domingo, 28 de agosto de 2022

ORAÇÃO DE FECHO

Dei a esta peça o nome que se lê, porque achei que era adequado ao propósito que tenho de encher com ela as últimas páginas de uma obra ainda a editar.

Sairá a lumePergunta de difícil resposta, não só porque cai no tempo futuro, como principalmente pelos entraves que me são levantados a toda a hora.

Porém, a minha fé na Tradição mantém-se intacta!

 
Eis a ORAÇÃO:


Sou católicoSe for encontrado sem dar acordo de mim, mas em estado de se poder presumir que a vida ainda não abandonou o meu corpo, rogo por caridade que se providencie para me ser administrado o sacramento da Santa Unção. Deus pague a quem esse bem me fizer!

 

Pai Santo, eu Vos dou graças por me terdes criado com vocação à eterna Glória, e pelos outros dons que me dispensastes até hoje, dos quais é minha obrigação tornar-me digno orientando-os, mediante o Vosso amparo, em direcção ao meu fim supremo que é o de Vos adorar, amar e servir!

Entretanto, procuro acolher os males que me afligem no corpo ou na alma como castigo das minhas infidelidades, e um chamamento à reconciliação e comunhão convosco. Não permitais, Senhor, que permaneça surdo a este apelo que olho como mais um sinal da Vossa clemência e, quanto ao resto, dai-me ânimo para expiar a minha culpa carregando, com amor, a cruz que me destinastes, sem um só momento esquecer o sacrifício que Vosso Filho realizou para me libertar – ele que foi; é; e será, pelos séculos dos séculos, o Cordeiro Imaculado! 

Que eu saiba, pois, aceitar e oferecer as agonias passadas, presentes e futuras como penitência pelos pecados cometidos e, em lugar de continuar a ofender-Vos, faça oblação do que me fere nas aras do Vosso altar, com o que espero achar complacência a Vossos olhos!

Por este propósito, suplico o Vosso conforto nas horas de amargura, assim como naquelas em que me atormentam as dores físicas, para que não me revolte, não entre em desespero, nem caia em mais desmandos; ao mesmo tempo, imploro o Vosso auxílio nos instantes de triunfo, ou quando sofro a derrota, para chegar à humildade, única arma capaz de abater a soberba, a qual tantas vezes me tem impedido de ver que provêm exclusivamente de Vós todos os bens por mim recebidos; que, longe de Vós, ando perdido porque só em Vós se encontra a plenitude da felicidade; e que, fora da Vossa misericórdia, acabarei condenado!

Enchei-me, também, de paciência contra a ira; palavras praguentas e outras juras; linguagem imoderada; lamentações e mais desabafos que, em mim, se soltam à mais pequena contrariedade, o que muito me dói, Senhor, por saber que todas as provações, mesmo as mais duras e custosas de suportar, é a Vossa providência que as envia ou nelas consente para temperar-me a alma. E se não me experimentais na medida da culpa contraída, maior terá de ser a minha conformidade à Vossa divina vontade. Mas se me chamais à ascese para catarse das paixões que me assaltam, aí, só me resta invocar a Vossa ajuda para, sem temor, bradar: ampliusDomine

Peço-Vos mais, Senhor: peço a graça de crescer na virtude da caridade e que me deis fortaleza bastante para a derramar à minha volta, especialmente a favor daqueles a quem me unem laços de afecto ou de amizade, bem como de todos perante os quais estou em dívida por imperativos de Justiça. E que eu nunca afaste os que me fazem ou fizeram mal; que me incline sempre ao perdão; e que ganhe simplicidade capaz de alcançá-lo dos que, por algum modo, ofendi! Finalmente, se eu tiver de julgar, que o meu juízo saia animado de recta intenção; vá carregado de prudência; e seja proferido em tempo oportuno. Sobretudo que, em cada passo da minha vida, não deixe atrás a compaixão! 

Por enquanto, Senhor, para que o meu peregrinar na Terra se converta num hino de louvor à Vossa glória, guardai a minha mente e o meu coração de todo o império da concupiscência! 

O que apeteço, Senhor, não tem fim, porque eu me consumo no desejo ardente de contemplar a Vossa visão beatífica. Por mais que multiplique os apelos, nem por isso a minha persistência há-de preencher o que sempre falta atingir por quem é finito. Vale-me a Vossa bondade que jamais afasta uma oração que qualquer, de entre os Vossos filhos, levante com amor até Vós, principalmente quando esse filho, Pai amantíssimo, tanto carece do Vosso perdão, como é o meu caso! 

Enfim, que o Vosso Espírito me ilumine e fortifique para que cumpra os Vossos desígnios; e onde eu andar cego, ou a minha vontade fraquejar miseravelmente, mandai que Vosso Filho me estenda a mão e guie pelos Vossos caminhos! 

Assim, no termo dos meus dias, se as minhas acções forem tidas à conta de Justiça, espero a minha salvação, confiado nos méritos infinitos do Sagrado Coração de Jesus! 

Que a Virgem Puríssima, Santa Maria, tome em Suas mãos imaculadas a minha prece e Vos faça entrega dela. E que, ao lado do Redentor, Seu bendito Filho, e de S. José, Seu castíssimo Esposo, perfeita a trindade da Sagrada Família, me assistam no transe da minha morte e conduzam até Vós, meu Senhor e meu Deus! 

Ámen!


Joaquim Maria Cymbron

 

 

Misericors et propitius est Dominus,

Tardus ad iram et admodum clemens.

Non in perpetuum contendit,

Neque in aeternum succenset,

Non secundum peccata nostra agit nobiscum,

Neque secundum culpas nostras retribuit nobis.

 

(Ps.102, 8-10)

 

Ne uocaueris in iudicium seruum tuum,

Quia nemo uivens iustus est coram te.

 

(Ps.142, 2)

quinta-feira, 14 de julho de 2022

AGONIA DO OCIDENTE

 Até à data, não me inteirei dos precisos termos estabelecidos nos tratados que vinculam as partes no conflito que opõe – uma à outra – Rússia e Ucrânia. Fiquei sem fundamentos sólidos para indicar quem faltou à fé do que neles se acordou e assim me mantenho.

Ignoro, repito, qualquer compromisso dessa natureza havido antes da entrada de tropas russas no seu vizinho território. Julgo, porém, conhecer de sobejo aquilo a que chamam Ocidente e é a seu respeito que discorro a partir do miserável e nefasto papel que vem representando neste drama. Desde já importa assentar que este Ocidente moribundo não pisa somente chão que é europeu; atravessa o Atlântico e estende os braços até ao mais forte inimigo da verdade e da bondade que o direito natural guarda.

É, pois, aos seus chefes que me dirijo: a eles e ao público em geral!

Como quereis vós, amos de um Ocidente sem esperanças de futuro, visivelmente reduzido a um alento que só lhe permite agitar-se em convulsões, prenúncio seguro de um fim próximo, como é possível, insisto, que venhais medir forças com uma Rússia habituada a sofrer e, depois que emerge da dor, sempre pronta a aceitar novos desafios?

O vosso coração está prenhe de ódio, a ponto de transbordar e fazer com que o já encolhido raciocínio da maioria de vós fique sumido quase por completo. Não percebeis que entrastes numa lide, carregados de hostilidade  contra um povo audaz na peleja, povo composto de lutadores estóicos, enfim, povo capaz de roer pedra? Não me espanto! Nunca tive em grande conta a vossa argúcia.

Confesso que muito me confortaria ver Rússia e Ucrânia estreitamente unidas. A essa confissão, junto que seria para mim tarefa árdua, quando não impossível, dar primazia a uma de estas duas nações, em prejuízo da outra. Pela íntima conexão, que liga estes dois povos, é efectivamente de grande melindre, para a minha sensibilidade, tomar partido. Antes do que agora sucede, tivestes a infeliz ideia de andar, vós e outros arautos da falácia democrática, numa teima pesada e suada, ao longo de setenta anos, procurando convencer o mundo de que a Rússia era aquela imensa e sórdida enxovia, onde os seus próprios filhos gemiam de fome, quando não expiravam no potro das torturas. E, por mal dos pecados de todos nós, uma entidade sem rosto – a opinião pública – lá ia acreditando. Esta mesma entidade, assim como não perdia pitada do que então lhe era servido, continua a alimentar preconceito idêntico ao daquela época, porque a opinião pública, além de no plano moral não ter rosto, intelectualmente também é cega.

O que nunca lembrais em toda a sua extensão e profundidade, raça de hipócritas, são as condições do proletariado em sistema de economia de mercado livre. Escondeis que tanto se revela injusto o açoite do chicote, como é violência o salário de equidade muito duvidosa, auferido pelo trabalhador que, se o não aceita, corre o risco de cair no desemprego!

Ide, pois, em frente com um trovejar no meio do qual despedis cargas de raios que são umas sanções económicas, talvez adequadas a tolher o ânimo de alguns pobretanas, sem eira nem beira, que imediatamente ajoelharão a vossos pés e se converterão ao vosso credo. Continuai, pois, adormecidos nessa ilusão que forjastes e vos consola. Tomai cautela, no entanto, porque pode não ser doce o vosso despertar: outro, realmente, é o quadro que contempla quem vê o povo russo com olhos bem abertos!

