jogar segundo umas regras avessas ao seu ser histórico, nem estaria disposta a fazê-lo por tempo indeterminado.

O referendo, com o resultado conhecido, faz a Europa adulterada espumar de raiva. A verdade é que toda a história inglesa mostra uma preocupação que se cifra nisto: a sua constante política foi sempre a de dividir o continente europeu. Nação nenhuma, bloco nenhum, império nenhum tem de se admirar ou espantar com o sucedido. Muito menos esta Europa bastarda, sem pudor moral e destituída não apenas de força, como principalmente da vontade em se defender, esta Europa irreconhecível, insista-se, não tem, com efeito, o mais pequeno direito à indignação, porque tal direito só cabe aos que estão prontos a lutar pela sua identidade. E a Europa de Bruxelas nunca possuiu identidade.

Sabe-se bem que a Inglaterra de hoje não é a fortíssma Albion de tempos pretéritos. As suas naves não são mais o terror dos mares. E as leis que ditava ao Mundo, não por renúncia mas sim porque lhe míngua força, já não vêm escritas na tinta que as balas dos seus canhões golfavam. Inegavelmente que o Rule, Britannia cai muito bem como hino ambicioso, que incita a façanhas militares e consequente domínio ou guarda de territórios. É normal: todos os povos os têm, quando não enveredam por entoar cânticos a uma alegria, a qual, se nos debruçarmos sobre a Europa repudiada pela Inglaterra, pode terminar em tragédia (pelo menos, desde a sua génese que tudo se vem conjugando e convergindo para esse fim). Cumpre deixar aqui um reparo sobre a última vez que o Rule, Britannia impulsionou forças britânicas para uma acção bélica, da qual se houveram com sucesso: foi o conflito entre o Reino Unido e a Argentina pela posse das Malvinas. Mas importa realçar o apoio prestado pelos Estados Unidos. Apoio esse que pesou decisivamente a favor das tropas de Sua Graciosa Majestade. E o facto é de reter pelo que, a seguir, se há-de ver e compreender.

Outra razão concorre como se não bastara a desenvolvida até ao momento, e esta é de ordem moral. À Inglaterra nunca lhe agradou entrar em cena para desempenhar qualquer papel que não fosse o de prima donna. Quando se convenceu que esse lugar de destaque lhe estava vedado, retirou-se do palco. O tempo, que levou a optar pelo abandono, é que pode intrigar e suscitar interrogações. Talvez a necessidade de esperar que o seu povo se desse conta de que havia engolido um fruto peçonhento, não só quanto ao que feria o  amor-próprio do brio nacional, como e principalmente que não era Bruxelas a estrela polar que apontaria o caminho de regresso à antiga glória, tudo isto somado, diga-se, terá adiado a decisão. Nada a censurar, portanto!

A Inglaterra, repita-se, está hoje debilitada. Não por ter virado costas à Europa mistificada: esse passo revela uma determinação que a vai fortalecer, a ela e aos demais Estados-membros que aspirem a eleger a via do seu próprio destino. Esperemos que o exemplo seja contagiante e que, no reduto apátrida, sejam poucos os que por lá se mantenham, tolhidos na sua vontade porque a miséria, que padecem, a isso os pode vir a obrigar até que encontrem novos amos, e estes formarão a primeira categoria dos que porfiam em ficar; na outra categoria, hão-de figurar os que sacam proveito destes desgraçados. No entanto, o quadro final há-de ser um montão de cacos. É verdade muito sabida que nunca a classe de capitalistas conseguirá enriquecer-se a si própria. Daí mesmo, a necessidade de que existam proletários, proletários que iremos encontrar nos famintos daquilo que sobrar da União Europeia.

Regressemos à Inglaterra, tal como agora se apresenta, e ao que dela nos dizem as suas memórias. Ninguém duvida que já não é aquela terra que parece ter colado à boca de um Pontífice estas palavras sublimes, a respeito dos que ali viviam: «non angli, sed angeli.»(1) Nem se discute a Inglaterra Tudor no reinado do sátrapa, quando arranca para para o que veio a ser o apogeu da sua grandeza. Isso já lá vai. O declínio sucede como acontece a todo o organismo vivo: nasce-se; desenvolve-se; atinge-se o cume; e baixa-se. Mas a Inglaterra é ainda um colosso que se aguenta de pé.