Reparai que um povo, com dotes de resistência tantas vezes provada, não é natural que vá a terra facilmente; e que a táctica, por vós imposta, não entre em ricochete, ainda há-de surpreender mais. Ou será que o comércio tido com a Rússia foi até agora praticado com o fito de a socorrer como se ajuda um país do Terceiro Mundo? – Não desejais certamente que acreditemos numa abnegação de tamanho grau! Porém, só por mera diversão, convenhamos que assim é. Parece-me lógico, então, concluir que as temidas sanções decretadas vão decidir a contenda que se trava. De caminho, talvez sorriam algumas balanças de pagamentos, que neste vaivém encontram um sonhado equilíbrio, pese muito embora o empobrecimento das respectivas economias.

Redunda em tarefa ociosa procurar uns vestígios de ética, se falamos do conúbio que América e União Europeia formam numa  promiscuidade aflitiva! Sejamos directos: no que hoje se chama Ocidente, há muitíssimo tempo que os valores do espírito, gradualmente, foram secando. Entretanto, a Rússia conserva esse tesouro precioso. Era e continua senhora de um sentido transcendente da existência do ser humano. Por vezes, a noção do que isso é padece desvios pelo que nem sempre se traça a rota mais curial, ou seja, aquela que uma filosofia de vida com raízes lançadas no solo ubérrimo da Tradição possa aprovar. Mesmo aí não deixa de ser um código de valores sujeitos a aclamação ou a repúdio como acabou de ser dito. Pior que não ter a exacta medida de Bem e de Mal é, contudo, aquilo que despoja a mente humana de todo o raciocínio pronto a distinguir o verdadeiro do que é falso. Este agente monstruoso tem um nome – relativismo!

Todo o seu proceder é negação do Ser – gera a desolação do vazio! Conquanto o vazio nunca se atinja nem atingirá, porque o nada não existe, tal comportamento constitui, sem cessar, uma grave falta ontológica: desdobra perante os nossos olhos um panorama privado de um mínimo razoável de conteúdo! Maldade, e bem arraigada que é, se há consciência clara da orientação seguida e a vontade se conforma deliberadamente ao resultado; sinal de pavorosa desgraça, quando se age por incapacidade de buscar a Verdade!

Pelo seu passado mais remoto e por um presente em que se adivinha o propósito de regresso às glórias vividas, a Rússia está isenta dessa culpa. Por clareza de linguagem, que tanto prezo e a mim próprio exijo, cumpre-me já interpor que não é a Rússia desta ou daquela figura marcante de uma história, rica em feitos, que eu exalto, mas sim a Rússia intemporal.

Embora em todos os sectores, onde o homem actua, o que aí se passa diga respeito à ética em geral, neste momento debruço-me sobre matéria que traz a marca profunda da política.

Por isso e pelo que até agora se desenvolveu, vem de molde indicar o evento histórico mais ajustado a servir de marco cronológico à alteração do relativo equilíbrio experimentado, até essa data, pelas potências europeias. E isso tem a ver com a revolução de mentalidades que já vinha de trás e que, como tudo que neste campo acontece, não se fixa de um dia para o outro.

Quando tal sucedeu, a genuína Europa, um continente que, no presente, despede gritos de raiva e se revolve no frenético delírio de quem nada mais tem a dar, esta Europa irreconhecível, iniciou a marcha desastrosa que até aqui a trouxe. Nada tendo de valioso a oferecer, ocupa-se em lançar medidas cheias de uma triste similitude ao comportamento adoptado pela generalidade daqueles, cuja instabilidade nervosa ou de ordem moral os priva de um juízo sereno e lúcido que os levaria a agir com boa fé.

Para melhor entrar nisto, força será afirmar que, nos últimos séculos, a ética política acusa a sua queda de mais nefastas consequências, em Westphalen. Na Rússia, a vinda de Pedro, o Grande, não tardava; apareceu, e transcorridos alguns anos, era coroado Imperador. Com este Czar no trono, a Rússia abriu portas e janelas ao mundo, tornando-se um colosso no concerto europeu.

O devir histórico não demorou muito a mostrar de que fibras era feito o novo potentado. Quando a Europa ameaçava desaparecer sob o avanço de umas hordas nascidas no seu próprio solo, é das imensas e gélidas estepes russas que vem um sopro de vida, arrastando um corpo de nações capazes de ensinar o caminho de casa ao Átila contemporâneo.

Não desconheceis certamente quem foi a personificação desse sopro salvador: não era austríaco nem prussiano; e teve a ventura de também não ser inglês – chamava-se Alexandre e era Czar da Rússia. Graças a ele, constituiu-se a Santa Aliança. Não foi só questão de a levantar: quando todos julgavam terminada a missão, foi o autocrata russo quem, com a sua tenacidade, não desistiu e empurrou os demais para o objectivo que não largava de vista. Armado dessa tenacidade, veio a transpor as portas de Paris e acabou por sentar o Bourbon no trono de São Luís. Waterloo foi o remate feliz de uma estratégia, cujo mérito pertence na sua máxima parte a Alexandre I. O orgulho gaulês denota que ainda não se terá recomposto do choque que sobreveio à humilhação causada por esse triunfo retumbante.

E foi assim que este Romanov livrou a Europa das garras de uma águia, que ia fazendo ninho por onde pousava. No entanto, a essa mesma Europa, que muito tinha já para purgar, volvido um século e poucos anos mais, vamos dar com ela chocando um ovo goro que tomou o nome de União Europeia.

Atenção, tiranetes do Ocidente: Bonaparte, vencido naquele colossal duelo, era um génio, enquanto vós, se algo vos aproxima do petit corse, será apenas o mal que sempre conseguis derramar. Salva-nos a distância de talentos que separa uns e outros!

Prosseguindo:

Na presente conjuntura, como sempre que se lida com o foro interno dos agentes, que entram em acto, manda a prudência que se fuja a uma opção tomada com exclusão da outra abstractamente possível. Por esta razão é que recorro a uma dupla interpelação:

Qual, então, o pecado que vos imputo? – Muito simplesmente, o da idolatria que alimentais no culto tributado ao capital, em detrimento das correntes socialistas. Ou não sois capazes de distinguir os dois estilos de gerir as economias das nações; ou assim procedeis levados por um propósito acintoso. No primeiro caso há tanta ingenuidade que ninguém lhe prestará fé; no segundo não vos livrais de que outrem vos chame infames!

Pessoalmente, nutro uma profundíssima admiração pela Rússia, o que imediatamente se infere à medida que se lê o texto que assino; não é menor o meu apreço pela Ucrânia. De resto, pergunto como poderia enaltecer-se uma, desprezando a outra, se a Ucrânia é a matriz da actual Rússia?

A guerra, que as atira uma contra a outra, é um combate muito especial. Difere, com efeito, do comum dos pleitos bélicos porque este integra-se na categoria, cada vez mais rara, formada por aquelas lutas em que colidem dois modos de entender a vida: de um lado movimenta-se uma hoste empenhada em recuperar, para o homem, a dimensão a que este tem direito; do outro, está a horda, que já espalhou os seus erros. Contrariamente ao que o cenário imediato mostra, o confronto não é entre Rússia e Ucrânia. Por mim, caciques do Ocidente, na pugna em curso só reconheço dois antagonistas, stricto sensu: a herdeira da Santa Rússia; e vós, que sois a personificação do Mal; pelo meio, resta a Ucrânia que é simples pau-mandado.

De mistura com outros dislates vossos, surgem as habituais e pouco sentidas farfalhices arrancadas ao intitulado Direito Internacional; às regras de civilizada convivência; e temperadas de umas quantas coisas mais, bem repolhudas. Pois bem, essas preciosidades que tanto vos deslumbram e que pouco observais, têm o dom singular de pôr a nu como é possível olhar e comportar-se alguém como se quase nada visse. É este o vosso caso!

O sujeito cognoscente, quando está possuído das mais baixas paixões que se assenhoreiam do homem e que, entre outros danos, também produzem o efeito de afectar as suas faculdades mentais a ponto de acabar por ver a sua própria pessoa pintada de cores que lhe são estranhas, é um ser perturbado. Desenham-se todos os indícios de ser este o vosso estado psicológico. E, para cúmulo do desplante, é neste estado que vos apresentais como anjos custódios do género humano!

Como pensais protegê-lo? – Desde que as doutrinas antropocêntricas entoaram os primeiros brados de vitória, viveis segundo as escalas de valores do relativismo com que pretendeis subjugar o mundo: os vossos códigos cobriram a terra e entulharam oceanos; os vossos exércitos têm continuado a obra!

Simplesmente, o relativismo destrói-se a si mesmo. Mas  enquanto vai durando, traga os seus sectários como o animal voraz engole a presa. Daqui, pois, se conclui que  ninguém guardais. Ides desaparecer assim como o sistema que vos perverte e os suplícios que dele provêm.