Os eurocratas criaram escravos que os idolatram. E estes, que fazem em reacção ao Brexit? Entre mais coisas, anunciam um horizonte de desolação apocalíptica e, como prova do que aí vem, bradam que as bolsas mundiais tremeram com a feia partida pregada pela Inglaterra. Foi realmente uma maldade. Custa apurar se é um horror farisaico que os agita. Porém, como muitos deles são uns pobres tontos, infelizes sem ponta de preparação, que vogam ao sabor do que é posto a correr, aceitemos o seu medo como sentido. Para tranquilidade dos mais timoratos, impõe-se um esclarecimento:

Volta meia volta, as bolsas abanam; mas, com intervalos maiores ou menores, vêm a recuperar a estabilidade. Isto, conhece-o qualquer investidor bolsista com alguma prática conscienciosa do que é operar nesses mercados. A oscilação dos mercados de capitais é, a seu modo, o moderno toque a rebate das sociedades contemporâneas: mas como ao badalar dos sinos, por vezes, não correspondia lobo na vizinhança, também estes abalos nas cotações de títulos nem sempre reflectem um fundo de crise. Por isso, ainda que os indícios bolsistas sejam sinais autênticos de catástrofe próxima, embora de remédio que não costuma tardar, ou que se limitem à prática habitual de meras simulações e movimentos cíclicos de tendência altista ou de baixa, fenómenos estes que são provocados adrede, apesar de ter nisto a sua origem, repise-se, nem assim são causa do pânico que se quis espalhar.

Nos mercados de valores, os movimentos de subida ou de baixa de cotações não são de geração espontânea. Quem negar isto é capaz de negar a luz do Sol em dia claro. Tudo se reconduz ao interesse das instituições financeiras que, através de empréstimos, subsidiam grande número de investidores bolsistas. Estes atrevem-se a contrair esses empréstimos na expectativa de solverem os débitos, assim constituídos, com as mais-valias especulativas que vierem a obter. Por vezes, isso não chega tão cedo quanto o desejado, e atingido o prazo de cumprimento desses empréstimos, ou o investidor-mutuário paga, ou entra em mora. Os bancos são credores implacáveis e, por isso, apressam-se a recuperar o que emprestaram. No caso de haver mora, o banco ao qual recorreu o investidor, não conseguindo executá-lo em pecunia porque este seu cliente-devedor se encontra sem liquidez, toma conta da sua carteira de títulos. É claro que esta execução pede que antes se inicie um movimento de baixa: isso confere ao banco legitimidade de se pagar não só pelos títulos comprados pelo devedor com o dinheiro do empréstimo, além de outros que, porventura, o devedor tenha na mesma ou noutra carteira e no montante necessário para perfazer a quantia exequenda. Por aqui, logo se vê a primeira vantagem que as instituições de crédito tiram destas quebras nas cotações das bolsas. As outras vêm já abaixo. Este meio, que pode não ser a razão exclusiva das crónicas convulsões, que sacodem as bolsas, é decerto o processo mais seguido e de eficácia extrema para um ganho que reverte a favor da banca. Não foi inocente, nem constituiu um acaso o apregoado estremeção nas bolsas mundiais: ligando-se à emotividade gerada pela saída da Inglaterra, aproveitaram e não esqueceram a oportunidade de alçançar os vultosíssimos benefícios acabados de enunciar. A subida voltará às bolsas dando impressão que o capital respira saúde; com ela, valorizam-se os títulos arrecadados nas execuções movidas aos clientes relapsos (e aqui está a segunda categoria de beneficios que os bancos sacam deste jogo de sobe e desce, porque depressa surge nova corrida aos empréstimos na mira de lucros rápidos que compensem os que assim investem; quando menos se espera, lá assoma o cobrador; e o resto é um ciclo que se renova sem parar!

Descansem, pois, os que se habituaram a medir a paz e a prosperidade dos povos pelo barómetro dos mercados de capitais. As bolsas aí estão: não arredaram pé nem arredam enquanto não sofrer mudança a concepção moral dos valores económicos, ou que um cataclismo social varra a face da Terra, de uma à outra ponta, o que é bem provável de suceder antes que a primeira hipótese tome corpo.

Nesta quase Babel, em que alguns pretendem converter um evento que atirou as suas mentalidades para os paroxismos do delírio,  não é crível que os States passem adiante sem garantir a sobrevivência de Inglaterra. Mais que uma raça, em parte comum, há a cultura que é basicamente a mesma. De resto, seria temeridade se a América desamparasse a Inglaterra: nos blocos que, depois disto, se vão constituir, blocos que vão ser muito mais que gigantescos mercados porque se tornarão poderosíssimos campos armados para uma guerra destruidora, desprezar a Inglaterra é um pensamento louco e uma manobra suicida. Que melhor testa de ponte pode encontrar quem desejar assenhorear-se do continente europeu? Ou será o Norte de África? --- Com todas as demissões da União Europeia, em que mãos estará ele se o confronto chegar, como tudo indica que virá? No meio da fogueira que parece estar a acender-se, por onde formarão as duas Coreias? E a China? E o velho Império do Sol Nascente? Do Oriente, magnífico e sempre esfíngico, nunca se sabe. E também não podemos esquecer o poderoso Irão. Tudo isto se fecha numa grande incógnita!


Deus o permita!
 
Joaquim Maria Cymbron
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  1. S. Gregório Magno.
JMC

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A REVOLUÇÃO E A BURGUESIA

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Se a conta bancária não estiver desprovida e, por enquanto, não houver alerta de bomba ao pé da porta, podemos sossegar. E viva a paz podre, porque é sinal de que o nosso planeta gira livre no seu eixo, sem abalos nem sacões! Estes traços esboçam um dos aspectos que melhor correspondem às delícias do cidadão ordinário, e espelha um sentimento que, desgraçadamente, invade cada vez mais a generalidade das pessoas, deixando-as tranquilas na sua condição infraburguesa.
 
Por muitas vias se caminha em direcção à meta da Revolução Universal. E vários são os suportes de que ela lança mão, deles se servindo com inegável mestria. A burguesia é, hoje, uma das alas mais esforçadas e diligentes da Revolução Universal. Além disso, move efectivos com um poder que cobre todas as áreas da vida e toca os confins da Terra de um pólo ao outro. Mas nem sempre representou um perigo para a ordem temporal firmada nos princípios imperecíveis da Tradição. Nos seus primórdios, o que a burguesia se propunha alcançar nada tinha de condenável. Porém, depressa passou esse período e o pior não tardou a surgir. A crua evidência dos factos autoriza que se diga, com inteira propriedade, que o fogo da Revolução arde nas aras da burguesia.
 
Realmente, em sentido estrito, a burguesia formou outrora uma classe, estimável como qualquer outra. Cabia-lhe, então, uma missão no corpo social, que ela cumpriu com zelo e brio. Na heráldica dos valores, o seu timbre era a honestidade e, a esse valor, a burguesia foi fiel durante um lapso de tempo, curto mas que foi suficiente para lhe conferir pergaminhos de que podia legitimamente orgulhar-se. Até que o fluir dos anos avolumou o significado da palavra e, hoje, bem pode dizer-se que, na sua nova acepção, ela abrange um círculo de gente, cujo raio se prolonga cada vez mais. Nesse círculo, assentou arraiais uma maioria humana de difícil numeração, e bastante descaracterizada em relação ao que, na sua génese e enquanto durou o ciclo alto da sua vida florescente, a burguesia foi graças ao papel que dignamente desempenhou como classe. Para falar com rigor, a burguesia dos nossos dias já nem classe é: reduz-se a uma fatia da sociedade cuja função, exclusiva ou próxima disso, é o parasitismo. A moderna burguesia forma a imensa maioria da população dos diversos Estados, daqueles que, com maior ou menor audiência, têm uma palavra a proferir na condução dos negócios internacionais. Os outros não contam: pesam tanto como, dentro de cada quadro nacional, vale a subespécie que a decadência burguesa foi gerando. Sendo, pois, imensa a maioria burguesa (somadas a burguesia dominante e a de categoria subalterna), ela é, em consequência, uma multidão massificada como, aliás, o são todas as multidões. E só não se apresenta como uma universalidade, porque algum espaço há-de deixar aos executantes ocultos do projecto de governo de uma minoria, casta fechada e opressiva, agente de um mando despótico, a qual, se vier a triunfar, acabará por instalar o império da iniquidade. Neste plano de assalto ao poder universal, a subclasse burguesa, no seu adormecimento, revela-se de uma extrema utilidade para os objectivos supremos da fúria revolucionária: não fora a passividade em que o vulgo tombou, teríamos que a estratégia da desordem seria compelida a recuar uns passos; encontrar os pontos onde a táctica falhou; corrigir esses deslizes; e voltar à carga.
 