Falais do moderno Direito Internacional, em vigor, como se ele fosse uma realidade palpável. Mas não é exactamente como dizeis: há um nítido erro de classificação. Daquilo que mostrais pretendendo que seja mais um ramo da ciência jurídica, lá internacional certamente que o é; agora, o que de maneira alguma pode é ser integrado na categoria do Direito! O que temos à frente dos olhos é um telónio, à volta do qual alguns chatins traficam bens que guardam e podridão que semeiam. Não fossem as lastimosas consequências deste logro, que é um dos vossos ardis mais disseminados, eu diria hilariante essa simulação impudente. Pois não descubro que outro nome se lhe possa atribuir, quando é certo que o Direito Internacional, que sufragais, apesar de não estar privado de juridicidade em toda a sua construção, enferma no entanto de um vício de tanta gravidade, o qual basta para lhe retirar dignidade jurídica.

Parai, por momentos, e reflecti um pouco se ainda conservais esse privilégio humano:

Saturno tem um rival no planeta que habitamos. Sobre este novo  anel, com que asfixiais o mundo espalha-se uma autêntica babel de documentos e entrevêem-se as mais variadas instâncias. São Tratados; Cartas; Pactos; Estatutos; Comissões disto e daquilo; Acordos; uma amálgama de Organizações Internacionais; Tribunais de latíssima jurisdição; e, provavelmente, outras maravilhas que não descrevo por andarem perdidas dos meus olhos. Os Tribunais, então, postos ao lado uns dos outros, dariam a imagem de uma cidadela quase sem vida. E é todo este amontoado que nomeais pilares da Nova Ordem, que já rompeu a marcha e cujo avanço é imparável.

Não é novidade: há muito que vindes instalando esse sistema, que atirou os povos para a esfera do pensamento onde se adultera a pureza do Ser, que o mesmo é dizer, a todos sufoca no quotidiano do convívio político, sob a medonha prepotência que se cifra na tirania omnium erga omnes.

Para além dos vícios ontológicos, que transporta, a Nova Ordem exibe ainda deformidades, cujo grau de abstracção é inferior e, por isso, estão mais perto do alcance do homem médio. Palpita-me, contudo, que as insígnias desse paraíso valem tanto como, por exemplo, umas quantas peças heráldicas bem polidas e que um dia poderão encantar os visitantes de algum museu de antiqualhas.

Até lá e por ora, só isto a inquirir:

Será cordato falar de Direito Internacional, enquanto lhe foge um poder judicial com eficácia? Estará de pé algum Estado soberano, sem tribunais que funcionem?Quem diz Direito, diz tribunais! Segue-se que onde não há tribunais, também aí não existe Direito por manifesta superfluidade! E onde falta Direito, não há soberania!

Na verdade, não se concebe um edifício de leis, de cima a baixo e de uma ponta à outra, onde falte a acção dos tribunais. Não trato aqui, propriamente, dos órgãos jurisdicionais quando abundam em erros de ofício ou de malícia, porque, naqueles que ataco, a doença é outra – bom número de vezes, nem reagem quando, para essa missão, são solicitados. Ora Direito, sem órgão judicial vivo, não é corpo saudável e afasta de si a dignidade da categoria institucional que se arroga!

E nem se diga que cada Estado soberano acolhe, no seu direito interno, as normas cuja tutela é descurada pelos sobreditos tribunais, os quais se situam em plano superior porque são alegadamente instituições de Direito Internacional. Aqui, duas vias se poderiam abrir: ou abandonais o vozear que soltais, numa repetição constante dos efeitos positivos do vosso Direito Internacional; ou lhe dais uma estrutura completa, perseguindo o vosso arquétipo político e, se não vos falecer engenho suficiente, instituís a Soberania Mundial, o que desde sempre é a jóia por vós mais cobiçada.

Creio, porém, que não o conseguireis. Pois como se poderia então manter o conhecido Direito Internacional sem que logo se criasse um Direito  Mundial? Para lá desta barreira, outras razões há para a minha descrença, as quais irão aparecendo até final do que hoje lanço nesta página:

A primeira via, por mim indicada, requer que soubésseis ouvir os outros e isso equivale a pedir-vos demasiado; no que diz respeito ao Estado Universal, há longuíssimos anos que vêm sendo feitos alguns ensaios nessa direcção. Estareis tão desprovidos de massa encefálica, a ponto de esse defeito vos impedir de notar, já não digo a amoralidade dos papéis que representais, invocando uma suposta sacralidade do Direito Internacional, mas sim a falta de nexo lógico que se descortina na vossa actuação? E é este um atentado, do qual não ficais a salvo do ferrete que vos é colocado, porque, na qualidade de seus autores, vindes maculando a majestade do Direito.

Na vossa arbitrariedade, sobrará espaço para nela se incluir a verdade apodítica de que é o sentimento jurídico que gera a lei e não o inverso? Afigura-se-me o contrário. E porque é sina vossa subverter o sentimento, não há que admirar dos baldões do mundo!

Olhai e meditai em consonância:

É ponto incontroverso que está vedado a qualquer nação chamar a si o ius puniendi para alcançar o que tem por justo, enquanto lhe sorrir a possibilidade de recorrer a meios incruentos, fora o que lhe assiste legitimidade para declarar guerra. Repetis esta verdade incontestável num autem genuit interminável. Perfeito! Porém, mais perfeito sairá quando notificardes e, sobretudo, explicardes a uma opinião pública, cada vez mais embrutecida, como foi que se desenvolveram casos de quebra da paz ou com desfecho muito próximo desse resultado, e de que está repleta a história do vosso celebérrimo Direito Internacional.

Reporto-me, bem entendido, aos episódios marcantes após o nascimento da sacrossanta ONU, essa reles comediante de feira que não vos cansais de proclamar como sendo paládio dos direitos humanos. E apenas contam estes sucessos porque antes, como é voz corrente, não se via mais que a desolação de um deserto de garantias, onde só a vontade do mais forte era lei.

Nem sempre! E ainda quando o foi, vive-se hoje diferente comportamento? – Para melhor, certamente não será!

Basta atentar nos chamados crimes de guerra: Nos tribunais que os julgam, quem é réu? – É o vencedor? E de que banda provêm os juízes? – São escolhidos de entre os vencidos?

Vem-me à memória este sucinto trecho arrancado às lições de um mestre coimbrão: «O Direito é a expressão de um justo coactivamente imposto: força que seria violência, sem o apoio da Justiça; Justiça que seria precária, sem o apoio da força!»

Frase lapidar, esta; e carregada, que está, de aguda sabedoria! No dia em que, criteriosamente, vier a dispensar-se a coercibilidade das sentenças judiciais, os tribunais perdem razão de existir. Os vossos, especialmente, bem podem ser despejados pela janela mais à mão!

Soará, nesse momento, a hora de entrada num estado de felicidade quase sobrenatural. Para tamanha empresa, requer-se ! E não é o vosso agnosticismo que nos transportará a esse paraíso renovado!

Prestemos atenção e ver-se-á, de imediato, que a realidade circundante é claramente outra. Com efeito, se é delito o ataque da Rússia à Ucrânia, que nome reservais aos embargos levantados contra ela? Ou foram essas medidas decretadas judicialmente nalgum dos cantos, onde se acoitam os magistrados de qualquer desses órgãos, que tanto venerais? Se fosse o caso, tornar-se-ia forçoso convir que esses recantos andam bem arredados da aura pública, porque nem sombra de sentença se avista no horizonte. Aliás, como poderia ser de outro modo, quando de todos é conhecida a ineficácia dos órgãos competentes, padecendo os mesmos de uma tal inanidade, que nos autoriza a duvidar da sua existência no âmbito dos factos concretos. Ainda agora se tratou desses seres fabulosos.

Líquido, aqui, só temos que reprovais à Rússia, o que levais a cabo de forma primorosa. Despertai, pois, de um sonho que, desde há muito, vai atirando convosco para o estado de quem entrou num delírio colectivo. Fazei-o, sem tardança, se ainda quereis arribar a porto de salvação!

As sanções económicas que é de uso decretar em situações análogas, são espelho do cinismo de quem as põe em vigor. Pouco preocupado com abstracções, direi mesmo que algo de perverso subjaz a esta táctica. Poderá admitir-se que escapem aos seus autores os efeitos reflexos de tais medidas, como já antes se salientou nesta peça.

Será então de toda a prudência que cureis no que tendes à vossa volta, pois sempre que os poderes públicos se revelam impotentes para fazer observar as leis que regem uma comunidade, logo deveríeis ver que assiste aos particulares a faculdade intangível do recurso à acção directa como resguardo dos seus próprios direitos. Isto assim é na ordem interna de cada Estado soberano. Subindo ao plano internacional, se os órgãos competentes para impor as normas validamente estabelecidas, mostram uma inquietante debilidade, que os leva a vacilar no cumprimento desse dever, cada nação é titular de um direito análogo!

Importa ter presente a proximidade que, por vezes, pode existir entre a acção directa e a legítima defesa preventiva. Bastante elucidativo a este respeito é o caso da célbre crise dos mísseis de Cuba, quando o confronto iminente só não deflagrou porque a nação ameaçada viu que o risco de agressão se havia sumido.

Não é, pois, de esperar que a nação em perigo, renuncie a um direito cristalino e superior àquele que, algumas vezes, o esmero académico hesita em classificar de acção directa ou de legítima defesa preventiva. Antes, pois, desse exercício de sistematização, é da mais elementar prudência e sagacidade olhá-lo como um direito natural, sem mais qualificativos. Eis porque essa nação, sempre que não depare, em tempo útil, com outro meio que lhe permita preservar os valores que dão suporte à sua identidade própria, está legitimada para reagir. Se a análise de todos os quadros de guerra, para saber da oportunidade de cada uma, se reveste de grande delicadeza, este tipo de situações – acção directa ou legítima defesa preventiva –  não é decerto dos menos complexos. Já acima foi este caso aflorado.