A mentalidade trivial e rasteira tende a julgar que a oposição é meio idóneo para santificar um dos antagonistas: “se atacas aquilo que é iníquo, isso deve-se a que defendes o que é justo.” O nexo de causalidade não é infalível. Entre os muitos erros que abundam nos domínios do pensamento, este é um dos mais graves. Com efeito, nunca uma briga entre dois bastardos, virá a tornar legítimo o nascimento do vencedor! O mesmo se diga do debate de ideias e dos frutos que elas produzem. Olhando bem, depressa veremos que o acto de responder a uma construção mental espúria  com outra, à qual também falta fundamento e rigor, a nada conduz, porque não se sai fora de uma rota destruidora. Podemos estar certos que é continuar submersos, sem subir à superfície luminosa da Verdade!
 
A que propósito vem esta chamada de atenção? É que contra a burguesia, costuma levantar-se o mito do proletariado, falso Messias que vem trazer o gozo de todos os bens materiais aos povos e com isso realizar as suas aspirações à felicidade. Perfeito disparate! Esta melopeia reedita o velho duelo entre capitalismo e socialismo: de um lado, coloca-se o primeiro que é, quase invariavelmente, burguês; do outro, situa-se o socialismo que nem sempre é tão descamisado como alguns insinuam. Contudo, nem um nem outro terá a virtude de sanar os conflitos que se propõem resolver!
 
A mole humana, em que a sociedade se transformou, não consegue descortinar que é, dia a dia, mais escrava de uma minoria privilegiada e aumentando em poder, incessantemente. Capitalismo ou socialismo (não importa o rótulo arvorado), a sina dessa pobre gente é curvar-se aos novos sinédrios da burguesia. Ai de quem se insurja! Nos tabuleiros políticos, mandam os amos, que ali se julgam uma espécie nova de reis, num jogo sinistro e viciado ab ouo1. E não se descobre jeito de esfriar a sua apaixonada febre de vingança, no insano propósito de atingir o cume de algum venturoso sonho, como se, por aquela via, se pudesse entrar nos recônditos jardins do Paraíso perdido. É tão insofrida a sua ânsia de revidar que nem advertem que acabarão feitos cinza no meio do incêndio que eles próprios atearam. Entretanto, a casta insaciável mal sente uma ténue resistência ao seu nefasto império, recorre a medidas repressivas de áspera dureza, embora muito sui generis, as quais não se inibe de aplicar com uma despiedade que aproxima os seus titulares das mais ferozes bestas. Ainda assim, deste confronto, os modernos déspotas saem em manifesta desvantagem, porque carecem da coragem franca que assiste àqueles animais. Estes, nas lutas que travam pela vida, também se expõem; os que hoje dão leis, têm entre eles e os governados um exército de sicários, qual muralha que separa uns dos outros, deixando para os últimos um terreno minado, onde, a cada passo, é a morte que espreita.
 
Aliada à selvajaria, existe outra nota dominante no seio do poder de que aqui se trata: é o seu cinismo! Quando se ergue uma voz discordante, ou alguém toma um caminho diferente, logo o poder ordena que não lhes toquem sequer com um dedo e que simplesmete lhes façam a vida impossível. Isto, que parece menos cruento, na realidade não o é. Pode levar à morte quem sofre tal castigo. No âmago, é reflexo de uma desumana hipocrisia junto a uma grande cobardia moral. O reino da mentira, em que rastejam, não consente formalmente a pena de morte e nem permite que se fale em tortura física ou psicológica. Os impostores, a coberto da máscara de uma simulada humanidade, conhecem perfeitamente o quanto há de falso neste embuste como, de resto, é um logro tudo o que ocorre nas demais mistificações do pensamento. Este método é uma verdadeira agonia prolongada: a seu modo e observada a devida proporção, é a distanásia levada ao campo das sanções políticas: na distanásia, com tudo o que ela apresenta de censurável, difere-se escusadamente o momento de uma morte inevitável; aqui, prolonga-se barbaramente a punição, com risco de vida para o que cai em desgraça. Até alguém menos perverso, que exista no meio deles, tem obrigação de saber que tais penas, se não provocam directamente a morte física, são idóneas a produzir necessariamente ou, pelo menos, in eventu, o mesmo resultado. Portanto, em qualquer caso é visível que, deste comportamento, nenhum imperativo moral, ditado por uma dúvida insolúvel, permite o afastamento do dolo.
 