Acudam, gritará horrorizado o vosso descaro pretendidamente pacifista! E os que dele fazem timbre, com maior destaque, acrescentam que o remédio contra a guerra não está em normativos mais ou menos justos. A esses, dou-lhes razão.

Mas pergunta-se: haverá, porventura, alguém de consciência tão adormecida ou de coração tão cheio de fereza que negue as marcas de quanto a guerra é terrível?

A tragédia é começá-las. E a culpa assenta principalmente nos agentes patogénicos que são a sua causa: entre eles, como encarnação de um disforme paradoxo, apareceis na primeira fila, entrajados numas vestiduras que já não disfarçam a vossa procedência satânica!

Não venho aqui reabrir o arquivo de todas as guerras passadas e dos nefandos crimes que, no seu decurso, se cometeram. Bastará apenas recordar, como exemplo, Hiroxima e Nagasáqui. Disto, pouco se fala. Porque será? Óptimo seria se os que aspiram a doutrinar o mundo com uma catequese que vê fugir os seus prosélitos, não se comportassem como tendo memória tão curta.

A guerra oferece, pois, um quadro de catástrofe: esta conclusão não admite contradita! É triste, mas constitui uma realidade que perdurará enquanto os povos se conservarem insubmissos ao imperium das leis eternas. Contudo, a responsabilidade do desastre – quando é plural – não cabe a todos no mesmo grau, nem começa no preciso instante  em que se ouve o troar de canhões, sempre que o choque é desejado e preparado com uma antecedência bem sensível. Isto imprime a nota mais aflitiva à generalidade dos conflitos bélicos, acarretando uma mais severa censura porque é com absoluta clareza que aí se descobre um propósito elaborado antecipadamente.

Para quem, como vós, tanto insiste na solução pacífica dos litígios inter gentes e não vos cansais de alardear poderes, de que vos dizeis investidos, não é hora de uma catarse purificadora? Infelizmente, se soou, não foi ouvida: pelo menos, é certo que não seguistes o caminho nela indicado.

Neste ponto, a vossa posição, como ela se desenha perante olhos que queiram ver, é com toda a nitidez diferente da minha. Vem incubada na orgia dos prostíbulos em que maquinais a ruína dos povos. Tomais lugar nuns antros de podridão, onde corre a mais letal peçonha que jamais trasbordou de peito danado e que, por vós espalhada, vai criando um deserto de valores éticos.

Que conste mais uma vez: a guerra é inegavelmente um flagelo para quem sofre os seus efeitos. Deixa, atrás de si, um cortejo imenso de dor humana, a que não falta a ruína material.

É, pois, de não festejar. Mas uma é a atitude do insensato que se proclama, sem restrições, contra a guerra; e outra, completamente distinta, a de quem, num juízo equilibrado, declara que não é a favor dela. O horror do primeiro, tantas vezes farisaico, por norma vem acompanhado de uma série infindável de lamúrias, qual delas a mais desprovida de genuinidade.

Para se acertar com o estrito conceito de guerra, torna-se imperioso distinguir entre guerra justa e guerra injusta. Definido o âmbito da guerra justa, toda aquela que caia fora da linha, que a delimita, é uma guerra injusta. E, como tal, nem o nome de guerra lhe devia caber, pois mais não é que matança hedionda!

Na tarefa de estremar os dois campos, não podemos esquecer a notabilíssima escola que fixou as bases do que é a guera justa, ou a paz dinâmica como, inspiradamente, também foi chamada. São aqueles que, no rasto luminoso de S.to Agostinho e de S. Tomás, constituíram a poderosa legião formada nos claustros universitários de Salamanca. De resto, já a Sagrada Escritura nos traz notícia de guerras conformes à Justiça.

Sustentar que a guerra é invariavelmente um comportamento iníquo, sem atender a um quadro em que se verificam as condições que a legitimam como único meio de defesa colectiva, tomar esta posição, é pois um juízo viciado se não for maldoso. Quem tal dislate profere, nega o direito à defesa individual. Salvaguardadas as devidas proporções, as duas situações, no fundo, são análogas. E, para marcar de forma transparente a próxima identidade que entre elas existe, cumpre afirmar que casos há em que sobre o titular do recurso à guerra, recai não só esse poder como ainda fica sujeito ao ónus de a mover contra o injusto agressor. Tal qual se passa no universo jurídico de cada estado soberano, quando deparamos com o socorro prestado a terceiro. Mais um traço a unir as duas categorias de defesa!

É conforme ao direito dos povos a guerra que a Rússia leva a cabo contra a Ucrânia? Logo a abrir esta exposição, eu disse que não invadiria esses terrenos. Não encontro dados fiáveis que me permitam apreciar, ponto por ponto, esta questão candente e após isso, estar apto a pronunciar-me. Limito-me, portanto, a emitir o que a minha intuição dita desde o princípio deste conflito armado – a Rússia, cruzando a Ucrânia em pé de guerra, oferece-nos apenas o exterior visível dos seus objectivos profundos, porque aquilo que a Rússia combate é o Ocidente, que hoje vagueia, esquecido de um passado histórico que renegou, perdendo desta maneira o que de muito valioso esse passado reuniu.

Mas nem é preciso retroceder muito no tempo para observar como o Ocidente é traidor. Com tanta deslealdade fere os valores, que o informaram, que não hesita morder agora, aquele a quem antes lambeu as mãos, e que porfia em tratar como se fora o modelo ressuscitado desse corpo que ajudou a nascer.

Como se deu isso? Pois bem: nada teve de complicado; foi somente vil, na correspondência exacta do carácter de quem o praticou. Ou seja, vós!

Ouvi, pois:

Na verdade, o horizonte, que nos circunda, traz-me à memória um dos maiores abalos que fizeram estremecer a civilização humana, e cujos efeitos não deixarão de se sentir, enquanto a vossa desgraçada mentalidade ditar leis. Refiro-me, ao que se viveu no ano de 1917, quando a autocracia imperial se afundou na velha Rússia. Nessa conjuntura, que fizeram as potências de então? Acorreram como amparo do poder deitado por terra? – Todos sabemos que isso não aconteceu: e quando não hostilizaram, primaram pela omissão de qualquer auxílio relevante!

Em sentido contrário, nenhum sinal que proibisse ir em ajuda de alguém que, pela primeira vez, aparecia no cenário internacional. O que veio a suceder, marcando no campo dos factos concretos uma manifesta assimetria, que denuncia bem a equidistância dos benfeitores, relativamente às forças que, na Rússia, entraram em choque.

Eis uma amostra do que, então, no jogo das diplomacias e de muita perfídia agarrada, decretou a morte da Rússia dos Czares.

Por essa ocasião, quem abriu, a Lenine e a outros proscritos, o caminho de regresso à Rússia senão a Alemanha imperial? E quando Lenine, ao notar que o fruto ainda não tinha amadurecido o suficiente para que ele trepasse ao poder, busca refúgio na Finlândia, quem é que lhe estende a mão salvadora, a ele e ao projecto que sempre acalentou? Terá sido o proletariado daquele país, ou o apoio chegou da banca?

Com efeito, foi o mais genuíno distintivo da burguesia capitalista que valeu ao prócere vermelho. Não podia ser mais apropriado: capital e socialismo em estreita união! Como é facto notório, quem ganhou com este episódio foi o capitalismo imperialista. Teve o mundo o que fatalmente havia de suceder e, sem temeridade, pode acrescentar-se que colheu o fruto que apeteceu. Assim continuará até que haja uma profunda reforma na economia, o que exige antes  outra mais difícil de alcançar e que é a recuperação dos valores morais, por vós tão castigados e adulterados!

Este concubinato causa surpresa a muita gente, que nem se dispõe a acreditar nele. Não é a repulsa verberada pela moral: trata-se, basicamente, de uma acentuada carência de formação intelectual. A vossa amaldiçoada cartilha, posta a correr pelos bonzos da informação, conseguiu fazer passar a ideia de um antagonismo que não existe.

Quanto à Rússia, se viveu 70 anos de bolchevismo, em grande parte a vós o deve como é patente no que se vem expondo. Cessai, portanto, de a atormentar por um erro de que fostes culpados e que continuais na ânsia de o ver frutificar por esse mundo fora. Atentai bem, demónios infernais, no que sabeis desde sempre: o capitalismo é a semente do socialismo lançada ao chão onde floresce o comunismo, fronde da árvore que assim medrou ao deitar raízes naquele solo.

Capitalismo e socialismo, além desta relação de origem, têm outra nota a ligá-los: são como dois mancos em que cada um se serve da perna que ao outro falta. São, pois, dois sistemas aleijados, condenados a coexistir, enquanto na sua relação não se operar uma mudança tão grande como aquela que separa a animosidade de um estado de concórdia.

Por acção do que parece ser ironia, o socialismo, enquanto praticado nos cânones que os seu corifeus apregoam, é escravo de quem o gerou – o capitalismo. No palco em que se movem estes actores e como se mexem, é visível que não é pouco o que, ao segundo deles, rendem as mais-valias que os tentáculos das multinacionais vão sacar do baixo custo de produção que se vive no mundo socialista.

Urge que não faleça nos povos o sentido que, a todos subjaz, e leva a que nos precatemos contra um mal que vem crescendo de forma apavorante.

Deste horrível contubérnio, há muito que despontou um fiscalismo cada vez mais pesado. É a outra via por onde escorre o veneno. Entretanto, não esqueço que a malvadez das vossas entranhas vos torna obtusos; e se tanta é que vos impeça de apreender a verdade contida nestas palavras, a cura só poderá ser obra de um milagre!

Até quando se aguentará a carga deste jugo? Deus escolhe quem quer, quando quer, e se quer para cumprimento dos seus desígnios. De momento, guardo no íntimo do meu ser, a convicção de que a Rússia falará com voz eloquente no âmbito desta matéria. Por isso é que a atacais com tanta sanha! Se vos dói ouvir isto, apenas vos resta que procureis solução numa profunda metanóia.

Os vossos argumentos, desde o germe deste conflito, nunca convenceram as mentes mais esclarecidas quanto à real natureza da contenda que, no Leste, se dirime a ferro e fogo. Na verdade, as vossas razões estão esvaziadas de sentido e de tão repetidas, que vêm sendo, tiveram o condão de provocar o fastio àqueles que as escutaram. Graças a Deus que se vai chegando a este ponto!

Que quereis, pois, impostores da verdade? A mim, não me colhe de surpresa a volubilidade do vosso proceder, uma vez que, há longo tempo, conheço quanto sois malignos. O vosso desplante assume uma proporção desmedida. Depois dos festejos celebrados após a queda do muro de Berlim – do qual, de resto, também fostes cabouqueiros, como atrás disse – sucedeu o ofício de serdes agora verdugos da Rússia, lançando sobre esta nobre nação o labéu infamante do seu recente passado comunista, do qual, acabei de o lembrar, partilhais a autoria.

O vosso agir é, inequivocamente, o de quem suspira pelo regresso à disjuntiva desses anos: ou o Tio Sam, com a paisagem daquilo a que dais o nome de amplas liberdades; ou a aparição do Urso de abraço asfixiante!

Cuidais que havemos de recear outro leninismo; ou estalinismo; ou outro avatar marxista? Se é o caso, esperemos sinceramente que estejais preparados, para enfrentar esse retorno plenos de ardor, aquele mesmo que se viu em 1917. De outro modo, quem esqueça a dedicação com que abristes os sulcos do edifício bolchevista, cujos campos, nos vossos torpes manejos, viestes depois adubar com muito sangue inocente, esses, friso bem, não terão direito a estranhar o que, por este andar, infalivelmente se há-de repetir. A menos que se erga o campeão intimorato e, brandindo a clava, com ela esmague a cabeça da Besta apocalíptica!

Por conseguinte, amos do Ocidente, tomai tento e vede que cautela nunca será demais. O vosso crónico maniqueísmo, ao contrário do que imaginais, não sobreviverá na duração dos tempos. O Bem triunfará e a paz descerá dos Céus sobre os homens. Não a paz de que vos dizeis arautos e cujo pregão passa pelas vossas bocas enganadoras, mas sim aquela que repousa sobre os valores perenes da Justiça eterna, ou seja, a paz que nos trouxe Cristo Redentor!

O rodar da história mostrou, ainda recentemente, como se passa dos ergástulos de um qualquer gulag para as delícias do paraíso capitalista – é um dizer adeus ao cárcere para logo ir  enterrar-se no aviltamento do lupanar mais à mão.

Das vossas bocas não pára de sair em jacto a dialéctica de um romantismo falso e oco que cheira a bafio. Não se vislumbra justificação para este recuo no tempo quanto ao modo de comunicar.

É diáfano o que trato e que está no cerne de tudo que abordei até ao momento. E faço-o num estilo despido das fórmulas de um sentimentalismo piegas e hipócrita! Enfim, sem amenidades na palavra, dentro do jeito em que me eduquei e também por temperamento, findo como iniciei – volto à guerra na sua brutal crueza!

Desde a primeira linha que me debruço sobre um caso que não se reduz a mera questão de forma, porque substancialmente todo ele é muitíssimo complexo. E como se esconde sob o manto astucioso da mentira, o seu exame merece um cuidado ainda mais aturado. Nesta sequência, muito surpreenderia que se guardasse silêncio em redor dos danos colaterais. No meio destes, é tecla muito batida a que nos dá conta das perdas humanas entre a população civil, mormente quando envolve crianças.

A morte sempre provocou angústia no ser vivo. Porém, a morte  temível não é a morte do corpo; é a morte da alma! No entanto, a força devastadora que a morte física exerce sobre a sensibilidade de cada um, é não só compreensível como até traduz uma reacção, à qual se há-de tributar um elogio. Contudo, a este propósito, cabe interpor umas palavras que, por imperativo de consciência, não me é lícito calar.

Derrama-se, pois, muito choro pelo ror de mortos que a guerra vai provocando. Essa dor – insista-se – magoa imensamente mais se as vítimas são crianças. Tudo em obediência a sentimentos de humanidade. Ouço, pois, esses choros por todo o lado e nada tenho a opor. Pena é que, em contrapartida, veja muitos rostos enxutos das lágrimas que não caíram por aqueles que não chegaram a ser crianças porque, antes disso, os trucidaram nos ventres das próprias mães. É natural que essa mortandade não perca em relação ao número de baixas mortais e que são resultado directo de um estado de guerra. Todavia, não irei apelar a estatísticas mais ou menos reais, para mostrar o que destoa nesta diferença de comportamentos. A vida humana vale tanto que não ocupa espaço em soma de qualquer espécie, porque o número é grandeza que ali não tem lugar. Para vós, fica a tarefa de pesar essas vidas abortadas como quem conta votos: é uma digníssima ocupação democrática!

Sabeis, Herodes das modernas eras, a causa justificante da tamanha infâmia que são estas incessáveis matanças de inocentes? – Receio bem que não! E não tenteis ocultar a malvada atrocidade, a que aludo, entoando hinos de indulgência para com os protagonistas desse cobarde açougue, garantindo que reservais as mais ásperas censuras para o facto sub iudice.

Se porventura avançásseis com esta justificação, impunha-se saber porque não seguistes até hoje na mesma linha, clamando que os vossos raios não fulminam Gregos nem Troianos e que, nessa ordem de ideias, vos limitais a ser contra a guerra que uns e outros travam. Porém, o que até agora se viu, contraria a possibilidade de qualquer resposta neste teor. E a razão é que, desde o inicio do estado de guerra entre Russos e Ucranianos, nem uma pausa houve no ataque cerrado, repleto das culpas que atribuís aos primeiros, soltando as barbaridades do costume!

Que legitimidade invocais para punir os Russos pelos crimes que lhes imputais, ainda por cima sem que se conheça, por enquanto, qualquer decisão condenatória emanada de órgão competente? Ou será porque, há muito amarrados de pés e mãos à outra parte em conflito, não sentindo força para desatar esses nós, teimais em sonhos passar a imagem de uma integridade que vos permitiria alegar uma equidistância capaz de vos transformar em julgadores deste pleito? Resposta afirmativa à última pergunta, só teria cabimento junto de quem quisesse rebentar com qualquer teatro deste mundo, numa explosão de risota colectiva!

Regressemos ao que vale como triste drama que é:

Desconfio que a explicação do quadro real desta guerra entre Rússia e Ucrânia está na resposta afirmativa à última pergunta, não obstante o que com ela transporta de risível e descontando, é claro, o que ali coloquei acompanhado de uma ponta de sarcasmo! O mais grave, contudo, é que a vossa aliança com uma das forças em confronto não é um pacto de alma e coração, como devia ser qualquer laço que une os homens, porque é uma estratégia de cizânia que só para vós tem utilidade – não é apenas ao inimigo que inflige mal; atinge também aquele a quem chamais aliado! Este juízo, além de espelhar o que se passa naquela parte do mundo, é sobretudo um juízo de valor moral pelo que pouco eco encontrará entre vós. De antemão, o sei. No entanto, aqui fica porque é um ponto da matéria que bem pode considerar-se como integrando o âmago desta tragédia lancinante.

Perfilados lá para os confins da Europa, um diante do outro, estão pois dois beligerantes que se vão matando no fluir dos dias passam. Pelo meio, vêm soando agora e depois alguns rumores de negociações; simultaneamente, consta que a luta no terreno vai aumentando em dureza com todas as suas consequências. É muito possível e, se acontecer, nada tem de inopinado dentro do desenvolvimento de uma lógica de guerra.

De que lado paira a razão? Esta pergunta, se não se levanta em todos os palcos bélicos, faltará por pouco. Neste, não me repugna declarar que não vejo com a clareza que baste a afirmar, categoricamente, quem é agressor e qual o defendente. Já o dei  a entender ao longo do que aqui venho escrevendo. Posso, como já fiz, acusar o Ocidente, este amálgama de estofa moral quase impossível de definir, como sendo o grande responsável da catástrofe e, se não o maior, talvez o único culpado pela fogueira que arde no Leste europeu.