Burguesia, eis como vem sendo chamada a senhora dos nossos destinos. Uma vez que segura as rédeas do mando, porque não dar o nome de novos aristocratas aos seus autores? --- Extremamente simples! O conceito de inspiração revolucionária desta burguesia decadente e irreconhecível, adulterada mesmo ante aqueles que a geraram, deu à luz o exemplar teratológico que os sentidos nos oferecem. É sabido que, no grego clássico, o termo aristocracia designa o poder dos melhores. Mas o juízo de melhores, só se aceita --- frise-se de novo --- se não for esquecida a exigência da Ética, ou seja, se o poder aristocrático se orientar por uma vocação de Bem Comum e dele tiver uma recta noção. Em suma: aristocracia e equidade são indissociáveis! De contrário, a aristocracia redunda numa mixórdia inaceitável, e outra Babilónia, de rastos a seus pés, revolve-se como a medonha horda, que é, sem passado, sem presente e sem futuro. Só repousa na esperança do futuro quem conhece o seu passado, mas à massa, escrava da burguesia, que lhe interessam as origens, se é incapaz de ver-se espelhada no presente? A correspondência entre peão do totalitarismo burguês e criatura humana é cada vez mais difícil de estabelecer. Daí, o drama de cada pessoa na sociedade moderna, que arrasta a sofrimento penoso e abre um dilema: ou submissão, ou rebelião! Como a geografia humana se escreve do homem para a sociedade e não o inverso, padecendo o homem, também o corpo social não pode respirar saúde. E, por isso, não tem de surpreender que seja cada vez mais profundo o abismo que, gradualmente, se vai abrindo às mãos do poder burguês.
 
Vamos, então, desistir? --- Além de estólido, não seria digno!
 
A burguesia actual é a encarnação do relativismo político, um relativismo que a engendrou e, neste acto de lhe dar forma, desceu do pensamento especulativo ao plano da realidade palpitante da política. E assim se estende diante de nós uma paisagem onde se adensam as trevas. É, pois, um panorama lúgubre, aquele que avistamos. Lúgubre e aterrador, mas ao qual, por mais que o seu ar minaz nos intimide, não podemos fugir. E ainda bem que é impossível tal intento, porque quem dá as costas ao inimigo não é valoroso em grau suficiente para derrotá-lo. É positivo e necessário, pode até afirmar-se que é indeclinávelmente imperioso que olhemos de frente este relativismo letal para o combater sem descanso. Nestes instantes, é prioritário investir sobre ele com toda a lucidez do espírito e todo o vigor da acção --- um espírito formado nos padrões da mais pura ortodoxia; uma acção decidida, firme e que sabe aquilo que busca e quanto o quer, justamente porque arranca de fundamentos que se apoiam nas bases inamovíveis da verdade filosófica!
 