Não constitui surpresa, para mim, ver as posições que tomam os que vivem agarrados a conceitos de uma nacionalite aguda. Não comungo desse destemperado apego a uma doutrina de que se diz depositária uma força política – a extrema-direita – que sempre achei um desperdício de energias.

No universo político, não conheço mais que Ordem, ou seja, a lei natural que, na sentença tomista, é participação da lei eterna na criatura dotada de razão; e Revolução em que, de um extremo ao outro de uma linha, se coloca quem nega essa lei. Como se intuirá sem dificuldade, sou pela Ordem!

Por isso, de novo afianço que não ouso tomar partido entre os que se defrontam de armas na mão. Em verdade, não me deixarei arrastar por essa corrente de paixões e, por isso, não me pronunciarei declarando que temos em campo duas forças estranhas uma à outra e visceralmente inimigas, porque hesito entre sustentar  que a Ucrânia é russa ou que a Rússia é ucraniana. Não dito leis em lado nenhum e muito menos em casa alheia; e como nunca me enchi de crenças democráticas, desse tipo de governo que é delícia quando os fados correm de feição, e mau se os ventos mudam, eis-me dentro de um pensamento próprio, sendo assim levado a esperar que estes povos escolham o rumo certo e naveguem de braço dado.

Menoscabar o inimigo, não raras vezes é de funesto resultado! No couto selvagem, do qual este Ocidente tormentoso, a cada momento, se aproxima mais, breve se provará como todo aquele que não participe dos padrões míticos que a Besta cultiva, depressa irá provar os requintados gozos que a tolerância democrática reserva aos impenitentes!

Toda esta peça foi iniciada e, até aqui, escrita sob o peso de muita amargura. Não vale a pena apontar motivos. Quem precisar que lhos enuncie, também nada entenderia do que me ouvisse. Dou graças a Deus, porque sinto disposição para fechar com estas palavras, que ressumbram esperança e optimismo:

O mundo é presa da Revolução. Anseia por quem venha salvá-lo.  Ora esta mudança pede um grande esforço.

A Rússia é forte e voluntariosa. Nesta hora, os sinais de vida do espírito estão gravados no estandarte russo. E ali se mostram muito mais vincados do que em qualquer outro pendão que em todo o mundo se possa hastear! Esses sinais chocam-se com os que se lêem na cartilha de um Ocidente abastardado. Por outro lado e ao mesmo tempo, a Ucrânia, que é altar de Santa Olga e de São Vladimiro, nada deve a ninguém, se a medimos em valor anímico. Quando também ela acertar com o seu verdadeiro destino, a ordem escrita na lei eterna regressará ao seio desta gente tão experimentada no decurso dos séculos e de raríssima bravura!

 

LAUS DEO VIRGINIQUE MATRI !

 

Joaquim Maria Cymbron

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

O REGRESSO DO MONSTRO

Está de volta o vírus matador? Pelo que foi posto a correr, parece que sim. E que é mais de recear: o que se anuncia; ou o anúncio que se faz? Quanto a mim, não há que ver: a resposta está no segundo termo da alternativa!

Ao arrazoado dos políticos, em volta de um mal por enquanto indefinido, já ouvi chamar discurso apocalíptico. Reprovo esta aproximação – o Apocalipse é possivelmente o livro de mais difícil leitura de toda a Bíblia, mas o Apocalipse não é, por certo, nenhuma Torre de Babel.

E como se reage a esta Torre de Babel? Por mais que isso possa contrariar alguém, direi que esses o fazem de forma bastante redutora.

Senão, vejamos:  

Ai de nós, porque vai a pique a economia! É o que mais se ouve nas hostes adversas às cadeias que a loucura de uma pandemia montada criou para nos pear a todos! Por mim, é este o brado de aflição: Deus nos acuda, porque nada mais se vê a não ser um desastre material!

Acaso é a economia a base de tudo que temos a viver? – É certo que o ar não chega para sustento do homem. Mas reduzir o statu uiae dos mortais a um mero processo que garanta a continuidade física de cada um de nós, coloca-nos num ponto sem horizontes de futuro. Insistir neste caminho, será privar-nos de uma dimensão situada muito acima do que nos é exibido no frio quadro de umas colunas do deve e do haver, tábua emocionalmente inexpressiva e carregada de uma nota bem contingente. Portanto, anda desumanizado o que se oferece aos nossos sentidos e, principalmente, se não for capaz de provocar-nos um deleite maior do que aquele que podemos atingir no gozo dos valores materiais. E ainda se espantam os povos que a mole de gente frustrada não pare de engrossar!

Porém, não será realmente o afundar da economia o maior perigo que devemos temer num futuro próximo? – Estou em crer que não! Digam os especialistas se não é verdade aquilo que o profano vê e que se reduz a linhas muito simples de entender: se alguns sectores da vida económica se sentem estrangulados, outros há que nunca encaixaram tanto dinheiro! Como se ousa, pois, falar em catástrofe económica?

Na análise da presente situação económica, é curiosa a tendência que coloca o perigo de ruína próxima como o mal que vai cair sobre os agentes que operam no mercado pelo lado da oferta. Pergunta-se: que sorte está reservada aos consumidores, os quais, pelo próprio jogo do movimento da oferta e da procura, perderam poder de compra? Não sofrem eles também os efeitos de uma pandemia, real ou simulada que ela seja?

Ninguém, pois, ignore que o curso quotidiano da vida económica não pode deixar de abranger tanto os que facturam como aqueles que gastam. Daqui, pois, ressalta como dado certo, esta conclusão: se o cliente desaparece por míngua de recursos, quem presta o serviço procurado, também não sobreviverá!

Entre o corpo económico e o de cada um de nós, cabe estabelecer um certo tipo de paralelismo. Assim, é evidente que o nosso organismo assimila o que pode revigorá-lo, e elimina o restante de forma análoga ao que, no processo económico, se verifica para alimento da comunidade e, mais tarde, perde a utilidade inicial sendo, por isso, lançado fora do circuito. São dois momentos indissociáveis: cindi-los é temeridade grosseira e votada ao insucesso. No entanto, porfia-se em buscar saída para o mal, ainda por cima através de um discurso grandemente afastado do rigor exigido nesta categoria de análises!

Estará na economia, porventura, a tábua de salvação para o Mundo que habitamos? – Já acima se disse que o homem carece de bens terrenos, que lhe permitam sobreviver. Este propósito é necessário à sua felicidade, mas não basta porque, acima do que é matéria, paira o espírito que nos vivifica! Não reconhecer esta verdade cristalina, da parte de quem o fizer, equivale à confissão de que se sente reduzido a um estado pouco menos que bestial.

Entretanto, algo há que confunde quem examina o procedimento dos que criticam os efeitos da pandemia. Senão, vejamos: num primeiro momento, deitam-se a carpir a sorte da economia, que antevêem calamitosa para o lado que já sabemos e com os resultados que nos são apontados; logo a seguir, persistem em maldizer as fabulosas receitas que, segundo eles, se vão arrecadando à custa das pesadas restrições, de toda a ordem, que nos atingem. É flagrante a contradição!

São incapazes de ver que há uns desgraçados sem saber onde gastar mais dinheiro em busca de meios que os livrem de um mal, muito possivelmente só real nas suas mentes perturbadas por uma acção concertada e de raiz diabólica. Não é razoável esperar que alguém tolere a posição insensata dos que esbravejam contra os negócios chorudos  que denunciam e, ao mesmo tempo, exigem que baixem os montantes que alguns agentes económicos têm vindo a encaixar.

Dentro do delírio, que se vive, como há quem tivesse querido e ainda queira que as coisas se configurem de outro modo? Com efeito, é muito difícil, para não adiantar que se apresenta de todo impossível, que a consequência não fosse a que temos à vista. A censura, aqui formulada, é assim dirigida a todos os que detêm poder decisório e, que por acção ou omisão, atiraram connosco para o tristíssimo lugar em que nos arrastamos.  

Desde sempre, a oferta existe para responder à procura: ninguém produz e coloca à venda se, antes, não tem uma expectativa razoável de dar com quem apeteça os bens que são exibidos no mercado. E a verdade é que toda esta gente, mergulhada na credulidade dos efeitos económicos, que umas teses em voga, sem ponta de consistência, lhe martelam os ouvidos com  uma cantoria, cheia de som, mas que depressa perdeu o tom, essa gente, não o esqueçamos, tem capacidade eleitoral – goza assustadoramente do direito de voto!

Acha-se, pois, investida de uma parcela de soberania. Mais uma vez, revelação firmíssima de que a legalidade nem sempre atinge o cume do que é legítimo. A soberania consiste no poder de impor aquilo que foi querido em consciência. Assim é, num plano ideal, porque a crueza da realidade oferece espectáculo bem distinto. Na verdade, os arautos da multidão que formam, no tempo que corre, o ádito sagrado onde se esconde o centro de todas as decisões, esses supostos porta-vozes do querer público vêm, de novo, mostrar um vício que é crónico na massa de que brotam; esse vício tem um nome – irresponsabilidade! Ora se é certo que consciência nem sempre anda acompanhada de equidade, o que se torna impossível é o exercício de um governo recto onde falta o rigor dialéctico.  