Que é mandamento divino o mandamento do perdão, não se ignora; contudo, a missão de lutar pode não o ser menos. Aqui, é o caso. E, a peleja a travar, será uma luta sem quartel: não haverá misericórdia, porque só se usa de misericórdia com quem pode ser chamado à Bem-Aventurança. Ora a guerra, que se move, é guerra ao pecado. Já se vê que, ao pecado, as portas da Glória não se abrem, porque é o próprio pecado que a elas se fechou. Na misericórdia não há, pois, lugar para o pecado. Se o pecado ali pudesse acolher-se, as palavras perderiam sentido: o conceito de misericórdia deixaria de ser o que é, para ser engolido na força impetuosa de correntes diabólicas, em cujas águas basta que a inteligência mergulhe uma só vez para rapidamente desembocar no caos do latitudinarismo e do indiferentismo. Este trânsito, em bom rigor ontológico nunca há-de concretizar-se e nem sequer se concebe, mas existe tendencialmente. Embora só formalmente poderia vir a ser alcançado em grau triunfal, se esmagasse tudo à sua volta: no dia em que esta pretensa noção, moralmente perversa e dialecticamente aberrante, viesse a apoderar-se das mentes e dos corações dos povos, mais do que está, seria uma das obras mais mortíferas do pecado. E é neste percurso criminoso, como em muitos outros ataques desferidos contra a ordem natural, que não devemos consentir.
 
O penitente contrito, o penitente disposto a dar satisfação pelo mal cometido, o penitente animado de metanóia, esse, sim, pode ter esperança na misericórdia divina. Mas aqui persegue-se o pecado e não o pecador. E no seio desta burguesia amaldiçoada, onde está o pecado e quem é o pecador? --- O pecado da burguesia é o somatório sempre crescente das pérfidas acções que, dentro dela, se praticam; o pecador é aquele que as realiza. Cabe então perguntar: pode tal pecador gozar de misericórdia? Já se respondeu a esta questão: como sucede a qualquer pecador, a misericórdia nunca fica surda ao mea culpa de quem se arrepende. Por isto, homem algum se atreva a condenar quem tome por pecador, não vá acontecer que esteja a interpor-se ao juízo de Deus. É este, verdadeiramente, um passo de grande temeridade e que amiúde não irá desacompanhado de uma insensatez desmedida, maxime se o Criador decreta salvar esse pecador, porque decidiu usar de misericórdia. O juízo terreno que atira ao fogo da Geena, mesmo que seja o maior pecador, e lhe chama réprobo, ou é um acto de rematada loucura, ou quem o profere, incorre em gravíssimo pecado pelo qual prontamente se deve sujeitar a uma catarse.
 
Declaramos guerra, recorde-se, ao pecado encarnado na burguesia ateia e agnóstica e nunca ao burguês pecador, de quem se aguarda um movimento de conversão. Seria de extrema imprudência e, ao mesmo tempo, de uma penetrante injustiça, pôr tudo no mesmo saco e tratar por igual duas realidades distintas. Esta separação requer um grande esforço de equilíbrio e muita cautela na sua aplicação. Efectivamente, se é facílimo observar que pecado e pecador não são a mesma coisa, na prática, já não resulta tarefa simples respeitar a distância, que há entre estas duas categorias. Sodoma e Gomorra pereceram no fogo porque, em seus muros, não se contava o suficiente número de justos, que levaria Deus a poupá-las ao castigo que havia decretado. Mas, nestas duas cidades bíblicas, os pecadores não se apartavam do pecado nefando que bradava aos Céus, pelo que a sentença divina caiu fulminante. De todas as maneiras, conquanto para lá se vá andando, por ora ainda não é este o quadro que nos ameaça mais de perto. Todavia, porque a ameaça não é um mero fantasma, assustador mas inofensivo, constituindo antes o aviso de que uma hoste devastadora avança, por isso, insista-se, é que havemos de nos lembrar que pecado e pecador não se confundem, daí tirando as consequências que se impõem.
 
Que queremos, afinal? --- Descrevê-lo não custa; dar-lhe corpo é outra obra! Mas porque a Tradição manda que a reflexão preceda a acção, aproveitemos a ajuda e comecemos por onde é certo que o façamos:
 
Temos, pois, que a reflexão é aquela operação que há-de vir antes da acção, comandando-a e, dessa forma, evitando que esta a molde. Este é o processo mais adequado à natureza do homem, que se distingue dos restantes seres do reino animal por ter uma consciência reflexiva: enquanto o bruto apenas conhece, o homem não só conhece, mas também sabe que conhece. Se o pensamento não norteasse a acção, bem depressa o homem pensaria conforme vive, em lugar de andar no sentido contrário. O que, no fim de contas, é uma das notas características dos tempos que vivemos. Ora isto equivale à distorção de toda a linha do que deve ser o nosso comportamento.
 