Ao longo de um tormentoso penar, em que já pesam os grilhões da servidão para aqueles que se deixam lançar num cativeiro sem fim, a multidão vai descobrindo que, no caminhar de quem manda, frequentes vezes se esquece a missão de prosseguir na efectivação do bem comum. E nota que esses, abusando de um distorcido argumento de salus populi, pervertem-no por completo e riscarão da lista da cidadania o nome de qualquer infeliz que ouse dizer – Eu tenho outro remédio para os males que agitais!

Para trás, como claramente se vê, ficaram as fronteiras da economia. Nada falta acrescentar-lhes. Passando, então, aos domínios da política, de duas categorias são os factos que merecem ser observados:

Comecemos pelos que se reconduzem ao drama à volta do qual gira o que aqui é exposto. E, aí, concedo que, talvez por predisposição temperamental e grandemente por formação adquirida à custa de prolongada ascese intelectual no tempo, mais do que amontoar elementos separados, gosto de os ordenar. É a única via à qual, desde longa data, me acomodei para penetrar no conhecimento da realidade que continua a cercar-me. E este método é sinal inilidível de que sigo vivo.

Ao escolher deste modo, no plano político passa a estar ao meu dispor a faculdade invejável de traçar, com precisão, a distância que vai da pólis, socialmente equilibrada, para a horda que se agita nas indecisões do rumo a seguir, porque nem capaz  é de o definir.

Há uma constante que se mantém viva no meio daqueles que engrossam as fileiras destes bandos, no que diz respeito ao momento que o Mundo passa: não desistem de abrir a cartilha da pandemia e, aí, vá de bolçar sobre outros os artigos de uma crença desesperada. Provas do que sustentam, na sequência dos sermões que trazem de encomenda, nem uma, olvidando um axioma basilar para quem argui – affirmanti non neganti incumbit probatio!

Como pouco acima foi referido, ai de quem se atreva a contraditá-los: caem-lhe em cima e não descansam enquanto o  não tiverem bem moído! À falta de primor intelectual, refugiam-se nos mais comuns chavões e, no mínimo, julgam o temerário, que os afrontou, como sendo alguém sofrendo de uma capitis deminutio, só porque teve a audácia de cometer a mais tenebrosa de todas as heresias – negar a existência de um vírus quando não basta simplesmente duvidar dela. Sentiram-se afrontados com tanta impiedade; e nada como fulminar o miserável infiel com os estafados decretos de uns amos, aos quais rendem um culto quase ou mesmo idolátrico. Temos, diante dos olhos, o quadro da Democracia no seu mais luzido esplendor!

É altura, pois, de continuar  no outro campo de factos sem ligação directa à economia. E este ganha maior valor no problema que aqui se aprecia, porque a realidade mostra não ser certo que a praga resulte de um agente biológico, e que o efeito deletério da apregoada pandemia se projecte apenas no rasteiro patamar da riqueza material, porque aquilo que insofismavelmente se espalhou é um pavor, quase um pânico universal que é psicológico e cuja matriz é de natureza moral.

Por conta dos muitos que persistem em manter-se cegos ao fundamento do mal, que nos aflige, é que o micróbio-espantalho ou lá o que ele seja, teima em não ir embora. A continuarmos assim, não venham, pois, queixar-se do risco de naufrágio quando todos nos viermos a afundar no mar revolto em que navegamos.

E porquê esta convicção? É a história do pensamento humano que a transporta até junto de nós. A Terra gira e, com ela, os séculos também rodam; porém, no meio deste movimento, o homem é o que menos muda. Nos defeitos e também nas suas virtudes!

Platão; Tomás Moro; e Campanella são fontes obrigatórias se buscamos resposta para esta angustiante questão. Não há mais testemunhos? – Muito provavelmente haverá. Eu é que não os conheço. Por isso, obedeço à máxima: ubi nescit, ibi taceat!

São obras de indicutível interesse. Mas não trazem propriamente a solução do problema.

Mais tarde, os socialistas românticos vieram atar-lhe umas pontas. Mas o alcance das suas lucubrações não foi além do que esses utópicos alcançaram noutros campos: duraram o tempo dos caprichos que ditaram moda!

Era de prever. Deles zombavam os próceres de um socialismo que se proclamava científico. Este é bastante mais sério: constitui ameaça que paira sobre nós, e não se arredará enquanto os homens não se capacitarem que nada nem ninguém pode contrariar a ordem natural das coisas, ou seja, que nos defrontamos com a impossibilidade de violar a unidade transcendente do Ser. E quem diz unidade não esquece naturalmente o resto que responde aos nomes de verdade, bondade e beleza.

Capitalismo ou socialismo! Esta infernal disjuntiva subsistirá enquanto os homens – uns por ignorância e outros repletos de malícia – teimarem no erro que insisto em chamar pecado ontológico. Desvio tremendo, que se estende a muitos campos do nosso peregrinar na Terra, assim determinando o pensamento e o agir consequente daqueles que trazem a desgraça a si próprios e aos seus semelhantes.

Mostram-se incapazes de ligar, o que só nas suas mentes anda separado. Se tivessem a suficiente humildade e correspondente coragem moral, depressa confessariam a verdade subjacente a estes dois sistemas, e que mostra o laço que une ambos.

Infelizmente, não sucede como seria desejável. Logo se verifica que a satânica disjuntiva, que aqui se combate, é fruto das insídias do Maligno. Assim foi que se cavou mais um divórcio naquilo que o direito natural ditou que fosse uno. Com efeito, será sempre vão o propósito de rasgar um sulco entre causa material e causa formal.  É luta inglória!

O mais que podem conseguir é abrir um antagonismo nas sociedades humanas. Desgraçadamente, muitos são já os que apareceram. Só uma profunda reforma de mentalidades e hábitos será capaz de fazer reverter este curso amaldiçoado à luz do que é o ideal de uma sã Justiça, que o mesmo é dizer, daquilo que Deus ordena!

Em páginas, cujo texto inicial permitia crer que o objecto do mesmo não fugiria à praga de um estranho vírus, se venha acabar numas linhas com apreciações de pura economia, pode ser que surpreenda. Mas não é motivo para tanto.

Quem se debruçar sobre o teor do que escrevi, sem grande esforço notará que duas são as ordens de razões para assim terminar:

A primeira tem a ver com um estilo de argumentação ad hominem. É bem visível que nesta pugna, o ataque se dirigiu à acção governativa no combate à pandemia. E, nesse reduto, ouviram-se vozes carpindo os efeitos económicos, mas bem limitados à devastação provocada nos sectores da vida económica de Portugal. Embora curta, impunha-se resposta ao concreto discurso dessa gente tão alarmada com o que vêem.

Depois, tornou-se altura de passar a uma análise mais geral e abstracta da economia, sempre dentro do meu jeito de abordar estes assuntos: levo-a a cabo de uma forma que, se for correcta agora, também o será no futuro. E para tal não é preciso escrever muito. Faz falta meditar, longamente e com aturado cuidado, isto sim; basta depois ser preciso, claro e conciso no que se deixa escrito. Procuro seguir este caminho: se o consigo ou falho, a outros caberá dizê-lo.

Dada esta explicação, resta acrescentar ainda que a ordem de exposição, por mim observada, para lá da razão sistemática acabada de apresentar, talvez não fosse diferente.

Na substância, a crise da propalada pandemia reflecte o desastre nacional que vivemos, mas revela bem que não é um vírus – fictício ou por mais autêntico que seja – o veneno letal que percorre o corpo de  Portugal. Portugal carrega um demorado sofrimento, cuja origem nada tem a ver com a absurda pandemia – esta apenas o veio agravar. O seu mal é de raiz política, a que agora juntaram um problema de saúde que culpam da má situação económica.

Por isso, não tem de admirar que eu obedecesse à sequência, que aqui fica. Foi a forma de correr o palco, onde se desenrola o trágico drama que todos conhecemos. De facto, o inimigo principal que aflige Portugal é o sistema político que o oprime, este tumor maligno que o mina há quase 50 anos.  Esta é a verdadeira catástrofe que enfrentamos. A pandemia – a existir realmente e com as proporções que afirmam – é apenas um acidente. Um escolho de percurso que exigiria outro timoneiro, mas está longe de ser a causa da desgraça em que caímos!

 

Joaquim Maria Cymbron

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

RIP

 



De novo, este blogue veste luto.
Por notícia chegada de Espanha, S.A.R. Dom Sixto Enrique de Borbón, comunica o falecimento de sua irmã Cecília de Borbón Parma e pede orações pelo seu eterno descanso.
Mais uma vez, este blogue pelo facto de existir como defensor das Legitimidades, não pode deixar de se juntar ao pesar daquele Príncipe que, em Espanha, levanta a bandeira da Tradição!
Que Deus guarde e conforte Sua Alteza Real!

P.N.; A.M.;G.P.!

sábado, 19 de junho de 2021

VENTURA OU DESVENTURA?

O texto, que segue, em razão de quanto escrevo, é dos mais curtos de entre todos os que, até à data, publiquei. O assunto requeria que se escrevesse mais. Mas a pequenez da nossa política não permite encher folhas. É o que há!