Assentou-se, pois, que está primeiro reflectir e só depois agir. Essa reflexão está fortemente unida à matriz de pensamento que cada um adopta. E a que matriz nos devemos ligar neste combate ao pecado que é a burguesia ora reinante, a burguesia gerada nas convulsões do individualismo político e filosófico.
 
A nossa doutrina aponta-nos um objectivo: pôr a ordem temporal em consonância com a lei natural, subordinando-a sem quaisquer respeitos humanos à lei divina porque a lei natural é «(…) participatio legis aeternae in rationali creatura.2» E da lei eterna que mais acrescentar, quando ela é  aquela lei de cuja Verdade veio Cristo dar testemunho3? Harmonizar política e religião não é tarefa ciclópica, pelo menos no grau que muitos julgam só porque alguns lhe são avessos por má fé, outros a encaram com cepticismo e os restantes, sem se saber porquê, temem-na.
 
Como desde os primitivos tempos em que a sua voz principiou a ouvir-se, o magistério eclesiástico, escorado por uma Tradição ininterrupta e apoiado nas Sagradas Escrituras, vem-se revelando firme na defesa do princípio de que não é possível a salvação eterna para quem, consciente de que a Igreja é de instituição divina, não obstante isto, decide permanecer fora do seu grémio4. Mas nem daqui se parta para cavar um fosso intransponível entre religião e política: uma ordem temporal informada pelos preceitos espirituais do Catolicismo não apresenta a mais pequena semelhança com a obrigatoriedade de seguir um culto religioso. Conversão forçada é fonte de desordem, porque equivale a multiplicação de ocasiões de escândalo, um escândalo que será menor em malícia do que o causado pelo infiltrado no meio dos fiéis, mas que nem por isso é menos escândalo. No entanto, o que se mostra inegável é que uma política confessionalmente católica pode ser veículo de santificação para os súbditos da comunidade que se rege por essa política. Per accidens, esse efeito benfazejo pode mesmo cobrir os que não professam a fé católica. Acredite-se ou não, o certo é que o Espírito Santo actua de diversas formas e a Graça só não toca aquele que directa e inilidivelmente a repele. Quem isto não concede, quer arrastar-nos à perdição da sua indiferença latitudinária. E, se repararmos mais demoradamente, veremos que o fazem sem deixar opção. Do princípio ao fim da sua acção, fica patente a contradição do relativismo que apregoam, sob a capa de uma tolerância que não têm. Essa tolerância não é nem generosa, nem avara, porque o que há é inflexibilidade.
 
Acusam-nos de absolutistas, no pensamento e em moral? --- Não temos de nos indignar porque não é calúnia! E escusado será que nos afijamos porque até o relativista é absolutista, sob pena de não ser nada se não admitir que é absolutamente relativista. Chamam-nos radicais? --- Se isso diz respeito à certeza que pomos nos atributos transcendentais do Ser e na segurança que recebemos dos primeiros princípios metafísicos e das causas últimas, certeza e segurança que excluem tudo o que se lhes oponha, também não mentem! Quer quando nos acoimam de absolutistas; quer ao colar-nos o labéu de radicais, em ambos os momentos, os que neste estilo falam, só nos honram. Consequentemente, pois, não nos dê cuidado o conceito que formam de nós e pensem aquilo que tiverem na vontade. Mas estejamos atentos a este cenário bem palpável:
 
A burguesia tem uma dupla intenção: na primeira vertente, desenha-se a cupidez de exercer um domínio à escala mundial; a outra, traz consigo sinais de uma desgraça, mais ou menos próxima e de difícil cura. Porém, não combatamos a burguesia pelo seu apetite de domínio universal. Não é o fomes imperii que justifica o ataque à burguesisa, mas sim o finis operantis. Seria forte tolice ir à luta se a burguesia apenas quisesse fechar o binómio: um planeta, um único governo. Não é novo este fenómeno5:  até príncipes católicos sonharam uma soberania, que galgasse léguas sobre léguas de território para além das marcas fronteiriças, e cruzasse oceanos que mais pareciam não ter fim. É lei inexorável do fluir histórico. Povo que nunca seguiu a voz do expansionismo, talvez porque nem sequer a ouviu, é povo que fenece antes de desabrochar. A nossa Pátria é exemplo claro de vocação expansionista: de Oriente a Ocidente, não havia franja de terra, afagada pelo calor do Sol, que não pagasse tributo à Coroa de Portugal6. Quando o fogo de conquista arrefeceu, com ele também se foi apagando o lume da evangelização que transportámos.
 