Pobre povo português! É depositário de inegáveis virtudes, mas também carrega defeitos, que nada o enobrecem: só lhe empecem o passo livre em direcção ao triunfo, de que é capaz, se for bem governado Enfim, assim como acontece a todo o ser humano individualmente considerado, também sucede quando o quadro é gregário: há bom e há mau, cabendo à razão a escolha entre a decisão salvadora ou o precipício!

Não conheço perfil psicológico mais ajustado ao carácter do povo a que pertenço e que não renego, do que aquele que foi traçado em certeiras palavras de Guerra Junqueiro. Enchem umas poucas de páginas do final do seu livro Pátria e levam por título Balanço Patriótico. A prosa do autor dispensa encómios; a linguagem é percuciente, moldando-se bem à sua maneira de ser; mas a nota que deixa não é pessimista.

Viviam-se os últimos anos de uma monarquia suspeita: o desnorte era total! Nem a pessoa do monarca reinante escapou à virulência do discurso. Mas insisto: esse ataque, quase um assalto à praça detestada, foi um ataque ao que todos sofriam e que apenas alguns, bem poucos por sinal, viam claramente que era uma investida justa e desenvolvida com apoio numa aguda e penetrante análise. A pena prodigiosa do poeta de Os Simples, servida por um talento fabuloso, fez o resto. Bom seria que fosse lido o texto, a que aludo. Encaixa a primor no tempo que vivemos.

Entretanto, há uma força política que desponta no turvo panorama político nacional e que vem acirrar a velhíssima dicotomia esquerda – direita. A rotina colocou essa divisão numa linha, que não é senão um percurso de desordem, onde o homem, que integra a pólis, num desejo cego de conflituosidade, marca teimosamente um antagonismo a separar os dois referidos pontos. A verdade nua e crua é que se trata de uma luta entre dois contendores animados de uma fúria recíproca, mas no fundo insensata, porque aquilo que os opõe é mero pormenor de execução numa tarefa que nada tem de elevado e que praticamente se dirige ao mesmo fim. Distinguem-se porque, à esquerda, vê-se uma classe economicamente dominante ocupando o espaço da força que governa, enquanto que, à direita, essa interpenetração não se verifica.  Daí a maior vulnerabilidade dos regimes conhecidos por serem de direita, em relação aos que formam à esquerda. De resto, uns e outros situam-se fora do que impõe a ordem tradicional.

A hoste, que vem  ocupando casas no tabuleiro do xadrez político português, marcha nitidamente a par da clássica direita. O mestre que move as suas peças, com uma astúcia e uma determinação rara no nosso meio, decidiu estreitar laços com uma força que traz o selo do poderio sionista. Depois disto, nada tem a recear no campo dos êxitos imediatos. Abre-se-lhe, pois, uma estrada limpa de obstáculos muito incómodos. Ganhou, acima de qualquer dúvida, um trunfo de inestimável valor, se quiser prosseguir na sua carreira de político; porém, matou inilidivelmente a esperança de não poucos que nele viam o homem de Estado, capaz de tomar nas mãos o leme da desgraçada barca portuguesa que voga, sem rumo, neste mar de ondas alterosas que todos nós conhecemos. Vislumbravam nele uma aurora de redenção, bastante levianamente, é certo, mas na qual, de todos os modos, acreditavam. Na realidade, a minha intuição, provada há longo tempo, diz que não é ele o governante providencial. Aliado a isto, aparecem pormenores que definem a sua verdadeira natureza como homem e, consequentemente, o seu recorte político.

Além da aproximação ao Likud, e do arrimo encontrado em terras gaulesas e transalpinas, ei-lo que já imitou o tique de saudar com a mão sobre o coração: os conventículos maçónicos seguramente apreciarão o gesto! Portanto, é inegável que o chefe deste partido mostra, em poucos rasgos, conquanto de forma bem nítida, o seu pendor de homem de direita, de uma direita que é burguesa dos pés à cabeça. O passado confirma-o! E se é verdade que importa mais o presente que o passado, não haverá erro em sustentar que um presente na linha do passado é penhor de um futuro de continuidade. Neste actor político, o tempo presente não desmente aquele que já passou. Portanto, quanto ao futuro, é compreensível a inquietação de quem está atento ao trajecto desenhado por este homem público.

Todavia, nada disto, por um capricho que mais parece ironia, o põe a coberto do que sobre ele insinuam.  E assim é que a menoridade política do povo não desiste de lhe colar o labéu de nazi: há muita gente que abunda nestas teses. Entre nós, são aos montes os que pisam estas veredas. A tacanhez de vistas tem a dimensão das epidemias próximas de uma quase imbecilidade, mais ou menos extensa. Mesmo assim, persiste-se na mesma falta. Não resta dúvida de que a faculdade de pensar anda muito afastada de qualquer multidão: a massa humana não raciocina; como os brutos, só tem aptidão para um reagir condicionado.

Depois do que se expõe, cabe perguntar: é com um centurião desta ordem que se pretende restaurar os valores pátrios; será com lanças, algumas delas enferrujadas e, sobretudo, mal guiadas, que se vai riscar um futuro ridente? Uma resposta afirmativa apenas pode vir de quem perdeu, por completo, o sentido do equilíbrio ou quer tripudiar com o exacto significado das palavras.

Tudo isto, que é obscuro, permite uma observação, e essa é cristalina:

A extrema-direita, no meio de muitos desvios ao que é recto, tem ao menos o mérito de, por regra, não se perder nas tortuosas veredas que esta turbamulta calcorreia. O que há de sensato neste comportamento é de tanta magnitude que, numa altura decisiva da sua história, ao esquecer o que de mais profundo se podia ler na sua autêntica essência, pagou muito caro o passo que deu. Basta recordar o momento em que Hitler confia em Von Papen – «No Olimpo, Maquiavel sorria...».1

A repulsa por esta assimilação da direita (uma direita a que o vulgo chama extrema-direita), ao que não passa de um projecto de força política enfeitada com títulos que não lhe pertencem, uma tamanha repulsa, frise-se de novo, assenta numa realidade que emana da clara percepção da distância que marca a diferença entre a praxis da extrema-direita e o ideário tradicionalista. Por outro lado e quanto à direita burguesa, nem necessário se torna estabelecer qualquer distinção, porque é uma corrente que sufoca debaixo de alguns dos vícios, que partilha com a extrema-direita, não sendo capaz de exibir para amostra uma única das suas virtudes, uma só que seja.

Assim se vê que a construção política, defendida pela doutrina contrarrevolucionária e de que se fazem eco as páginas do Movimento Legitimista Português, não se pode firmar nos caboucos abertos de sistemas que buscam no sufrágio universal a nota de legitimação do poder que alcançam. Este repúdio não tem que ver com fúteis e pueris caprichos: ele flui, isso sim, de reflexões continuadas no decurso de aturados estudos, que se vêm estendendo ao longo de inumeráveis anos.

E, depois de todo este esforço, não é difícil denunciar como crime de difamação, senão mesmo de feia calúnia, o facto praticado a título de dolo necessário na campanha que se urdiu para equiparar a direita burguesa à extrema-direita. Essa afinidade não existe. O denominador comum que as une, se é que o erro pode ser elemento de ligação, está em que ambas são heterodoxas.  Deixemos, pois, que briguem à vontade. E ocupemo-nos do combate que nos diz respeito.

Essa missão impõe que não se poupem juízos de censura a tudo que pareça desvio à tradição política de Portugal. E, assim, porque nem direita nem extrema-direita encaixam no passado histórico da nossa Pátria, devemos pôr de lado uma e outra, indiferentes aos diversos matizes que apresentam: a tela é sempre a mesma; só as cores variam! Se a direita clássica se perde no enganador preconceito da divisão dos poderes e se atola no lodaçal do mais solto capitalismo, a extrema-direita não conseguiu, até à data, levantar um sistema com o poder suficiente para travar os destemperos daquela e preencher idoneamente as suas lastimosas lacunas.

De forma sucinta, dir-se-á: se a direita histórica vai, paulatinamente, cavando a sua própria destruição, a caminho de um colectivismo, que revela na vertente moral o lado mais terrífico, a extrema-direita teve o insofismável mérito de sucumbir em combate. Ninguém há que possa roubar-lhe este título de honra e glória!

Com efeito, nas suas experiências, a extrema-direita deixou um rasto de derrotas atrás dela. Temos por certo que concitou o ódio de forças tenebrosas. Mas não é lá porque se ganhou ou perdeu que se mede o grau de bondade de qualquer empresa humana. No entanto, o desfecho negativo de uma pugna autoriza frequentemente a que se extraiam conclusões sobre o mérito e a real valia de vencedor e vencido. Convém, pois, lembrar quem foi o inimigo e, embora não surpreenda, choca ver que é precisamente com essas colunas de um expansionismo acentuado que a emergente direita portuguesa vai firmar uma aliança!

Pode, quem quiser, abrir a boca de espanto. Isso apenas demonstrará, a sua deficiente formação nesta matéria. Não que, com isto, haja o propósito de classificar essa gente como desprovida de carácter; há, isso sim, uma falta de formação política que apavora.

A fechar: o Movimento Legitimista Português professa a sua esperança no ressurgir de Portugal. Contudo, para isso, faz-se mister o regresso à matriz nacional!


Joaquim Maria Cymbron

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  1. Rolão Preto – A Traição Burguesa, cap. V.

JMC