De per se, a sedução do mando não é um mal ainda que seja intenso esse apelo e o poder que dali sai. Se esse poder serve o homem, nada impede incluí-lo na categoria de poder legítimo. Estar ao serviço do homem não é o mesmo que satisfazer caprichos ou vis paixões. Tendo presente a velha lição que S. Paulo nos deixou, só será legítimo o poder político que crie condições que permitam ao homem viver sem que se prenda ao que não lhe convém e também de nada se faça escravo7. Dá isto que poder legítimo é aquele que confessa a Verdade e a Bondade do Ser8, e obedece a estes valores. Coisa impossível de suceder à burguesia, que aqui se combate, a qual é, por essência, um sistema agnóstico.
 
Temos, assim, que o poder da burguesia é temível, não por ser um poder colossal, mas porque é um poder que não está rectamente ordenado. Não há motivo que possa fundamentar tanto o exercício de uma defesa: colectiva, desde que a mesma se congregue sob o mando de um chefe e se mostre animada por uma finalidade justa; individual, na condição de aquele que resiste a levar a cabo com moderação e sensatez. Num e noutro caso, requer-se prudência na sua qualidade de virtude moral que é por excelência.
 
 
Joaquim Maria Cymbron
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  1. Quem são estes amos? Uns, adivinham-se; os que restam, nem tanto. Pelo meio, esses amos, os de rosto visível e os que o trazem velado, vão-se sentando em tronos  feitos de oiro, um oiro arrancado ao ventre da Terra, à custa do suor de muita gente escravizada. Noutro texto, bem mais curto que este, também denunciei a burguesia como inimiga da sociedade humana, e apontei a ligação das suas mais altas camadas ao Sionismo apátrida e internacional --- http://legitimismo.blogspot.pt/2008/10/burguesia-o-inimigo.html.
  2. Summa Theologica, I-II, q. 91, a. 2.
  3. Io. 18, 37.
  4. Constituição LG, 14.
  5. Há reflexos na literatura. Um, de realce, é o famoso poema, cujo título é O Quinto Império. Ninguém desconhece o nome do autor --- Fernando Pessoa. A estética literária de Pessoa só não comove a matéria. Contudo, é complexa a sua personalidade. Apesar disso, não deixa de ser curiosa a linha por ele traçada dos quatro tempos que «se vão para onde vai toda idade.» É esta a sucessão: Grécia, Roma, Cristandade, Europa. É facto que a Europa, depois de Westphalia, vem substituir a Cristandade, passando o governo do Mundo a essa Europa, cada vez mais secularizada. Será a burguesia que vem viver a verdade esperada por Pessoa? Pese embora, o que havia de esotérico e abstruso no carácter de Pessoa, custa a crer que fosse esta a mensagem do poeta. Ou viria ele afirmar que será precisamente a vitória sobre a burguesia o tão desejado Quinto Império? Deitemos o fardo de deslindar esta melindrosa questão, para cima dos ombros de quantos são apreciadores da cabala. O que nos há-de ocupar são os preparativos para a luta, e não se é o quinto ou o sexto império que vai chegar. Ou até se mais ainda virão, antes que se dê a escatologia. Isto de pouco monta porque o triunfo será do último que vier. É um dado certo fide atque ratione.
  6. Lus., I, 8, vv. 1-4.
  7. I Cor. 6, 12-20.
  8. Outro grande cultor de um império redentor, o P.e António Vieira, anunciava a chegada de uma ordem universal, à qual já chamara Quinto Império. Para o grande jesuíta, esse império é o Regnum Christi et Christianorum (ou Sanctorum); será um império temporal [«(…) et omnes reges servient ei et obedient.»]; e, além de temporal, é espiritual «porque o Reino de Cristo verdadeiramente era deste Mundo e de todo o Mundo, e só não tinha os acidentes da vaidade e falsa grandeza com que se sutentam os outros reinos do Mundo.» (História do Futuro, liv. II, maxime cap. I-V).
 JMC